sexta-feira, abril 17, 2020

17 câmaras para filmar Zidane

Entre os documentários disponíveis nas plataformas de “streaming”, Zidane - Um Retrato do Século XXI é um dos mais originais e fascinantes: trata-se da “reportagem” de um jogo de futebol visto através da performance de um único jogador — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 Abril).

Ao longo deste século XXI, muito se tem falado da diversificação de propostas do género documental. E com justificação, sem dúvida. Mas, nesse domínio, talvez não encontremos nenhum filme como aquele que Douglas Gordon e Philippe Parreno dedicaram a uma figura lendária do mundo do futebol, Zinedine Zidane. Dir-se-ia que pressentindo o alcance simbólico da sua ousadia criativa, os realizadores escolheram mesmo um título inequivocamente ambicioso ou, pelo menos, saudavelmente irónico: Zidane - Um Retrato do Século XXI — é uma das preciosidades actualmente disponíveis online (Filmin).
Que se passa, então? Vale a pena referir que o escocês Gordon e o francês Parreno são artistas muito ligados às imagens, à experimentação videográfica e ao conceito de performance, mas não necessariamente ao universo do cinema. Não admira, por isso, que tivessem encarado a filmagem de Zidane — na altura no Real Madrid, integrando um fabuloso colectivo que incluía jogadores como o brasileiro Ronaldo, o inglês David Beckham e o português Luís Figo — muito para lá de qualquer modelo decorrente das regras televisivas de tratamento do futebol.
Em boa verdade, seguimos “apenas” as ocorrências de um Real Madrid-Villarreal, disputado a 23 de abril de 2005 no Estádio Santiago Barnabéu. Com uma “pequena” diferença conceptual: a dupla de realizadores teve à sua disposição 17 câmaras que, em vez de seguirem os ziguezagues da bola, se mantiveram “coladas” à figura de Zidane, aos seus movimentos e também aos seus momentos de quietude. O resultado é fascinante, já que consegue produzir algo de visceralmente cinematográfico e, claro, alheio às normas do dispositivo televisivo.


Não se trata, entenda-se, de sugerir que esta forma de abordagem do futebol — e, mais concretamente, de um jogador de futebol — deveria ser adoptada pelas televisões. A questão é outra e, sobretudo, é de outra natureza. Gordon/Parreno procuram qualquer “coisa” de indefinível que começa na contemplação da duração do jogo, sobretudo das acções que não costumam suscitar a atenção das câmaras televisivas, desembocando numa desconcertante intimidade com o próprio jogador.
Daí o efeito onírico do filme, mesmo se as suas imagens estão contaminadas por muitas componentes realistas. Daí também a opção por uma banda sonora musical de bizarra sensualidade, a cargo da banda escocesa Mogwai. Tudo se passa como se Zidane - Um Retrato do Século XXI fosse um tratado, tão cerebral quanto lúdico, sobre as imagens e os sons nascidos das novas tecnologias, de algum modo levando-nos a repensar os efeitos de “reportagem” que, todos os dias, pontuam o nosso espaço mediático e, em especial, como é óbvio, a comunicação televisiva.
Para a história, vale a pena recordar que o jogo terminou com a vitória do Real Madrid por 2-1. Mas quem não terminou o jogo foi o próprio Zidane que, aos 90 minutos, se envolveu numa discussão, tendo sido sancionado com um cartão vermelho — estava-se na 27ª jornada de La Liga e o líder Barcelona viria a sagrar-se campeão.