segunda-feira, julho 20, 2015

Telenovelas e outras coisas virais

1975
A telenovela tornou-se o exemplo máximo, quer dizer, mais poderoso, da televisão que se repete infinitamente — este texto foi publicado no Diário de Notícias (17 Julho), com o título 'Ser ou não ser viral'.

1. A presença de telenovelas nas grelhas de programação tornou-se viral. Quase sempre utilizada a propósito dos fenómenos mais anedóticos — por exemplo: uma queda acrobática de alguém que atrai milhares de visitantes no YouTube —, a palavra “viral” pode e deve ser aplicada aos modos de organização da linguagem televisiva dominante. As telenovelas, precisamente: além do poder devastador de ocupação dos horários nobres (poder que não partilham com nenhuma outra matriz televisiva), são também conteúdos que estão sempre a ser repetidos. A cultura não se faz de “ópera” e “bailado”, mas sim dos valores que dominam o espaço da comunicação... Daí a renovada pergunta (cultural, precisamente): quem tem coragem para discutir a telenovela como o padrão narrativo dominante na sociedade portuguesa?

2012
2. Faço um zapping sobre noticiários e encontro uma referência ao acordo “histórico” sobre o programa nuclear do Irão. Desta vez, curiosamente, ninguém se lembra de entrevistar algum político indignado que profira alguma diatribe automática contra a administração Obama... Em todo o caso, fico com uma estranha sensação de duração. Não cronometrei, é um facto, mas a notícia não terá durado uns escassos 30 segundos. Notícia seguinte? Os feridos nas festas de San Fermin, em Pamplona, com exuberantes detalhes sobre a velocidade dos touros e o número de feridos — e assim se cumpre um minuto de colorida informação.

3. Em nome do “Verão” e do “divertimento”, as televisões estão cheias de espectáculos ao ar livre em que desfilam as mais patéticas mediocridades musicais, tudo misturado com a promessa de muitos prémios em dinheiro... Há uma curiosa perversão simbólica nesta poderosíssima cultura do “entretenimento”: por um lado, durante a tarde, convidam-nos a usufruir e celebrar a sedução e os privilégios do dinheiro; por outro lado, à noite, esmagam-nos com a tragédia grega, o apocalipse da Europa e as angústias da moeda única — sistemas virais de um pensamento sobre coisa nenhuma.