quarta-feira, dezembro 21, 2016
Para ler: o debate ético que 'Rogue One' pode levantar
A utilização de técnicas de recriação digital - semelhantes à usadas em tantos filmes do nosso tempo - usada em Rogue One para ali fazer surgir várias personagens tal e qual as conhecíamos em A Guerra das Estrelas (1977) pode levantar um debate ético. Sobretudo com a figura de Moff Tarkin, um dos vilões mais célebres de Star Wars, que era então interpretado por Peter Cushing, ator que morreu em 1994.
Há no Guardian uma reflexão interessante sobre este debate.
Zsa Zsa Gabor (1917 - 2016)
Foi famosa pela própria fama: Zsa Zsa Gabor simboliza de forma exemplar um certo conceito clássico de "glamour" — este obituário foi publicado no Diário de Notícias (20 Dezembro), com o título 'Morreu uma das últimas estrelas da “idade de ouro” de Hollywood'.
Para várias gerações de espectadores, mesmo os que nunca viram um dos seus filmes, ela vai ficar como um dos símbolos mais universais de Hollywood e do seu glamour: Zsa Zsa Gabor não resistiu a um ataque cardíaco e faleceu no domingo, dia 18, na sua casa de Bel-Air, Los Angeles, contava 99 anos.
Esboçar o seu retrato será sempre um misto de objectividade e ironia, aliás de acordo com uma atitude de elegante frivolidade que ela cultivou ao longo de muitas décadas de fama. De tal modo que os marcos da sua carreira cinematográfica ficam quase sempre secundarizados face a outras proezas de uma exuberante e bem disposta existência.
Na lista de tais proezas, para além de uma estalada dada a um polícia de Beverly Hills que, em 1989, a apanhou a conduzir o seu Rolls-Royce com a carta de condução caducada, constam nove heróicos casamentos, incluindo-se entre os consortes o magnate da hotelaria Conrad Hilton e o actor George Sanders. Pedagogicamente, gostava de explicar que “uma mulher deve casar por amor, e continuar a casar-se até o encontrar”. Isto sem esquecer, claro, que as pequenas atribulações inerentes às separações lhe permitiram corrigir o sentido original da célebre canção de Marilyn Monroe : “Aprendi que não são os diamantes, mas os advogados de divórcios, os melhores amigos de uma mulher”.
Na lista de tais proezas, para além de uma estalada dada a um polícia de Beverly Hills que, em 1989, a apanhou a conduzir o seu Rolls-Royce com a carta de condução caducada, constam nove heróicos casamentos, incluindo-se entre os consortes o magnate da hotelaria Conrad Hilton e o actor George Sanders. Pedagogicamente, gostava de explicar que “uma mulher deve casar por amor, e continuar a casar-se até o encontrar”. Isto sem esquecer, claro, que as pequenas atribulações inerentes às separações lhe permitiram corrigir o sentido original da célebre canção de Marilyn Monroe : “Aprendi que não são os diamantes, mas os advogados de divórcios, os melhores amigos de uma mulher”.
Tudo começou na Hungria, em Budapeste, onde nasceu a 6 de Fevereiro de 1917, no seio de uma família judia que acabaria por fugir à ameaça nazi. Em 1936, portanto aos 19 anos, era eleita Miss Hungria; no começo dos anos 40, ela e as suas duas irmãs, Magda e Eva, já estavam nos EUA, criando ligações com o vasto mundo do entertainment. Muitas vezes, o nome de Zsa Zsa surge erradamente associado à popular série televisiva Green Acres/Viver no Campo (1965-1971), protagonizada pela irmã Eva, ao lado de Eddie Albert.
A sua interpretação mais famosa aconteceu em Moulin Rouge (1952), de John Huston, biografia ficcionada do pintor Toulouse-Lautrec (interpretado por José Ferrer) em que compunha a figura de Jane Avril, lendária bailarina de Can-Can. Surgiu também, por exemplo, em Lili (1953), musical com Leslie Caron, na comédia O Rei do Circo (1954), com a dupla Jerry Lewis/Dean Martin, e ainda num pequeno papel na obra-prima de Orson Welles, A Sede do Mal (1958), como dona de um clube de striptease. Entre os seus títulos mais exóticos inclui-se a ficção científica de “série B” Queen of Outer Space/Garotas do Outro Espaço (1958), de Edward Bernds,.
Como aconteceu com vários actores e actrizes cujas carreiras tinham começado ao logo dos anos 40/50, Zsa Zsa Gabor foi encontrando cada vez menos oportunidades nos filmes da década de 60, surgindo com mais frequência em séries televisivas como Mister Ed, The Dick Powell Show ou The Bob Hope Show. Ilustrando a sua condição de símbolo nostálgico da “idade de ouro” de Hollywood, em muitas das suas participações no cinema veio a assumir, com evidente boa disposição caricatural, o seu próprio papel; entre os exemplo mais insólitos inclui-se uma breve participação no filme de terror Pesadelo em Elm Street 3 (1987), de Chuck Russell.
Só mesmo os crescentes problemas de saúde a levaram a abandonar, em meados dos anos 90, os eventos sociais em que tanto gostava de aparecer. Escreveu uma autobiografia, My Story, em 1960. Publicou ainda mais três livros cujos títulos podem resumir a sua festiva atitude perante a vida: “Guia Completo de Zsa Zsa para os Homens” (1969), “Como Apanhar um Homem, como Conservar um Homem, como Ver-se Livre de um Homem” (1970) e, por fim, “Uma Vida Não Basta” (1991).
>>> Obituário no New York Times.
terça-feira, dezembro 20, 2016
"The Walking Dead": os mortos e os outros
O desenvolvimento da série The Walking Dead continua a ser um caso exemplar de gestão temática e dramática — este texto foi publicado no nº44 da revista Metropolis, com o título 'Os mortos, os vivos e os seus fantasmas'.
Para o lançamento da sétima temporada de «The Walking Dead» (AMC) foi criado um cartaz com a personagem de Negan (Jeffrey Dean Morgan), o implacável líder dos ‘Saviors’, exibindo o seu terrível taco de baseball com arame farpado (de nome ‘Lucille’). Negan apresenta-se na sua pose de desafio e ameaça, sob uma legenda que proclama: “Só agora estamos a começar” (We’re just getting started).
Como é óbvio, a frase remete para a saga agressiva dos ‘Saviors’, com todo o seu sistema de dominação física e controle psicológico. O certo é que pode também ser entendida como uma mensagem subliminar (ou nem tanto...) dos criadores da própria série. A saber: «The Walking Dead» vai na sua sétima temporada (a oitava, que conterá o episódio nº 100, já está agendada para 2017), mas tudo se passa como se só agora estivesse a consolidar as bases de um desenvolvimento que pode ser ainda muito demorado.
Trata-se, antes do mais, de uma questão de pragmatismo — narrativo e televisivo. Que é como quem diz: não seria fácil manter a dinâmica interna da série apenas através da oposição entre personagens humanas e zombies. O pano de fundo apocalíptico funcionou bem nas primeiras temporadas mas, a certa altura, foi necessário encontrar outros caminhos narrativos, sob pena de instalar uma banal inércia de acontecimentos e peripécias.
Ora, precisamente, Negan e os elementos do seu bando surgem como uma espécie de delírio extremo de uma via cada vez mais importante na série: a existência de outros grupos de sobreviventes, obedecendo a lógicas mais ou menos fechadas de organização, de alguma maneira atenuando o protagonismo de Rick Grimes (Andrew Lincoln) e da sua heróica tribo de resistentes.
No plano simbólico, estes movimentos internos estão longe de ser irrelevantes para a economia dramática da série. Na verdade, foi relativamente cedo (talvez ao longo da terceira temporada, quando o grupo de Rick se instala numa prisão abandonada) que «The Walking Dead» começou a distanciar-se do seu dispositivo fundador — os vivos contra os mortos-vivos —, abrindo a ficção a variações tão sugestivas quanto perturbantes.
A principal consequência desta evolução envolve uma bizarra humanização de todas as peripécias. No limite, dir-se-ia que os zombies, ainda que sempre presentes, funcionam como reveladores das contradições do género humano e das respectivas formas de poder. Os zombies são figuras fantasmáticas, não tanto porque desafiam a harmonia de qualquer real, mas sim porque a sua presença serve de espelho ambíguo da fragilidade de qualquer relação humana.
Escusado será dizer que, nesta conjuntura, o maligno Negan emerge como expressão do “segredo” dramático que o mestre Hitchcock tanto gostava de lembrar: é preciso que a personagem do mau seja muito forte... Com ele, e através dele, «The Walking Dead» afirma-se também como um caso invulgar de resistência no tão vasto (e, afinal, desequilibrado) panorama das séries televisivas contemporâneas.
Jacqueline Kennedy por Natalie Portman
Na antevisão dos Oscars, a composição da personagem de Jacqueline Kennedy por Natalie Portman continua a surgir com grande destaque em todas as previsões para as nomeações na categoria de melhor actriz — o filme Jackie, dirigido pelo chileno Pablo Larraín, concentra-se nos dias que se seguiram assassinato do Presidente John F. Kennedy, em Dallas, a 22 de Novembro de 1963 [estreia portuguesa: 9 Fevereiro]. Eis um video, produzido pela revista Vanity Fair, com Portman a explicar a sua composição.
segunda-feira, dezembro 19, 2016
Televisão & audiências
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| PAUL KLEE Livro Aberto 1930 |
Como pensar a televisão sem pensar as audiências? Porque aceitamos a cegueira publicitária dos números? — esta crónica foi publicada no Diário de Notícias (16 Dezembro), com o título 'O número sem qualidades'.
A ideia de que a televisão funciona como um mero acumulador de audiências é uma pobre ideia. Mas é a ideia que, no nosso glorioso século XXI, determina e reforça as suas lógicas mais fortes.
Com o passar dos anos, a aceitação tácita dos números das audiências, instalou mesmo uma anestesia que leva a que quase não se aborde o mais básico. A saber: as audiências não são a manifestação de uma “vontade” estética ou ideológica dos espectadores, pela simples razão de que — mesmo evitando discutir a redução dos comportamentos desses espectadores a um qualquer número sem qualidades — nenhum fenómeno social, individual ou colectivo, cabe numa banal classificação métrica.
Na prática, triunfou o mais puro determinismo paternalista. O único “conceito” gerado pela ideologia das audiências é também o mais pueril: aquilo que passa nos horários nobres está lá “apenas” porque é isso que os consumidores exigem.
Exigem? Eis uma curiosa visão do colectivo (que somos todos nós). A mesma lógica simplista poderia legitimar um contraponto igualmente infantil. Assim: se é isso que os consumidores exigem, por que não diversificar, colocando novelas e “reality shows” à uma ou duas horas da noite e transferindo os filmes e séries que começam por essa altura para o actual horário nobre? Seria, por certo, uma interessante via de transformação do mercado publicitário, com todas as agências a transferir os seus anúncios para as gloriosas madrugadas.
Caricatura? Sem dúvida, mas não nasce do trabalho crítico. Resulta das dinâmicas dominantes na oferta televisiva e também, atrevo-me a dizê-lo, de uma militante vontade (desta vez sem aspas) de desconhecer a diversidade dos espectadores. Seria, aliás, interessante pensar o que faz com que haja sectores cada vez mais significativos desses espectadores a desistirem de consumir as televisões generalistas.
Cinemateca — sessão de homenagem
a Alberto Seixas Santos [hoje]
A Cinemateca Portuguesa homenageia Alberto Seixas Santos (1936-2016), numa sessão em que será apresentado o catálogo dedicado à sua obra, seguindo-se a projecção do filme Gestos & Fragmentos (1983) — hoje, às 19h00.
domingo, dezembro 18, 2016
"You Turn Me On I'm a Radio" [canções]
You Turn Me On I'm a Radio
For the Roses (1972)
Steven Spielberg, 70 anos
Steven Spielberg nasceu em Cincinnati, Ohio, no dia 18 de Dezembro de 1946 — faz hoje 70 anos.
Filho de uma pianista e um engenheiro informático, muito cedo o jovem Steven se envolveu na produção de filmes, primeiro como puro amador, muito cedo já no interior da máquina de Hollywood — realizou a sua primeira longa-metragem, Duel/Um Assassino pelas Costas, em 1971, portanto aos 25 anos (inicialmente produzida para televisão, acabou, em muitos países, por ter difusão nas salas escuras).
Filho de uma pianista e um engenheiro informático, muito cedo o jovem Steven se envolveu na produção de filmes, primeiro como puro amador, muito cedo já no interior da máquina de Hollywood — realizou a sua primeira longa-metragem, Duel/Um Assassino pelas Costas, em 1971, portanto aos 25 anos (inicialmente produzida para televisão, acabou, em muitos países, por ter difusão nas salas escuras).
Duas vezes distinguido com o Oscar de melhor realizador — por A Lista de Schindler (1993) e O Resgate do Soldado Ryan (1998), o primeiro também consagrado como melhor filme do ano —, Spielberg é um daqueles nomes cuja popularidade transcende a de muitos actores. Para espectadores de todo o mundo, ele simboliza, como Alfred Hitchcock simbolizou, o próprio cinema e o prazer de descobrir filmes.
>>> Três registos de momentos emblemáticos da carreira de Steven Spielberg:
— trailer de The Sugarland Express/Asfalto Quente (1974), primeira realização para cinema;
— trailer de A Lista de Schindler (sete Oscars, incluindo melhor filme de 1993);
— discurso de agradecimento do Prémio de Carreira do American Film Institute (2 Março 1995).
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