Em televisão, quase tudo é ou pode ser pitoresco... Mas ainda há quem saiba resistir ao império do anedótico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (11 Maio), com o título 'Para além do pitoresco'.
1. Nos últimos tempos, na área jornalística, proliferaram os programas sobre “experiências” pessoais. São quase sempre “reportagens” em forma de “retrato”, valorizando as histórias individuais, consideradas emblemáticas e inspiradoras. Parece manifestar-se, assim, uma má consciência informativa que tenta contrariar a formatação determinista (por vezes, pesadamente moralista) de muitas notícias. Em todo o caso, a regra é a cedência aos lugares-comuns do pitoresco: cada retratado não tem exactamente direito à sua história; é apenas um símbolo caricatural (o pitoresco adora promover o anedótico a essencial) do “outro lado” das notícias. Curiosa perversão: a irredutibilidade de cada ser humano é entendida, não como um dado vital da percepção do mundo, antes como um “suplemento” informativo.
2. Não haveria programa mais susceptível de ceder às facilidades do pitoresco que O Encantador de Cães (SIC Mulher), concebido e apresentado por Cesar Millan. Afinal, o retrato do “melhor amigo do homem” presta-se a todas as formas de simplismo mental, incluindo a que consiste em reduzir o mundo animal a uma adenda burlesca do espaço humano. O certo é que os resultados são exactamente inversos. E não só porque Millan, um americano de origem mexicana, se revela um sofisticado conhecedor dos cães e da variedade dos seus comportamentos; ele é também, inseparavelmente, um atento observador das relações dos seres humanos com os animais, em particular das ilusões que levam muitos de nós a encarar os cães como uma ilustração “divertida” de uma visão caricata de fábula. Nada contra o Toto, de Judy Garland [foto], em O Feiticeiro de Oz... Acontece que O Encantador de Cães, discretamente e com pedagógico humor, consegue expor uma verdade ao mesmo tempo existencial e filosófica: o mundo à nossa volta faz-se também do modo como descrevemos e problematizamos as suas tensões internas. Em boa verdade, a televisão é sempre uma arma de representação do mundo. E isso é igualmente válido quando se regista o depoimento de um político ou o abanar da cauda de um cão.

