Chemtrails over the Country Club: será este o título do sétimo álbum de estúdio de Lana Del Rey, a surgir em 2021, em data por anunciar. O primeiro single, Let Me Love You Like a Woman, foi apresentado recentemente no show de Jimmmy Fallon — a tradição ainda é o que era.
domingo, dezembro 20, 2020
O ano em que Godard
fez 90 anos [1/4]
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| Jean-Luc Godard, À Bout de Souffle (1959) |
No dia 3 de dezembro, Jean-Luc Godard celebrou 90 anos. Do cinema clássico à sedução das novas tecnologias, a sua obra de mais de seis décadas evolui em paralelo com as convulsões das sociedades: ele é um experimentador e, à sua maneira, um observador crítico das histórias individuais e colectivas — este texto foi publicado no Diário de Notícias, com o título 'Godard, o louco'.
Pergunta de algibeira: quem é o Mozart da história do cinema? Pergunta perversa, entenda-se, já que através da sua simples formulação podemos estar a alimentar esse velho preconceito que, encarando o cinema como uma arte descartável, exige que os seus valores sejam definidos, e até legitimados, através de referências vindas de outras artes. Em todo o caso, permito-me avançar com a minha resposta: Jean-Luc Godard. Acrescentando uma humilde mensagem de “joyeux anniversaire” — Godard nasceu em Paris, no dia 3 de dezembro de 1930, quer dizer, completa 90 anos na próxima quinta-feira [este texto foi publicado na edição de sábado, dia de 28 de Novembro].
Para os cinéfilos portugueses que começaram a frequentar as salas escuras nas décadas de 1950/60, o seu Pedro, o Louco (1965), com Jean-Paul Belmondo e Anna Karina, impôs-se como uma referência tão mítica quanto etérea. Por um lado, exibia a assinatura de um lendário autor da Nova Vaga francesa; por outro lado, surgia como uma referência quase isolada desse movimento que tinha revolucionado o mapa do cinema europeu e, em boa verdade, mundial, despertando as energias criativas de novos cineastas dos mais variados contextos (incluindo Portugal).
Por essa altura, Pedro, o Louco (título original: Pierrot le Fou) ficou como símbolo quase solitário de um cinema de muitas e arrojadas transformações. De tal modo que a revelação de alguns outros títulos emblemáticos da Nova Vaga, em particular de Godard, só viria a acontecer durante a contida liberalização do mercado ensaiada pelo governo de Marcelo Caetano, historicamente apelidada “Primavera Marcelista”. Assim, por exemplo, a primeira longa-metragem de Godard, o célebre À Bout de Souffle (1959), com Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg, homenageando a tradição do filme “noir” de Hollywood, chegaria às salas portuguesas em meados de 1970, com o título O Acossado.
À Bout de Souffle é mesmo tradicionalmente apontado como um dos títulos da trilogia de 1959 — completada por Os 400 Golpes, de François Truffaut, e Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais — que inaugura a Nova Vaga. Recentemente, o seu 60º aniversário foi assinalado pelo lançamento de uma cópia restaurada 4K, com edição especial em Blu-ray.
10 filmes de 2020 [1]
Christian Krönes, Olaf S. Müller, Roland Schrotthofer e Florian Weigensamer
Brunhilde Pomsel recorda uma singular e perturbante experiência de vida: entre 1942 e 1945 trabalhou como secretária de Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda Nazi. A partir daquilo que, para todos os efeitos, é "apenas" uma entrevista, deparamos com um verdadeiro monumento histórico, exemplar dessa vocação cinematográfica que nenhum super-herói digital consegue destruir. Ou como diria Godard: "A televisão fabrica esquecimento, o cinema fabrica memórias."
sábado, dezembro 19, 2020
10 álbuns de 2020 [1]
Fiona Apple
Tão só a certeza de que não se trata de colocar palavras na música ou inventar música para as palavras: tudo nasce num mesmo tempo, tudo pertence a uma unidade orgânica com vocação utópica. Dito de forma pedagógica: Fiona Apple volta a mostrar e demonstrar que deambulação experimental e intimidade poética são uma e a mesma coisa. Em 2020, nessa imaculada liberdade criativa, ninguém a igualou — exemplo: Under the Table.
terça-feira, dezembro 15, 2020
The Strokes, entre adultos
Prós e contras da idade adulta, ou uma aventura de humanos e robots... Desportivo e surreal, assim é o novo teledisco de The Strokes: The Adults Are Talking, com realização de Roman Coppola.
segunda-feira, dezembro 14, 2020
"A crítica neste país" [citação]
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| JOSEPH WRIGHT OF DERBY An Experiment on a Bird in the Air Pump 1768 |
>>> HUGO GOMES — Hoje em dia José Fonseca e Costa é recordado como um autor do nosso cinema, mas em tempos era dizimado pela crítica e desprezado como um “realizador comercial”. O próprio queixava-se dessa constante denominação...
VÍTOR NORTE — Mas a crítica, bem, a crítica neste país é toda ela composta de ilhas, movimentos, de conhecidos e de amigos. Portanto, as críticas não são bem aquilo que deveriam ser, que era apontar os “bons” ou “maus” de um trabalho artístico, e são usadas para se fazerem ataques pessoais. Talvez seja isso que tenha acontecido ao José Fonseca e Costa, que era sobretudo um homem vertical.
quarta-feira, dezembro 09, 2020
Só o cinema
— a propósito de um ciclo na Cinemateca
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| Ingmar Bergman
e Jörgen Lindström durante a rodagem de O Silêncio |
Ao longo do mês de Novembro, a Cinemateca Portuguesa apresentou um ciclo a que foi dada a sugestiva designação de 'Só o cinema'. Objectivo: celebrar o carácter irredutível da linguagem cinematográfica: "Quando o cinema vem com um sopro de autenticidade que transcende as outras artes, como Bazin disse: “é preciso ler em filigrana a evidência da graça”, pois os signos de Deus não são sempre sobrenaturais. E só a arte cinematográfica tem o misterioso dom de nos remeter de forma única e direta para o reino secreto das emoções, com uma evidência tão pura, tão espontânea quanto inédita. Inédita pois é sem precedente nas artes: como só no cinema acontece, o que só o cinema transmite: Só o cinema!"
Em tempos de desvalorização do pensamento sobre o cinema, tratava-se (e trata-se) de resistir à mediatização pueril dos filmes: O Silêncio, de Ingmar Bergman, pode servir de pretexto e motivação para discutir o que está em jogo — este texto foi publicado no Diário de Notícias (21 Novembro).
Há dias, ao ler um texto crítico sobre um filme, deparei com esta frase na respectiva caixa de comentários: “Detestei este filme!” Sem mais. E também sem assinatura, a não ser uma sigla indecifrável. Dito de outro modo: o trabalho de quem escreveu alguns milhares de caracteres a partir de um filme de modo a elaborar um pensamento (muito ou pouco consistente, não é isso que está em causa) pode ser “desmontado” através de impropérios deste teor, breves e… sem pensamento. Mais do que isso: há uma ingenuidade democrática que tolera a publicação desta aliança entre mediocridade e irresponsabilidade.
Caí em mim, depressa dando conta da inutilidade da minha indignação face a tão microscópico episódio. De facto, no território da “comunicação social” (bela expressão, por sinal) a discussão sobre o grau de responsabilidade exigível a leitores e espectadores tem sido abafada pelo triunfo do liberalismo pueril das “redes sociais”. E tentar suscitar essa discussão apenas a partir de exemplos como o citado não passa de um gesto de vulgar quixotismo.
A questão que, creio, vale a pena relançar é a da especificidade do próprio cinema. A saber: não apenas o valor atribuído ao filme A, B ou C, mas a consciência daquilo que o faz ser… um filme. O desenvolvimento da cultura do futebol, por exemplo, faz com que a maioria dos cidadãos tenha ideias razoavelmente informadas sobre a especificidade do jogo — dos sobressaltos do fora de jogo ao conceito de dois ou três defesas centrais, o saber futebolístico democratizou-se. Seria interessante que a profundidade de campo nos filmes de Orson Welles ou a utilização dos planos subjectivos por Alfred Hitchcock pudessem ser tratadas com a mesma abrangência social (leia-se: cultural).
Creio que é a celebração dessa especificidade que serve de tema aglutinador ao belo ciclo que a Cinemateca Portuguesa apresentou ao longo do mês de novembro: 'Só o cinema' — a Cinemateca roubou o título a Jean-Luc Godard e eu roubo-o à Cinemateca. Que está em jogo? Pois bem, o conhecimento daquilo que faz que um filme exista como objecto que não se confunde com qualquer outro (mesmo quando, por exemplo, adapta “fielmente” um determinado romance). Ou como se escreve no texto de apresentação: “a pura linguagem cinematográfica”.
Entenda-se: a pureza dessa linguagem é ambígua, já que provém de uma infinita diversidade. Envolve as emoções ascéticas de Robert Bresson em Peregrinação Exemplar (1966), a convivência com o impensável da morte em Frankenstein Criou uma Mulher (1966), de Terence Fisher, ou o confronto com os fantasmas da história de Portugal em O Quinto Império - Ontem como Hoje (2004), de Manoel de Oliveira (que encerrou o ciclo, dia 30).
Exemplo extremo e fascinante dessa vibração sem nome que “só o cinema” sabe identificar e percorrer poderá ser O Silêncio (1963), de Ingmar Bergman. Nele encontramos um trio algo bizarro: duas irmãs, Anna (Gunnel Lindblom) e Ester (Ingrid Thulin) em cruel confronto afectivo, e o filho de Anna, Johan (Jörgen Lindström), vagueando pelos corredores do hotel em que se hospedam. Viajam no mais indecifrável dos cenários: um país fictício, algures na Europa central, cuja língua não dominam, numa conjuntura de guerra iminente.
Como recorda o programa da Cinemateca, este é o “silêncio” de Deus perante os medos, perplexidades e ânsias dos pobres humanos, enredados em confrontos sem razão nem racionalidade. Ora, justamente, o cinema revela-se capaz de colocar em cena a longínqua abstração de tudo isso através de uma paradoxal sensação de proximidade (rima com carnalidade) que constitui, afinal, uma das fundamentais matérias do universo criativo de Bergman.
Vivemos um tempo de crescente indiferença pelas nuances de tudo isso. A aceleração informativa que nos arrasta é estranha à simples possibilidade de pararmos para percorrer os labirintos bergmanianos. Daí também o desafio cultural que, aqui e agora, impõe a defesa intransigente das salas escuras. Não por ignorância ou indiferença pelas maravilhas do cinema em “streaming”. Apenas porque essas salas nos ensinaram a escutar o silêncio.
domingo, dezembro 06, 2020
"Mank"
— música para Herman J. Mankiewicz
Uma obra-prima dentro de uma obra-prima: a banda sonora original de Mank [Netflix], assinada por Trent Reznor e Atticus Ross comete a proeza de servir exemplarmente o retrato de Herman J. Mankiewicz (1897-1953) assinado por David Fincher — com argumento do seu pai, Jack Fincher (1930-2003) —, ao mesmo tempo que possui a dimensão de uma festiva sequela das ambiências musicais dos anos 40. A ponto de ter sido registada com instrumentos dessa década.
É a quarta vez que Reznor/Ross colaboram com Fincher, depois de A Rede Social (2010), Millennium 1: Os Homens Que Odeiam as Mulheres (2011) e Em Parte Incerta (2014) — eis a banda sonora e, em baixo, uma breve memória da rodagem de Mank através de uma deliciosa colecção de claquetes.
terça-feira, dezembro 01, 2020
Aldina Duarte
— elogio do essencial
Eis o fado devolvido à sua mais radical, e também mais bela, verdade primitiva: uma guitarra portuguesa (Paulo Parreira) e uma viola (Rogério Ferreira), e ainda a esplendorosa aventura de uma voz: Roubados, de Aldina Duarte, é um testemunho fundamental, tornado urgente, de retorno à teatralidade fundadora do fado, celebrando o desafio humano de devolver as palavras à sua solidão primordial — a única que, afinal, pode ser partilhada numa transcrição em disco (ou qualquer outro suporte sonoro), e também no espaço específico de um concerto.

Não simplifiquemos, claro. Não se trata de esquecer, muito menos demonizar, todas as derivações formais através das quais o fado tem sido vivido — e escutado — ao longo de décadas, a começar pelas sofisticadas e alegres variações de Amália. Não podemos esquecer as orquestrações mais ou menos "sinfónicas", como não fará sentido secundarizar as muitas "perversões" experimentadas por exuberantes linguagens que o tempo foi destruindo, a começar pelo teatro de revista.
Trata-se, isso sim, de reconhecer que a essência do fado nada — mas mesmo nada — tem que ver com a sua liofilização para exportação, em grande parte exponenciada por um entendimento pueril da condição de património imaterial da humanidade. Internamente, o principal efeito artístico de tal rótulo foi mesmo a multiplicação de fadistas de dramática incompetência técnica e artística, de facto, sem alma (este é um domínio em que a palavra alma pode e deve ser aplicada com todo o seu valor patrimonial).
Escutando Aldina Duarte em Roubados reencontramos um tempo — aliás, uma duração — em que a vibração da voz não depende da elaboração instrumental que a acompanha. Aliás, dito de outro modo: os instrumentos não "acompanham", antes se definem como elementos vivos de uma cenografia cujo ponto de fuga é sempre a presença cristalina das palavras. Exemplo: Veio a Saudade (António Campos/Jorge Barradas), com Rogério Ferreira na viola.
Eduardo Lourenço (1923 - 2020)
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| [ Centro Nacional de Cultura ] |
>>> Octávio Paz supôs recentemente que a humanidade futura se dvidiria em duas raças: a dos homens livres e poderosos, aqueles que lêem, e os outros, aqueles que olham para a televisão. É pena que não tenha posto entre os poderes os que não lêem nem vêem televisão, mas são os senhores da televisão. De qualquer maneira, esta profecia pouco eufórica não me parece fatal. A televisão existe, não é em si um novo império do mal. Não é útil nem fácil distinguir nela uma boa ou má televisão. Que critérios conceber para isso? Mas é possível vivê-la como um desafio à nossa capacidade de discernimento, à essência mesma da nossa liberdade, que não criou a televisão para que ela nos devorasse. A pedagogia do consumidor de imagens em mais nada consistiria do que em aceitar o desafio e descobrir no que nos fascina uma autêntica mensagem libertadora, uma palavra que preserve a parte de silêncio necessária à respiração da existência humana e contra a qual o rolo compressor das imagens planetárias seria impotente, ou é, no fundo, impotente. Em última análise, essa pedagogia consistiria em recuperar o silêncio do tempo antes da televisão, apagar simplesmente a famosa caixa mágica. Simbolicamente ou praticamente. Sem remorso.
EDUARDO LOURENÇO
Comunicação ao Congresso Internacional
sobre Comunicação e Defesa do Consumidor, 1993
in O Esplendor do Caos (Gradiva, 1998)
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