terça-feira, agosto 31, 2021

Stanley Kubrick, Spike Jonze
e os nossos assistentes virtuais

Ele e ela

Falar com as máquinas deixou de ser futurismo: há mesmo quem diga que se trata de uma experiência “natural e enriquecedora” — este texto foi publicado no Diário de Notícias (8 agosto), com o título 'Na companhia do nosso assistente virtual'.

Eis um discurso optimista, produto de algumas das mais discretas, e também mais poderosas, convulsões culturais que vão transfigurando o mundo em que vivemos: “O desenvolvimento de sistemas de voz em aplicações móveis, sites da internet, telemóveis e smartphones decorre do crescente interesse dos consumidores em estabelecer diálogo com os seus dispositivos técnicos.” Quem o diz é Donald Buckley, em artigo de opinião no Variety (5 agosto), ele que desempenha funções de consultor da Open Voice Network, associação que se define como “neutra, sem fins lucrativos”, tendo como objectivo fundamental o “desenvolvimento de directrizes para os padrões e a ética que tornarão a voz um elemento de confiança para os consumidores.”
Não tenho nenhuma razão para duvidar da seriedade da Open Voice Network, muito menos das competências do articulista e do rol de colaboradores que a instituição apresenta no seu site. Aliás, na melhor tradição anglo-saxónica da informação jornalística, Buckley está longe de reduzir a sua exposição a um banal panfleto “moral”, dando também a conhecer a tecnologia da voz (“voice technology”) na sua dimensão de gigantesca economia global.
As estatísticas americanas são elucidativas. Assim, entre 2018 e 2020, o número de pessoas com “assistentes de voz” nos smartphones cresceu 23%. Por sua vez, em janeiro de 2021, os dispositivos caseiros accionados pela voz ultrapassaram os 90 milhões de unidades, envolvendo um terço da população adulta dos EUA. Com uma crescente aplicação no consumo dos chamados conteúdos audiovisuais (notícias, filmes, séries, etc.), os negócios da tecnologia de voz deverão valer, em 2023, qualquer coisa como 80 mil milhões de dólares (contas redondas, ao câmbio actual: 68 mil milhões de euros).
Para já, a Amazon Alexa será o mais conhecido “assistente de voz” ou, de acordo com a gíria comercial, “assistente virtual”. A sua promoção sugere mesmo a possibilidade de integração nas mais variadas tarefas quotidianas, a ponto de o respectivo site oficial proporcionar um “curso de design de voz” com qualquer coisa que, à falta de melhor, poderemos classificar como nova iniciação ao canto coral: “(…) você aprenderá a criar experiências de voz naturais e enriquecedoras”.
Naturais? Enfim, não será difícil imaginar as possíveis vantagens práticas de um “assistente de voz” em situações muito variadas, da manipulação dos mais complexos artefactos da investigação científica até às situações de pura intimidade (por exemplo, nas lides com as máquinas caseiras por alguém que possua determinadas limitações físicas). Acontece que, mais do que nunca, importa lembrar que a natureza nunca é… natural. Ou melhor: aquilo que designamos como naturalidade dos comportamentos é sempre social e conjuntural, numa palavra, cultural.
O cinema, quase sempre secundarizado nas reflexões sociais e políticas sobre os nossos modos de viver (e morrer), possui uma nobre antologia de títulos que lidam com a “naturalização” da tecnologia e os seus efeitos dramáticos nas nossas vidas. Será preciso recordar as atribulações físicas e metafísicas provocadas pelo computador HAL 9000 em 2001: Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick? Penso, em particular, num filme mais recente, Her - Uma História de Amor (2013), de Spike Jonze, em que, numa paisagem futurista, mas contemporânea (Xangai dos nossos dias), Joaquin Phoenix se transfigura através da relação — entenda-se: relação falada — com o seu computador (aliás, “sistema operativo”) que se exprime com a voz de Scarlett Johansson [video].
A indiferença quotidiana aos poderes da tecnologia e a estreiteza do pensamento social sobre tais perplexidades são tanto maiores quanto há um vício (des)informativo que tende a condensar tudo numa dicotomia pueril: “pró” ou “contra” as máquinas… Como se se tratasse de reencontrar um ilusório paraíso perdido, pré-Revolução Industrial.
Estamos, afinal, a ser mobilizados para um novo sistema cognitivo que elege o “diálogo” com entidades virtuais como uma experiência “enriquecedora”. No limite, comprometemos a qualidade humana da nossa literacia, participando na decomposição de um sistema de percepção do mundo enraizado na escrita e na leitura.

domingo, agosto 29, 2021

Charlie Watts
— uma memória dos Rolling Stones

Charlie Watts relembrado pelos Rolling Stones — eis o video de homenagem da banda, publicado no Twitter (aqui em transcrição do jornal The Guardian).
 

Edgar Morin
— o filósofo selvagem [1/3]

Edgar Morin

Ao completar 100 anos de vida, Edgar Morin publicou um livro sobre as “lições de um século de vida”, viajando por caminhos plurais, da investigação antropológica à recusa de uma sociedade regida por algoritmos — este texto foi publicado no Diário de Notícias (6 agosto).

Podemos esboçar um brevíssimo inventário do último século através de algumas emblemáticas referências históricas: a morte da utopia comunista, do impulso leninista aos crimes de Estaline; a agressão nazi e a herança trágica da Segunda Guerra Mundial; a fundação de Israel e o equilíbrio nunca encontrado com o povo da Palestina; as convulsões individuais e colectivas da década de 1960, desembocando nos combates de maio de 68; a urgência de uma ecologia política, enfrentando a questão da sobrevivência do próprio planeta; o triunfo global de um aparato tecnológico capaz de alterar todas as relações humanas e, no limite, a própria definição do factor humano…
Pressentimos as infinitas ramificações de todas estas coordenadas e, em boa verdade, não temos maneira de condensar o seu labirinto numa única forma de saber ou num domínio específico de investigação. Em qualquer caso, podemos avançar com um nome que se distingue como personagem e testemunha, viva e activa, das respectivas peripécias: Edgar Morin, nascido em Paris, a 8 de julho de 1921.
Assinalando o seu 100º aniversário, Morin publicou o livro Leçons d’un Siècle de Vie (Éditions Denoël, Paris). A palavra “lições” é, por certo, elemento vital do título, quanto mais não seja porque Morin sempre foi sensível ao paradoxo de qualquer pedagogia: ensinar como forma de aprender. Mas importa sublinhar o facto de o autor não se bloquear na facilidade de um individualismo heróico: trata-se de abrir a sensibilidade e o pensamento a uma multifacetada experiência histórica, não tanto descrevendo uma vida de um século, antes percorrendo os contrastes e contradições de “um século de vida”.
Para Morin, essa multiplicidade envolve qualquer coisa de visceral: “(…) sou francês, de origem judaica sefardita, parcialmente italiano e espanhol, amplamente mediterrânico, culturalmente europeu, filho da Terra-Pátria.” O que o leva a perguntar se é possível ser-se tudo isso ao mesmo tempo, respondendo: “Não, depende das circunstâncias e dos momentos em que uma ou outra identidade pode prevalecer.”
Aliás, a sua identidade plural passa pelo nome, elemento sempre vital da nossa afirmação e das relações que podemos ou sabemos estabelecer com os outros. O autor de O Homem e a Morte (Publicações Europa-América) nasceu Edgar Nahoum, apelido do pai, Vidal Nahoum, judeu sefardita grego, originário de Salónica, a quem dedicou o livro Vidal e os Seus (Instituto Piaget). Adoptou o apelido Morin enquanto elemento da Resistência na França ocupada pelo exército hitleriano, acabando por usá-lo a partir dos primeiros artigos que escreveu no pós-guerra, embora conservando legalmente o apelido do pai — essa duplicidade onomástica sempre lhe trouxe algumas confusões burocráticas, mas é uma opção absolutamente consciente. Em recente entrevista ao Philosophie Magazine (julho/agosto), resume assim a questão: “Conservando os dois nomes, senti-me ao mesmo tempo ‘filho do meu pai’ e ‘filho das minhas obras’.

sexta-feira, agosto 27, 2021

Pearl Jam, "Ten" — 30 anos

Ten, álbum de estreia dos Pearl Jam, foi lançado a 27 de agosto de 1991, faz hoje 30 anos. Na paisagem dilacerada do grunge, nascia uma via poética que nunca cedeu à normalização do marketing, permancendo selvagem, terna e intimista. Exemplo: Black, neste caso em versão unplugged, em 1992, numa MTV que já não existe.
 

Elise LeGrow — nova canção

Três anos e meio depois da revelação de Playing Chess, a canadiana Elise LeGrow tem uma nova canção, ao que parece primeiro indício de um novo álbum... Aí está Feel Alright, produto exemplar de um sensibilidade pop alicerçada numa sofisticada nostalgia R&B.

quinta-feira, agosto 26, 2021

As lágrimas de Billie Eilish

No seu novo álbum, Billie Eilish canta o envelhecimento e a nitidez da morte: ela está “mais feliz que nunca” — este texto foi publicado no Diário de Notícias (1 agosto).

Billie Eilish tem 19 anos. Nascida em Los Angeles, completará 20 no dia 18 de dezembro. Na canção de abertura do seu novo e belíssimo álbum, Happier than Ever (à letra: “Mais feliz que nunca”), comenta o próprio envelhecimento. Chama-se Getting Older e começa com estes versos: “Estou a ficar mais velha / Acho que estou a envelhecer bem.” Seria precipitado encarar a confissão de Billie Eilish como uma banal variação do infantilismo cultural que passou a contaminar muitas formas de figuração das personagens mais jovens. Exemplo gritante desse infantilismo é a apoteótica decadência da MTV, a estação de televisão que completa hoje 40 anos — foi a 1 de agosto de 1981 que as emissões da “TV da música” começaram nos EUA, com a lendária passagem, simbólica por excelência, do teledisco de Video Killed the Radio Star, dos Buggles. Por estes dias, a MTV ocupa horas infinitas com derivações (ainda mais) grotescas da “reality TV” ou com programas como “Ridiculousness”, acumulando videos de incidentes pessoais mais ou menos benignos, desse modo promovendo uma pornografia existencial comandada por uma nova filosofia da identidade humana: “Sou ridículo, logo existo”.
Finneas O’Connell
Bruscamente, neste verão, Billie Eilish expõe-se num registo bem diferente. A deambulação poética pelos labirintos do envelhecimento apresenta-se num canto intimista, quase ciciado, como a maior parte do álbum, envolvido no prodigioso trabalho instrumental do seu irmão Finneas O'Connell (24 anos). De tal modo que o reconhecimento desse sereno e inusitado envelhecimento reflecte as convulsões de um tempo que, por inquieto paradoxo, nos leva a questionar as próprias medidas do tempo.
A coincidência tem qualquer coisa de espectacular: o álbum de Billie Eilish surge na mesma altura em que um dos acontecimentos do mercado cinematográfico é um filme construído a partir de uma perversa reconversão do fluxo temporal. Realizado por M. Night Shyamalan, chama-se Old (“Velho”), tendo recebido o subtítulo português Presos no Tempo. Em boa verdade, não se trata de um aprisionamento, mas sim de uma deriva que põe em causa todas as coordenadas do universo humano, a começar, precisamente, pelas suas medidas temporais: as personagens de Shyamalan encontram-se numa deslumbrante praia protegida, virtualmente inacessível, em que, por cada meia hora, envelhecem um ano… Afinal, o paraíso aproxima-nos da nitidez indizível da morte.
Em entrevista na edição de junho da Vogue britânica, Billie Eilish apresentava-se em fotografias de sugestiva reconversão da iconografia tradicional da “pin-up”, dando conta, a certa altura, da sua admiração por Greta Thunberg (“She’s f**king amazing”, segundo a citação da revista). Para lá do simbolismo geracional, creio que fará sentido reconhecer nessa cumplicidade Eilish/Thunberg a marca de um pragmatismo político para o qual nem sempre estamos disponíveis. A saber: no reconhecimento das tragédias climáticas, tal como nos cânticos deste caloroso neo-romantismo, está enunciada uma relação muito directa e frontal com a imagem indefinida da morte — o planeta pode morrer e, em qualquer caso, cada um de nós é um ser para a morte.
Nada a ver, entenda-se, com a propaganda obscena do sofrimento que tem vindo a contaminar algumas linguagens do nosso planeta televisivo sem fronteiras. No caso sempre revelador do desporto, o “sofrimento” (palavra corrente nas entrevistas dos jogadores de futebol) circula envolvido com a obrigação simbólica da vitória; é francamente perturbante o facto de muitas entrevistas com os atletas olímpicos já não serem sobre o próprio labor desportivo, mas sim sobre a quase obrigação de ser medalhado (o que, regra geral, depois da prova, obriga o atleta a “justificar” o seu falhanço).
Para que não restem dúvidas, Billie Eilish atreve-se mesmo a cantar que “todos morremos”. Dir-se-ia um novo capítulo do seu álbum de estreia, lançado em 2019, cujo título era, muito literalmente: “Quando todos adormecemos, para onde é que vamos?” (When We All Fall Asleep, Where Do We Go?). Agora, a canção Everybody Dies começa assim: “Todos morremos / Surpresa surpresa”… Daí a tocante ambivalência da capa do álbum, fazendo coexistir o título de felicidade com as lágrimas da cantora. O teatro é uma forma de sinceridade.

"Spencer" — o poster

Com assinatura de Pablo Larraín, Spencer, um retrato da Princesa Diana, interpretada por Kristen Stewart, vai estar na competição do Festival de Veneza. Como será? Pouco ou nada se sabe, mesmo se não podemos deixar de recordar que, no género "biográfico", Larraín tem na sua filmografia o prodigioso Jackie (2016), sobre Jacqueline Kennedy. Uma coisa é certa: já temos o poster do ano!

quarta-feira, agosto 25, 2021

Charlie Watts (1941-2021)

[ rollingstones.com ]

Figura emblemática da história dos Rolling Stones, a sua herança define-o como um dos maiores bateristas da história do rock'n'roll: Charlie Watts faleceu no dia 24 de agosto, num hospital de Londres — contava 80 anos.
Elegante, seguro e discreto, Watts fica como símbolo exemplar de um sentido do ritmo e da performance cujas raízes estão, como ele sempre disse, no jazz. Daí que as suas gravações para lá dos Stones, nomeadamente com o seu quinteto, constituam uma parte discreta, mas essencial, da sua biografia artística.
No dia 5 de agosto, tinha sido oficialmente anunciado que Watts não estaria na fase final da 'No Filter Tour', dos Stones (primeira data: 26 de setembro, St. Louis, Missouri), tendo sido substituído por Steve Jordan.

>>> Fragmento de One Plus One/Sympathy for the Devil (1968), de Jean-Luc Godard.
 

>>> The Rolling Stones: Dead Flowers [The Marquee Club, 1971]
 

>>> The Rolling Stones: Emotional Rescue (1980).
 

>>> The Charlie Watts Quintet: Lover Man; voz: Bernard Fowler [Dennis Miller Show, 1992].
 

>>> The Charlie Watts Quintet: All or Nothing at All; voz: Bernard Fowler; álbum Long Ago and Far Away (1996).
 

>>> Paint it Black, Havana Moon (2016), de Paul Dugdale.
 

>>> Obituário na CNN.
 

>>> Obituário na Rolling Stone.
>>> Charlie Watts Instagram.
>>> Charlie Watts no Drummerworld.

terça-feira, agosto 24, 2021

St. Vincent, "Daddy's Home"

Agora em teledisco: Daddy's Home, tema título do sexto álbum de estúdio de St. Vincent renasce em encenação retro e surreal, incluindo corpo de baile — that's entertainment!

domingo, agosto 22, 2021

Uma nova/velha canção dos Rolling Stones

Tattoo You está a fazer 40 anos e vem aí uma especialíssima reedição (a 22 de outubro), incluindo nove temas inéditos — ou "não ouvidos", unheard, como se diz no site dos Rolling Stones. Eis a primeira dessas canções a ser divulgada: Living In The Heart Of Love.