sábado, setembro 24, 2005

Comédia & drama segundo Spike Lee

Em tempos de tantos divertimentos medíocres (que confundem a diversão com a desvalorização de todas as formas de inteligência), descobrir um filme como She Hate Me / Ela Odeia-me é um acontecimento feliz. Que é como quem diz: uma comédia pura e dura, sem medo de experimentar os limites do absurdo — esta é a história de um homem (Anthony Mackie) que se transforma em dador "oficial" de esperma para 18 lésbicas candidatas à maternidade... —, comédia em que o humor funciona como delicado bisturi para a desmontagem das relações sociais e afectivas numa América com a sua mitologia nacional em crise e, por isso mesmo, carente de valores seguros. Nesta perspectiva, e para além das muitas diferenças temáticas e narrativas, este é um filme completamente cúmplice do admirável A Última Hora (2002), um dos primeiros títulos a reflectir sobre a América pós-11 de Setembro e também um dos momentos mais altos da filmografia de Spike Lee.

Spike Lee é um verdadeiro cineasta do desejo, ou melhor, da diferença nunca estabilizada entre aquilo que cada personagem vê noutra e o que a segunda espera da primeira. Claro que, desde títulos como She’s Gotta Have It (1986) ou Do the Right Thing (1989), a sua visão está indissociavelmente ligada às tensões entre negros e brancos na sociedade americana. Mas seria redutor considerá-lo um cronista de temáticas "raciais". O que ele filma é sempre, em última instância, a imensa pluralidade do factor humano e todos os "excessos" que o fazem sair das normas politicamente (ou racialmente) correctas. Daí também que Spike Lee seja um dos mais ousados experimentadores do actual cinema americano. Nesse aspecto, Ela Odeia-me é um fulgurante exercício formal: começa como drama social, transfigura-se em comédia de costumes e desemboca na imponência de uma parábola sobre o presente crítico da própria nação americana. (Este parágrafo faz parte de um texto publicado no 'Diário de Notícias', de 22 de Setembro)

Notícia menos interessante: a admirável banda sonora de She Hate Me, da autoria de Terence Blanchard, não tem lançamento português previsto.
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