quinta-feira, maio 17, 2012

CANNES 2012: homens e mulheres do Egipto

Bela imagem, esta de Baad El Makewaa/Depois da Batalha, apresentado na secção competitiva de Cannes: o homem, com o seu cavalo (para conduzir os turistas na zona das pirâmides do planalto de Gizé), é o centro simbólico de um mundo em que quase todos os poderes lhe pertencem; a mulher, de uma nitidez firme e afirmativa, expõe-se ainda ameaçada de... sair da imagem.
Realizado por Yousry Nasrallah, que foi assistente de Youssef Chahine (1926-2008), Depois da Batalha trouxe à competição o sentimento muito contemporâneo da necessidade de reagir à normalização "informativa" das poderosas mensagens televisivas, em particular contrariando a ideologia maniqueísta que tende a reduzir qualquer situação a um fechado mecanismo de "prós" e "contras". Trata-se, neste caso, de recuperar os ecos ainda muito intensos das convulsões que tiveram o seu pólo simbólico na Praça Tahrir, no Cairo, para elaborar uma narrativa que consegue a proeza de integrar imagens ("televisivas") dos acontecimentos, deslocando a sua lógica para dimensões muito mais humanas e infinitamente mais complexas. Particularmente interessante é o modo como o trabalho de Nasrallah consegue colocar em cena as relações masculino/feminino sem alienar a complexidade irredutível de cada personagem. Nos seus riscos e imperfeições, este é um filme que tem o imenso mérito de lidar com de forma crítica, e criticamente inteligente, com o seu/nosso presente.
Fica o contraste dessa urgência com a "perfeição" cada vez mais formatada do cinema de Wes Anderson: Moonrise Kingdom, título de abertura oficial do certame, deixou a sensação bizarra de que, apesar do regresso dos temas emblemáticos — a (não)comunicação entre jovens e adultos, o poder utópico do amor, a dimensão irrisória das hierarquias humanas —, este é um universo encalhado numa lógica contemplativa cada vez mais académica.