segunda-feira, outubro 01, 2012

O cais do olhar

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Vulnerável, sem dúvida. A aparente placidez do olhar e o leve esboçar do sorriso que mostra a quem se senta à sua frente parecem realidade bem distante da violência de uma outra performance, na qual se lançava contra uma parede ou outra, em que cortava na pele a figura de uma estrela de cinco pontas... Mas na verdade tanto uma como outras são desafios que lança ao seu corpo, entregando-o à expressão de uma ideia, um jogo de formas, uma carteira de intenções. Falamos de arte. De arte performativa. De uma das suas maiores criadoras: Marina Abramovic. E de um filme, de Mathew Akers – Marina Abramovic – The Artist is Present – que passou este ano por Sundance e pela Berlinale e que, na semana passada, teve estreia portuguesa integrada na programação do Queer Lisboa 16. É certamente um dos melhores filmes que podemos ver este ano. É tudo menos uma peça “difícil” para plateia minimalista. Pelo contrário, tem o poder de encanto de um Pina, de Wim Wenders (e a capacidade de cativar o mesmo público). Porque não há então sinais de qualquer aparente interesse de um distribuidor nacional em levar a sala este filme? (*)

O olhar de que falava no início do texto é o que, durante três meses (enre março e maio de 2011), dia após dia, Marina Abramovic lançava aos que se sentavam à sua frente no átrio do piso 2 do MoMA (Museum of Modern Art, em Nova Iorque), onde uma retrospetiva da sua obra esteve em exposição, ali chamando mais de 700 mil visitantes durante este período. Com o título The Artist Is Present (e de facto a artista esteve sempre presente), a exposição colocou a performance, uma forma de arte iminentemente "efémera", num espaço mais habituado à pintura, à escultura e outras formas fisicamente “estáveis” das artes visuais. Nos pisos superiores havia fotos, vídeos e uma série de jovens performers a recriar algumas das suas mais célebres criações. Mas era num átrio (junto a uma das livrarias do museu) que se centravam mais atenções, Marina habitando o espaço em permanência, sob a presença de fortes luzes esperando, sentada, a visita, um após outro, dos que à sua frente se sentavam para olhar para si.

O que o filme nos mostra é um olhar que concilia a contemplação desta performance de três meses com os bastidores da sua preparação (bem como da exposição onde representava a “peça nova”), juntando ainda olhares sobre criações anteriores, a sua história pessoal e artística, as suas dúvidas e anseios enquanto criadora e panoramas sobre o que, nos pisos sobre o átrio onde se sentava, os visitantes do MoMA puderam ver.

Como filme, Marina Abramovic – The Artist Is Present é de grande simplicidade formal, optando o realizador por se focar na história, no espaço e na personagem e não no modo de nos apresentar este mundo. Sem embarcar nos desafios de cruzamento de linguagens visuais ou de recurso alternativo à entrevista e off enquanto elemento narrativo, o filme desarmante expressão de um modelo clássico (há talking heads, há uma voz que nos conduz, relata e se confessa). A sua força mora na capacidade de entender o ser maior que tem pela frente. Em respeitar a verdade da performance (e não a ilusão, que a dada altura alguém lembra que é o que separa o performer do ator). Em saber do tempo que o olhar pede frente ao ecrã. Não que o realizador se faça invisível ou mero veículo. Mas antes alguém (claramente rendido ao objeto da sua atenção) com a capacidade de partilhar o protagonismo, a sua forma de ver, o ritmo do seu olhar e o modo de nos ir informando encarando-nos nos olhos. Da mesma forma plácida, mas plena de intenções, com que Marina olhava para os que à sua frente se sentavam.

Podem ver aqui o trailer do filme

(*) Pelo menos até há poucos dias não havia e se já há só nos podemos dar por satisfeitos porque vamos poder (re)ver um dos mais espantosos documentários sobre o mundo da arte que o cinema nos deu nos últimos anos.