Na retrospectiva de Paulo Branco a decorrer na Cinemateca Portuguesa, a passagem de Amor de Perdição (1978), de Manoel de Oliveira, ocupa um lugar muito especial, uma vez que a sua estreia ocorreu em Paris — e foi Paulo Branco que a promoveu (Diário de Notícias, 9 de outubro).
Amor de Perdição (1978), de Manoel de Oliveira, é um dos títulos do primeiro mês do ciclo dedicado a Paulo Branco (dia 26, 16h00). A sua exibição justifica-se pelo facto de ter sido uma das primeiras apostas de programação do cinema Action République, em Paris, sala que Paulo Branco abrira em 1977 — a respectiva estreia ocorreu em junho/julho de 1979.
Na verdade, a consagração do filme começou em terras francesas, com a capa que os Cahiers du Cinéma lhe dedicaram em junho de 1979 (nº 301). Antes disso, e devido a compromissos de produção (cuja contextualização não cabe na brevidade deste apontamento), Amor de Perdição começara por existir como série televisiva de seis episódios — como tal foi exibido na RTP, em novembro/dezembro de 1978. As reações negativas provocadas por tal passagem “bloquearam” o filme até acontecer a referida consagração. Surgiria numa sala portuguesa cerca de três meses depois da estreia francesa, a 16 de setembro de 1979, no Festival de Cinema da Figueira da Foz, sendo então globalmente recebido com entusiasmo.
Começou aí a circular o mito de que o filme só suscitou opiniões positivas em Portugal depois do triunfo em França. De facto, trata-se de uma pura falsidade. Vários textos celebraram o filme de Oliveira no momento da sua passagem na RTP, incluindo um de João Bénard da Costa, outro de António-Pedro Vasconcelos e ainda outro co-assinado por José Camacho Costa e pelo autor desta nota — para quem quiser conhecer o contexto e a cronologia de tudo isso, poderá ser útil um estudo da autoria de Fausto Cruchinho sobre a “Recepção crítica de Amor de Perdição” (Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra, 2001).
A história do cinema português continua viciada por este tipo de ideias feitas (sobretudo mal feitas), mas nada disso altera a verdade artística de cada filme. A vida dos clássicos é sempre atribulada e, como se prova, conflituosa.

