quinta-feira, setembro 30, 2010

Tamara Drewe regressa às origens


Um dos efeitos mais bizarros da catalogação obrigatória do cinema (entenda-se: para efeitos de difusão comercial) é o modo como a sua terminologia pode passar ao lado da especificidade dos filmes. Tamara Drewe, por exemplo. Apresentado e lançado em todo o lado como uma comédia — sobre uma residência rural para escritores, subitamente abalada pelo regresso de Tamara (Gemma Arterton), uma "filha da terra" —, o filme encerra uma visão muito contundente, e também muito amarga, do género humano. Nada, aliás, que seja estranho a outros momentos igualmente exemplares da filmografia de Stephen Frears (basta lembrar Ligações Perigosas ou Estranhos de Passagem, respectivamente de 1988 e 2002).
Claro que Tamara Drewe é uma comédia — aliás, recheada de momentos subtis e cortantes de humor. Acontece que, de Chaplin a Woody Allen, a grande comédia nunca foi essa colecção de disparates que o lugar-comum social resume na fórmula do "para rir". Como se o riso nos colocasse numa zona límpida e sem contradições. Bem pelo contrário: o riso é mesmo algo que nos mergulha nas paisagens mais insólitas em que uma coisa pode ser aquilo que é... e também o seu contrário.
Baseado numa novela gráfica de Posy Simmonds [originalmente publicada no jornal The Guardian], Tamara Drewe reflecte, além do mais, a sábia integração dos valores realistas (essenciais na formação de Frears) num esquema de ficção dominado pela ambígua ligeireza do impulso cómico. É um filme sobre os pequenos incidentes do amor e ódio com que os humanos se envolvem. Quase nada... isto é, quase tudo.