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| Tom Cruise, actor & produtor |
Na dupla condição de actor e produtor, Tom Cruise enfrenta no filme Digger, realizado por Alejandro G. Iñárritu, um dos mais espantosos desafios de toda a sua carreira — nas salas, incluindo alguns ecrãs IMAX (este texto foi publicado no Diário de Notícias, 1 de outubro).
Ao vermos e ouvirmos numa sala IMAX um filme tão singular, e também tão fascinante, como Digger, pensamos nos ecrãs gigantes e no seu eventual poder de contrariar a crise de público(s). A história começou no princípio deste século com a utilização do IMAX para despejar filmes medíocres em 3D. Foi uma desastrosa tentativa de mobilização de espectadores que acabou por dar lugar à agressiva avalanche dos super-heróis, na sua maioria com chancela Marvel. Na prática, o IMAX continuava a ser encarado como trunfo fácil de um marketing sem imaginação. Foi necessário que cineastas como Sam Mendes, Todd Philips ou Christopher Nolan — A Odisseia é, obviamente, um marco neste processo — mostrassem e demonstrassem que o IMAX não é apenas uma imagem “grande”, mas sim um aparato técnico que exige outros conceitos formais e novos riscos artísticos.
Digger impõe-se como um momento emblemático de tal processo, resultando da aliança feliz entre um realizador, Alejandro G. Iñárritu, e um actor, Tom Cruise. Aliás, e sem que isso signifique qualquer menosprezo pela trajectória de Iñárritu (lembremos filmes admiráveis como 21 Gramas ou The Revenant: O Renascido, respectivamente de 2003 e 2015), importa sublinhar o facto de esta ser uma prova de fogo para Cruise. Acumulando as funções de produtor, ele edifica aqui uma verdadeira obra-prima na sua carreira de actor — e não só pela incrível maquilhagem do rosto e do corpo...
Descobrimo-lo como Digger Rockwell, magnate do petróleo que, perante um gravíssimo acidente numa perfuração na Gronelândia, aplica todo o seu poder, desde logo junto do Presidente dos EUA (John Goodman), para reverter o desastre em seu favor, mesmo que as consequências envolvam o alagamento de vastas zonas da Europa... Claro que se trata de uma cristalina parábola política que possui a desarmante simplicidade ideológica de um certo cinema de Série B que floresceu, há mais de meio século, perante conjunturas políticas igualmente angustiantes. Contada em tom assumidamente burlesco, essa "história” é um detalhe importante, mas apenas um detalhe, de um filme que aposta numa empolgante reinvenção da própria experiência cinematográfica.
Tudo passa pelo aparato cenográfico de Digger, devolvendo ao cinema algo de saborosamente primitivo (do cinema mudo de Griffith ou das superproduções italianas, a começar pelo lendário Cabíria, de 1914). Não se trata, entenda-se, de uma mera ostentação dos cenários, antes do seu tratamento como um acontecimento específico da experiência cinematográfica, agora engrandecido, literalmente, pelo ecrã IMAX.
A produção de Digger solicita aos jornalistas alguma contenção na divulgação das peripécias do filme e dos respectivos efeitos de surpresa — com toda a legitimidade, entenda-se. Digamos apenas que o espaço em que vive Digger, com a sua gata Maggie e uma galeria de súbditos obedientes (atenção ao admirável Riz Ahmed, cientista com dificuldade em explicar a Digger a hipótese do fim do mundo...), está longe de ser um mero receptáculo físico.
Ao mesmo tempo verosímil e totalmente anti-naturalista, o cenário e as suas prodigiosas mutações condensam, por fim, a própria história enquanto acontecimento vivido e mostrado num ecrã.
Assim, o que nos é oferecido tem que ver com a possibilidade, de uma só vez sensual e abstracta, de olharmos o ecrã como uma janela (ou várias janelas...) para um mundo alternativo — não reproduz o mundo em que vivemos, mas apresenta-se cúmplice do nosso tempo social, político e anímico.
Em várias entrevistas sobre a concepção de Digger, Cruise e Iñárritu têm insistido no uso do IMAX ligado à recuperação do velho formato VistaVision, parente próximo do CinemaScope, mas tecnicamente diferente. Como Alfred Hitchcock foi, na década de 1950, um dos mestres do VistaVision (lembremos apenas o seu Vertigo), é caso para dizer que estamos perante uma verdadeira revolução técnica e formal que começa numa paradoxal revalorização da tradição.


































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