sexta-feira, janeiro 03, 2014

Broken Twin, uma voz para 2014

FOTO: Mie Brikmann

É dinamarquesa, chama-se Majke Voss Romme e responde pelo nome artístico de Broken Twin. Vamos, por certo, ouvir falar dela ao longo de 2014 — porque tem talento q.b., e também porque o seu álbum de estreia está agendado para este ano. Entre as suas inspirações figuram Leonard Cohen, Nico e Nick Drake... Dois temas, para já: Sun Has Gone, apenas em registo sonoro; Out of Air, de uma sessão no Deeper Down Studio, em Munique.



quinta-feira, janeiro 02, 2014

Ver + ouvir:
FKA Twigs, Water Me




O teledisco já tem uns meses, e até já aqui foi apresentado. Mas regressa hoje ao Sound + Vision como um sinal possível de caminhos desafiantes que a música e a sua relação com as imagens podem tomar neste 2014 que agora começa.

Nos 30 anos de carreira dos Pet Shop Boys


Em abril de 1984 um primeiro single de uma nova banda inglesa era editado nos Estados Unidos. Chamava-se Pet Shop Boys, mas estavam longe de imaginar que esse mesmo West End Girls que então editavam numa primeira versão, seria dentro de menos de dois anos um dos maiores êxitos planetários do seu tempo. Nem que, 30 anos depois, teriam construído uma das mais sólidas, marcantes e prolíficas obras alguma vez criadas no espaço da música pop. Assinalando essa data, o Sound + Vision vai assim dedicar o ano de 2014 ao percurso criativo dos Pet Shop Boys.

E começamos... pelo principio.

Ano Pet Shop Boys - 1
'West End Girls' (single, 1984)



19 de agosto de 1983. Um jornalista britânico almoça com um produtor norte-americano. Reaza a mitologia que comeram cheeseburguer e bolo de cenoura. No final o produtor Bobby O (uma das figuras maiores do hi nrg e da música de dança da Nova Iorque de então) dizia ao jornalista Neil Tennant (que tinha atravessado o Atlântico para entrevistar os The Police) que queria fazer um disco com a sua banda... os Pet Shop Boys.

Eles eram Neil Tennat e Chris Lowe. Uma dupla. Tinham-se conhecido numa loja de electrónicas em Kings Road (Londres) exatamente dois anos antes e, perante um interesse comum pela música de dança, resolvido criar uma banda juntos. Começaram por se chamar West End. Mudaram de nome para Pet Shop Boys (conta a mitologia pop porque uns amigos seus tinham uma loja de animais em Ealing). Criaram primeiras canções nesses primeiros anos de labor caseiro. Nasceram então temas como It’s A Sin, One More Chance, Rent, entre muitos mais que emergiriam entre os alinhamentos dos seus dois primeiros álbuns (editados entre 1986 e 87).

Das sessões com Bobby O resultou a gravação de primeiras versões de muitos desses temas. E na hora de escolher um para ser o single de estreia apontaram a West End Girls, uma canção que nascia sob um evidente interesse pelas formas (então emergentes entre o mundo da pop) da cultura hip hop.

O single foi editado por uma etiqueta norte-americana, a Bobcat Records (subsidiária da CBS), e no Reino Unido o disco esteve apenas disponível no formato de 12” nas lojas de importação.

A versão produzida por Bobby O é consideravelmente diferente da que um pouco mais tarde o grupo regravaria com Stephen Hague. A base da ideia é a mesma, embora ligeiramente mais acelerada, explorando já a presença de coros eletronicamente trabalhados e de sons ambiente samplados e integrados na matriz cénica da canção, com uma base rítmica que todavia sublinhava uma ligação mais evidente ao universo hi-nrg (note-se o uso ostensivo de handclaps na versão do doze polegadas).

Este primeiro West End Girls, que apresentava Pet Shop Boys no lado B, foi um êxito menor em alguns territórios, nomeadamente na Bélgica e França. Nos EUA foi um êxito menor nos circuitos de dança de cidades como San Francisco ou Los Angeles.


Estas são imagens de uma das primeiras atuações televisivas dos Pet Shop Boys. O programa 'Les Hits des Clubs' foi emitido pela TV belga e mostra Neil Tennant e Chris Lowe a interpretar uma versão curta desta primeira gravação de West End Girls. Em menos de dois anos a música daria um salto em frente. E a imagem do grupo também.

Lado A: 'West End Girls'
Lado B: 'Pet Shop Boys'
Bobcat Records, 1984

Uma imagem

'Ancorados' N.G. (Instagram, 2013)

Para ouvir:
Vampire Weekend, Step (remix)

Uma nova abordagem a um dos temas do álbum de 2013 Modern Vampires of The City, numa remistura que contra com novas contribuições de Danny Brown, Heems, e Despot. Diálogos nova iorquinos, entre as culturas pop e hip hop.

Podem ouvir aqui, via Pitchfork.

Leituras:
Pelas memórias mais remotas do cinema


Uma arrumação de uma série de filmes pioneiros da história do cinema é uma das propostas de leitura do site Flavorwire. Entre os títulos que ali podemos recordar está o “fundador” La sortie des usines Lumière, de 1985, que encetou a história do cinema. Estão ali também reunidos títulos como L’Arroseur Arrosé (também de 1895, apresentado como sendo a primeira comédia), La Pêche aux poissons rouges (um filme de família dos Lumière, de 1895) ou La Places des Cordeliers à Lyon (mais um olhar “documental” sobre a vida na cidade, de 1895).

Podem ver aqui este conjunto de filmes.

quarta-feira, janeiro 01, 2014

Marta Eggerth (1912 - 2013)

A alegria e agilidade da sua voz (coloratura soprano) valeram-lhe o epíteto de "a Callas da opereta": Marta Eggerth faleceu em sua casa em Rye, Nova Iorque — contava 101 anos.
De origem húngara, nascida em Budapeste a 17 de Abril de 1912, foi um talento precoce que se distinguiu nas operetas de compositores como Franz Lehár, Jacques Offenbach e Johann Strauss II. O seu sucesso nos palcos rapidamente atraiu a indústria cinematográfica, no período em que a novidade do som constituía um factor essencial de mobilização dos espectadores — rodou quatro dezenas de filmes, quase todos nas décadas de 30/40, em vários países europeus e também nos EUA. Entre os seus títulos mais famosos, incluem-se: Uma Noite no Grande Hotel (1931), de Max Neufeld (Alemanha); Unfinished Symphony (1934), de Anthony Asquith e Willi Forst (Reino Unido/Áustria); A Princesa das Czardas (1934), de Georg Jacoby (Alemanha); Casta Diva (1935), de Carmine Gallone (Itália); O Regresso do Rouxinol (1938), de Carl Lamac (Áustria); O Prémio do Teu Amor (1942), de Busby Berkeley (EUA); e Valsa Brilhante (1949), de Jean Boyer (França). Foi casada com o tenor polaco Jan Kiepura (1902-1966). Em 2003, a editora Patria Music lançou um duplo CD retrospectivo das canções de Eggerth, intitulado My Life My Song. Manteve-se em actividade até 2011, tendo dado o seu derradeiro concerto aos 99 anos.

>>> Uma canção húngara interpretada por Marta Eggerth no filme Quando o Rouxinol Canta (1936), coproduzido por Suíça, Alemanha e Hungria, e dirigido por Carl Lamac.


>>> Obituário no New York Times.
>>> Página de Marta Eggerth na editora Patria Music.

Wojciech Kilar (1932 - 2013)

Famoso compositor de música para cinema, o polaco Wojciech Kilar faleceu no dia 29 de Dezembro em Katowice, vitimado por cancro — contava 81 anos.
Inspirado pelos franceses Claude Debussy, Maurice Ravel e, em particular, pelo polaco Karol Szymanowski, Kilar legou-nos um imenso património de sinfonias, música de câmara, peças para solistas e obras corais. De qualquer modo, foram as suas bandas sonoras (mais de uma centena!) que o popularizaram. Trabalhou com nomes emblemáticos ligados à renovação do cinema polaco, como Andrzej Wajda, Krzysztof Kieslowski, Krzysztof Zanussi e Roman Polanski (para este compôs, por exemplo, em 2002, a música de O Pianista), sendo também o compositor de títulos como Drácula de Bram Stoker (1992), de Francis Ford Coppola, e Retrato de uma Senhora (1996), de Jane Campion. A mulher, Barbara Pomianowska, uma pianista, falecera em 2007 — o seu casamento foi celebrado em 1966.

>>> Duas peças de Wojciech Kilar: o prólogo de Retrato de uma Senhora e o primeiro andamento do Concerto para Piano nº 1, por Paweł Kowalski (piano), com a Orquestra Filamórnica da Pomerânia, sob a direcção de Mirosław Jacek Błaszczyk (concerto em Budapeste, 5 de Maio de 2008).




>>> Obituário na BBC.

"Weekend"/Godard em 2013

Nas memórias cinéfilas de 2013, a edição do lendário Weekend (1967), de Jean-Luc Godard, ficou como momento marcante no mercado do DVD — este texto foi publicado na edição de balanço do ano do suplemento "QI", do Diário de Notícias (21 Dezembro), com o título 'Entre o cosmos e o ferro-velho'.

Por vezes, o filme Fim de Semana, de Jean-Luc Godard, é citado como um objecto revelador da crise de Maio 68 que abalou a França. Estão lá as marcas de uma notória crise civilizacional: o consumismo desenfreado, a decomposição cultural da classe média, enfim, o esvaziamento afectivo das relações humanas.
Que Fim de Semana tenha reaparecido em DVD (Films4You), eis uma ironia que os mais perversos avaliarão, talvez, como um comentário ambíguo aos nossos tempos difíceis. Seja como for, vale a pena lembrar que a própria caracterização do filme como painel crítico de Maio 68 carece de pertinência... cronológica. De facto, a sua estreia em Paris ocorreu a 29 de Dezembro de 1967, o que lhe confere uma perturbante energia premonitória – Godard filmava o weekend de um típico casal parisiense (Jean Yanne/Mireille Darc), deparando com a monstruosidade de uma existência desbaratada entre os gadgets da sociedade de consumo e a mais radical incapacidade de qualquer gesto genuinamente amoroso.
Nada disso era novo na metodologia com que Godard observava a sociedade francesa. 2 ou 3 Coisas sobre Ela (1966) já fizera o retrato real e surreal das famílias dos novos agregados suburbanos, enquanto La Chinoise (1967) propunha uma visão terna e cruel do quotidiano dos jovens “maoístas”. A sensação de estarmos perante um universo à deriva, sintoma de uma sociedade carente de valores, começa na emblemática legenda de abertura de Fim de Semana: “Um filme perdido no cosmos”. Depois, em poucos segundos, percebemos que há uma casal, um adultério e uma família minada pelo ódio, para outra legenda nos informar: “Um filme encontrado no ferro-velho”.
Que se passa entre uma coisa e outra? Pois bem, a hipótese desesperada, mas pedagógica, de aplicar o cinema como um derradeiro instrumento de olhar e pensar, capaz de resistir à formatação dos discursos dominantes, emergindo a publicidade como o modelo mais sistemático de normalização de ideias e comportamentos.
Há, assim, uma fúria apocalíptica que perpassa em todos os elementos de Fim de Semana (lembremos o célebre plano de um engarrafamento monstruoso, desembocando num acidente brutal). Para Godard, tratava-se também de colocar um ponto final na lógica experimental em que existira a Nova Vaga. A partir daí, na sua “fase militante”, começaria o inventário de temas e traumas de uma Europa confrontada com um outro apocalipse: o das ideologias que, para o melhor e para o pior, tinham desenhado o mapa das ilusões e desilusões do nosso século XX.

A IMAGEM: Tim Campbell, 2013

TIM CAMPBELL
Conselhos para 2014
2013