segunda-feira, março 01, 2021

Globos de Ouro & etc.

Quem ganhou os Globos de Ouro da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood? Lembremos apenas os dois principais vencedores:

* Melhor filme drama: NOMADLAND.
* Melhor filme musical/comédia: BORAT SUBSEQUENT MOVIEFILM.

> lista integral de vencedores no site da HFPA.

E agora?... Como preservar a lógica destas cerimónias num mundo compulsivamente online? A apresentação de Tina Fey e Amy Poehler (a primeira em Nova Iorque, a segunda em Los Angeles) teve qualquer coisa de festivo e desesperado [video]. Deixando uma perversa, mas didáctica, interrogação: será que a sua performance, esforçada e talentosa, corresponde ao canto do cisne de um modelo que o mundo virtual não consegue sustentar? Afinal de contas, numa das promoções do evento, Fey proclamava: "Se jogarmos bem os nossos trunfos, este poderá ser a última cerimónia de prémios de sempre!"

domingo, fevereiro 28, 2021

Dick Johnson, viver, morrer e filmar

Dick Johnson filmado por Kirsten Johnson

Em Dick Johnson Is Dead (Netflix), Kirsten Johnson filma a morte do pai que, pormenor importante, está vivo... ou como o documentário pode integrar elementos de comédia — este texto foi publicado no Diário de Notícias (18 fevereiro), com o título 'Bolo de chocolate é melhor que morrer'.

É bem verdade que a abundância da oferta das plataformas de streaming não significa que os filmes mais originais ou, pelo menos, mais consistentes tenham a visibilidade que merecem. Aí está o exemplo de Dick Johnson Is Dead (Netflix). Foi David Fonseca quem, também no DN, na rubrica “7 dias, 7 propostas” (16 janeiro), primeiro chamou a atenção para as suas singularidades. Entretanto, a realização de Kirsten Johnson adquiriu especial visibilidade na corrida para os Óscares: Dick Johnson Is Dead integra a chamada “short list” dos quinze títulos que poderão chegar a uma das cinco nomeações na categoria de melhor documentário.
Vale a pena, por isso, perguntar de que modo tal facto se reflecte na vida comercial do filme. Não para reduzir as plataformas de streaming ao maniqueísmo mais banal: não se trata de as santificar… porque nos dão a ver “tudo”, mas também não creio que nos conduza muito longe a sua demonização… porque estão a “matar” o mercado clássico. Sem deixar de recordar que a complexidade dos problemas em jogo não cabe neste texto, permito-me apenas observar que nem mesmo o facto de Dick Johnson Is Dead poder vir a ganhar um Oscar (ou apenas obter uma nomeação) mudou o que quer que seja na triste banalidade da sua promoção. Aliás, uma vez mais, sem ceder a nacionalismos balofos, importa também perguntar: já nem sequer há a preocupação de, pelo menos nos casos em que isso é linearmente possível, traduzir os títulos originais?
Kirsten Johnson fez um filme que faz jus ao seu título: “Dick Johnson Morreu”. Com uma ironia saborosa. Entenda-se: Dick Johnson, pai da realizadora, sofre de demência, mas com a festiva cumplicidade da filha está apostado em proclamar que a notícia da sua morte é francamente exagerada… Até porque, antes que aconteça qualquer despedida, convenhamos que há ainda muitos bolos de chocolate para comer em pachorrenta degustação.
Assim mesmo: estamos perante um documentário que, sem complexos puristas, se assume também como comédia familiar. Literalmente: a realizadora vai dando conta da discreta multiplicação dos sinais da doença no quotidiano, desde logo pondo em causa a actividade profissional do pai (psiquiatria); ao mesmo tempo, com a sua bem disposta participação, cria cenas de desconcertante artificialismo cujo tema é… a morte de Dick Johnson.
Deparamos, assim, com um duplo risco: primeiro, encarando o trabalho documental não como uma “transcrição” do que quer que seja, antes como uma matriz narrativa que, com imaginação e rigor, pode integrar as mais diversas componentes, incluindo as que provêm da comédia burlesca; depois, resistindo a formas correntes de abordagem (cinematográfica e não só) das doenças em que predominam a vitimização compulsiva dos doentes ou a culpabilização automática dos médicos (muitas vezes, as duas coisas). Morrer não é uma boa notícia, mas Dick Johnson Is Dead é a prova muito real de que o cinema pode ser um salutar exercício de pensamento e partilha afectiva.

Julien Baker, opus 3

Depois de Sprained Ankle (2015) e Turn Out the Lights (2017), a americana Julien Baker (n. 1995) terá pensado que passou o tempo das divagações mais ou menos acústicas, aliás reforçando a experiência de Boygenius (2018), de autoria repartida com Phoebe Bridgers e Lucy Dacus. Aí está Little Oblivions, bela colecção de uma dúzia de delicadas canções sustentadas por uma impecável produção. E também por uma cuidada iconografia: eis o teledisco de Hardline, magnífico exercício de animação com assinatura de Joe Baughman.

sexta-feira, fevereiro 26, 2021

"Malcolm & Marie"
ou os filmes a preto e branco
já não são o que eram

Uma boa metade da história do cinema existe em imagens a preto e branco, o que não impede que, por puro preconceito, os respectivos filmes sejam frequentemente rejeitados… por lhes faltar a cor — este texto foi publicado no Diário de Notícias (14 fevereiro).

Paradoxos da vida cinéfila… Ao longo dos anos, deparei com uma reacção frequente aos filmes com imagens a preto e branco. Seriam sintoma de uma pobreza expressiva, e até técnica, que as cores vieram “corrigir”. O preto e branco não passaria de um sinal de pretensiosismo estético e vaidade filosófica, apenas celebrado por um público minoritário de intelectuais… Sem esquecer que há toda uma cultura do insulto que aplica a palavra “intelectual” como um gesto automático de ostracismo e subsequente purificação.
Pertenço aos vencidos. Não conheço argumentação racional capaz de anular o esquematismo de tais preconceitos. Nem mesmo a sensatez de que nenhum filme é “melhor” ou “pior” por ter sido rodado a preto e branco (ou a cores, se for caso disso). Tornou-se mesmo inútil recordar que uma boa metade da história do cinema existe a preto e branco. Com a generalização dos televisores a cores (a partir de 1980, em Portugal), até mesmo o romance de Humphrey Bogart e Ingrid Bergman no preto e branco de Casablanca (1942) pode ser encarado como um incidente sem alternativa.
A demonização do preto e branco cruzava-se, por vezes, com a triunfante ridicularização dos filmes em que era mais evidente o peso e, sobretudo, a duração dos diálogos. Exemplo supremo: A Minha Noite em Casa de Maud (1969), obra-prima de Eric Rohmer nascida ainda sob o signo da Nova Vaga francesa. Como se não bastasse a heterodoxia do seu catolicismo, Rohmer dava-se ao luxo de acumular dois pecados sem remissão: filmava a preto e branco (com direcção fotográfica do espanhol Néstor Almendros, um dos génios da história das imagens cinematográficas) e massacrando-nos com “intermináveis” diálogos… Pior um pouco: as personagens eram intelectuais da zona de Clermont-Ferrand e passavam o tempo a perorar sobre Pascal, os labirintos da matemática, as convulsões do catolicismo, a noção de pecado e outras coisas dispensáveis.
Estou a caricaturar? Talvez, ma non troppo. Esse tipo de resistência aos elementos específicos de determinados filmes sempre existiu. O que favorece uma ignorância que nada tem que ver com “gostos” seja de quem for. Tal resistência impede que os filmes sejam, pelo menos, descritos através dos seus elementos e não em função de estereótipos que ignoram tudo da sua especificidade. Como se alguém começasse a denegrir o futebol porque aqueles esforçados rapazes não utilizam uma bola de ténis…
Chegamos a 2021, tempo do streaming triunfante. E paradoxal. Observo a feliz agitação com que tem sido recebido o filme Malcolm & Marie, realizado por Sam Levinson, heroicamente nos tops de consumo da Netflix. Confesso-me enredado em perplexidade e confusão. Porquê? Por dois factos insólitos: primeiro, eis um filme a preto e branco; depois, as duas únicas personagens (Zendaya e John David Washington) preenchem mais de 100 minutos do nosso precioso tempo a falar, a falar, a falar…
Entenda-se: considero o filme muito interessante. Seduz-me o seu estilo de diálogos saborosamente “teatralizados” que tem uma referência modelar na obra de David Mamet, a meu ver um dos autores marcantes de toda uma reconversão crítica da dramaturgia clássica de Hollywood. Não creio que Levinson possua a verve de escrita, nem a complexidade simbólica, de Mamet, mas isso em nada diminui a energia contagiante do seu filme.
Acontece que aquilo que era (e continua a ser) encarado como uma “limitação” cinematográfica, parece anular-se agora numa nova conjuntura de consumo. Como se a memória cinéfila fosse um buraco sem fundo. Será que os entusiastas de Malcolm & Marie vão a correr à conta de Instagram da Fundação de Serralves para aceitar uma das suas sugestões e descobrir Gertrud (1964), do dinamarquês Carl Th. Dreyer, por certo um dos mais prodigiosos títulos já rodados a preto e branco?
A pergunta que emerge é, em última instância, de natureza cultural: com a multiplicação da oferta do streaming, que espectadores estão a nascer? Ou ainda: há neles uma genuína disponibilidade para conhecerem a pluralidade da história do cinema ou são apenas peões incautos de fenómenos de marketing? “Teremos sempre Paris”, diz Bogart, mas não creio que seja essa a questão.

quinta-feira, fevereiro 25, 2021

The Kills, "Baby Says"


É mais uma preciosidade da colecção de videos que The Kills recentemente disponibilizaram: Baby Says, tema emblemático do álbum Blood Pressures (2011) em performance televisiva — 5 estrelas!
 

quarta-feira, fevereiro 24, 2021

Lawrence Ferlinghetti (1919 - 2021)

[ City Light Books ]

Poeta e editor, o seu nome está indissociavelmente ligado à Geração Beat: nascido em Nova Iorque, Lawrence Ferlinghetti faleceu no dia 22 de fevereiro em sua casa, em São Francisco, vítima de doença pulmonar — contava 101 anos.
A fundação da livraria, depois também editora, City Lights, em 1953, em São Francisco, e a edição de Howl, de Allen Ginsberg, em 1956, são momentos emblemáticos de uma vida dedicada à divulgação e à beleza da palavra escrita. A Coney Island of the Mind (1958) emerge como título central na sua produção poética: em 2008, assinalando o 50º aniversário da primeira edição, foi lançado um álbum com os seus poemas lidos pelo autor. A partir do seu 100º aniversário, o data de nascimento de Ferlinghetti, 24 de março, passou a ter a designação oficial de 'Dia de Lawrence Ferlinghetti' na cidade de São Francisco.

>>> Por ocasião do seu 100º aniversário, Lawrence Ferlinghetti foi homenageado no programa (televisivo e online) Democracy Now!: Amy Goodman voltou a emitir a entrevista que com ele realizara em 2007.



>>> Sons do álbum A Coney Island of the Mind.


>>> Obituário na NPR.
>>> Lawrence Ferlinghetti na Poetry Foundation.
>>> Lawrence Ferlinghetti na editora Quetzal.

terça-feira, fevereiro 23, 2021

"Big Science", nova cor

Porque não? Big Science (1982), primeiro álbum de estúdio de Laurie Anderson, vai regressar em vinyl vermelho — a edição, com chancela Nonesuch, será lançada a 9 de abril. Da alegria pop à experimentação electrónica, passando pelos sabores da palavra declamada, o seu valor inclassificável (e muito influente) permanece em qualquer cor. Para a história das vanguardas e seus felizes paradoxos, o tema O Superman foi um verdadeiro hit, chegando a nº 2 do top de singles no Reino Unido.

Daft Punk — The End

1993-2021: eis as datas de um obituário artístico — referência central na história da música electrónica das últimas décadas, os Daft Punk anunciaram o seu desmembramento [Rolling Stone]. O duo francês — Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter — coloca assim um ponto final numa trajectória de enorme sucesso comercial e impacto artístico.
Na discografia oficial dos Daft Punk, encontramos quatro álbuns de estúdio: Homework (1997), Discovery (2001), Human After All (2005) e Random Access Memories (2013). A sua concepção e difusão foi sempre acompanhada de uma elaborada iconografia de que as máscaras metalizadas de Homem-Cristo e Bangalter constituem o símbolo mais forte. Seduzidos pelo cinema, conceberam e realizaram Electroma (2006), tendo também composto a banda sonora de TRON: O Legado (2010), de Joseph Kosinski.
A despedida oficial foi feita, precisamente, através de um extracto de Electroma, aqui reproduzido; em baixo, Around the World, do álbum de estreia, em teledisco realizado por Michel Gondry, e Derezzed, de TRON: O Legado.





domingo, fevereiro 21, 2021

Tom Hanks à procura da América perdida

Helena Zengel, Tom Hanks

Sob a direcção de Paul Greengrass, Tom Hanks surge a protagonizar Notícias do Mundo (Netflix), um “western” situado poucos anos depois da Guerra Civil. Ou como as memórias de Hollywood se fazem e refazem no cinema do presente — este texto foi publicado no Diário de Notícias (11 fevereiro).

Uma aventura sem o ruído ensurdecedor de super-heróis e afins? Mais do que isso: uma aventura em que a crueza da observação histórica não exclui o espírito de redenção? Enfim, um “western” para o nosso tempo atribulado, muitas décadas depois de Hollywood ter abandonado a produção regular de filmes do género? A resposta será sim. Três vezes sim. Com o aparecimento de Notícias do Mundo (título original: News of the World), uma história do Oeste americano situada em 1870, cinco anos depois do fim da Guerra Civil, podemos mesmo confirmar um dos aspectos mais desconcertantes, e também mais interessantes, da actual conjuntura cinematográfica: são as plataformas de streaming (Netflix, neste caso) que estão a favorecer o reencontro e revalorização das matrizes do classicismo.
Não se trata de recuperar o “western” como mero modelo cenográfico, antes de o assumir como narrativa que, de uma maneira ou de outra, sempre reflectiu algumas das convulsões mais dramáticas da história dos EUA. Esta é a história do Capitão Jefferson Kyle Kidd que, depois de ter combatido pela Confederação dos estados do Sul, vai ganhando a vida, de cidade em cidade, lendo as notícias dos jornais que transporta consigo (é essa, obviamente, a primeira motivação do título Notícias do Mundo); durante um périplo pelo norte do Texas, circunstâncias acidentais levam-no a recolher a pequena Johanna, uma criança que tinha sido raptada pelos índios Kiowa, com eles tendo vivido os últimos seis anos… As autoridades pretendem recolocar Johanna na casa onde nasceu, mas devido à lentidão da burocracia militar Kidd é aconselhado a fazer uma viagem de mais de 600 quilómetros para entregar Johanna à sua família de origem alemã.

Uma nova epopeia
Deparamos com uma sugestiva encenação romanesca da história político-social, não sendo arriscado supor que tal perspectiva já está presente no romance homónimo, da autoria de Paulette Jiles, que o filme adapta (foi um dos cinco finalistas do National Book Award, referente a 2016). A epopeia da expansão para Oeste — “Go West!”, segundo a expressão mítica dessa expansão — surge, agora, transfigurada numa tapeçaria social e laboral de muitos contrastes em que os traumas da guerra e os conflitos com os índios definem uma nação à procura da sua unidade perdida (ou nunca alcançada).
Vários analistas americanos referiram que Notícias do Mundo pode também ser encarado como um eco simbólico das muitas divisões sociais exacerbadas pela presidência de Donald Trump. Há mesmo uma cena em que a leitura dos jornais por Kidd, referindo as medidas postas em prática pelo Presidente Ulysses S. Grant visando a abolição da escravatura, suscita violentos protestos da maior parte dos assistentes… Dito isto, importa acrescentar que o filme está longe de depender de tais “rimas” históricas, vivendo, antes do mais, da singularidade das suas personagens.
Mérito da realização de Paul Greengrass, sem dúvida. É verdade que ele se especializou em filmes cuja “velocidade” visual funciona como uma verdadeira assinatura (Green Zone, uma produção de 2010 sobre Baghdad, durante a Guerra do Iraque, parece-me ser o exemplo mais conseguido). Desta vez, porém, através de muitas nuances emocionais, Greengrass expõe-nos a saga de duas figuras dramaticamente fascinantes, cada uma delas a tentar encontrar as razões do seu próprio destino: Tom Hanks é brilhante na definição do Capitão Kidd a partir de um misto de curiosidade humana e pragmatismo político; no papel de Johanna, Helena Zengel (actriz alemã, actualmente com 12 anos) é um caso invulgar de precocidade e talento.

Memórias do “western”
Mais do que uma homenagem à riquíssima tradição do “western”, Notícias do Mundo acaba por ser um objecto que estabelece relações muito directas com um período da produção de Hollywood — as décadas de 1960/70 — em que o “western”, a par de outras matrizes da produção clássica, foi criticamente repensado e esteticamente reinventado a partir das suas bases históricas e narrativas.
Podemos, assim, definir Notícias do Mundo como um novo capítulo de uma linhagem que tem um momento decisivo em A Quadrilha Selvagem (1969), de Sam Peckinpah: em cenários da fronteira com o México, os heróis puros, ou purificadores, davam lugar a personagens sem destino, “devoradas” pela violência da história. Aliás, vale a pena referir que uma componente muito particular da visão de Peckinpah — o realismo cru dos cenários, da lama das ruas à fragilidade das casas das cidadezinhas do Oeste — ecoa também no trabalho de Greengrass.
Notícias do Mundo encena a trajectória da pequena Johanna, aos ziguezagues entre lugares e famílias, como expressão das contradições da expansão para Oeste, a ponto de o filme se desenvolver também como um exercício coral, cruzando a língua dos Kiowa, o inglês e o alemão. Nesta perspectiva, creio que faz sentido evocar outra referência tutelar, também de 1969, realizada por Abraham Polonsky: O Vale do Fugitivo (título original: Tell Them Willie Boy Is Here), com Robert Redford e Robert Blake, tragédia íntima de um índio que, nos primeiros anos do século XX, já não tem o que Johanna talvez ainda possa encontrar: um lugar para viver.

A IMAGEM: Jean-Honoré Fragonard, 1775-78

JEAN-HONORÉ FRAGONARD 
Le Souvenir [ * ]
1775-78

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* The Souvenir (2019), de Joanna Hogg.