quinta-feira, dezembro 22, 2016

Nine Inch Nails em vinyl

Os cinco temas de Not the Actual Events, novo EP dos Nine Inch Nails, estarão, por certo, disponíveis nas plataformas digitais (a partir de amanhã, 23). Em todo o caso, o seu lançamento faz-se sob o signo da revalorização do vinyl. No seu site, Trent Reznor colocou mesmo uma bela declaração que começa assim: "Nestes tempos de quase ilimitado acesso a toda a música do mundo, fomos levados a apreciar o valor e a beleza do objecto físico."
Novidade é o nome de Atticus Ross. Não pela sua (longa) colaboração com Reznor — por exemplo, entre as magníficas bandas sonoras que já assinaram, inclui-se a de A Rede Social (David Fincher, 2010), que lhes valeu um Oscar; antes porque, pela primeira vez, Ross surge como elemento oficial da banda. Um dia antes do lançamento, tivemos direito a escutar Burning Bright (Field on Fire).

Os 10 melhores álbuns pop/rock de 2016 (N.G.)


Há uma sensação estranha no momento de fazer as contas a 2016. É que, quando se chega a esta época do ano (e quem gosta de listas sabe disso), é habitualmente da soma de boas memórias que vive o balanço que vamos construindo. Pois a aritmética de 2016 sugere mais a subtração do que a adição. E o adeus a três referências maiores da cultura popular, e falo de David Bowie, de Prince, de Leonard Cohen, acaba por ser peça que quase mais pesa do que as contribuições que, em várias frentes da invenção musical, nos chegaram aos ouvidos ao longo do ano.

Todos eles, curiosamente, tiveram novos discos este ano (o de Prince na verdade tinha já surgido em formato digital, mas apenas num serviço, pelo que foi este ano que se fez ouvir melhor). Dois deles sugeriam já programas de despedida anunciada. Mas num deles não demos por nada até que, dois dias depois do lançamento do disco, a notícia que assombrou o mundo nessa manhã de 10 de janeiro nos deixou saber afinal do que falava David Bowie em Blackstar... E é talvez por aí que devemos começar a recordar o que de melhor temos a recordar dos discos que 2016 colocou na história destes 12 meses de edições...



Desta vez foi diferente, sem a surpresa a acordar-nos na manhã do seu aniversário. O dia do mês era o mesmo: 8 de janeiro. Mas ao contrário do que havia acontecido em 2013, quando o mundo despertou nessa manhã descobrindo que, após dez anos de silêncio, havia uma nova canção de David Bowie e que um álbum novo chegaria e março (gravado durante dois anos em Nova Iorque, em plena era do microblogging e sem que ninguém desse por isso), era chegado um novo disco do qual começámos a juntar peças aos poucos e que revelava aquele que era o seu álbum mais inventivo desde os tempos em que a cidade de Berlim vivia associada aos seus discos (se bem que só Heroes lá tenha nascido por inteiro). Mas mal imaginávamos, quando o estávamos a escutar pela primeira vez, o que na verdade ele guardava em si… Já tínhamos escutado sinais de reencontro de Bowie com o jazz nos dois temas do single que tinha editado em 2014, gravado com a orquestra de Maria Schneider. Depois, em finais de 2015, os temas Blackstar e Lazarus tinham lançados sinais encorajadores de que um Bowie mais negro, mas também mais inspirado, estaria a definir os contornos de um grande disco. Foi de facto um grande disco. Mas também uma carta de despedida, como poucas vezes um artista sabe deixar para quem ficar para a ler... Ou ouvir. Curiosamente outro disco maior de 2016 falava também de morte. Mas neste caso tratava-se da lamentação de um pai pela perda de um filho, fazendo de Skeleton Tree um dos melhores momentos da obra de Nick Cave com os Bad Seeds. A lista dos dez álbuns pop/rock (e periferias) do ano inclui ainda, em destaque, a proposta de uma nova canção eletrónica, angulosa e política, de Anohni, a visão de uma compositora (Anna Meredith) que derruba barreiras entre a música orquestral e a eletrónica e ainda o registo ao vivo do espetáculo que Kate Bush levou a palco em 2014 e que é dos raros álbuns live que justificam os euros que por ele nos pedirem. Na segunda metade do top 10 há mais um exemplo de excelência pop pelos Pet Shop Boys, um regresso de Paul Simon aos desafios sonoros e geográficos antes levantados em Graceland ou Rhythm of Saints, o reencontro (que já tardava) dos Avalanches com os discos, um segundo opus, mais sombrio, de C Duncan e ainda o disco que mostra como os Radiohead brilham quando arrumam bem as suas ideias.

1 David Bowie, “Blackstar”
2 Nick Cave and The Bad Seeds “Skeleton Tree”
3 Anohni “Hoplessness”
4 Anna Meredith “Varmints”
5 The K Fellowship (Kate Bush) “Before The Dawn”
6 Pet Shop Boys “Super”
7 Paul Simon “Stranger To Stranger”
8 The Avalanches “Wildflower” 9
C Duncan “The Midnight Sun”
10 Radiohead “A Moon Shaped Pool”

A emancipação de uma voz


A reedição da obra de Tori Amos em edições com som remasterizado e acompanhadas por extras tem agora um novo episódio. Há cerca de um ano os álbums Little Earthquakes (1992) e Under The Pink (1994) lançavam este formato para uma revisão de carreira que agora chega a Boys For Pele (1996), o disco que traduz as consequências de uma rutura e de vivências que desencadeariam em si reações que acabaram por determinar o curso dos acontecimentos daí em diante. O fim do relacionamento (pessoal e profissional) com aquele com quem tinha trabalhado a produção desses dois álbuns terá sido o primeiro elemento em jogo de uma série de acontecimentos entre a vida privada e artística que abriram alas à vontade de criar um álbum ainda mais focado em questões identitárias. Se havia já um questionar das relações com o feminino em temáticas diversas (nomeadamente as da religião), Boys For Pele, que chama ao título o nome de uma deusa havaiana, acentua mais ainda a ideia de criar um ciclo de canções que promovem um olhar ainda mais focado em questões de género. Se nas palavras as questões são abordadas de forma incisiva, no som há aqui uma vontade de explorar quer a abrasividade de formas menos polidas quer uma paleta de timbres e soluções instrumentais mais alargadas a outros horizontes, notando-se a presença evidente de um cravo, uma harpa, metais ou o recurso a coros.

A composição, tal como os arranjos, aposta em ousadias maiores, levando a voz de Tori Amos para fora das zonas de conforto anteriores, mostrando o alinhamento o retrato do enfrentar de um desafio que termina com final (artisticamente) feliz. Em suma, Boys For Pele abre novas possibilidades, que tanto a compositora como a cantora levam a bom termo, num trabalho que passa a tomar em mãos, daí em diante passando a ser ela mesma a escultora da sua obra desde o imaginar da primeira nota e palavra ao fechar da mistura de uma gravação.

Boys For Pele é um disco longo, surgindo na nova edição todo o conteúdo original do alinhamento (com 18 temas) no CD1. O CD 2 integra, por sua vez, temas originalmente editados nos lados B dos singles deste período e junta outros extras mais, alguns deles canções originalmente gravadas durante as mesmas sessões, mas que por diversas razões acabaram fora do alinhamento quer do álbum, quer dos singles. São disso exemplo Walk To Dublin (que entretanto surgiria mais tarde em outros lançamentos) ou To The Fair Motormaids of Japan, que aqui vê finalmente a luz do dia. Não falta também a versão remisturada de Professional Widow, que levou ainda mais longe as ousadias desta etapa na obra de Tori Amos.

A IMAGEM: Rembrandt, c. 1669

REMBRANDT
O Regresso do Filho Pródigoc. 1669

Os refugiados vistos pela Magnum

PAOLO PELLEGRINI
Ilha de Lesbos, Grécia
2015
O italiano Paolo Pellegrini obteve esta fotografia em Lesbos, em Setembro de 2015, num período em que naquela ilha grega chegaram a estar 15 a 20 mil refugiados (cerca de 70% provenientes da Síria), aguardando o seu registo pelas autoridades e alguma decisão sobre o destino que podiam seguir. Como ele recorda, a situação foi-se degradando — "dormindo no chão, sem acesso a instalações sanitárias, sob altíssimas temperaturas".
É apenas um dos exemplos com que a agência Magnum dá a ver o trabalho dos seus fotógrafos (incluindo depoimentos sobre as respectivas imagens), testemunhando a crise dos migrantes: Alex Majoli, Stuart Franklin e Olivia Arthur são outros profissionais representados num impressionante dossier que podemos descobrir no site da Magnum.

quarta-feira, dezembro 21, 2016

Nome próprio [citação]


>>> É muito bom ser-se um nome próprio que tem mais confiança numa nota escrita do que no seu corpo. Não é fácil explicar isso às pessoas que estão persuadidas que o seu corpo, quer dizer antropomorficamente a imagem do seu corpo no espelho, é o lugar de onde viria aquilo que dizem, logo aquilo que escrevem. É aliás por essa razão que aquilo que escrevem tem tão pouco interesse.

PHILIPPE SOLLERS
Le Cherche Midi, 2008

2016 — 5 telediscos [Jeff Buckley]


[ Coldplay ]  [ Kaytranada ]

Em 2016, Jeff Buckley (1966-1997) celebraria 50 anos; em 2017, terão passado 20 anos sobre a sua morte. 2016 fica também como um tempo de redescoberta da poética trágica de Buckley, através da edição de You and I, álbum de registos de 1993, um ano antes do lançamento do emblemático Grace, contendo várias versões de temas de outros autores e dois originais de Buckley (Grace e Dream of You and I). Como fazer, então, um teledisco para uma canção ligada a tão intensas memórias, para mais assombradas por um tão insuperável vazio? A resposta dada por Amanda Demme tem tanto de delicadeza como de perturbação — escutamos I Know It's Over (The Smiths) como a fábula de um interminável desejo de retorno ao silêncio da utopia materna.

2016 — 5 fotogramas [Sokurov]

Duas personagens contemplam a Mona Lisa. Estamos no Museu do Louvre, claro, mas não no museu que pertence à museologia — trata-se do espaço revisto e reinventado por Aleksandr Sokurov na sua Francofonia, desafiando as fronteiras tradicionalmente desenhadas entre representação e coisa representada. Ou ainda: Napoleão e Marianne (a figura alegória da República Francesa) são tão artificiosos, e também tão reais, quanto a dama que está no quadro. O cinema reproduz, não as coisas como elas são, mas o que nós somos através do modo como as imaginamos.

Ver + ouvir: Tears Run Rings,
Things Have Changed



Chamam-se Tears Run Rings, são de origem californiana mas hoje moram em lugares separados da costa oriental norte-americana. In Surges é o seu mais recente disco. Um álbum talhado em regime showgazer, invernoso, mas com aquela luz tão característica dos dias de inverno. Aqui fica um dos temas desse disco que, para já, está apenas disponível em suportes digitais.

Os Beatles... e o nono dia da semana

Não tinham avisado ninguém, mas quando pisaram o palco instalado no meio do relvado do estádio de Candlestick Park, em São Francisco (Califórnia, EUA), a 29 de agosto de 1966, os Beatles sabiam que aquele era um lugar onde não queriam regressar. Os tempos estavam a mudar. E tanto o seu último álbum – Revolver, editado semanas antes – como o também recente Pet Sounds dos Beach Boys mostravam que o estúdio era agora um espaço com novas possibilidades a explorar para os criadores de música. E, sem vontade em gastar tanto tempo na estrada a repetir canções e cumprir rotinas promocionais, era no estúdio que queriam concentrar as atenções. Nos novos discos, nos novos desafios… Assim sendo, aquele seria um adeus às plateias. Esse fim de uma era foi o começo de uma ideia para que o cinema regressasse ao universo dos Beatles. E depois de uma consulta exaustiva aos arquivos conhecidos e de pedidos para que particulares lhe mostrassem o que para todos nós era até aqui ainda desconhecido, Ron Howard criou o incrível Eight Days A Week, uma viagem através da etapa de vida dos Beatles na qual o palco era a sua casa. É um relato naturalmente pensado para ser contado no tempo e no espaço habituais para uma ida à sala de cinema. E tem em si as personagens, as imagens, as surpresas, os momentos de glória e também os de drama que uma trama ao serviço de uma narrativa cinematográfica pode explorar.

E agora?

E agora chega a hora de levar a experiência para casa. E se a possibilidade de ver e rever, de parar e puxar atrás, é uma das realidades do visionamento caseiro, já a capacidade de juntar algo mais ao filme é também outro argumento que pode valorizar, depois de visto o filme na sala escura, uma nova etapa do nosso relacionamento com a obra, agora em casa… E o disco de extras justifica esta ideia. Há sequências de imagens montadas – criadas durante as mesmas entrevistas que geraram os planos usados no filme – que nos permitem olhares complementares. E ali tanto se fala da história criativa da autoria das canções, como se observa com maior detalhe a génese da banda. Há ainda um lote com uma série de atuações ao vivo de canções que podemos ver na íntegra. E também depoimentos extra entre os quais aprofundamos descobertas feitas em Eight Days a Week… Como nas memórias das passagens pela Austrália e Japão (aqui com um ponto de vista mais vincado sob o mapa político que então acolheu a chegada dos fab four) e as palavras de Ronnie Spector, que recorda como, a pedido dos Beatles, ela os foi “salvar” do cerco das fãs e os levou, sem que ninguém desse por isso, a um diner no Harlem, onde comeram sem que ninguém os incomodasse, vivendo momentos quase incógnitos quando eram as estrelas de que mais se falava naquele momento em Nova Iorque. Este disco extra só por si já justifica a edição em DVD e Blu-Ray… É um pouco como o nono dia, da semana de oito, que Ron Howard tão bem retratou.