* Depois da publicação de posts individuais sobre cada um destes discos (o primeiro a 19 de dezembro, o último a 5 de janeiro), aqui fica o respectivo balanço.
01_KEITH JARRETT Bordeaux Concert
02_THE SMILE A Light for Attracting Attention
03_MITSUKO UCHIDA Beethoven Diabelli Variations
04_EZRA FURMAN All of Us Flames
05_TESS PARKS And Those Who Were Seen Dancing
06_LEONIDAS KAVAKOS Bach: Sei Solo
07_JACK WHITE Entering Heaven Alive
08_SONIC YOUTH In/Out/In
09_ANNA VON HAUSSWOLFF Live at Montreux Jazz Festival
Neste tempo de artifícios desregrados, ignorantes da ligação do prazer do simulacro à pulsação do real, que bom que é reencontrar a vontade primitiva dos Lumière. A saber: redescobrir e, num certo sentido, reinventar o cinema como instrumento prático para dar a ver o que não conhecemos. Michelangelo Frammartino, autor desse filme misterioso e envolvente que é As Quatro Voltas (2010), revisita a Itália da década de 1960, marcada por uma "revolução" económica de obscena ostentação — construía-se o mais alto edifício do mundo como símbolo da prosperidade do Norte do país —, encenando a odisseia de um grupo de espeleólogos que, mais ao Sul, na região da Calábria, exploram pela primeira vez aquela que é tida como a gruta mais funda (700 metros) do continente europeu. A pulsação documental tem tanto de intenso como de detalhado, mas está longe de esgotar o verdadeiro milagre de imagens e sons que Frammartino nos oferece: esta é uma aventura, rara e concisa, do espírito de descoberta do ser humano que, por assim dizer, se duplica no próprio exercício cinematográfico que nos é dado partilhar — se os balanços de fim de ano exigem que definamos uma hierarquia de valor (mesmo sabendo da sua imprecisão e futilidade), então digamos que, no mercado português, Das Profundezas pode exibir o rótulo de melhor filme de 2022.
Keith Jarrett sofreu dois AVC em 2018, só conseguindo tocar o piano com a mão direita. A sua prodigiosa discografia de improvisos termina, assim, com os registos da digressão europeia de 2016 a que pertence este concerto realizado a 6 de julho, no Auditório da Ópera Nacional de Bordéus — Munich 2016 e Budapest Concert tinham sido editados em 2019 e 2020, respectivamente. Dir-se-ia que as performances a solo de Jarrett definem um longo romance, de que ele é personagem única, em que cada capítulo parece começar onde terminou o improviso anterior, segundo uma lógica cuja angústia primordial se vai dissipando no equilíbrio instável que as formas, milagrosamente, adquirem e representam. É de solidão a música de Jarrett, e também de um universalismo que convoca a humildade da nossa escuta — eis a Part III do aconteceu em Bordéus.
Inscrever o cinema de David Cronenberg no domínio do terror sempre foi tarefa votada a um banal superficialismo — para mais na actualidade em que o género está pontuado por muitas variações medíocres sobre matrizes há muito esgotadas. Como se prova neste genuíno conto filosófico, o que ele encena repetidamente (entenda-se: obsessivamente) é a permanente contaminação do factor humano e da tecnologia, numa aliança perversa em que tudo vacila, a ponto de a própria noção de natureza se dissipar como um fantasma sem rosto. O radicalismo da proposta envolve a fascinante frieza dos seus actores, neste caso com destaque para Viggo Mortensen [cartaz], Léa Seydoux e Kristen Stewart.
Quando a música nos consegue recordar que "tudo é possível", acontecem coisas como
A Light for Attracting Attention. A saber: um álbum genuinamente experimental que, ao mesmo tempo, não renega a sua filiação numa história criativa tão rica quanto complexa. Afinal de contas, Thom Yorke e Jonny Greenwood, dos Radiohead, são mentores e protagonistas do projecto, parilhando responsabilidades com Tom Skinner, baterista do grupo de jazz Sons of Kemet. Faz lembrar os Radiohead?... Podemos apostar que sim, mas sem imitações pistorescas nem homenagens patéticas — trata-se apenas de assinalar o caminho, expondo o esplendor das novas paisagens que a música ilumina. Em Pana-vision, por exemplo.
Eis o tempo cinéfilo, bizarramente cinéfilo, em que estamos a viver a nossa condição de espectadores: por um lado, a acumulação/dispersão/indiferenciação das plataformas virtuais existe através de um novo modelo de espectador acidental, dependente dos movimentos de "curiosidade" gerados pelo marketing, quase sempre sem qualquer memória e, em boa verdade, indiferente à possibilidade de construir uma que seja sua; por outro lado, é no streaming que vamos encontrando algumas das experiências mais radicais e fascinantes de criadores que, afinal, mantêm alguma relação, rica e multifacetada, com esse caudal de memórias que define mais de cem anos de história do cinema. Partindo do romance de Joyce Carol Oates, Andrew Dominik é um desses criadores, arriscando revisitar a herança simbólica e mitológica de Marilyn Monroe, virando-a do avesso para expor o magma de vivências contraditórias que sustentam a cristalização icónica da actriz que se chamava Norma Jeane. O filme recusa, por isso, qualquer possibilidade de gratificação anedótica ou paternalista (vícios correntes do espectador acidental), apresentando-nos um ser infinitamente vulnerável nascido da perversa união do irrisório e do sagrado — que Ana de Armas seja capaz de representar isso, eis o que, de tão carnal, pertence ao domínio do milagroso.
Habitualmente citada como um exemplo de eleição na abordagem das composições de Mozart e Schubert, a pianista Mitsuko Uchida encontra na obra de Beethoven aquilo que talvez possamos chamar o "elo central" de um permanente ziguezague entre clássicos e românticos, de uma só vez confirmando e desafiando as respectivas matrizes. Nesta perspectiva, a sua prodigiosa gravação das Variações Diabelli (compostas entre 1819 e 1823) poderá ser interpretada como uma aventura emocionalmente semelhante ao álbum que lançou em 1990 com os 12 Estudos de Debussy — assim como este se apresentava como uma radical transfiguração da herança "impressionista", as Diabelli [aqui em baixo: Tema, Var. I Alla Marcia maestoso e Var. II Poco Allegro] surgem, agora, refeitas como uma aventura formal em que podemos reencontrar, em filigrana, algo como uma condensação histórica de tudo aquilo que Beethoven quis incluir na sua composição, incluindo alguma nostalgia de Bach — se é que a contundência poética de Beethoven, tal como interpretada por Uchida, possui algo de nostálgico.
Se outras razões não houvesse para celebrar a singularidade desta primeira longa-metragem da belga Laura Wandel, o simples facto de se tratar de uma ficção que recusa qualquer paternalismo no tratamento das personagens das crianças seria suficiente (estamos longe da piedade obscena que, infelizmente, se tornou uma poderosa linguagem mediática). Assim, a história de um caso de bullying numa escola infantil chega-nos através de um perturbante intimismo que, paradoxalmente ou não, possui a agilidade de uma verdadeira reportagem — além do mais, Maya Vanderbeque, no papel da menina que descobre as agressões de que o irmão é objecto, distingue-se, sem ambiguidades, como uma das actrizes do ano.
Love Profusion, do álbum American Life, fará 20 anos em 2023 — a canção, produzida por Madonna e Mirwais Ahmadzaï, tem um teledisco assinado por Luc Besson.
Na viagem criativa de Ezra Furman há uma tenacidade individual e um espírito de grupo que envolvem um desejo de revolta capaz de desafiar a crueza da morte: Tonight, tonight I'm dreaming of my queer girl gang / We who walk this deadly path / And the city that tries to kill us each night will soon bow before our wrath [Lilac and Black, lyric video aqui em baixo]. O seu álbum de 2022, o sexto a solo, expõe tudo isso com uma energia romanesca (não há, aqui, muito espaço para romantismo) que não é estranha a um desenho quase documental das histórias que nele pressentimos — no limite, deparamos com uma demanda de verdade que a própria voz de Ezra encarna de forma cristalina.
A linguagem mais ou menos esotérica, discretamente lúdica, de alguma ficção científica poderá ajudar-nos a descrever o álbum que a banda universal de Alcobaça, The Gift, lançou em 2022: Coral é, de facto, um belíssimo ovni que nos leva a reconhecer (se é que andávamos distraídos) que a mais genuína alegria pop não implica qualquer tipo de resistência à convivência com matrizes tradicionalmente enraizadas noutros universos, a começar pela chamada música clássica, incluindo, claro, as suas eventuais componentes corais — afinal de contas, por alguma razão sentimos que Leonard Bernstein continua na vanguarda de tudo isto.
Coral resulta, assim, uma experiência sensorial que envolve um renovado pensamento sobre a nossa relação, ou melhor, as possibilidades da nossa relação com o universo multifacetado do espectáculo. Na verdade, mesmo que isso se insinue de modo subconsciente, Coral é um acontecimento que nos leva a repensar a condição partilhada de ouvintes e espectadores, abrindo a nossa percepção à fascinante pluralidade que a criação artística pode envolver.
Nesta perspectiva, Sónia Tavares, Nuno Gonçalves, John Gonçalves e Miguel Ribeiro lembram-nos que o experimentalismo não é uma pose ostensiva de quem se julga o centro do mundo, mas um trabalho incessante de quem soube colocar a música no lugar central de uma deriva sempre disponível para um novo desafio — muitas vezes, 7 Vezes, pelo menos.
Num tempo tão saturado de retóricas jornalísticas e "artísticas", será que ainda sabemos usar a palavra minimalismo sem cedermos a simplismos temáticos ou determinismos estéticos? Arrisquemos: é para uma grandeza minimalista que somos convocados nesta primeira longa-metragem para cinema da directora teatral novaiorquina Lila Neugebauer. O retrato do regresso a casa de uma jovem veterana da guerra no Afeganistão possui a intensidade e a comoção de uma tragédia suspensa — Jennifer Lawrence compõe a personagem com a contenção de uma verdadeira star, sem esquecer o contraponto dramático de Brian Tyree Henry, herdeiro da grande tradição de secundários, ou melhor, supporting actors de Hollywood.
Pop psicadélico — eis uma classificação que reapareceu a propósito do segundo álbum a solo da canadiana Tess Parks (nove anos depois de Blood Hot e de diversas colaborações com Anton Newcombe, dos Brian Jonestown Massacre). A justeza da expressão pode, em qualquer caso, atrair uma noção pitoresca de "nostalgia" que será francamente deslocada. Há na música — e na voz — de Parks uma intensidade do presente capaz de reunir a amarga passagem do tempo com a serenidade de uma contemplação genuinamente poética. Entenda-se: sem medo da sua solidão — para ver e ouvir: I See Angels.
Provavelmente, alguns espectadores de um futuro mais ou menos distante reconhecerão no par Timothée Chalamet/Taylor Russell uma aliança capaz de simbolizar os medos, angústias e anseios deste nosso tempo tão incerto. Guadagnino filma-os como um resto esplendoroso do nosso romantismo perdido e também, tragicamente, da desagregação de qualquer noção mitológica de "juventude". O filme é um parente próximo da série que ele lançou em 2020 (We Are Who We Are), movido pela mesma nostalgia daquilo que fugiu às nossas crenças: a possibilidade do sublime.
3 Sonatas + 3 Partitas (completadas em 1720): eis um dos desafios mais extremos que a música de Johann Sebastian Bach pode colocar a um violinista. Para o grego Leonidas Kavakos, trata-se de um exercício, com o seu quê de pedagógico, em que o regresso às origens corresponde a uma "limpeza" dos academismos acumulados pelo tempo, celebrando uma alegria inigualável e contagiante — este é um extracto da Fuga da Sonata para Violino Solo, nº 1.
Cada novo filme de Desplechin transporta uma renovada mensagem, de uma só vez artística e filosófica: o cinema existe através dos seus corpos. Ou ainda: o primado da mise en scène e, em particular, a lógica do labor da câmara pertence aos actores — deles emana, a eles regressa. Marion Cotillard e Melvil Poupaud são, desta vez, os "mensageiros" dessa crença criativa, encarnando dois irmãos assombrados por um desentendimento por resolver, tendencialamente irresolúvel. A vibração física de tudo isso coexiste com a emoção de um teatro transcendental.
Jack White é um trabalhador incansável do rock, incluindo a produção (Third Man Records), as experiências colectivas (The White Stripes, The Raconteurs, The Dead Weather) e, claro, a cada vez mais importante actividade a solo. Em 2022, lançou este álbum em meados de julho, cerca de dois meses depois de um outro, intitulado Fear of the Dawn. Neste caso, prevalece uma aposta de desnudamento instrumental da maior parte das canções, de algum modo intensificando o puzzle de emoções em que tudo acontece, por vezes em tom de breve conto moral — por exemplo, Love Is Selfish.
Cinema limitado pela dependência da palavra literária? Em vez de limitação, devermos falar de assombramento. Continuando o seu périplo pela(s) escrita(s) portuguesa(s), Botelho acolhe a poesia de Alexandre O'Neill como quem inaugura um novo território expressivo para o cinema — o seu cinema, em todo o caso. O resultado é tanto mais desconcertante e sedutor quanto tal gesto criativo aproxima o filme dos pressupostos do musical, ainda que sem nunca anular a sua condição de farsa surreal sobre um certo imaginário português — tal ambivalência narrativa tem tanto de selvagem como de pedagógico.
O património musical dos Sonic Youth tem qualquer coisa de ilha solitária, permanentemente transfigurada pelas memórias vivas do seu mapa labiríntico. Este ano surgiu esta colecção de raridades gravadas entre 2000 e 2010, quer dizer, de algum modo sinalizando o que aconteceu entre os álbuns NYC Ghosts & Flowers (2000) e The Eternal (2009). Exponenciando uma intimidade assombrada até às fronteiras do noise, eis o espectáculo de uma esplendorosa arquitectura musical, simbolicamente delimitada pelos temas In & Out (aqui em baixo) e Out & In.
Bastará recordar os 641 minutos de projecção deste filme, tripartido e completamente uno, para dizer que estamos perante um objecto de cinema sem equivalente nos modelos correntes de produção. O título é esclarecedor e, de alguma maneira, bíblico: da emoção da arte às formas de inteligibilidade do mundo, passando pelas dinâmicas da moral, esta é uma viagem íntima e épica cujas fronteiras (ou a sua ausência) são definidas pelo pressentimento do sagrado e a proximidade dos animais. Em resumo: uma genuína experiência existencial que celebra o cinema como o contrário dos hábitos adquiridos.