Constituído a 1 junho 2021, o Comité encarregado de analisar o ataque ao edifício do Capitólio, Washington (6 janeiro 2021), chegou a uma fase em que está a desenvolver duas fundamentais linhas de trabalho:
1 - apresentando provas do papel decisivo de Donald Trump na organização desse ataque;
2 - demonstrando a falsidade das alegações de fraude nas eleições de 3 de novembro de 2020 apresentadas pelo ex-Presidente dos EUA.
Este video do New York Times faz um breve e incisivo ponto da situação.
Os trabalhos do Comité podem ser acompanhados através do respectivo canal de YouTube.
Foi a 16 de junho de 1972 que surgiu The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, álbum em que David Bowie inventava a sua personagem mais mítica, redefinindo a carreira e, mais do que isso, abrindo um capítulo do rock consagrado às possibilidades de permanente discussão da identidade artística, pública e privada.
São 11 canções, aqui metodicamente recordadas — esta é a segunda, Soul Love.
Judy Garland nasceu a 10 de junho de 1922, na cidade de Grand Rapids, Minnesota — faz hoje 100 anos.
Apesar de uma existência breve e atormentada (faleceu a 22 de junho de 1969, contava 47 anos), a sua herança artística constitui uma paisagem multifacetada e fascinante — da teatralidade familiar das suas raízes à exuberância da idade de ouro de Hollywood de que é, afinal, um dos símbolos mais exemplares.
>>> A canção Over the Rainbow, em O Feiticeiro de Oz (1939), de Victor Fleming.
>>> Assim Nasce uma Estrela (1954), de George Cukor.
>>> Com a filha, Liza Minnelli — The Judy Garland Show (CBS, 1963).
A “fábrica de sonhos” continua a existir enredada em muitos lugares-comuns: afinal, de que falamos quando falamos de Hollywood? — este texto fopi publicado no Diário de Notícias (29 maio).
Durante o Festival de Cannes (17-28 maio), aconteceu com frequência que alguns títulos da imprensa francesa sobre o julgamento de Johnny Depp e Amber Heard rivalizassem com os destaques sobre os filmes descobertos na Croisette. Sinal dos tempos — mesmo face ao maior festival de cinema do mundo, a cinefilia tornou-se um discurso fraco, rejeitado ou, pura e simplesmente, desconhecido.
Para o melhor e, sobretudo, para o pior, a vida das “celebridades” passou a ser um género específico no interior da paisagem jornalística. De tal modo que as respectivas manchetes suscitam as mais diversas e contrastadas formas de recepção ou abordagem (incluindo este texto, como é óbvio).
Por mim, não pretendo acrescentar qualquer observação, argumentação ou palpite ao que se tem escrito sobre as especificidades do julgamento, dos comentários mais sérios e elaborados até aos que se limitam a promover o disparate especulativo ou moralista. Gostaria apenas de assinalar uma bizarra tendência “informativa”: assim, o confronto Depp/Heard teria qualquer coisa de desmentido, por certo algo ofensivo, do tradicional glamour de Hollywood… Li mesmo numa publicação francesa esta sintomática descrição: “um par muito distante do glamour de Hollywood”.
O lugar-comum é antigo: a fachada da “fábrica de sonhos” esconderia uma existência pontuada por muitos dramas, tendencialmente escandalosos. Em boa verdade, além de pressupor que sofremos de uma patética ingenuidade que nos leva a observar o cinema dos EUA como um imaculado “país das maravilhas”, alheio a qualquer sobressalto humano, tal perspectiva enraíza-se numa garrida ignorância histórica.
De Buster Keaton (The Cameraman, 1928) a Quentin Tarantino (Era uma Vez em Hollywood, 2019), passando por obras-primas clássicas de Billy Wilder (Crepúsculo dos Deuses, 1950) ou Vincente Minnelli (Cativos do Mal, 1952), Hollywood sempre foi uma comunidade consciente das suas muitas contradições internas, por vezes combinando a nostalgia das suas glórias com uma visão cáustica dos respectivos bastidores — para nos ficarmos por uma referência emblemática, lembremos esse filme admirável que é O Grande Magnate (1976), derradeira realização de Elia Kazan, adaptando The Last Tycoon, o romance inacabado de F. Scott Fitzgerald.
O discurso que lamenta as ofensas perpetradas contra o glamour dos estúdios da Califórnia coexiste com uma duplicidade descritiva que, por fim, funciona como agressivo dispositivo ideológico. Assim, há muito que circula a noção segundo a qual Hollywood não passa de uma máquina reprodutora de… “americanadas”. E não uso o termo por qualquer sugestão caricatural: é mesmo muitas vezes aplicado como se fosse um elemento descritivo tão objectivo quanto incontestável, independentemente de os americanos continuarem a produzir filmes marcados por diferenças abissais (dos orçamentos aos conceitos narrativos). Ao mesmo tempo — e não há nada mais ideológico do que este “ao mesmo tempo” —, basta que os estúdios Marvel montem uma campanha de promoção de um dos seus “blockbusters” para que tal se duplique numa agitação mediática a que os outros filmes (a começar pelos americanos) não têm direito.
Poderíamos perguntar: afinal, de que falamos quando falamos de Hollywood? Dir-se-ia que a palavra “Hollywood” passou a designar não um lugar, muito menos um conceito, mas tão só um contexto arbitrário que já quase ninguém tenta, pelo menos, referir com um mínimo de precisão.
Historicamente, tal “confusão” tem alguma razão de ser: é cada vez maior a descentralização da produção americana, incluindo as suas muitas formas de envolvimento com entidades de outros países. No plano mitológico, no entanto, recuou-se a um simplismo cinéfilo (ou anti-cinéfilo) de que os nomes de Johnny Depp e Amber Heard são apenas incautas variações.
Há duas consequências práticas deste estado de coisas. Primeiro, um imenso desconhecimento da pluralidade da produção americana, mesmo quando tal pluralidade se reflecte, por exemplo, na rotina anual dos Oscars; depois, um recalcamento do poder normativo que os agentes economicamente mais poderosos dessa produção, à custa de “blockbusters” e afins, têm tido na formatação de muitos mercados nacionais. Corrijo, por isso, o adjectivo “práticas” aplicado no princípio deste parágrafo — falamos de consequências políticas, logo culturais.
Foi a 16 de junho de 1972 que surgiu The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, álbum em que David Bowie inventava a sua personagem mais mítica, redefinindo a carreira e, mais do que isso, abrindo um capítulo do rock consagrado às possibilidades de permanente discussão da identidade artística, pública e privada.
São 11 canções, aqui metodicamente recordadas — esta é a primeira, Five Years.
Pushing through the market square
So many mothers sighing (sighing)
News had just come over
We had five years left to cry in (cry in)
News guy wept and told us
Earth was really dying (dying)
Cried so much his face was wet
Then I knew he was not lying (lying)
I heard telephones, opera house, favorite melodies
I saw boys, toys, electric irons and TV's
My brain hurt like a warehouse, it had no room to spare
I had to cram so many things to store everything in there
And all the fat, skinny people
And all the tall, short people
And all the nobody people
And all the somebody people
I never thought I'd need so many people
A girl my age went off her head
Hit some tiny children
If the Black hadn't have pulled her off
I think she would have killed them
A soldier with a broken arm
Fixed his stare to the wheels of a Cadillac
A cop knelt and kissed the feet of a priest
And a queer threw up at the sight of that
I think I saw you in an ice-cream parlor
Drinking milk shakes cold and long
Smiling and waving and looking so fine
Don't think you knew you were in this song
And it was cold and it rained, so I felt like an actor
And I thought of Ma and I wanted to get back there
Retratista da matéria visível dos corpos e do movimento invisível dos desejos, a pintora Paula Rego faleceu no dia 8 de junho, na sua casa de Londres — contava 87 anos.
Face à imensidão e renovado fascínio da sua obra, podemos, talvez, arriscar a definição de um princípio que, sendo filosófico e ético, é também eminentemente figurativo. A saber: a coexistência homens/mulheres não se faz através de lógicas de complementaridade ou princípios de transparência, já que toda as formas da sua eventual proximidade, sentimental e erótica, estão assombradas por fantasmas silenciosos e perversas formas de poder.
Nesta perspectiva, qualquer tentativa de ecumenismo face aos seus quadros esbarra com uma resposta formal difícil de integrar — no limite, Paula Rego soube dar a ver o cruel desconhecimento mútuo dos humanos, por vezes superado, festivamente, através da emergência dos monstros.
OS Desastres de Sofia (2018)
>>> Nick Willing, filho de Paula Rego, apresenta o seu filme Paula Rego, Histórias & Segredos.
A Light for Attracting Attention apresenta-se como uma nuvem de temas, tecida de coisas materiais e derivações imponderáveis, de imediato fazendo lembrar os Radiohead... E por muito boas razões: Thom Yorke e Jonny Greenwood estão envolvidos neste álbum magnífico, mas a banda dá pelo nome de The Smile.
Ou seja: Yorke e Greenwood aliaram-se Tom Skinner, baterista da banda de jazz britânica Sons of Kemet, para um exercício de revisão da matéria dada + metódica pesquisa. Os resultados constituem, muito simplesmente, um dos grandes acontecimentos da música de 2022.
>>> The Smile: Thin Thing + Free in the Knowledge + We Don't Know What Tomorrow Brings.
Um emblema histórico: de que falamos quando falamos de futebol?
Com a descida da Académica à “terceira divisão”, fica ainda mais secundarizado um clube que já simbolizou outras formas de viver o futebol — este texto foi publicado no Diário de Notícias (22 maio).
Terminada a época futebolística, a equipa da Associação Académica de Coimbra desceu à “terceira divisão”. Bem sei que a designação dos campeonatos há muito abandonou este modelo de classificação (agora há ligas, campeonatos de Portugal e não sei que mais), mas faço questão em escrever assim. Porquê? Porque, ao tomar conhecimento do último lugar da Académica na “segunda divisão”, não pude deixar de me recordar dessas designações, ou melhor, do meu pai e das nossas conversas sobre futebol.
Na minha infância vivíamos em Pombal e, como outros habitantes da vila (sim, era ainda uma vila), íamos de vez em quando a Coimbra assistir aos jogos da Académica. Nunca estudei, nem sequer vivi, em Coimbra — de qualquer modo, para mim, a cidade sempre foi a terra da Académica. Ao que parece, depois de duas derrotas da equipa dos estudantes — com o Benfica (1-2) e o F. C. Porto (1-5), se a memória não me engana —, declarei-me adepto da Académica, sentido-me, ainda sem o saber, para sempre fora dessa compulsão pueril que obriga cada cidadão português a ser militante de um dos três “grandes” (que, em boa verdade, nessa altura eram quatro, incluindo o Belenenses).
O meu pai tinha a nobreza de quem, face às convulsões do futebol, resistia a todos os maniqueísmos clubistas. Sem que na altura pudesse sequer pressentir que isso estava a acontecer, com ele aprendi a admirar e, mais do que isso, a desfrutar o facto de um jogo de futebol não ser uma ficção unívoca, antes um acontecimento com duas equipas, nessa medida solicitando a nossa disponibilidade — e uma paciente atenção — para os talentos de todos os que estão em campo.
Embora tenha falecido há quase trinta anos, num tempo em que, apesar de tudo, a saturação futebolística do tecido social & mediático não tinha o gigantismo do presente, era com desgosto, por vezes cruel sarcasmo, que observava as muitas formas de clubismo histérico. Ensinou-me a ver e perceber, por exemplo, que a própria Académica emanava de um conceito de desporto em que o empenho no jogo nunca secundarizava outros valores, a começar pelo caloroso simbolismo enraizado na relação com a Universidade.
Simpatizante do Benfica, contava-me com genuína alegria que tinha estado presente no Campo das Salésias (do Belenenses), na primeira final da Taça de Portugal, em 1939, em que a Académica venceu o Benfica por 4-3. Sem esquecer que vibrámos com a brilhante equipa que a Académica teve em meados da década de 60, com jogadores como Maló, Curado, Rui Rodrigues, os irmãos Campos (Vítor e Mário), Toni ou Artur Jorge — na época de 1966-67, essa equipa conseguiu mesmo o segundo lugar do campeonato (ganho pelo Benfica).
Sinto, agora, que a dramática desqualificação da Académica, muito para lá das minhas memórias familiares, corresponde ao definhar de uma bela cultura futebolística — de gosto pelos contrastes do jogo jogado — que, nestes tempos de conflitos “obrigatórios”, se foi tornando cada vez mais débil. Um sinal revelador desse processo é o facto de proliferarem discursos — do jornalismo à política — apostados em alimentar uma lamentável dicotomia: de um lado estaria o futebol como festivo fenómeno “neutro”, do outro a chamada vida cultural.
Creio, assim, que importa relembrar que o território cultural se faz das dinâmicas de valores associados a todas as trocas sociais — não é um domínio estável, está mesmo pontuado por muitas diferenças e tensões, nem existe por decreto, por melhores que sejam as intenções de quem legisla. E uma vez que o futebol todos os dias serve para sustentar discursos “patrióticos” ou para dirimir questões de “justiça”, importa também acrescentar que a nossa existência social está marcada por componentes culturais que envolvem o futebol como matriz dominante dos nossos comportamentos e, de forma muito sistemática, dos valores identitários que se incutem nos mais jovens.
O tratamento audiovisual do futebol tem também contribuído para uma desvalorização da liberdade dos olhares. De facto, embora definindo-se apenas como “juiz” de validação dos golos, o VAR tem vindo a contaminar o espaço audiovisual com uma noção perniciosa (culturalmente perniciosa, quero eu dizer): do futebol à política, passando pelo patético imaginário dos “famosos”, as imagens tendem a ser implicitamente tratadas e, mais do que isso, promovidas como meros instrumentos vigilantes de uma “verdade” que, ao ser enunciada, purificaria tudo e todos.
Que se está a perder? Face à desvalorização social das outras imagens (cinema, fotografia, pintura, etc.), instala-se implicitamente uma ideia preguiçosa segundo a qual só olhamos as imagens em geral para procurar validar uma forma compulsiva de unicidade e significação. Ora, como explicar a um jovem que nenhum VAR (ou seu derivado) vai estabilizar, muito menos esgotar, os significados de um quadro de Pablo Picasso, uma fotografia de Robert Frank ou um filme de Ingmar Bergman? Como ensinar que as imagens são algo mais do que armas de “policiamento” dos actos humanos? Entretanto, faço votos para que a Académica comece a sua odisseia de regresso à primeira divisão — o meu pai ficaria contente.
Dos filmes de Cannes às canções da Eurovisão, memórias de dois festivais que pontuaram a vida cultural do mês de maio — regressamos à FNAC para mais uma edição do SOUND + VISION Magazine:
O mais recente álbum dos San Fermin, The Cormorant I & II, surgiu há dois anos. Estarão, provavelmente, a preparar um novo registo, mesmo se é um facto que não há notícias oficiais sobre o assunto... Há, isso sim, um novo single intitulado Tired of Loving You, título adequado a uma deambulação de prudente e envolvente romantismo — este é o lyric video.