terça-feira, julho 11, 2006

Morreu Syd Barrett


Gravou apenas um álbum inteiro com os Pink Floyd, mas é impossível falar na história e música do grupo sem o evocarmos, tantas que foram as marcas que acabou por imprimir numa obra que frequentemente abordou a doença mental, por vezes em referência directa a Syd Barrett. Mas consigo, sobretudo entre 1966 e 67 (ver caixa), os Pink Floyd não só se afirmaram como a primeira banda psicadélica britânica, como uma das aventuras musicais mais visionárias desse tempo em que o som ganhou cor e novos sentidos de liberdade. Afastado, primeiro da banda, em 1968, depois da música, pouco tempo depois, viveu as três últimas décadas de regresso à Cambridge que o viu nascer em 1946. Abandonou o nome de guerra, Syd (roubado em inícios de 60 a um amigo baterista da sua cidade), e respondia de novo com o seu nome: Roger Barrett. Voltou a pintar. Aprendeu a cozinhar e começou a colecionar moedas. Saía à rua para fazer compras, mas só falava com as empregadas das lojas. Paparazzi e fãs visitavam-no. Tiravam-lhe fotografias. Não gostava, mas gostava ainda menos que lhe falassem de quando era músico. Em 1998 a irmã, a única pessoa que se manteve por perto, ofereceu-lhe uma aparelhagem áudio, para que pudesse escutar os discos de que mais gostava: Rolling Stones, Booker T & The MG's e compositores clássicos. Pink Floyd não voltou a escutar. E quando a EMI lançou a antologia dos Floyd Echoes, em 2001, não se manifestou. Todavia, viu pouco depois, em casa da irmã, um documentário que a BBC transmitiu sobre a "sua" banda... Gostou, embora o criticasse por muito "barulhento". E saboreou, sobretudo, uma velha canção que lançara em 1967: See Emily Play. Há oito anos foi-lhe diagnosticada diabetes e prescrita uma medicação que nem sempre seguia à risca. E foi uma complicação associada à diabetes que, na passada sexta-feira, lhe roubou a vida. Em casa. Sem aparato. Sem gente por perto.

Syd Barrett teve, na verdade, uma breve vida musical. Gravou três singles e um álbum com os Pink Floyd (e só participou com uma canção no seu segundo longa duração). A solo registou dois álbuns, um terceiro, de "sobras", lançado mais tarde. Mas era um visionário, experimentando novas dimensões na construção das melodias e sobretudo nos seus arranjos, como se fosse possível traduzir por som as teses de um Aldous Huxley ou Timothy Leary. A sua música, quase toda ela composta entre 1966 e 67, traduz ecos de uma infância feliz, até ao dia em que o pai foi ceifado pela morte antes do tempo. A solo, contudo, o canto denuncia sobre estas palavras uma melancolia, quase desespero, solidão que mal comunica, entope e implode. Assim foi.

Os Pink Floyd devem a sua identidade de berço às visões de Syd Barrett, seu principal vocalista, guitarrista e compositor nos primeiros tempos. Oito dos temas de The Piper At The Gates Of the Dawn são seus, e da sua obra e ideias nasceram inúmeras histórias de fascínio e admiração, David Bowie tendo sido um dos primeiros a manifestar a profunda influência que o músico teve em si.

Mas Syd começou a manifestar comportamentos bizarros no mesmo Verão em que o álbum de estreia dos Pink Floyd somava entusiasmos e cativava fiéis. O intenso consumo de drogas, em particular o LSD, é apontado como gatilho de uma série de manifestações, num quadro que se agravou até se tornar insustentável. Num concerto não tocou senão um acorde. Num outro desafinou a guitarra ao som de Interstellar Overdrive. Quando o grupo passou pelo American Brandstand, nos EUA, não abriu a boca durante o play back televisivo. Muitas vezes não tocava em ensaios, e ao vivo as performances eram surpresa que os colegas nem queriam imaginar. A dada altura contrataram o seu velho colega de escola David Guilmour para tocar guitarra. Até ao dia em que, em viagem para novo concerto, resolveram nem passar pela sua porta para o ir buscar. Em Março de 1968, Syd Barrett estava, oficialmente, fora dos Pink Floyd.

Uma breve carreira a solo, da qual contudo nasceram discos devastadoramente belos, terminou em 1972, quando Syd parecia ter perdido todo o interesse pela música. Em 1974 vendeu à editora os direitos sobre os seus discos e, libras no bolso, mudou-se para um hotel em Londres. Esgotada a carteira, regressou para a cave na casa da mãe. Há quem veja nele um caso de esquizofrenia. Há quem o aponte como Asperger. Seja como for, Gilmour explicou, em recente entrevista, que o seu colapso mental seria inevitável. E que as experiências psicadélicas não foram mais que um gatilho que o acelerou.

PS. Este texto intregra o obituário de Syd Barrett, hoje publicado no DN


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