sábado, maio 12, 2012

"O Império dos Sentidos" a 2,99 €

Um dos efeitos mais perversos da cultura populista em que vivemos — e, em particular, do populismo jornalístico — é a homogeneização do mundo à nossa volta. Assim, por um lado, essa é uma cultura da ansiedade, do escândalo e da insistente promessa do apocalipse: não há dia que se passe em que, seja por causa dos "mercados" ou de um crime passional em Alguidares de Baixo, não nos venham garantir que o planeta vai explodir no segundo seguinte...; ao mesmo tempo, no meio do ruído dominante (é essa, aliás, a lógica do ruído: dominar), tudo se equivale numa apoteótica indiferença.
Eis um extraordinário exemplo dessa conjuntura na primeira página do Correio da Manhã (11 de Maio). A manchete ilustra a promoção delirante do crime a uma espécie de matriz obrigatória, diariamente obrigatória, de percepção da existência humana — e com todo o barroquismo sensacionalista: 'Professor viola filha cinco anos' (um dos destaques acrescenta ainda: 'Predador aproveitava as provas de escalada, nacionais e internacionais, para atacar'). Ao mesmo tempo, à esquerda, num destaque ao lado do cabeçalho do jornal, encontramos uma das habituais promoções: 'Nova colecção cinema erótico - hoje DVD "O Império dos Sentidos"'. Na prática, consegue-se a proeza de banalizar o filme do admirável Nagisa Oshima, amachucando-o no interior de um discurso jornalístico em que tudo é anedota do seu próprio excesso.
Como sempre neste tipo de contextos, o apagamento da história (do cinema) é um dos efeitos primordiais, ironicamente tendo por objecto um filme que, na altura do seu lançamento (1976) e noutras ocasiões (por exemplo, em 1991, quando foi exibido pela RTP2), foi objecto de interessantes e esclarecedoras polémicas. Seria útil, em particular, que os "escandalizados" nessas várias ocasiões se pronunciassem agora sobre esta cultura da indiferença e a sua maravilhosa banalização "democrática" (2,99 € é o excelente preço do DVD).