segunda-feira, fevereiro 11, 2019

João César Monteiro — a memória dos filmes

O ciclo ‘Viva João César Monteiro’ permite-nos reencontrar a obra de um cineasta capaz de desafiar convenções e ideias feitas: começou no Porto, prolongando-se por Braga, Lisboa, Coimbra e Setúbal — este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 Fevereiro).

Será que um dos problemas do cinema português é a sua ausência da memória colectiva dos portugueses? A pergunta pode atrair respostas muito contrastadas, porventura contraditórias. Mas todos estaremos de acordo sobre a necessidade de preservar essa memória. Aí está uma iniciativa que tenta corresponder a tal necessidade. Organizado pela Medeia Filmes e a Leopardo Filmes, o ciclo ‘Viva João César Monteiro’ é isso mesmo que está na sua designação: uma celebração da obra de um cineasta que marcou de forma indelével, não apenas a história do cinema português, mas os modos de pensar as suas grandezas e misérias.
O pretexto do evento é uma efeméride: falecido em 2003, João César Monteiro teria feito 80 anos no passado dia 2. O ciclo arrancou no dia 5 na cidade do Porto (Rivoli e Campo Alegre, dias 5 e 6). Segue-se Braga (Theatro Circo, dias 11 e 17), Lisboa (Monumental, 17 a 20), Coimbra (Teatro Académico Gil Vicente, 18) e Setúbal (Auditório Charlot, 21, 22 e 28; 1 de Março).
Conhecida a dimensão provocatória da obra do cineasta e também a sua vocação de polemista (foi, além do mais, um talentoso crítico de cinema), será salutar evitarmos qualquer processo de canonização dos seus filmes. Acima de tudo, importa contrariar um efeito de consagração que nos empurre para uma beatitude sem alma. Veja-se o que aconteceu em torno da figura de Manoel de Oliveira: depois de décadas de repúdio militante de muitos dos seus filmes, numa atitude quase sempre enraizada no desconhecimento dos próprios filmes, o seu falecimento, em 2015, desencadeou um generalizado processo de consagração como “mestre” que, no mínimo, soa a falso.
Ora, justiça seja feita, João César Monteiro nunca foi artista de suscitar unanimidades. Como é normal acontecer com os autores que têm a coragem de desafiar os limites da expressão cinematográfica, há vários dos seus filmes que nem sempre foram recebidos de forma entusiástica (incluindo pelo autor deste artigo).
Dito de outro modo: importa regressar ao convívio com o seu trabalho e percorrer os ziguezagues de uma trajectória que talvez se possa definir, globalmente, pela defesa de um realismo interior ao próprio cinema. Nada a ver com o naturalismo mediático que hoje prolifera, mais ou menos sustentado pelo pobre imediatismo dos telemóveis e as montagens aceleradas que proliferam na Internet. Nada disso. Antes um realismo que nasce da paixão pelo cinema como lugar de invenção de uma outra dimensão humana, talvez poética, sem dúvida inimiga da futilidade moral e do pensamento seguidista.
A exigência ética e estética do labor de João César Monteiro terá tido a sua expressão mais célebre no filme Branca de Neve (2000), adaptação “selvagem” de uma obra do escritor suíço Robert Walser (1878-1956). Como é sabido, a apresentação do texto de Walser aconteceu, na sua quase totalidade, sobre o ecrã a negro (tendo o filme a duração de 75 minutos). Permito-me relembrar que, na altura da estreia, escrevi que, desse modo, o filme “cria um maniqueísmo formal que ao fim de cinco minutos se torna redundante e previsível, isto é, que acaba por se atolar no seu próprio academismo.”
Apesar disso (ou precisamente por causa disso), importa acrescentar que o formalismo fácil de Branca de Neve nasce de uma revolta artística que, mais do que nunca, importa reconhecer e, pedagogicamente, compreender: trata-se de questionar o triunfo quotidiano de imagens (e sons!) convencionais e redundantes que, em última instância, menosprezam a inteligência do próprio espectador.
Curiosamente, em alguns momentos emblemáticos, através dos sinais dessa revolta, João César Monteiro lidou com uma questão que, com o passar dos anos, se tornou inerente a muito do cinema mais interessante que se vai fazendo nas mais diversas geografias e culturas. Que questão é essa? Pois bem, a discussão sempre em aberto das diferenças entre “documentário” e “ficção”, acrescida da permanente possibilidade de contaminação criativa das respectivas linguagens.
Três exemplos podem ajudar-nos a situar tal questão:
— SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN (1969). É o primeiro título da filmografia do realizador e, a meu ver, um dos mais depurados objectos que ele criou. Encontramos, aqui, a fragilidade de um típico home movie sobre a poetisa e o seu espaço familiar, fragilidade que se transfigura em verdade dos instantes e dos gestos — completamente realista, insolitamente cósmico.


— VEREDAS (1978). Historicamente, é muitas vezes citado como um “descendente” do admirável Trás-os-Montes, realizado dois anos antes por António Reis e Margarida Cordeiro. Haverá alguma justificação para isso, quanto mais não seja porque ambos os filmes ilustram um período de grande (e fascinante!) convulsão da produção portuguesa. Seja como for, João César Monteiro procura algo de muito particular: trata-se de reencenar o património lendário do país para expor uma violência interior que, simbolicamente, nos remete para o nosso presente — cinema político, no sentido mais radical que a designação pode envolver.
— RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA (1989). Tal como em alguns filmes posteriores (incluindo o derradeiro Vai e Vem, de 2003), João César Monteiro assume-se como actor principal, criando uma personagem (João de Deus) que é, de uma só vez, uma projecção sarcástica do seu cepticismo existencial e um ser tendencialmente burlesco que se dá bem com o olhar clínico da câmara de filmar. Por alguma razão perpassa aqui uma sugestão de cumplicidade com a figuração vampiresca do clássico Nosferatu (1922), de F. W. Murnau. Talvez que João César tenha sido um criador que viveu o cinema como supremo gesto de vida, isto é, empreendimento capaz de integrar o silêncio da morte. Estranhamente ou não, isso confere aos seus filmes, mesmo os menos conseguidos, uma alegria alheia ao jogo medíocre dos nossos cinismos.