Brad Pitt reaparece em Heart of the Beast como intérprete de um veterano que, na solidão das paisagens do Alaska, procura reencontrar alguma harmonia. Nos desafios que enfrenta, conta com o seu cão como único aliado — este texto foi publicado no Diário de Notícias (24 setembro).
As ruidosas tropelias dos super-heróis da Marvel & afins têm contribuído para que as novas gerações de espectadores percam o gosto da aventura. Dito de outro modo: têm favorecido a confusão do espírito aventureiro com a acumulação de efeitos visuais em que, cena sim, cena não, há pelo menos um planeta a explodir... Pior um pouco: a banalização dos olhares vai a par de um apagamento das memórias clássicas da aventura. Heart of the Beast - Heróis Inseparáveis não conseguirá, por certo, livrar-nos de tal tormento, nem ficará nos anais da história do cinema como uma obra-prima. O seu mérito é simples e, nestes tempos de alienação narrativa, pedagógico. A saber: a aventura recupera algo da sua dimensão humana.
Humana e canina, convém acrescentar. Esta é a história de James Belmont, veterano das Forças Especiais que vive a sua reforma numa gloriosa solidão partilhada... com Odin, o seu cão. Viajando numa avioneta, procura refúgio (e mais solidão) na monumental paisagem do Alaska, aliás filmada com a atenção e a elegância que lhe conferem o valor de uma verdadeira personagem. A aventura será menos a da conquista de um cenário acolhedor e mais, muito mais, o confronto com a crueldade que a natureza pode conter.
David Ayer, o realizador, reencontra Brad Pitt (com quem já rodara o filme de guerra Fúria, 2014) para concretizar uma odisseia de pura resistência que se revela, em última instância, uma história de cumplicidade, dedicação e fidelidade entre James e Odin. Daí uma dimensão cada vez menos frequente no cinema (dito) de acção. Chamemos-lhe a atenção à duração dos gestos — da metódica construção de um acampamento até à travessia de um tronco de árvore sobre águas turbulentas, Heart of the Beast é um filme que, nos melhores momentos, sabe valorizar os detalhes desses gestos, valorizando também os seus intérpretes.
Brad Pitt volta a dar mostras de um sofisticado minimalismo emocional, por vezes comovente, na relação com Odin. Quanto a Odin, o seu tratamento cinematográfico é o de uma genuína personagem — como se fosse um secundário a merecer atenção para os Oscars. Isto porque, mesmo através dos obrigatórios momentos de humor, Ayer sabe que a tradição do conto de aventuras envolve a capacidade de conferir a mesma importância narrativa aos humanos e aos animais — a herança de Walt Disney assim o diz.

