terça-feira, maio 31, 2011

Georges Méliès em Cannes/2011


Por mais desconcertante que isso possa parecer, um dos grandes acontecimentos de Cannes/2011 foi um filme com nada mais nada menos que 109 anos — este texto foi publicado no Diário de Notícias (29 de Maio), com o título 'Redescobrindo Méliès em Cannes'.

Uma das sessões mais emocionantes do 64º Festival de Cannes (11/22 Maio) durou apenas 15 minutos. É o tempo de projecção do lendário filme Le Voyage dans la Lune/Viagem à Lua, realizado em 1902 por Georges Méliès (1861-1938). Tradicionalmente consagrado como símbolo perfeito dos primeiros envolvimentos do cinema com a fantasia figurativa (e, em boa verdade, da invenção dos efeitos especiais), era um daqueles títulos que tinha dado entrada na história do cinema como um objecto para sempre amputado. De quê? Das suas cores originais.
Sabia-se que Méliès, também pioneiro na técnica de colorir os fotogramas dos filmes, tinha produzido uma versão a cores. A sua existência passou a ser um elemento nostálgico da memória mitológica do cinema e Le Voyage dans la Lune foi, para sucessivas gerações, apenas um filme a preto e branco. Até que, no começo dos anos 90, a Cinemateca de Barcelona recebeu (de um doador anónimo) uma cópia colorida. Era uma boa notícia, mas também um imbróglio porventura sem solução: Le Voyage dans la Lune apresentava-se num avançado estado de degradação e qualquer manipulação demasiado brusca ameaçava pegar fogo ao delicado material (nitrato) utilizado nas cópias do período mudo. O que descobrimos em Cannes é o resultado (deslumbrante!) de um trabalho de mais de uma década, conduzido pelos laboratórios Technicolor, com o apoio da Fundação Groupama Gan (mecenas do cinema francês que financia, em particular, a recuperação do património cinematográfico e a produção de filmes de novos cineastas).
Foi preciso tratar quimicamente o nitrato de modo a torná-lo mais manipulável (processo que ocupou os técnicos de 1999 a 2002), para só depois se passar ao restauro das imagens, tomando como referência uma cópia a preto e branco disponibilizada pelos herdeiros de Méliès. Na prática, foram restaurados, um a um, nada mais nada menos que 13375 fotogramas.
Para criar a banda sonora do “novíssimo” filme de Méliès, foi convidado o grupo francês Air, célebre pelas suas composições electrónicas, autor de álbuns como Moon Safari (1998) e Talkie Walkie (2004), ou ainda da banda sonora do filme As Virgens Suicidas (2000), de Sofia Coppola. O menos que se pode dizer é que a estranheza futurista da música dos Air joga muito bem com o gosto experimental de Méliès, gerando, à distância de 109 anos, uma insólita cumplicidade artística. Mais do que isso: a escolha dos Air reflecte a dinâmica criativa, económica e simbólica do próprio cinema contemporâneo, ligando as memórias mais remotas com os modernos recursos digitais.
A esse propósito, vale a pena referir que alguns dos mais interessantes filmes de Cannes exibiram o fascinante paradoxo do digital. Exemplo: o extraordinário Once Upon a Time in Anatolia, do turco Nuri Bilge Ceylan, produto admirável de um realismo austero, rodado com uma sofisticada câmara digital.