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terça-feira, setembro 29, 2009

Eleições 2009: "Maria vai com as outras..."

Vincent van Gogh
Camponesa
1885

Eram 20h23 de domingo, dia 27, quando, na RTP1, Marcelo Rebelo de Sousa resumiu as previsões eleitorais através de um novo conceito: o de que as sondagens dos últimos dias geram um efeito de clonagem (a palavra é minha) e que, por isso, os eleitores tendem a favorecer quem vai à frente, adoptando uma atitude de “Maria vai com as outras” (as palavras são do comentador). Num ápice, Marcelo Rebelo de Sousa conseguiu duas coisas tristes: primeiro, desvalorizar o trabalho das televisões que, apesar do populismo das programações, tentam compreender os movimentos sociais; segundo, legitimar a suposição de que muitos eleitores portugueses são imaturos.
Que contraponto tivemos para contrariar esta ligeireza? Em boa verdade, não foi fácil orientarmo-nos. Por um lado, as televisões investiram na criação de aparatos visuais que, para além do “conteúdo”, sugerissem uma “forma” mais ou menos sofisticada e futurista. Por outro lado, importa perguntar se essa agitação das imagens (e dos sons) gera pertinência informativa e precisão analítica. De facto, a profusão de números e gráficos favoreceu, por vezes, um barroquismo desmobilizador: quando uma imagem se limita a ostentar uma lógica de acumulação, o desejo de olhar vai-se anulando.
Aliás, voltando às palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, importa dizer em sua defesa que ele se limita a encarnar um modelo de comunicação (?) que se tornou dominante: o de que é preciso dizer num brevíssimo instante aquilo que, eventualmente, levou horas a pensar ou uma vida inteira a encontrar. Por mim, como espectador, gostava de não ver profissionais talentosos a correr atrás de políticos, “exigindo-lhes” que digam numa fracção de segundo aquilo que, afinal, não têm gosto em dizer.

segunda-feira, setembro 28, 2009

Eleições 2009: o que é "governabilidade"?

Marc Chagall
Relógio
1914

Em Portugal, o comentário político faz-se também de vagas de "conceitos" que, com maior ou menor enraizamento nos próprios factos políticos, tentam enquadrar o pensamento (também ele político). Deste último processo eleitoral fica um desses produtos conceptuais — a "governabilidade" — cuja existência justificaria, em si mesma, uma minuciosa desmontagem psicológica e simbólica.
Não é fácil esclarecer de onde veio esta ideia de "governabilidade", quem a formulou e como a sua expressão se tornou quase obrigatória no quotidiano de debates e comentários. Uma coisa é certa: a premência da "governabilidade" sugere ao eleitor que o seu voto pode ser um erro. Porquê? Porque se não for possível governar o país, a culpa é do próprio voto... Como é óbvio, semelhante insinuação moral articula-se com outra sugestão, esta mais explicitamente política: a de que o voto "útil" é condição essencial para a garantir a dita "governabilidade".
Efeito prático de tudo isto? Desde logo, o de favorecer essa monstruosidade ideológica segundo a qual existem votos "inúteis". Mas também, o de "forçar" o eleitor a considerar que o princípio básico da delegação democrática de poderes — o de fazer uma escolha consciente e motivada — pode e deve ser secundarizado. Em boa verdade, esta hiper-conceptualização da vida político-eleitoral faz do eleitor um jogador de um xadrez cujas regras são tanto mais difusas quanto a sua possibilidade sugere uma hipótese mais ou menos maligna: a do eleitor, incauto ou distraído, votar contra a viabilidade histórica do seu próprio país. Como aqueles comentadores desportivos que gastam horas a proclamar que um resultado foi "injusto" — como se eles tivessem alguma hipótese secreta de resultado que não dependesse das... bolas que entram nas balizas.
Não deixa de ser curioso que, depois, as boas almas venham, pesarosas, lamentar-se da indiferença de alguns sectores da juventude pelas práticas eleitorais. De facto, se votar implica ser sancionado por causa do sentido do próprio voto, para quê votar?

Eleições 2009: o que é um eleitor?

PAUL KLEE, Carnaval nas Montanhas (1924)

Uma das "leis" mais espantosas que as televisões todos os dias nos tentam impor é a da motivação compulsiva. Exemplo? Veja-se o futebol: um golo pode entrar porque um jogador falhou o pontapé, outro escorregou e, finalmente, porque um buraco na relva alterou a trajectória da bola... mas há sempre um comentador esforçado que nos consegue "demonstrar" que tudo aquilo resultou de uma estratégia de "pressão", de uma táctica em "losango" ou ainda dessa coisa maravilhosa que é a excelência do "jogo aéreo"...
Na noite das eleições legislativas de 27 de Setembro, assistiu-se a algo semelhante. Como? Pelo modo como algumas vozes nos quiseram fazer crer que o eleitorado falou. Claro que falou. Mas quando se aplica tal noção é quase sempre para avançar com deduções que, de facto, extrapolam muito para além do domínio individual e privado em que, por definição, o voto é exercido.
Na prática, isso faz com que o eleitor X ou Y que, por exemplo, voltou a votar no mesmo partido A, B ou C seja instrumentalizado de forma abusiva: afinal, mesmo que ele nem sequer tenha pensado no assunto, o seu voto está condenado a significar "outra coisa"... Do mesmo modo, aquele que mudou o seu voto pode ser citado como alguém que tem uma posição claramente definida sobre maiorias e minorias, governos ou acordos parlamentares.
Curiosamente, este tipo de "raciocínios" tem sempre o mesmo efeito: o de mascarar que, depois da contagem dos votos, as decisões são naturalmente — isto é, democraticamente — transferidas para a classe política. É por isso, aliás, que se fala em democracia representativa. Dir-se-ia que há comentadores que confundem cada eleitor com um ilustrador das interpretações que eles próprios defendem, na prática esvaziando e, num certo sentido, des-responsabilizando a classe política.

domingo, setembro 27, 2009

Eleições 2009: que comunicação social?

Este texto integra a série "Política das imagens", nas páginas do DN ao longo da campanha para as eleições de 27 de Setembro — foi publicado no dia 25, com o título 'À procura da política perdida'.

Ao terminar a campanha eleitoral, creio que não será arriscado afirmar que há um sentimento maioritário de cansaço: os eleitores, ou melhor, todos nós, cidadãos com direito de voto, suportamos cada vez menos a retórica política, a vulgaridade televisiva, a mediatização “espectacular”, mas inócua. Em todo o caso, creio que começamos apenas a pressentir um saldo que transcende o espaço específico da política, tanto mais perturbante quanto pouco abordado: tem a ver com a percepção pública dos meios de comunicação, em geral, os jornais e as televisões, em particular.
Não é, entenda-se, um mero problema de “qualidade” (como quando se tenta opor os filmes de “qualidade” ao cinema “popular”). É uma questão que nos remete para a inserção social desses meios de comunicação e, sobretudo, para o seu papel na dinâmica de ideias e valores, do que se diz e recalca, do que se mostra ou oculta.
Qual é o meu ponto? É um ponto de pedagógica humildade: creio que atravessámos uma campanha eleitoral que deixa nos cidadãos questões novas também sobre as informações que lhes chegam através da comunicação social. São questões que estão para além da dicotomia “verdade/mentira”, uma vez que implicam diferentes visões do mundo, a começar pelo mundo da política.
Devo dizer, sem ambiguidade, que encaro essa dinâmica como um factor eminentemente positivo: leitores/espectadores mais atentos e exigentes só podem contribuir para formas mais ricas e construtivas de pensar e fazer jornalismo. O modelo de imprensa dos “famosos”, mesmo sem ser dominante, lançou um véu de banalidade sobre o nosso quotidiano, tornando tudo fútil, irrisório, por vezes grosseiramente obsceno. Trata-se agora de saber se crescemos o suficiente para voltar a pensar quem somos e como vivemos. Isso tem, aliás, um nome nobre: política.

sexta-feira, setembro 25, 2009

Eleições 2009: erotismo ma non troppo

Este texto integra a série "Política das imagens", nas páginas do DN ao longo da campanha para as eleições de 27 de Setembro — foi publicado no dia 24, com o título 'Elogio de um discreto erotismo'.

Um dos mais interessantes cartazes surgidos nesta campanha faz-se com um grande plano de um rapaz e uma rapariga, abraçados. Ele está de costas, ela olha para fora da imagem e trinca a ponta da orelha dele. Há uma clara sugestão de cumplicidade sexual, confirmada pela frase mais destacada: “A tua primeira vez...”. Através das restantes frases, percebemos que se trata da “primeira vez” eleitoral: “Não deixes que escolham por ti, vota!”.
O cartaz [em cima] é da Juventude Social Democrata e tem, pelo menos, o mérito de fugir ao modelo dominante desta campanha: os líderes são quase sempre representados como cabeças de marioneta, literalmente sem corpo, sob fundo mais ou menos neutro, sem qualquer contexto realista ou simbólico. Por vezes, a simples qualidade fotográfica é banal, como em alguns cartazes de Francisco Louçã ou Manuela Ferreira Leite, o que só pode enfraquecer ainda mais o impacto das “mensagens”.
Quase ninguém arriscou qualquer tipo de discreta erotização, como aquela que, com calculada ironia, se encontra no cartaz da JSD. As outras excepções são os dois cartazes de José Sócrates, sob o lema “Avançar Portugal”: o primeiro rodeado de personagens femininas; o segundo [em baixo] mais abstracto mas, apesar de tudo, remetendo para alguma contextualização humana.

A contradição é preocupante: por um lado, os partidos têm sempre qualquer coisa de panfletário para dizer sobre a sociedade da “informação”, o mundo das “imagens”, a importância dos “media”, etc., etc.; por outro lado, revelam uma impotência iconográfica que os faz parecer associações civis a pregar para uma sociedade onde ainda nem sequer existe rádio. O problema não é a eventual mediocridade de conselheiros de imagem ou técnicos de marketing: é não haver políticas verdadeiramente imaginativas que os ponham a trabalhar de outro modo.

quinta-feira, setembro 24, 2009

Eleições 2009: asfixia televisiva?

Este texto integra a série "Política das imagens", nas páginas do DN ao longo da campanha para as eleições de 27 de Setembro — foi publicado no dia 23, com o título 'Antes de desligar o televisor'.

Segunda-feira à noite, no programa Prós e Contras (RTP1), algumas intervenções dos especialistas em sondagens convidados por Fátima Campos Ferreira deixaram uma interessantíssima perspectiva sobre os movimentos do eleitorado português. Assim, ao contrário do que acontece no Reino Unido ou nos EUA, não existem entre nós famílias estáveis de eleitores que permitam antecipar confrontos mais ou menos claros entre determinados programas políticos. Esquematizando (espero que não excessivamente), poderá dizer-se que uma eleição num daqueles países se decide pelas variações de voto de 4 ou 5 por cento dos cidadãos, enquanto em Portugal os eleitores “instáveis” podem ascender a 10, 15 por cento, ou mesmo mais.
Razões para isto? Muitas, por certo, a mais óbvia das quais será a volatilidade das bases eleitorais, ou mesmo especificamente partidárias. Em todo o caso, permito-me perguntar se colocar o problema a partir desse pressuposto não é sempre transferir todas as causas para o espaço dos eleitores, dispensando-nos de perguntar o que fazem os aparelhos partidários. Porque é que, para além das suas bases mais ou menos sólidas de militantes, os partidos têm dificuldade em estabilizar o seu eleitorado?
Semelhante dúvida relança outra, necessariamente enredada com o momento tão particular que estamos a viver: será que o impacto mediático e, sobretudo, televisivo que os partidos procuram se faz à custa (ou em vez de) um sistemático enraizamento no dia a dia da vida colectiva? Há uma maneira cruel e pouco simpática de colocar a mesma pergunta: será que, quando não há câmaras de televisão por perto, os partidos políticos ficam limitados na sua imaginação para comunicar com cada um de nós? Ou ainda: estamos a viver em asfixia televisiva? Podemos, aliás, desligar o botão e repetir a pergunta.

quarta-feira, setembro 23, 2009

Eleições 2009: quem escuta o quê?

Este texto integra a série "Política das imagens", nas páginas do DN ao longo da campanha para as eleições de 27 de Setembro — foi publicado no dia 22, com o título 'Histeria sem passado nem futuro'.

Algures, num cenário de grande confusão, no meio de muitos populares entusiasmados e ruidosos, acossado pelas câmaras de televisão e pelos microfones das rádios, Mário Soares admitiu algum tipo de acordo pós-eleitoral entre o Partido Socialista e o Bloco de Esquerda. Tanto bastou para que o “conceito” de um governo PS/BE se transformasse num novo “tema” da agenda eleitoral.
Devo dizer que tal possibilidade me parece politicamente inverosímil. Mas isso não passa de um ponto de vista discutível, porventura inconsistente. Seja como for, aquilo que o episódio torna claro é, uma vez mais, que muitas linhas de força do debate político dão entrada no quotidiano através dos próprios “factos” induzidos por um aparato predominantemente televisivo. Na esmagadora maioria das situações, a televisão não se interessa pela complexidade dos pensamentos, muito menos pela serenidade das reflexões e argumentações. O que conta é a eclosão de algum pequeno incidente que possa ser ampliado até se transformar num verdadeiro folhetim mediático: na prática, a televisão comporta-se como agente perverso de uma interminável virose “informativa”, tanto mais procurada quanto puder gerar alguma sensação de perturbação ou mesmo de pânico.
Um dos efeitos desgastantes de tal dispositivo é que, não poucas vezes, os líderes políticos se vêem compelidos a defender os seus próprios discursos, contrariando os modos da sua “transcrição”. Nesse aspecto, Paulo Portas e Francisco Louçã são campeões da semiologia eleitoral: vezes sem conta já os vimos e ouvimos a lembrar “eu não disse isso”. Não que o seu discurso, ou o discurso seja de quem for, seja imaculado. Mas há qualquer coisa de tristemente insólito quando os protagonistas da vida política são forçados a esse trabalho: quer dizer que já ninguém está a escutar.

terça-feira, setembro 22, 2009

Eleições 2009: histeria mediática

Este texto integra a série "Política das imagens", nas páginas do DN ao longo da campanha para as eleições de 27 de Setembro — foi publicado no dia 21, com o título 'Histeria sem passado nem futuro'.

Afinal, o que se escreve quando se escreve em português? Por exemplo: leio e releio a manchete de sábado do Correio da Manhã: “Secretas limpam gabinetes de Belém”. Peço a indulgência do leitor (e também dos jornalistas do Correio da Manhã), mas o certo é que se desenhou na minha cabeça um cenário de thriller político à maneira de Hitchcock: um dia depois das notícias sobre o “caso das escutas”, o Presidente da República teria mobilizado todos os meios para ficar com a certeza de que a sua residência oficial está devidamente intocada. Percebo, depois, que o tempo presente (“limpam”) é um logro: a notícia remete para as origens da situação (“a Presidência da República desconfiava mesmo...”), não há certezas (“o que foi efectivamente descoberto é uma incógnita...”), a não ser que os salões de Belém não estão a ser vigiados (“não foram encontrados quaisquer dispositivos de escuta”).
O mínimo que se pode dizer é que a manchete possui a virtude pedagógica de esclarecer o que é uma “não-notícia”. Ou seja: uma forma de convocar uma mera hipótese, absurda ou verosímil, para sugerir uma certeza. Mas o mais perturbante está para além da oposição (incontornável, é certo) entre “verdade” e “mentira”. A manchete reflecte a mesma histeria que triunfou no espaço televisivo: tudo acontece num presente convulsivo que, em última instância, nos dispensa de reflectir sobre as ambiguidades do passado e o óbvio desconhecimento do futuro.
Esse novo presente mediático (e, insisto, estruturalmente televisivo) é também o tempo social em que vivemos, e somos obrigados a enfrentar, os problemas do nosso quotidiano. Exprime-se todos os dias nos repórteres de olhar agitado e voz nervosa que nos garantem que, por detrás deles, só pode haver muita agitação e, se o dia correr bem, alguma deliciosa catástrofe.

segunda-feira, setembro 21, 2009

Eleições 2009: os mecanismo de suspeição

Este texto integra a série "Política das imagens", nas páginas do DN ao longo da campanha para as eleições de 27 de Setembro — foi publicado no dia 19, com o título 'O ciclista, os políticos e os "famosos"'.

Na agitação da campanha, não terá adquirido grande evidência uma notícia chocante do mundo do desporto: Nuno Ribeiro, vencedor da Volta a Portugal em Bicicleta, poderá vir a perder o seu título, já que uma análise indica que terá tomado substâncias interditas. Seja qual for a evolução do caso (o atleta solicitou uma contra-análise), a notícia vem reforçar um sentimento difuso de descrença colectiva: a fragilização dos laços sociais e simbólicos tem como espelho cruel uma paisagem mediática que, todos os dias, nos instala numa atitude de suspeita ou irrecuperável desilusão face ao comportamento de indivíduos e instituições.
Escusado será lembrar que a questão da transparência da vida colectiva emerge em muitas frentes dos actuais combates políticos. O que está em jogo é tão fundo e tão complexo que excede o problema (não secundário, como é óbvio) da percepção que temos da honestidade ou desonestidade deste ou daquele político, de um ou outro jornalista. É algo que coloca em jogo todos os factores, desde os legais até aos especificamente afectivos, que contribuem para o funcionamento da comunidade que somos.
Daí o sentimento paradoxal com que, pela minha parte, observo a proliferação de entrevistas aos principais líderes políticos nas televisões, rádios e jornais. Não que essas entrevistas sejam todas iguais. Nem pretendo sugerir que são dispensáveis. Acontece apenas que o espaço simbólico da informação mudou, a ponto de nos fazer ver a cena política como uma variação “séria” sobre o mundo frívolo dos “famosos”. E insisto: isso acontece independentemente das inegáveis qualidades de algumas das entrevistas citadas. Dir-se-ia que precisamos de novos protagonistas para além de políticos e “heróis” de telenovelas. Se possível, agradecemos também ciclistas em que possamos confiar.

domingo, setembro 20, 2009

Eleições 2009: do eleitor como pateta

Este texto integra a série "Política das imagens", nas páginas do DN ao longo da campanha para as eleições de 27 de Setembro — foi publicado no dia 18, com o título 'Um país de patetas alegres'.

A Comissão Nacional de Eleições pôs a circular dois videos apelando ao voto. O lema é: “escolha votar”. Num dos videos, um jovem de t-shirt está no alfaiate, protesta contra fatos e gravatas, mas acaba toscamente vestido dessa maneira; no outro, no cabeleireiro, uma jovem distrai-se e deixa que a arranjem com um penteado caótico de cores berrantes. A mensagem é: como ambos abdicaram de escolher, alguém decidiu por eles.
Que haja uma instituição oficial que oficialmente acredite que caricaturas tão grosseiras possam mobilizar eleitores, eis o que me transcende. Digamos apenas que ninguém duvida da boa vontade da CNE. Seja como for, os videos são um claro sintoma de uma praga social todos os dias reforçada por programas de televisão e, em particular, muitas formas de publicidade.
Veja-se a maioria dos anúncios de telemóveis ou cervejas. Por norma, os jovens são representados como patetas alegres reduzidos à ânsia histérica de consumir tudo o que lhes aparece à frente. Não poucas vezes, os rapazes surgem como predadores sexuais, com as raparigas no papel de vítimas coniventes.
Esperava eu que, um dia, algum dirigente político tivesse a coragem rudimentar de nos mostrar que fazer política é também questionar estas formas de (mal) viver. Mas não. Celebramos cantores de quinta ordem, naturalmente em mangas de camisa e barba de dois dias, a tecer considerações fúteis sobre o amor e a felicidade; ao mesmo tempo, olhamos o professor Eduardo Lourenço, no seu impecável fato e gravata, como um figurante mais ou menos deslocado. Como é óbvio, não podemos responsabilizar a CNE por este estado de coisas. Além de que, convenhamos, “escolha votar” é uma boa mensagem. Diria apenas que alfaiates e cabeleireiros não merecem ser tratados como bodes expiatórios da nossa miséria política.

Eleições 2009: quem asfixia o quê?

Este texto integra a série "Política das imagens", nas páginas do DN ao longo da campanha para as eleições de 27 de Setembro — foi publicado no dia 17, com o título 'Asfixias para todos os gostos'.

É sabido que qualquer cultura dominante gera (e expande) a sua própria retórica. No nosso contexto, a cultura dominante é a televisão. E de tal modo que nos faz esquecer o seu poder para além das imagens. Seria interessante confrontar a televisão com a sua acção no espaço da fala, na circulação das palavras e na imposição de determinados padrões discursivos. Exemplos? Apenas um, já clássico: foi através da televisão que triunfou esse horror gramatical e sonoro que é a expressão “à última da hora”; na prática, a maioria da população deixou de saber dizer “à última hora”.
Agora, outro exemplo está a contaminar o debate eleitoral: direitas e esquerdas empenham-se em escalpelizar a “asfixia democrática”, sem que ninguém questione o absurdo da expressão. De facto, se se trata de denunciar eventuais abusos do aparelho estatal (e ninguém contesta a necessidade de o fazer), poderá falar-se em “asfixia da democracia” ou “asfixia anti-democrática”. Proclamar uma “asfixia democrática” não passa de uma patética contradição.
Quem mais perde por não questionar a expressão é, obviamente, o Partido Socialista que, assim, repete o silêncio de outras forças políticas de outros governos. Que silêncio é esse? O que impede as organizações da classe política (não necessariamente os indivíduos) de trazer para a praça pública a discussão da percepção da própria política construída pela acção da televisão.
Observe-se, a propósito, o esclarecedor contraponto: quando José Sócrates questiona o funcionamento do Jornal de Sexta da TVI, o país é abalado pelo pânico de podermos ter um primeiro-ministro com vocação ditatorial; quando o discurso político de Alberto João Jardim favorece uma imagem infantil do trabalho dos jornalistas, é promovido a símbolo do kitsch televisivo. Diz-me como te asfixias...

sábado, setembro 19, 2009

Eleições 2009: os estereótipos

Este texto integra a série "Política das imagens", nas páginas do DN ao longo da campanha para as eleições de 27 de Setembro — foi publicado no dia 16, com o título 'Foi você que falou em auto-estima?'.

De acordo com a gíria televisiva, costuma dizer-se que o teste decisivo para um dirigente político é a “campanha de rua”. É uma visão simplista, como é óbvio, que nos pode levar a evocar as delícias do paradoxo, repetindo, por exemplo, um dos mais provocatórios slogans dos tempos de Maio 68. A saber: “A coragem é ficar em casa.”
Mas vale a pena atentar naquela “lei” televisiva e perguntar como é que ela se aplica. A resposta é simples e envolve dois efeitos correntes da televisão mais despudoradamente populista: o “apanhado” e o pitoresco. O “apanhado” porque, quase sempre, as câmaras seguem os políticos para tentar fixar (e, num certo sentido, forçar) o acidente mais ou menos anedótico: o beijo inesperado, a frase solta, o bebé, a peixeira, etc... O pitoresco porque, de acordo com tais reportagens, não há elemento do povo que não seja caricatural ou ridículo: e se puder dizer qualquer coisa para a câmara em tom mais ou menos gritado, tanto melhor.
Chama-se a isto estereótipo. De tal modo que, por um complexo processo de interiorização subconsciente, já quase ninguém tenta filmar o que tem à sua frente, procurando apenas reproduzir as “imagens de marca” que, teoricamente, correspondem às expectativas do próprio discurso jornalístico. Na melhor das hipóteses, tudo isso já deu excelentes sketches de Herman José ou de Os Contemporâneos. Tal como as coisas existem, o efeito é de outra natureza: todos os dias somos confrontados com imagens (e sons) que nos representam como seres socialmente anedóticos, fazendo figuração brejeira para um “espectáculo” abrilhantado pelos senhores da política. Mas não desesperemos. Passada esta agitação, alguém aparecerá muito sério em frente das câmaras, agora sob a luz crua do estúdio, perguntando: porque é que os portugueses não têm auto-estima?

sexta-feira, setembro 18, 2009

Eleições 2009: a fealdade dos cartazes

Este texto integra a série "Política das imagens", nas páginas do DN ao longo da campanha para as eleições de 27 de Setembro — foi publicado no dia 15, com o título 'Os cartazes serão intermutáveis?'.

A beleza tornou-se um valor fraco, para não dizer incómodo. Aliás, os cidadãos portugueses são sujeitos, há mais de trinta anos, a uma sistemática educação para a fealdade. Essa educação tem um nome: telenovela. E, por mim, há mais de trinta anos que espero que algum político chame as coisas pelo seu nome e venha dizer, muito simplesmente, que uma população maioritariamente educada por tais ficções televisivas não pode interessar-se (quanto mais tomar a sério) tudo o que não obedeça aos seus critérios morais e normas narrativas.
Isto para dizer que não tem nada de surpreendente que os partidos políticos encham as nossas ruas com cartazes de propaganda política que, com pouquíssimas excepções, agudizam a fealdade urbana. Aliás, o problema é anterior a qualquer consideração estética (e bem sei que a palavra “estética” também não está a viver os seus melhores dias, de tal modo passou a servir para descrever as cores berrantes dos concursos televisivos). É um problema de chocante homogeneização.
Podemos discutir a maior ou menor “limpeza” técnica de cada cartaz. O certo é que estas eleições impuseram uma espécie de unicidade figurativa que dá que pensar (em boa verdade, alheia a qualquer diferença de pensamento). Direitas e esquerdas parecem concordar que só há uma maneira de fazer cartazes: um grande plano de um dirigente político, sobreposto a um fundo mais ou menos garrido, com uma frase mais ou menos panfletária.
E não se trata de dizer que são todos “iguais”. Trata-se antes de reconhecer que todos gritam as suas diferenças para acabarem igualizados no trabalho iconográfico. Será que os cartazes são intermutáveis? Será que os políticos não souberam escolher os seus técnicos de campanha? Ou dar-se-á o caso de esses mesmos políticos já não terem ideias para fazer campanha?

quinta-feira, setembro 17, 2009

Eleições 2009: ganhar e perder

Este texto integra a série "Política das imagens", nas páginas do DN ao longo da campanha para as eleições de 27 de Setembro — foi publicado no dia 14, com o título 'Onde estão os verdadeiros tabus?'.

Mal ou bem, sou dos que tentam reflectir um pouco sobre o modo de circulação dos discursos políticos na paisagem mediática em que vivemos. Em termos simples (embora redutores), trata-se de tentar compreender como, hoje em dia, as personalidades políticas estão enredadas em estratégias de imagem ou, para utilizarmos uma expressão do marketing, em questões de visual.
Creio que esta forma de considerar a política tem trazido um crescente empobrecimento à vida das ideias (e se estas considerações se virarem contra o meu próprio discurso, tanto pior para mim). De facto, o suposto combate de “imagens” em que os líderes políticos se empenham, ou para o qual são empurrados, implica uma cada vez maior miséria argumentativa e também uma generalizada indiferença pelo simples acto de pensar. Entenda-se: pensar o que significa vivermos em sociedade.
A meu ver, um dos sintomas mais perturbantes de tal estado de coisas decorre daquilo a que chamaria a “futebolização” dos debates. Mesmo sem querer favorecer generalizações abusivas, julgo que se pode dizer que, quase sempre, tais debates são reduzidos à produção de um resultado banalmente quantitativo. Ou seja: quem ganhou? Quem perdeu?
Esse envolvimento mediático (que é, como bem sabemos, predominantemente televisivo) tende a confundir os debates com a própria manifestação dos votos, esse sim um acontecimento quantificável em termos de vitória e derrota. Na prática, os protagonistas políticos estão menos a sustentar ideias ou programas e mais a entregar-se como figurantes a um dispositivo mediático que se sobrepôs às razões originais da política. A meu ver, esse é o primeiro e dramático tabu destas eleições. E confesso o meu cepticismo radical: nenhum dos respectivos actores ousará interrogar os seus pressupostos ou discutir os seus efeitos.