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| Robert Kramer (1939-1999) |
Mais do que nunca, importa valorizar aquilo que nas plataformas de streaming “escapa” às rotinas do mercado, divulgando objectos de evidente importância histórica que nunca tiveram a merecida difusão. É o caso de Entrevista a Robert Kramer, de Sérgio Tréfaut, agora disponível na plataforma Filmin.
A sua duração (35 minutos) poderá fazer pensar que se trata “apenas” de um encontro com aquele que foi um dos nomes marcantes, porventura “o” símbolo maior, da produção independente “made in USA” ao longo das décadas de 1960/70 — é dele o emblemático Milestones (1975), revelado entre nós nos tempos heróicos do Festival da Figueira da Foz [fragmento do filme aqui em baixo].
Na verdade, estamos perante um apêndice do trabalho de pesquisa desenvolvido por Tréfaut durante a preparação da sua longa-metragem Outro País (1999), dedicada, precisamente, a testemunhos de fotógrafos e cineastas estrangeiros (Glauber Rocha, Sebastião Salgado, Thomas Harlan, etc.) que acompanharam os tempos agitados do pós-25 de Abril.
A entrevista foi realizada em Paris, na primavera de 1998 — Kramer faleceu a 10 de novembro do ano seguinte, contava 60 anos. Estivera pela primeira vez em Portugal em meados de 1975, logo após a apresentação de Milestones no Festival de Cannes. Quis conhecer, in loco, a Revolução dos Cravos e, em particular, os movimentos populares de base. Na perspectiva de Kramer, esses movimentos “prolongavam” fenómenos específicos dos EUA que, sobretudo na contestação da guerra do Vietname, se tinham libertado dos clichés da esquerda tradicional (ainda que ele recorde que, na sociedade americana, a noção de “esquerda” está longe de ser um mero decalque das significações da mesma palavra em contexto europeu).
Não admira que o assunto dominante da entrevista seja Cenas da Luta de Classes em Portugal (1977), o filme que acabou por reflectir o modo como Kramer, movido pelo seu desejo utópico, descobriu o nosso país — filme que ele próprio considera “falhado” e, de alguma maneira, incompleto por causa das dificuldades práticas e pessoais de prolongar a sua reflexão. Há no radicalismo de Kramer alguns sinais de desconhecimento do próprio contexto que comenta (a sua desvalorização do trabalho da Cinemateca Portuguesa parece-me francamente mal informada), o que não impede que este seja um documento precioso para revisitarmos um tempo que nem sempre tem sido expurgado dos mais variados maniqueísmos ideológicos.

