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quinta-feira, outubro 01, 2026

O cão de Brad Pitt merece um Oscar

Brad Pitt reaparece em Heart of the Beast como intérprete de um veterano que, na solidão das paisagens do Alaska, procura reencontrar alguma harmonia. Nos desafios que enfrenta, conta com o seu cão como único aliado — este texto foi publicado no Diário de Notícias (24 setembro).

As ruidosas tropelias dos super-heróis da Marvel & afins têm contribuído para que as novas gerações de espectadores percam o gosto da aventura. Dito de outro modo: têm favorecido a confusão do espírito aventureiro com a acumulação de efeitos visuais em que, cena sim, cena não, há pelo menos um planeta a explodir... Pior um pouco: a banalização dos olhares vai a par de um apagamento das memórias clássicas da aventura. Heart of the Beast - Heróis Inseparáveis não conseguirá, por certo, livrar-nos de tal tormento, nem ficará nos anais da história do cinema como uma obra-prima. O seu mérito é simples e, nestes tempos de alienação narrativa, pedagógico. A saber: a aventura recupera algo da sua dimensão humana.
Humana e canina, convém acrescentar. Esta é a história de James Belmont, veterano das Forças Especiais que vive a sua reforma numa gloriosa solidão partilhada... com Odin, o seu cão. Viajando numa avioneta, procura refúgio (e mais solidão) na monumental paisagem do Alaska, aliás filmada com a atenção e a elegância que lhe conferem o valor de uma verdadeira personagem. A aventura será menos a da conquista de um cenário acolhedor e mais, muito mais, o confronto com a crueldade que a natureza pode conter.
David Ayer, o realizador, reencontra Brad Pitt (com quem já rodara o filme de guerra Fúria, 2014) para concretizar uma odisseia de pura resistência que se revela, em última instância, uma história de cumplicidade, dedicação e fidelidade entre James e Odin. Daí uma dimensão cada vez menos frequente no cinema (dito) de acção. Chamemos-lhe a atenção à duração dos gestos — da metódica construção de um acampamento até à travessia de um tronco de árvore sobre águas turbulentas, Heart of the Beast é um filme que, nos melhores momentos, sabe valorizar os detalhes desses gestos, valorizando também os seus intérpretes.
Brad Pitt volta a dar mostras de um sofisticado minimalismo emocional, por vezes comovente, na relação com Odin. Quanto a Odin, o seu tratamento cinematográfico é o de uma genuína personagem — como se fosse um secundário a merecer atenção para os Oscars. Isto porque, mesmo através dos obrigatórios momentos de humor, Ayer sabe que a tradição do conto de aventuras envolve a capacidade de conferir a mesma importância narrativa aos humanos e aos animais — a herança de Walt Disney assim o diz.