Desde a divulgação oficial do cartaz da 65ª edição do Festival de Cannes (ocorrida a 28 de Fevereiro), dir-se-ia que, para além do imaginário inerente ao cinema e à cinefilia, o certame tem um imaginário próprio, centrado na estrela que figura no cartaz: Marilyn Monroe, soprando um bolo de aniversário.
Como todas as imagens que se cruzam com a vertigem do mito, também esta é esplendorosamente ambígua. De facto, este ano, a efeméride "incontornável" em torno de Marilyn é a da sua própria morte, ocorrida a 5 de Agosto de 1962 — 50 anos depois, o mundo continua a administrar a sua ausência como um fenómeno de pura e insensata intimidade, misto de celebração e luto selado por uma mágoa que prolongamos com uma persistência que a própria tristeza de Marilyn parece autorizar, ad aeternum. Não admira, assim, que Cannes seja, por estes dias, uma espécie de sala de estar recheada de evocações de Marilyn: da mais discreta lojinha de doces aos painéis de rua, a iconografia da actriz está presente por todo o lado, incluindo, claro, as livrarias e as bancas de jornais. Neste campo, importa destacar o número especial 'Marilyn - au-delà de l'icône', editado pela revista Les Inrockuptibles.
Triste também é o aspecto da English Bookshop, no nº 11 da rua Bivouac Napoléon (muito perto do Palácio dos Festivais): tudo desmanchado, lá dentro parece uma confusa casa de arrumação de umas obras esquecidas... Será que acabou um dos mais lendários locais frequentados pelos habitués do festival?

