Em 2025, celebrou 30 anos e lançou o seu quarto álbum (quatro anos depois do magnífico Home Video). A americana Lucy Dacus pertence a uma galeria de cantoras, também compositoras, em que a precisão dos detalhes afectivos vai a par de uma espécie de apagamento que resiste a qualquer facilidade confessional — por alguma razão, ela formou com Julien Baker e Phoebe Bridgers o grupo Boygenius sem que qualquer delas emergisse como líder (gostam até de escrever o nome da banda com minúscula: boygenius). Lançado em outubro, Forever Is a Feeling: The Archives é a edição "ampliada" de Forever Is a Feeling, surgido em março — uma coleção de discreta sofisticação poética e instrumental de que a canção Best Guess, serena deambulação masculino/feminino, pode ser o símbolo adequado.
Depois da estreia com um EP, em 2018, Julien Baker, Phoebe Bridgers e Lucy Dacus já têm o seu álbum de estreia, The Record. Que é como quem diz: a banda Boygenius é mesmo um caso sério de uma sensibilidade realmente independente, criando canções de inusitado intimismo. Eis uma dessas canções, Cool About It, numa passagem por The Late Show, com Stephen Colbert.
A americana Lucy Dacus pertence a uma galeria de cantoras pós-românticas (o rótulo, certamente discutível, tem a vantagem de nos distanciar das categorias correntes impostas pelo mercado) em que podemos incluir também Phoebe Bridgers e Julien Baker. Não por acaso, recorde-se: as três criaram um dos mais belos registos de 2018, com o nome boygenius (com minúscula...).
Descobrimos agora o seu terceiro álbum de estúdio, Home Video, título que indicia uma atitude retrospectiva, ou melhor, de regresso às origens e revisitação de memórias que, em última instância, remetem para a cidade natal, Norfolk, Virginia. O resultado é uma colecção de crónicas de delicado intimismo, na depuração de um formato antigo ("home video") que não cede à futilidade das modas. Exemplo: o teledisco de Hot & Heavy. Sem esquecer a representação, discretamente "lynchiana", da capa.
Depois de Sprained Ankle (2015) e Turn Out the Lights (2017), a americana Julien Baker(n. 1995) terá pensado que passou o tempo das divagações mais ou menos acústicas, aliás reforçando a experiência de boygenius (2018), de autoria repartida com Phoebe Bridgers e Lucy Dacus. Aí está Little Oblivions, bela colecção de uma dúzia de delicadas canções sustentadas por uma impecável produção. E também por uma cuidada iconografia: eis o teledisco de Hardline, magnífico exercício de animação com assinatura de Joe Baughman.
Noblesse oblige... Em 1960, ao partir para a sua digressão europeia, o quinteto de Miles Davis era um colectivo que a história viria a consagrar, não apenas como fenómeno artístico, mas também entidade mitológica: Miles coabitava com John Coltrane (saxofone), Wynton Kelly (piano), Paul Chambers (contrabaixo) e Jimmy Cobb (bateria). O certo é que, rezam as crónicas, era também um grupo em irreversível processo de desagregação. Dito de forma necessariamente esquemática, o génio de Miles ia por caminhos que o génio de Coltrane não estava disposto a seguir. E vice-versa: o primeiro lançara Kind of Blue no ano anterior, o segundo Soultrane em 1958. Daí que estes cinco concertos — dois em Paris, um em Copenhaga, dois em Estocolmo — estejam pontuados por capítulos de evidentes dissonâncias, por assim dizer entre a aritmética intimista do trompete e a vertigem galáctica do saxofone. Pois bem, tal conflito ficou como um dos mais belos capítulos da história do jazz, com todos os músicos (ouçam-se, por exemplo, as sofisticadas deambulações de Kelly) a desafiarem os seus próprios limites técnicos e criativos, expondo às suas atónitas audiências a beleza de uma liberdade tão material quanto espiritual. Depois do também fundamental Freedom Jazz Dance, editado em 2016, com o "outro" quinteto de Miles (Wayne Shorter, Herbie Hancock, etc.), este é o prodigioso Vol. 6 da série de "bootlegs" do trompetista — eis o som de So What (tema de abertura de Kind of Blue), registado no segundo concerto da noite de 22 de Março de 1960, no Konserthuset, de Estocolmo.
Ironia reveladora destes tempos de muitos cruzamentos técnicos, artísticos e conceptuais: antes de ser um álbum, Springsteen on Broadway foi, obviamente, um espectáculo de palco e também um especial da Netflix. Dito de outro modo: aos 69 anos, durante mais de um ano (Out. 2017/Dez. 2018), o criador de Born to Run esteve no palco do Walter Kerr Theatre, em Nova Iorque, para interpretar um espectáculo em que a colagem das suas canções, aliás exponenciando muitas das suas componentes históricas e poéticas, gerava uma narrativa autobiográfica. Daí que este álbum se escute, não como um vulgar "best of" (longe, muito longe disso), antes como uma foram teatral de exposição em que a dimensão individual remete sempre para os fulgores e contradições do imaginário made in USA. Springsteen narra Springsteen com um misto de paixão e didactismo que, no limite, se traduz na simples utilização da guitarra acústica. Se dúvidas ainda houvesse, este álbum serviria para o confirmar como um dos mais admiráveis contadores de histórias da América contemporânea.
Digamos, para simplificar, que os tempos de Keith Jarrett não se medem pelo calendário tradicional. Nem confirmam categorias que aprendemos a nomear como "naturais" — num certo sentido, e por mais perturbante que isso possa parecer, ele visa a construção de uma nova Natureza. Assim, este lançamento de 2018, ainda e sempre com chancela da ECM, corresponde, de facto, a um registo de 2006, no Teatro La Fenice, em Veneza. Como ele gosta, sente-se o silêncio radical do lugar, povoado por um misto de ansiedade e deslumbramento. Além do mais, o rótulo de "disco de jazz" não poderia ser mais justo, e também mais insuficiente. Antes de pertencer a um domínio específico (e não podemos esquecer que ele tocou com Miles), Jarrett é, afinal, um artesão do piano, acreditando sempre que a sensualidade da sua relação com as teclas está longe de esgotar os limites de repertório e improviso. Por exemplo: The Sun Whose Rays, da ópera O Mikado (1885), de Gilbert & Sullivan, renasce nas mãos de Jarrett para além do espartilho de qualquer género — isto porque, como escreve Denis de Rougemont (citado por Godard em O Livro de Imagem), "a verdadeira condição do homem é de pensar com as suas mãos".
Space rock? Por que não? O rótulo está gasto, mas a música não. Afinal de contas, no centro da trajectória dos Spiritualized encontramos esse prodigioso objecto que dá pelo nome de Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space (1997). Mesmo se a banda sempre viveu como uma espécie de one-man-show de Jason Pierce & convidados, o certo é que o seu narcisismo é matéria de infinitas partilhas. Que é como quem diz: este é um colectivo nostálgico de outros tempos que, num misto de ironia e perversidade, nunca abdicou de uma pulsão futurista — dir-se-ia um exercício prospectivo alicerçado nos medos, ânsias e utopias deste presente. De tal modo que para cantar uma demanda romântica — I could be faithful, honest and true / Holding my heart for you / Dependable all down the line / Devoted all the time / But if you want wasted, loaded, permanently folded / Doing the best that he can / I'm your man, I'm your man — Pierce se encena como... astronauta.
Maravilhas da brevidade: seis canções gravadas em quatro dias, 22 minutos no total. Ou, como se diz no mercado (ainda e sempre saudoso desses objectos a que chamamos discos), um EP. É o resultado do encontro de três sofisticados talentos [na capa, da esquerda para a direita]: Phoebe Bridgers, Julien Baker e Lucy Dacus, todas com excelentes álbuns recentes — respectivamente, Stranger in the Alps, Turn Out the Lights, ambos de 2017, e Historian, lançado também em 2018. Com amor pela mais genuína depuração pop, esta é uma colecção de elegantes narrativas de sóbrio encanto e desencanto romanesco, devidamente identificadas pelo minimalismo irónico do nome da banda: boygenius (com minúscula). Eis o tema Me & My Dog, registado em Nova Iorque, nos estúdios da WFUV.