quarta-feira, agosto 12, 2026

Blake Watt, Opus 1

Se é verdade que filho de peixe(s) sabe nadar, então será forçoso começar por referir que o jovem Blake Watt (25 anos) é filho de Tracey Thorn e Ben Watt, o par que conhecemos, musicalmente, como Everything but the Girl. Sem menosprezar o efeito retro de tal filiação, descobrimo-lo agora com um álbum de estreia que, com evidente aplicação e contida sofisticação, não receia enfrentar a herança nostálgica de uma pop de suave romantismo. Chama-se Family Stereo e o tema-título tem este teledisco, muito british, em que o cantor contracena com Ingo Dierkschnieder, sob a direção de Sebastiano O’Grady.

Pat Metheny, Bright Size Life

[ Wikipedia ]

O guitarrista e compositor americano Pat Metheny faz hoje 72 anos (nasceu a 12 de agosto de 1954, na cidade de Lee's Summit, Missouri). Celebremos a data recordando que este é também o ano em que o seu álbum de estreia, Bright Size Life (ECM), perfaz meio século — eis a faixa nº 4, Missouri Uncompromised.

David Lynch / Blue Velvet
* SOUND + VISION Magazine [5 set.]

O clássico Blue Velvet está a fazer 40 anos — propomos uma viagem através das respectivas memórias, sem esquecer a fascinante diversidade da obra de David Lynch.

>>> FNAC Chiado — 5 setembro (17h00).

O cinema é feito de palavras, bronze e mármore

Filmar a Grécia através das memórias de Sophia

O filme Sophia Setembro de 1963 refaz uma viagem de Sophia de Mello Breyner Andresen à Grécia. É também uma reinvenção só possível em cinema — este texto foi publicado no Diário de Notícias (31 julho).

Com a estreia do documentário Sophia Setembro de 1963, com chancela da produtora e distribuidora The Stone and the Plot, reencontramos matéria preciosa, sóbria e subtil, capaz de nos levar a repensar essa arte por vezes tão maltratada, sobretudo desaprendida, que definimos através do verbo “documentar”. Em boa verdade, vivemos enquadrados pelo misto de aceleração e banalização das imagens que tomou o poder em quase todos os territórios do espaço televisivo. Que poder? O de contribuir para reforçar (entenda-se: enfraquecer) uma sociedade em que somos convidados a não olhar, não pensar e, pior um pouco, evitar parar um instante para que algo aconteça na nossa relação com as coisas do mundo.
Não foi isso que Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) foi fazer à Grécia, em 1963, na companhia de Agustina Bessa-Luís e o marido Alberto Luís. Talvez que a pergunta inicial formulada pelos realizadores de Sophia Setembro de 1963 — Hugo Pereira e Vanessa Duarte — tenha sido a mais rudimentar: como dar conta dessa viagem através dos meios específicos do cinema? Digamos que rapidamente foram excluídas duas hipóteses tradicionais: este não é um documentário conduzido por uma voz off entregue à “descrição” do que estamos a ver, como também não se trata de um exercício de acumulação de materiais de arquivo. Claro que poderiam ser vias igualmente criativas (a história do cinema assim o confirma), mas o que aqui acontece é bem diferente.
Enfim, em off escutamos até duas vozes: os autores assumem-se como intérpretes da própria diferença cronológica e existencial que acaba por ser o motor do seu trabalho. Assim o dizem: “2023 não se parece nada com 1963”. Ou ainda, ligando as palavras do diário de Sophia durante a sua viagem com o presente da viagem que sustenta o filme: “14 de setembro. Os gregos são os únicos homens que mostraram os corpos sem os deformar. Porque neles os corpos não são signo de outra coisa. Os corpos têm uma divindade que lhes é própria, que lhes é não transcendente, mas imanente.” E um pouco mais à frente: “Os materiais dos gregos são o mármore, o bronze e a palavra, os materiais que resistem ao tempo. Neles, o imediato e a transcendência estão unidos.”
Perante as ruínas da Acrópole, Sophia escreve e o filme vai citando: “Mesmo quebrado, tudo é perfeito.” E a voz feminina do filme acrescenta que é isso que ela vai “escrever amanhã, antes de deixar Atenas.” O amanhã de Sophia transfigura-se no presente do filme, tudo em nome da palavra que resistiu — como se fosse mármore ou bronze. Aliás, o ziguezague narrativo, tocado por uma inusitada sensualidade formal, prosseguirá, agora com a voz masculina, lembrando que “já depois desse amanhã”, três anos após a Revolução dos Cravos, numa declaração para uma câmara da RTP, ela disse: “A realidade não cumpriu aquilo que eu esperava.”
Eis o ponto de fuga, de uma só vez formal e filosófico, de Sophia Setembro de 1963: procurar aquilo que na realidade de 2023 se pode “sobrepor” à realidade de 1963 — por exemplo, parar nos lugares em que Sophia parou, encenar uma pose semelhante à que ela fez para uma fotografia ou recolher também pedrinhas do fundo do mar. Não por banal efeito de repetição, antes para cumprir a utopia do próprio cinema. Que utopia? Aquela que André Bazin referia, citado por Godard, ao dizer que “o cinema substitui ao nosso olhar um mundo que se ajusta aos nossos desejos.” Daí que, no seu “suspense” paradoxal, porque realista, este seja um filme de contida alegria fantasista. Daí também a moral da história: “Na nossa fantasia, ela ficou na Grécia.”

A odisseia de Hollywood

Qual será o desenlace do imbróglio Paramount/Warner? Que restará da estrutura industrial de Hollywood? E também do seu poder simbólico? — este texto está disponível na edição de julho/agosto da revista Metropolis.

Por estes dias a ocupar milhares de ecrãs em todo o mundo, A Odisseia, de Christopher Nolan, é um acontecimento que transcende os valores específicos do espectáculo segundo Hollywood — o que está em jogo é também a capacidade, de uma só vez industrial e artística, de os grandes estúdios americanos contrariarem a rarefação de espectadores nas salas. Por uma ironia com algo de macabro acontece que Hollywood está a viver uma outra odisseia que pode abalar (para muitos de forma irreversível) as próprias estruturas e, no limite, o conceito mitológico de Hollywood. Ou seja: como vai evoluir a questão da possível aquisição da Warner pela Paramount?
Durante cerca de um ano, a Warner (Warner Bros. Discovery, para sermos exactos) parecia destinada a ser comprada pela Netflix — devorada, diziam os mais cépticos. Seria uma forma de baralhar ainda mais as relações tensas, nem sempre muito saudáveis, entre os mecanismos clássicos de produção e os circuitos de streaming. Com o afastamento da Netflix, o suspense desembocou numa nova oferta: argumentando com a necessidade de combater o fogo com o fogo — entenda-se: criando um novo gigante capaz de enfrentar, taco a taco, filme a filme, a dimensão imperial da Netflix, Amazon e Google —, a Paramount colocou na mesa a sua oferta. Que é como quem diz: 111 mil milhões de dólares (contas redondas: 96 mil milhões de euros).
O assunto estava longe de ser linear, mas parecia poder resolver-se através de alguns acertos técnicos — “technicalities”, dizem os americanos, porventura com involuntária ironia. O certo é que nada mais nada menos que 12 estados americanos, incluindo Nova Iorque, Arizona e Colorado, apresentaram uma acção judicial conjunta no sentido de bloquear o negócio. Motivo central: a defesa do circuito das salas que, apesar de tudo, tem estado a reaproximar-se de valores anteriores à pandemia... “Technicalities”? Não exactamente, quanto mais não seja porque alguns dias mais tarde uma nova acção, com o mesmo objectivo — impedir o negócio Paramount/Warner —, foi apresentada pela Writers Guild of America.
Será preciso lembrar que a “guild” dos argumentistas é uma entidade fulcral no sistema interno de Hollywood? Mais do que isso: a história do cinema americano garante que qualquer abalo daí proveniente acaba por se repercutir, para o melhor ou para o pior, em todas as estruturas de produção e difusão. Esta é uma odisseia cujo desenlace não está antecipadamente escrito.

sábado, agosto 08, 2026

Larry David + Barack Obama

A mais recente série de Larry David — Life, Larry and the Pursuit of Unhappiness: An Almost History of America (HBO) — apresenta, reiventa e refaz em tom paródico sete momentos emblemáticos da história dos EUA. A começar pela redacção da Declaração da Independência, até ao uso de um fato claro (tan suit) por Barack Obama numa conferência de imprensa, em 2014, facto que desencadeou uma polémica motivada pelas regras do protocolo presidencial para uma situação do género.
Com produção da Higher Ground Productions, empresa de Barack e Michelle Obama, a série desemboca, precisamente, nas atribulações do fato claro, com Larry David a intrometer-se, de forma desastrosa, na agenda do Presidente, interpretado pelo próprio Barack Obama. Eis um exemplo modelar de uma forma inteligente de desafiar as fronteiras da ficção, relançando a história no imaginário social.

>>> Barack Obama e Larry David.


>>> Barack Obama apresenta Life, Larry and the Pursuit of Unhappiness: An Almost History of America + trailer da série.



sexta-feira, agosto 07, 2026

A crise filosófica do Homem-Aranha

"Quem sou eu?" — dias difíceis para o Homem-Aranha

Tom Holland está de volta na personagem do Homem-Aranha: Spider Man: Um Novo Dia é um filme que tenta emprestar alguma densidade dramática ao seu protagonista, mas a retórica dos super-heróis volta a triunfar — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 julho).

A estreia de Spider Man: Um Novo Dia permite-nos observar uma perversa tendência do mercado cinematográfico. Assim, ao longo das últimas duas décadas, os filmes de super-heróis, em particular os que ostentam a chancela Marvel, adquiriram um poder comercial e simbólico muito particular: mais do que objectos específicos da chamada temporada de verão, são eles que impõem e, de alguma maneira, regulam essa temporada enquanto “conceito”. O fenómeno já não possui a mesma agressividade promocional que teve nos primeiros anos, quanto mais não seja porque Hollywood vive (e sobrevive) através das suas contradições, havendo quem não desista de reagir contra a redução da indústria a uma formatação burocrática, tecnológica e narrativa. Cineastas como Martin Scorsese, Steven Spielberg ou Christopher Nolan têm defendido, com a legitimidade artística que lhes assiste, a necessidade de contrariar aquela formatação, reencontrando valores criativos que, afinal, alimentaram (e alimentam) o grande cinema “made in USA”. Estreados nas últimas semanas, O Dia da Revelação (Spielberg) e A Odisseia (Nolan) aí estão como expressão modelar de tal visão. Entenda-se: a questão de fundo não decorre do facto de tais filmes serem “melhores” — acontece que são manifestações, não apenas de outras estratégias de produção, mas também de genuínas ideias de cinema.
Spider Man: Um Novo Dia
, com Tom Holland a interpretar pela sexta vez o Homem-Aranha, surge como sintoma paradoxal dessa “necessidade” de manter um determinado herói como emblema de toda uma estratégia de espectáculo e marketing. Sintoma curioso, já que se procura relançar a personagem como algo mais do que um boneco gerado por monótonos efeitos visuais. Sintoma inglório, porque as pequenas ousadias do argumento tendem a ser anuladas pela “obrigação” de fabricar um objecto contaminado pela agitação visual (e os ruídos, por vezes insuportáveis) de um banal videojogo.
Este é um modelo de cinema que quer desesperadamente resolver a sua congénita crise narrativa. Como? Encenando o Homem-Aranha como protagonista de uma inesperada crise filosófica. “Quem sou eu?” — eis a pergunta que Peter Parker formula, tentando racionalizar a herança que recebeu da aranha radioactiva que o mordeu, transformando-o no poderoso e angustiado Homem-Aranha.
Sintomático de tal dinâmica é o modo como o filme gere a paixão de Peter por MJ (Zendaya), o “amor da sua vida”. A história provém do filme anterior, No Way Home/Sem Volta a Casa (2023): as memórias de MJ e Ned (Jason Batalon), o grande amigo de Peter, foram “apagadas” através da intervenção da personagem de Doctor Strange (Benedict Cumberbatch) para... enfim, para impedir aquilo que é “tema” obrigatório da Marvel: a destruição iminente deste mundo e do outro...
Tom Holland bem se esforça por exprimir a emoção que resulta do seu confronto com uma MJ que não o reconhece — e convenhamos que Zendaya também dá o seu melhor para emprestar alguma credibilidade dramática à relação com aquele rapaz que a contempla com tão enigmática insistência. O certo é que nada disso é tratado como verdadeira força narrativa: as promessas intimistas de alguns momentos vão sendo “obrigatoriamente” interrompidas pela destruição de mais algumas avenidas de Nova Iorque. Tudo isto acompanhado pelo simplismo retórico de personagens como Punisher, o eterno ”amigo/inimigo” do Homem-Aranha composto por um esforçado Jon Bernthal que parece ainda perturbado pela possibilidade de aparecerem os zombies que heroicamente enfrentou na série The Walking Dead.
Resta dizer que Spider Man: Um Novo Dia tem assinatura de Destin Daniel Cretton, realizador vindo da área independente que conhecemos através de Temporário 12 (2013), com Brie Larson, brilhante retrato de uma instituição de acolhimento de jovens como problemas de inserção social. Sem fazer moralismo fácil sobre as suas opções profissionais, diremos apenas que esta aventura do Homem-Aranha, mesmo com alguns breves momentos de fulgor, não faz justiça ao seu talento.

Para redescobrir Claude Chabrol

Por certo uma das concretizações mais depuradas do assombramento conjugal (sexo + crime) que Claude Chabrol (1930-2010) filmou como ninguém, A Mulher Infiel (1969) está de volta. Assim o anuncia o BFI, para setembro, com cópia restaurada em 4K. Esperando que, por cá, haja ecos desta redescoberta, aqui fica o novo trailer.
 

quinta-feira, agosto 06, 2026

Mr. Charm
— no estúdio com os Rolling Stones

Não é um teledisco... Mas poderia ser... Não é a gravação de uma única performance... Mas quase parece... Eis Mr. Charm, canção do álbum Foreign Tongues, no estúdio, com os Rolling Stones em festiva celebração — dir-se-ia um inusitado improviso, mas é um trabalho de insuperável rigor.

When I was oh-so-young, I used to want to go to Mars
And burn the rubber on the road
And drive around in fancy cars
And who would take you into space?
Who would you really trust?
Is it Boeing, is it NASA, is it mad mogul Mr. Musk?
Now I'm older, I would like to ask you if tonight
We could stay at home, you see, I'm really quite polite
I would make you cocktails, pour you wine, you're obviously so erudite
Do anagrams, spew epigrams
I don't give a damn, Madame


segunda-feira, agosto 03, 2026

Jóhann Jóhannsson, por Alice Sara Ott

O compositor islandês Jóhann Jóhannsson (1969-2018) deixou um legado em que as componentes clássicas se combinam, com invulgar elegância, com sonoridades contemporâneas, ligadas, em particular, ao uso de instrumentos electrónicos. Com diversos trabalhos para diferentes experiências artísticas, a sua obra inclui algumas magníficas bandas sonoras, duas delas nomeadas para o Oscar de melhor música (A Teoria de Tudo e Sicário - Infiltrado, respectivamente em 2015 e 2016).
Para a pianista Alice Sara Ott, autora de John Field - Complete Nocturnes, um dos grandes álbuns de 2025, tocar a música de Jóhannsson envolveu uma peculiar reinvenção instrumental: "O que é incrível na música de Jóhannsson é o modo como as suas composições, originalmente escritas para grandes ensembles e diferentes instrumentos, passam de forma tão harmoniosa para o piano."
O álbum Jóhann Jóhannsson - Piano Works possui essa magia de sonoridades que resistem a uma evidente manipulação, ao mesmo tempo preservando a austeridade da sua verdade existencial — como um mapa de emoções ligadas por caminhos secretos.

>>> Temas de A Teoria de Tudo e The Shadow Play.