Mostrar mensagens com a etiqueta Rainer Werner Fassbinder. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rainer Werner Fassbinder. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, janeiro 16, 2026

Fassbinder
— sonhos e pesadelos do cinema alemão

É bem verdade que o mercado do DVD e do Blu-ray foi sendo esvaziado pela concorrência. Mas não desapareceu: aí está uma caixa de oito filmes de Rainer Werner Fassbinder para podermos rever (ou descobrir) um autor fundamental do cinema da Alemanha — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 dezembro).

Nome fulcral do moderno cinema europeu, o alemão Rainer Werner Fassbinder (1945-1982) está longe de ser um autor mal conhecido no contexto português. Lembremos o singular fenómeno de culto que, há quase meio século, envolveu o lançamento de O Casamento de Maria Braun, aliás iniciado com a sua consagração com o Grande Prémio da edição de 1979 do Festival Internacional da Figueira da Foz. Seja como for, nada disso invalida a importância, de uma só vez cinéfila e simbólica, de uma edição de filmes de Fassbinder em formato caseiro. Que é como quem diz: uma caixa de oito títulos em Blu-ray, com chancela da Leopardo Filmes.
No actual contexto de diversificação dos circuitos de difusão — das salas tradicionais até às plataformas de “streaming”, passando pelas mais variadas alternativas virtuais — claro que não fará sentido abordar os filmes a partir das características específicas desses mesmos circuitos. Digamos, para simplificar, que uma obra-prima como Lawrence da Arábia foi fabricada em 1962 para ser vista num ecrã gigante, mas não se torna um “mau” filme (longe disso!) no rectângulo minimalista do nosso televisor caseiro...
Seja como for, perante esta edição de Fassbinder, não podemos deixar de sublinhar a sua raridade. Desde logo porque o mercado do DVD se esvaziou de forma inglória. Depois porque o sector de Blu-ray foi objecto de uma delapidação ainda mais cruel, aliás em contraste com outros países que souberam assumir a condição de nicho desse sector, investindo em edições “especializadas” que, de facto, mantêm uma estimulante relação (comercial) com as memórias da história do cinema.
Daí também um sublinhado muito especial para a excelência técnica desta edição. Como se prova, o Blu-ray possui um potencial de (re)valorização das versões originais que está longe de ser banal. E tanto mais que, no domínio particular das imagens, Fassbinder trabalhou com alguns mestres da direção fotográfica, incluindo Jürgen Jürges, Michael Ballhaus e Xaver Schwarzenberger. Para nos ficarmos por um exemplo eloquente, o reencontro com esse filme de uma beleza radical que é Effi Briest envolve uma vibração visual e afectiva que não pode ser dissociada da pureza das imagens a preto e branco assinadas por Dietrich Lohmann, outro raro talento da luz e das cores que fotografou, por exemplo, Hitler: Um Filme da Alemanha, de Hans-Jürgen Syberberg (curiosamente, também uma revelação de 1979 na Figueira da Foz).

Do teatro à ópera

A herança de Fassbinder existe, assim, como uma imensa paisagem de narrativas em que podemos reencontrar o cinema como uma arte de síntese — das suas raízes teatrais até à coexistência com os arroubos da ópera —, sempre marcadas pelas intensidades dos sonhos e pesadelos da história do século XX alemão. Nesta perspectiva, vale a pena formular um voto de optimismo necessariamente moderado: será que a presente edição poderá ser um sinal de “renascimento” de um mercado (DVD + Blu-ray) que não pode ser destruído pela frase tecnocrática segundo a qual “agora, as pessoas só vêem filmes no streaming”?
Escusado será dizer que tal possibilidade está muito longe de se esgotar na obra de Fassbinder — é imensa a lista de títulos e autores susceptíveis de mobilizar os espectadores mais antigos e surpreender os novos cinéfilos. Atrevo-me a pensar no exemplo de Berlin Alexanderplatz (1980), a série televisiva (14 episódios, 15 horas de duração) que Fassbinder realizou a partir do romance de Alfred Döblin... Que bom seria revê-la em Blu-ray!

sábado, novembro 12, 2022

De Fassbinder a Ozon [2/2]

Denis Ménochet pega fogo à imagem de Khalil Gharbia

Através do magnífico Peter von Kant, o francês François Ozon reencontra a herança da obra do alemão Rainer Werner Fassbinder: este é um filme capaz de celebrar o artifício do cinema a partir de uma herança visceralmente teatral — este texto foi publicado no Diário de Notícias (27 outubro), com o título 'Recriando a herança das lágrimas amargas'.

[ 1 ]

Ozon está também a evocar a própria filmografia, já que uma das suas primeiras longas-metragens, Gotas de Água sobre Pedras Escaldantes (2000), se baseia numa peça de Fassbinder, igualmente construída em torno da relação de dois homens com grande diferença de idades. Tal proximidade está longe de ser apenas “temática”, sendo sobretudo conceptual e figurativa. Num caso como noutro, a assumida teatralidade do cenário acaba por se confundir com um ambíguo gesto nostálgico: Peter von Kant é um filme apostado em redescobrir as delícias de um cinema enraizado nos artifícios do estúdio — tudo, mas mesmo tudo, do impecável rigor geométrico do espaço até às mais simples manifestações naturais (a neve a cair lá fora…), é tratado através da sensualidade de tais artifícios.
Como sempre em Ozon, a vibração do drama (ou da comédia) envolve um minucioso trabalho com os actores, a começar, claro, no papel de Peter, por esse gigante do cinema francês que é Denis Ménochet (vimo-lo, por exemplo, em Custódia Partilhada, produção de 2017 assinada por Xavier Legrand) e Khalil Gharbia, representando o misto de ironia e insolência que define o “fantasma” romântico que é Amir. Sem esquecer, claro, Stefan Crepon, interpretando com minuciosa contenção o silêncio e a mágoa do abusado Karl.
O contraponto das actrizes é tanto mais importante quanto, para lá do seu talento, “transportam” memórias vitais. Hanna Schygulla, no papel da mãe de Peter, é uma “mensageira” de muitas emoções cinéfilas — participou em mais de duas dezenas de títulos de Fassbinder, incluindo As Lágrimas Amargas de Petra von Kant. Interpretando Sidonie, Isabelle Adjani reencontra algo da dimensão mitológica do seu lugar na história do cinema francês — a sua composição em A História de Adèle H. (1975), de François Truffaut, poderá servir de memória simbólica, até porque Ozon é um legítimo herdeiro do gosto romanesco de Truffaut.
Para que as memórias reencontrem a sua utópica harmonia, vale a pena recordar que a canção que Peter escuta nos momentos iniciais do filme — Jeder tötet was er liebt, interpretada por Sidonie/Adjani — foi composta por Peer Raben, a partir de um poema Oscar Wilde, para a banda sonora do título final de Fassbinder, Querelle (1982), onde é cantada por Jeanne Moreau. E também que o quadro Midas e Baco (c. 1630), de Nicolas Poussin, que domina o espaço em As Lágrimas Amargas de Petra von Kant, reaparece numa parede do apartamento de Peter von Kant.
NICOLAS POUSSIN
Midas e Baco
(c.1630)

quinta-feira, novembro 10, 2022

De Fassbinder a Ozon [1/2]

Denis Ménochet e Isabelle Adjani filmados por François Ozon:
o cinema através do teatro

Através do magnífico Peter von Kant, o francês François Ozon reencontra a herança da obra do alemão Rainer Werner Fassbinder: este é um filme capaz de celebrar o artifício do cinema a partir de uma herança visceralmente teatral — este texto foi publicado no Diário de Notícias (27 outubro), com o título 'Recriando a herança das lágrimas amargas'.

Apesar do poder do marketing dos filmes de super-heróis e, em muitas salas, do afunilamento da oferta, não se pode dizer que o mercado português viva alheado do trabalho de alguns dos mais importantes cineastas contemporâneos, sobretudo europeus. É o caso do francês François Ozon (nascido em Paris, em 1967) que continua a ser uma presença regular no nosso circuito comercial — agora com o magnífico, insólito e sedutor Peter von Kant, filme que, em fevereiro, integrou a secção competitiva do Festival de Berlim.
O título remete para As Lágrimas Amargas de Petra von Kant (1972), realizado pelo alemão Rainer Werner Fassbinder (1945-1982) a partir da sua peça homónima. Aí encontrávamos como figura central, interpretada por Margit Carstensen, uma criadora de moda a viver as convulsões de uma teia de paixões desencontradas em que todas as personagens são mulheres.
Ozon “transforma” Petra em Peter, não exactamente para fazer a versão “masculina” do drama de Fassbinder, antes para propor um jogo de revisão e reinvenção em que, para todos os efeitos, persistem duas fundamentais linhas de força: Peter experimenta também os movimentos passionais como um jogo (teatral, sem dúvida) que implica, transporta e desafia a verdade do amor; mais do que isso, as peripécias das suas “lágrimas amargas” levam-no a avaliar até que ponto o amor é (ou talvez não seja…) uma forma de possuir o ser amado.
A acção tem lugar em Colónia, em 1972, portanto no ano do filme de Fassbinder. Peter é também um artista, mas do mundo do cinema. Realizador de sucesso, vive no seu apartamento entre angústias existenciais e delírios de grandeza. Duas figuras paradoxais pontuam o seu quotidiano: o silencioso Karl, assistente que Peter trata de modo grosseiro e humilhante, mesmo se é ele que lhe escreve os argumentos dos filmes, e Sidonie, musa que protagonizou diversos momentos da sua obra e, agora, o visita regularmente. Numa dessas visitas, Sidonie apresenta-lhe o jovem Amir — Peter apaixona-se loucamente por Amir, com ele começando a viver uma relação que parece ser a realização de uma utopia tão carnal como romântica…
Se é possível superar o esquematismo da sinopse, talvez seja importante chamar a atenção do leitor para a ambivalência em que tudo isto acontece. Por um lado, Peter von Kant está longe de ser uma homenagem “copista” do filme de 1972; por outro lado, aquilo que em Fassbinder nos surgia como drama enredado em desejos enigmáticos e êxtases suspensos “renasce”, com Ozon, num registo de metódico distanciamento, dir-se-ia uma tragédia sempre evitada pelos sobressaltos de uma sofisticada comédia.