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quinta-feira, dezembro 12, 2019

Greta Thunberg — a pessoa ou a imagem?

* Greta Thunberg, a activista sueca que tem protagonizado uma campanha global de sensibilização para as convulsões climatéricas e a defesa do ambiente, é a "Pessoa do ano" para a revista Time. Não será necessário sublinhar a importância das chamadas de atenção proferidas nas suas intervenções públicas, sobretudo tendo em conta que poderosas forças (leia-se: Donald Trump) continuam a propalar um discurso demagógico sobre as tragédias, consumadas ou anunciadas, do aquecimento global do planeta Terra.

* Ao mesmo tempo, como não perguntar o que significa esse "poder da juventude" que, na sua capa, a Time associa a Thunberg. Que é como quem diz: de que falamos quando falamos de juventude? Em boa verdade, a designação de juventude serve para recobrir, hoje em dia, com inusitada frequência, uma pluralidade de fenómenos — entenda-se também: um sistema de mercados — que quase ninguém questiona no seu funcionamento e implicações.

* Desse ponto de vista, Thunberg  — ou, pelo menos, a sua imagem de marca — repete a lógica mediática da celebração inerente a universos como "Harry Potter". Porque a eles se cola uma caução juvenil, ninguém ou quase ninguém formula dúvidas. No caso do império narrativo de J. K. Rowling, quase nunca se pergunta, por exemplo, se o feiticeiro adolescente não estará a criar uma geração focada numa escrita banalmente instrumental, cega à vastidão da história da literatura. Mais ainda: quais os efeitos da promoção de uma visão "mágica" da educação em que o confronto com a realidade se confunde com o aparato dos feitiços que cada personagem pode ou sabe aplicar?


* Inútil discutir a sinceridade (ou a falta dela) do discurso de Thunberg. Porquê? Porque, precisamente, a fulanização de quase todos os fenómenos mediáticos — aliás, os media como sistema de fulanização de todos os fenómenos — funciona para além do grau de compromisso de cada indivíduo, por vezes contra os princípios ou valores desse compromisso. A sinceridade de Thunberg não está em causa — é o efeito Thunberg que importa pensar.

* Num tempo de óbvia decomposição prática e simbólica de muitas formas de poder — a começar pelo poder das estruturas familiares junto dos jovens —, enunciar a juventude como fonte de poder corre o risco de deixar incólumes os efectivos sistemas de poder em que vivemos, propagando apenas uma ruidosa utopia mediática, tanto mais vazia quanto mais ruidosa. A esse propósito, somos mesmo levados a reconhecer que a multiplicação de "photo-ops" se tornou a linguagem dominante da presença de Thunberg no nosso dia a dia saturado de (des)informação. Involuntariamente ou não, o trabalho (interessantíssimo, não é isso que está em causa) da Time em torno de Thunberg contém os sintomas de uma hipotética irrisão. Como nesta foto [da autoria de Evgenia Arbugaeva], mostrando Thunberg a chegar a Madrid para marcar presença na Cimeira sobre o Clima — que vemos aqui: uma pessoa cercada pelos olhares das câmaras, ou tão só uma personagem a cumprir um ritual pré-formatado?

quarta-feira, dezembro 04, 2019

Emmanuel Macron
e a violência contra as mulheres

1. Na sua edição de 25 de Novembro, o jornal Libération publicou um artigo intitulado: 'No tribunal, Macron escuta uma vítima "sob o domínio" de um marido violento'. O texto relata uma das sessões organizadas pelo Presidente da França, decorrente do seu empenho em reforçar as políticas de combate à violência doméstica. Neste caso, tratou-se de um diálogo realizado numa pequena sala do tribunal de Créteil, na presença de apenas dois jornalistas, garantido à mulher escutada por Emmanuel Macron a não divulgação da sua identidade, sendo apenas referida pelo nome fictício "Hélène".

2. Escusado será sublinhar o valor social e pedagógico da atitude de Macron e a importância da sua cobertura jornalística. O artigo começa, aliás, de uma forma que condensa, com certeiro didactismo, aquilo que está em jogo:

>>> "Ainda tem medo?", pergunta-lhe o presidente. "Sim. Mas quis encontrar-me consigo porque isso pode ajudar outras mulheres".

3. Nada disso, creio, pode ou deve impedir o (re)lançamento de uma reflexão que, a meu ver, está quase sempre ausente dos próprios meios de comunicação. A saber: que discurso (jornalístico, justamente) se constrói a partir de temas como este e situações como a que aqui é noticiada?

4. Veja-se a chamada do artigo disponível na página de entrada do site do Libération [no topo deste post]: na base de uma foto de Macron podemos ler um destaque de maiúsculas brancas em fundo vermelho: "VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES". Aliás, a mesma foto, ainda com mais peso visual, ilustra o próprio texto.


5. Perversamente, poderá perguntar-se: estará o jornal a sugerir que o próprio presidente é, de alguma maneira, protagonista do tema em destaque? Nada disso, como é óbvio. Não se trata de brincar com coisas sérias, apenas de reconhecer um exemplo francamente pouco feliz de aplicação de uma imagem concreta e da sua articulação com as palavras escritas.

6. Qual seria a imagem "ideal" para ilustrar o artigo? Não sei. Nem creio que a pergunta seja pertinente: as infinitas discussões (?) sobre aquilo que o jornalismo poderia ou deveria ser desencadeiam, todos os dias, o mesmo inglório efeito. A saber: recalcar qualquer pensamento construtivo sobre o jornalismo que, realmente, se faz.

7. Este exemplo não põe em causa a pertinência do tema nem a boa fé do Libération. É tão só um sintoma benigno do nosso contexto mediático & global: todos repetimos que "vivemos num mundo de imagens" mas, com perturbante frequência, as imagens são descartadas como coisa banal e inconsequente.

domingo, novembro 17, 2019

Redes sociais, ódios sociais

Na CNN, palavras de um sobrevivente do Holocausto:
"As redes sociais são um instrumento poderoso na disseminação do ódio."
Muitas formas publicitárias de representação dos telemóveis tratam-nos como objectos inocentes e transparentes, a ponto de nos fazerem desistir de perguntar o que significa estar “em rede”: será preciso ir para lá das explicações de Mark Zuckerberg — este texto foi publicado no Diário de Notícias (9 Novembro), com o título 'Os ódios sociais'.

Entre as imagens que vi esta semana, registei esta com especial atenção. Pertence a um video da CNN que acompanha uma notícia (colocada online na quinta-feira) sobre a italiana Liliana Segre, senadora vitalícia de 89 anos responsável pela criação de uma comissão parlamentar contra o ódio, o racismo e o anti-semitismo. Segundo dados do centro de documentação da Fundação Judaica sediada em Milão, Segri tem sido alvo de mensagens “particularmente agressivas”, publicadas nas chamadas redes sociais à média de duas centenas por dia.
A imagem surge num registo audiovisual muito breve (pouco mais de dois minutos) que complementa a notícia. As legendas não são opcionais: por certo reconhecendo a importância do que é dito pelas duas pessoas entrevistadas — o alemão Manfred Goldberg e a francesa Freda Wineman, ambos sobreviventes do Holocausto —, a CNN inscreveu-as nas próprias imagens.
Campo de concentração de Auschwitz
As palavras de Goldberg são especialmente incisivas e pedagógicas: “O que me traz uma tremenda preocupação é que, em nome da liberdade de expressão, parecemos ignorar a lição da história.” Que lição? O video vai mostrando imagens do campo de concentração de Auschwitz, evitando a convencional voz off para “comentar” o que está a ser visto, optando antes por introduzir esta legenda: “Manfred diz que as redes sociais são um instrumento poderoso na disseminação do ódio.”
Por uma coincidência que está longe de ser irrelevante, esta foi também a semana em que Hillary Clinton teceu algumas considerações sobre a decisão anunciada pelo Facebook de não verificar a veracidade (“fact-check”) das informações incluídas na publicidade política que integra nas suas páginas. O seu testemunho teve como cenário a apresentação, em Nova Iorque, do documentário The Great Hack, produção da Netflix sobre o escândalo de manipulação de dados de milhões de pessoas, envolvendo a empresa Cambridge Analytica e o Facebook. Recordando o facto de, em 2016, o Facebook ter espalhado uma notícia (falsa) segundo a qual o Papa Francisco manifestara apoio a Donald Trump, seu adversário na eleição presidencial, Clinton considerou que Mark Zuckerberg “deveria pagar um preço” pelo que está a fazer à democracia.
Não se trata de demonizar os muitos e fascinantes recursos que a tecnologia nos proporciona. A questão é outra. No video da CNN, há também algumas imagens de uso de computadores associadas a mais algumas palavras de Goldberg: “Agora, a comunicação instantânea significa que qualquer pessoa individual que queira propagar pontos de vista contaminados por ódios raciais, pode fazê-lo de modo muito mais efectivo do que os nazis alguma vez conseguiram.”
A Rede Social
Claro que o video está longe de esgotar os dados de toda uma conjuntura que é política, económica e simbólica, numa palavra, cultural (o mesmo se poderá dizer, aliás, deste texto). Em qualquer caso, creio que importa reconhecer o valor de imagens como esta, capazes de resistir às mais agressivas representações publicitárias que endeusam os telemóveis como objectos dotados de uma vocação virginal de transparência e ecumenismo.
Nestas pequenas clivagens figurativas trava-se muito da guerra contemporânea das imagens. E em especial nos domínios globais — a começar pela Internet, suas informações e práticas publicitárias — em que o triunfo de um “naturalismo” supostamente imanente tende a esmagar as possibilidades de ver e pensar de maneiras diversas.
“Os utilizadores estão interligados, é esse o único objectivo” — quem o diz é Zuckerberg, ou melhor, a sua personagem tal como surge encenada num filme genial e premonitório sobre os malefícios do Facebook chamado A Rede Social (David Fincher, 2010). Resta saber se nós, adultos, estamos a usar os poderes de educação dos mais novos para lhes fornecer alguma consciência sobre o que significa estar “em rede”. Será que quando um adolescente pergunta o que foi Auschwitz, nos limitamos a dizer para procurar no telemóvel?...

sexta-feira, novembro 15, 2019

Impeachment, em 7 minutos

Conhecer o presente, compreender os acontecimentos para além da espuma mediática: eis um trabalho eminentemente jornalístico que alguns videos do New York Times ilustram de modo exemplar — aqui, para entender melhor o processo de destituição [impeachment] de Donald Trump, eis 7 didácticos minutos.

domingo, novembro 10, 2019

Prémios Europeus de Cinema
— as nomeações

Que factos podem explicar a fraqueza comercial de muitos filmes europeus no interior da própria Europa? Muitos e muito complexos. De tal modo que será sempre gratuito reduzir o problema a uma mais ou menos vingativa atribuição de "culpas".
Registe-se, em qualquer caso, um fenómeno recorrente. A saber: o tratamento ultra-discreto (para não dizer a omissão) a que, pela Europa fora, são sujeitos os anuais Prémios de Cinema Europeu, promovidos pela Academia de Cinema Europeu. Assim voltou a acontecer com a divulgação dos respectivos nomeados, este sábado, no Festival de Cinema Europeu de Sevilha. Eis os seis títulos que concorrem ao prémio de melhor filme de 2019 (os títulos sublinhados já foram lançados no mercado português):

J'ACCUSE, de Roman Polanski (França/Itália)

OS MISERÁVEIS, de Ladj Ly (França)

DOR E GLÓRIA, de Pedro Almodóvar (Espanha)

SYSTEMSPRENGER, de Nora Fingscheidt (Alemanha)

A FAVORITA, de Yorgos Lanthimos (Irlanda/Reino Unido)

O TRAIDOR, de Marco Bellocchio (Itália/Alemanha/França/Brasil)

A produção portuguesa está representada por duas nomeações na categoria de melhor curta-metragem: Cães que Ladram aos Pássaros, de Leonor Teles, e Les Extraordinaires Mésaventures de la Jeune Fille de Pierre (coprodução com a França), de Gabriel Abrantes.
No site da Academia está disponível a lista completa de nomeações.

domingo, outubro 20, 2019

O homem e o urso

Podia ser título para uma fábula de moral redentora. Mas não: "O homem e o urso já não sabem viver em conjunto" é o título utilizado na edição de fim de semana do Libération para dar conta dos episódios de uma existência conflituosa no cenário dos Pirinéus — uma crónica ecológica que desemboca, afinal, numa dramática lição de vida.

quarta-feira, outubro 09, 2019

"Joker" ou o retorno do trágico

Do teatro de Shakespeare ao melhor cinema contemporâneo, aprendemos a lidar com as componentes trágicas do destino: “Joker”, prodigioso filme, é um acontecimento fundamental nesse processo narrativo e humano — este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 Outubro).

Somos todos americanos: a agitação mediática em torno da ameaça de contaminação social pela “violência” do filme Joker é um esclarecedor sintoma do infantilismo narrativo em que vivemos. Entenda-se: não se trata de escamotear as tensões que circulam pelo tecido social (americano ou europeu); trata-se, isso sim, de tentar pensar de forma adulta, superando a equação alarmista segundo a qual a agitação nas ruas, benigna ou letal, se combate através da esterilização artística dos filmes (ou de qualquer outra narrativa).
Os exemplos pontuais não “explicam” o que quer que seja, mas ajudam-nos a resistir ao comodismo moralista. Assim, a 30 de Março de 1981, John Hinckley Jr. tentou matar Ronald Reagan, motivado pela ânsia de impressionar Jodie Foster, depois de a ter visto em Taxi Driver (1976), de Martin Scorsese. Será que alguém, de boa fé, se atreve em 2019 a negar ao filme de Scorsese um lugar fulcral, não apenas na história do cinema, mas na cultura popular do século XX?
E que fazer com o sangue, os gestos apocalípticos e as dores infinitas que circulam pelos textos de Coriolano, Júlio César ou Macbeth? Será que, num misto de candura e estupidez, nos preparamos para enclausurar William Shakespeare num qualquer domínio codificado cuja password só pode ser partilhada por alguns eleitos?
Não esqueço que as questões envolvidas excedem este (ou qualquer outro) filme, não cabendo, nem de longe nem de perto, na brevidade destas linhas. Mas como não reconhecer a cegueira narrativa das nossas sociedades que aceitam (e, mais do que isso, incentivam) o ocultismo barato de Harry Potter como forma de educação das crianças, resistindo a lidar com uma narrativa genuinamente trágica como Joker?
Aliás, em termos culturais e comerciais (é a mesma coisa…), a conjuntura surge ainda mais reveladora. Por um lado, temos assistido à ocupação dos mercados de todo o mundo pelos lugares-comuns dramáticos e técnicos da maioria dos filmes de super-heróis; por outro lado, basta a realização de Todd Phillips arriscar lidar com o imaginário dos mesmos super-heróis, repensando-o e reinventando-o, para que o mais básico gosto do cinema seja posto em causa pela ideologia mediática da vigilância e purificação social.
Sejam quais forem as notícias dos próximos dias, a questão de fundo será sempre outra. A saber: que nos está a acontecer para que as artes específicas das narrativas sejam tratadas como um “produto” cuja legitimidade seria medida pela “influência” que possam ter na vida quotidiana? Mais do que isso: como, porquê e para quê se tenta “explicar” as convulsões mais violentas desse quotidiano a partir das peripécias particulares de uma ou outra narrativa?
Em boa verdade, creio que a questão é infinitamente mais complexa, já que, através da genial composição de Joaquin Phoenix, Joker sabe devolver-nos um tabu contemporâneo. Ou seja: o carácter irredutível de um corpo. Circula por aí a grosseria ideológica de Kim Kardashian e outros “famosos” que celebram o corpo como um banal “gadget” promocional… Proliferam formatos da “reality TV” em que a vida sexual é tratada como uma proeza estatística… Tudo isso se instalou como o novo normal do imaginário do corpo e do desejo. Subitamente, descobrimos Phoenix a representar a estranheza do próprio corpo como elemento identitário e logo soam as trombetas vingativas do cinematograficamente correcto.
Será preciso acrescentar que a América (e o mundo) encontra em Joker um espelho surreal de muitos medos mediáticos ou mediatizados? Não é o Joker de Phillips/Phoenix esse ser solitário cujo desamparo não é estranho à crueldade que transporta? E como olhar as suas contradições sem sentir medo? O mais difícil será reconhecer que ele é o fantasma de cada um de nós — a tragédia nunca foi estranha a algum realismo.

quarta-feira, setembro 25, 2019

Trump, por escrito

[FOTO: Le Monde]
Depois da abertura de um processo de impeachment, que poderá conduzir (ou não) à destituição de Donald Trump, a Casa Branca divulgou o registo da conversa do Presidente dos EUA com Vladimir Zelenski, presidente da Ucrânia [The Guardian]. Há, desde já, uma óbvia confirmação: Trump tentou "mobilizar" Zelenski para investigar Joe Biden e o seu filho...
Em qualquer caso, o que importa referir é a fundamental mudança de paradigma: seja qual for o desenlace deste processo, a linguagem dominante do audiovisual (televisão & Net) passou a coexistir na dinâmica social com a matéria primitiva da escrita, da palavra escrita — eis um assinalável acontecimento político.

segunda-feira, junho 10, 2019

O cérebro, verdades e mentiras

Albert Moukheiber
Psicólogo, especialista em neuro-ciência, professor, Albert Moukheiber estuda o cérebro humano e, em particular, o modo como as nossas percepções podem oscilar do conhecimento à crença, da informação ao preconceito — não por acaso, a questão crítica das "fake news" tem sido uma zona particular do seu trabalho, bem como do colectivo neuro-científico Chiasma (de que foi um dos fundadores). O seu livro Votre Cerveau Vous Joue des Tours (à letra: "O vosso cérebro prega-vos partidas") explora, justamente, essa dinâmica cerebral que nos permite reconhecer que "face a um real múltiplo e complexo, estamos sujeitos à aproximação, à ilusão e ao erro."
Num delicioso video do jornal Le Monde, Moukheiber expõe alguns mecanismos básicos de funcionamento do cérebro — ou como as relações verdade/mentira acontecem numa paisagem em permanente, inquietante e fascinante movimento.  

sábado, abril 27, 2019

O prazer da leitura segundo "The Guardian"

Subscribe to the joy of print — a recente campanha de angariação de assinaturas de The Guardian celebra a "alegria do papel impresso". Que é como quem diz: num contexto de perturbante complexidade económica & cultural, marcado pelo dramatismo da dicotomia material/virtual (contexto em que, sejam quais forem as determinações geográficas e culturais, ninguém possui respostas seguras), o jornal britânico aposta na revalorização do mais primitivo prazer da leitura.
Concebida pela agência londrina Oliver, a campanha — que integra também The Observer, jornal dominical do mesmo grupo —estabelece um sugestivo contraponto com outras vertentes "sociais" de leitura, acesso a notícias, ideias e opiniões. Por uma vez, é bom encontrar uma iconografia do cidadão (eu, tu, ele...) em que o olhar não surge dependente de um ecrã mais ou menos luminoso, fixando-se antes da singularidade táctil do papel.

sábado, abril 20, 2019

Notre Dame ou os dias da Europa

Perante as imagens de destruição da Notre Dame de Paris, todos evocamos a grandeza histórica da nossa Europa. Será que isso basta para sermos realmente europeus? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (18 Abril), com o título 'A Europa do nosso descontentamento'.

Contemplo as imagens de destruição da Notre Dame de Paris. Nos jornais e televisões, nos noticiários televisivos, o fogo acorda em nós a certeza amarga de uma impotência que importa superar, quanto mais não seja porque sabemos que o fazer da história é um infinito labor de construção e reconstrução, perdição e esperança.
Sinto-me, por isso, próximo de todos os discursos que apontam Notre Dame como símbolo de uma entidade em que, subitamente, para além de todas as crises, todos nos reconhecemos. A saber: esse lugar geográfico e mítico a que damos o nome de Europa.
Ao mesmo tempo, a sensação de comunhão face à vulnerabilidade da Notre Dame acorda em mim um outro sentimento que, mal ou bem, é também uma forma de pensamento. Que acontece (que está a acontecer) quando necessitamos de imagens trágicas como as que nos chegam de Paris para nos afirmarmos europeus?
DN (16-04-19)
Não quero encerrar a questão em generalizações automáticas, dessas que podem funcionar meia dúzia de dias nas manchetes televisivas para depois se desvanecerem numa agonia silenciosa de esquecimento. Ainda assim, pergunto-me se esta comunhão não envolve os valores (ou a falta deles) do mais corrente niilismo. Como se os contrastes, porventura as contradições, que todos sentimos — entre a utopia europeia e a sua vivência política — necessitassem de imagens cruas de destruição ou morte para a Europa reaparecer à tona do nosso oceano de diferenças.
Para nos ficarmos pelas imagens, precisamente, lembremos que vivemos numa Europa cujo espaço televisivo está todos os dias contaminado pela miséria conceptual e moral da “reality TV” e seus derivados. A formatação obscena dos comportamentos humanos promovida pela “reality TV” (com especial evidência para a coisificação sexual de homens e mulheres) transformou-se mesmo num elemento corrente de muitos modelos de comunicação televisiva — ou, como dirão os “especialistas”, um formato.
Não vejo, não escuto os protagonistas da cena política a defender uma ideia primordial de Europa face a essa metódica irrisão dos laços humanos e da mais nobre noção de humanismo. Vejo, isso sim, e escuto-os, a dar conta da tristeza radical com que contemplam as imagens de Notre Dame.
No meu recanto individual, partilho tal tristeza e acredito que os projectos de reconstrução se vão consumar, superando a destruição física e renovando o nosso amor por aquela igreja e o seu tocante simbolismo. Pergunto-me apenas se (e como) é possível termos mais Europa nos outros dias, aqueles em que o fogo não nos alerta para a ancestral excelência da nossa identidade colectiva.

terça-feira, março 05, 2019

A sociedade dos telemóveis

Hong Kong, estação de metro (5 Dez. 2018)
FOTO: Anthony Wallace
Lembram-se do filme Her - Uma História de Amor (2013), de Spike Jonze? Pois bem, há muito que o seu pano de fundo — uma sociedade sem comunicação entre os indivíduos, cada um fechado na relação com o seu telemóvel — deixou de ser uma história de ficção científica: a multiplicação dos telemóveis no nosso quotidiano reconfigurou esse mesmo quotidiano, transfigurando todas as relações humanas, por vezes reduzindo-as ao absurdo existencial ou ao mais cruel vazio identitário.
São sinais desse estado de coisas (e também das suas eventuais maravilhas) que encontramos no portfolio de 42 imagens organizado pelo jornal The Boston Globe, no seu blog fotográfico 'The Big Picture'. O título é revelador: A sociedade dos telemóveis.

O Papa Francisco no Vaticano (9 Jan. 2019)
FOTO: Andrew Medichini
Pequim, estação de comboios (5 Dez. 2018)
FOTO: Andy Wong
Palácio de Bellas Artes, Cidade do México
— aplicação para seguir uma exposição de pintura espanhola (Julho 2018)
FOTO: Mario Guzman
'Caravana de migrantes' carregando os seus telemóveis
— Tijuana, México (23 Nov. 2018)
FOTO: Mario Tama

sábado, março 02, 2019

Política vs. entertainment vs. cultura

Michel Cohen no Congresso dos EUA [27-02-19]
Muitas atribulações da cena política passaram a existir como acontecimentos televisivos. Resta saber se temos consciência da transformação da nossa condição de espectadores — este texto foi publicado no Diário de Notícias (28 Fevereiro).

Eis uma data emblemática: na quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2019, qualquer cidadão, em qualquer parte do mundo, pôde seguir as declarações ao Congresso dos EUA de Michael Cohen, ex-advogado de Donald Trump, definindo o actual Presidente dos EUA como um “racista”, um especialista em “golpes” e um “mentiroso”. E eis uma evidência suplementar: esta possibilidade de acompanharmos as atribulações da cena política em directo há muito deixou de ser uma excepção; em boa verdade, talvez se possa dizer que muitas formas de fazer política passaram a integrar tal possibilidade.
Podemos até reconhecer, e com toda a transparência, que esta conjugação político-mediática transfigurou os próprios órgãos de informação. Ou, se quiserem, e para utilizarmos a expressão corrente, modificou todos os conceitos e práticas da comunicação social.
De tal modo que a própria noção de “especialização” informativa mudou. Assim, por exemplo, e para nos ficarmos pela paisagem informativa dos EUA, foi possível seguir as imagens de Michael Cohen nos sites de The New York Times e The Washington Post, mas também de The Hollywood Reporter ou Variety. Em termos práticos, o directo de Cohen surgiu, lado a lado, com as mais recentes notícias e análises sobre a cerimónia dos Oscars, realizada no domingo em Los Angeles.
Dizer que tudo isto não passa de um reflexo da chamada “informação-espectáculo” é, talvez, demasiado fácil. É verdade que sabemos que um dos actuais dramas do jornalismo global envolve a discussão das formas de coexistência ou contaminação entre a paixão dos factos e a sedução do “entertainment”. Mas não é menos verdade que tal discussão, por mais pertinente que seja (e é!), não pode ignorar a violenta mudança de paradigma em que vivemos ou nos obrigam a viver. A saber: em democracia, o trabalho político é cada vez menos um sistema de mediações (entre eleitores e eleitos), existindo cada vez mais como celebração contínua dos instantes e eventos que adquirem alguma visibilidade televisiva.
Seria precipitado tentar compreender o estado das coisas através de um qualquer dualismo “pró & contra” ou “verdade & mentira”. Uma coisa é certa: estamos a perder o sentido do tempo e o gosto da duração. Cada gesto político tende a manifestar-se como acontecimento imediato e mediático, colocando-nos na posição, não de agentes, mas de espectadores passivos da própria política.
Resta saber que espectáculo nos é proposto. Em qualquer caso, quando leio as notícias da regular baixa de frequência das salas de cinema (em Portugal e não só), não posso deixar de pensar que é esse modelo primitivo de ser espectador que está a ser metodicamente decomposto. Ser cinéfilo tornou-se mesmo uma forma essencial de fazer política cultural, ou melhor, de pensar a cultura em termos políticos.

quarta-feira, fevereiro 27, 2019

Michael Cohen vs. Donald Trump

Para que fique registado: este é o video (de mais de sete horas de duração) disponibilizado por The New York Times, correspondente ao interrogatório de Michael Cohen, ex-advogado de Donald Trump, no Congresso dos EUA — ou como a cena política existe, hoje em dia, como acontecimento televisivo ou tele-jornalístico.

segunda-feira, janeiro 21, 2019

26 = 3.800.000.000

Oxford Committee for Famine Relief — constituída em 1942, agregando duas dezenas de organizações de cariz humanitário, a Oxfam publicou um relatório em que dá conta das desigualdades globais na distribuição da riqueza. Com uma estatística trágica: 26 multi-milionários concentram tanta riqueza quanto 3.800 milhões de habitantes do planeta Terra (metade da humanidade) — sobre tal indecência, leia-se o dossier hoje publicado pelo Libération; no seu site, a revista Time trata a notícia com um video que inclui um breve depoimento de Winnie Byanyima, directora executiva da Oxfam International. 

domingo, dezembro 23, 2018

"Coletes amarelos" — a ressaca

GIORGIO DE CHIRICO
A Canção do Amor
1914
A. Na ressaca da manifestação dos "coletes amarelos", assistimos ao triunfo mediático de uma insólita transferência temática: já não se pensa (se é que alguma vez se pensou) o que é, ou seria, tal manifestação; agora quase tudo parece ter a ver com o jornalismo e a "comunicação social". Daí três "análises" que têm circulado:
1 — a "comunicação social" exagerou na antecipação da manifestação e da sua potencial dimensão;
2 — os "coletes amarelos" portugueses são uma derivação redutora e, no limite, simplista do fenómeno francês;
3 — o jornalismo dominante passou a existir como eco automático, sem pensamento, das chamadas "redes sociais".

B. Podemos reconhecer que qualquer uma dessas considerações terá algum fundamento, em especial no que diz respeito à cedência de muitas formas de jornalismo à mediocridade panfletária e argumentativa que se socializou nas chamadas "redes sociais". Afinal de contas, a vida vivida, do espaço singular de cada cidadão aos mecanismos de informação, possui algo de sistema de vasos comunicantes — tudo o que acontece não pode ser compreendido através da sua inserção num qualquer domínio fechado, acontece através de um jogo de relações, influências e contaminações que resiste a ser descrito de forma mecânica, estritamente racional. Resta saber que consciência temos disso enquanto sociedade.

C. Assistimos, enfim, ao triunfo de um esvaziamento, metódico e quotidiano, do factor social. Desde logo porque a maior parte dos meios de comunicação (e também muitos cidadãos) deixaram de usar a palavra social para se referirem à complexidade das relações humanas — há mesmo algum jornalismo cego ao espaço/tempo em que existe, só reconhecendo que algo de social acontece quando uma qualquer agitação, por mais anedótica que seja, de preferência estúpida e pueril, surge em "rede". Um eventual resgate caricatural daquilo que aconteceu com os "coletes amarelos" portugueses não passa, por isso, de um sintoma da nossa fragilidade enquanto colectivo — temos "redes", "links" e polegares em frenética actividade; faltam-nos ideias para lidar com o outro.

P.S. — Em tempos de triunfo das "redes sociais", a solidão individual constitui a verdade mais radical do nosso mal viver — estamos a ser (des)educados para ignorar e, no limite, menosprezar o nosso semelhante.

quinta-feira, dezembro 20, 2018

Trump, personagem burlesca

Na cena mediática, será que os incidentes mais ou menos burlescos protagonizados por uma determinada personalidade política esgotam a sua identidade pública?
A resposta é clara: não. Só mesmo a televisão mais populista e os tablóides mais oportunistas vivem dessa obscena "dialéctica". A saber: promover os incidentes ao estatuto de ridículo sem remissão.
Ainda assim, há nuances. Quando uma personalidade política se vai distinguindo pela mediocridade ideológica, demagogia argumentativa ou falsidade moral do seu discurso, cada incidente pode passar da condição de mero percalço ao estatuto de elemento revelador — o acaso transfigura-se em sintoma.
Sintomático é Donald Trump. Foi isso mesmo que, no balanço do ano, foi reconhecido, com notável sagacidade e ironia, pela redacção do jornal The Washington Post — eis o balanço dos "momentos mais constrangedores" do 45º Presidente dos EUA ao longo do ano da graça de 2018.

sábado, dezembro 15, 2018

Os "coletes amarelos" e o nosso realismo

[ Midi Libre ]
Como olhamos as imagens que nos chegam das ruas de Paris? Ou melhor: para além da agitação dessas imagens, como pensamos a vida das nossas sociedades? Interrogações que estão longe de estar fechadas — este texto foi publicado no Diário de Notícias (15 Dezembro), com o título: 'Paris e os “coletes amarelos”: entre o ferro velho e o cosmos'.

Eis uma maldição mediática dos nossos dias. A proliferação de canais de difusão e comunicação transformou-nos, todos, em tardios filósofos pós-modernos. Repare-se: ora com avidez, ora em pose de indiferença, consumimos o caudal infinito de imagens a que temos acesso — do televisor ao computador, passando pelo telemóvel —, ao mesmo tempo que nos perguntamos, entre sedução e desconfiança, o que significa esta avalanche de informação.
De tal modo estamos envolvidos nas delícias pueris dessa vertigem que nem sequer formulamos a mais básica interrogação (filosófica, justamente): por que é que passámos a associar a informação apenas aos nossos múltiplos ecrãs, menorizando, porventura anulando, o valor da palavra escrita?
O que está a acontecer em França com os “coletes amarelos” é revelador. Movemo-nos numa semi-consciência gratificante, algures entre o fascínio bruto dos materiais informativos e a inquietação sem nome que qualquer cidadão minimamente sensível não pode deixar de sentir.
"ferro velho"
Reencontro, assim, esses novos anjos da guarda do conhecimento que são os repórteres dos directos televisivos. Todos ou quase todos se expõem no meio de situações mais ou menos agitadas. Para eles e, em boa verdade, para todo o dispositivo televisivo, a ilustração imediata dessa agitação parece funcionar como prova transcendental de verdade — “estou no meio da confusão, logo existo”.
Curiosamente, uma das informações mais frequentes que emerge nas palavras ditas por esses repórteres é a associação dos acontecimentos em que surgem inscritos às “redes sociais” (com aspas). Segundo eles, da convocação das manifestações às mensagens nelas explícitas ou implícitas, tudo pode ser conhecido, consultado e racionalizado através das “redes sociais” (sempre com aspas, insisto).
Que acontece, então? São os próprios repórteres, em grande plano, com as correrias e os gases lacrimogéneos em fundo, que nos convocam para uma cruel cegueira cognitiva. A saber: assombrados pelos poderes virtuais, já ninguém diz que o social (sem aspas) está ali mesmo, na agitação das ruas, onde eles se apresentam, microfone na mão e olhar fixo na câmara. Que tempo é este em que o jornalismo dominante deixou de aplicar o adjectivo “social” a não ser para consagrar a sua dimensão virtual?
"cosmos"
Convenhamos que os acontecimentos são complexos e, por muitas razões, perturbantes — por mim, não posso deixar de reconhecer as minhas dificuldades, e muitas hesitações, para tentar articular qualquer leitura minimamente consistente sobre o que me é dado ver nas imagens das ruas de Paris.
Em qualquer caso, ficam os sinais dessa ilusão mediática em que somos convidados a considerar o mundo à nossa volta: deixámos de olhar os lugares do nosso viver como expressão primeira de um qualquer conceito de sociedade; passámos a privilegiar o conhecimento através da paraíso virtual das “redes sociais” (regressam as aspas) e transformámo-nos todos em repórteres de coisa nenhuma: viramos as costas ao que está a acontecer, olhamos para a câmara e desvalorizamos a relação com o turbilhão vivo da sociedade.
A tentação de evocar as imagens de Maio de 1968, também nas ruas de Paris, é grande — e pode ser completamente gratuita. Lembremos, por isso, o mais básico: aplicar o mantra segundo o qual “a história se repete” será tão só uma consolação para a nossa preguiça cognitiva. Apesar disso (aliás, precisamente por causa disso), vale a pena lembrar que a herança figurativa de há 50 anos envolve a consciência muito forte, e também muito desafiante, da complexidade do social.
Cerca de um ano antes de Maio, Jean-Luc Godard realizou um filme amargo e desencantado sobre o modo como a sociedade francesa estava a viver um tempo minado pelos valores do consumo e da publicidade, num processo de esvaziamento de todas as relações humanas (a começar pela sexualidade). Chamava-se Fim de Semana e, por boas razões, fixou-se na memória cinéfila como um objecto premonitório das convulsões de Maio de 1968. Nas suas legendas iniciais, definia-se como “um filme à deriva no cosmos”, sugestão apocalíptica que começava na mais básica humildade artística: “um filme encontrado no ferro velho” [ver fotogramas].
FIM DE SEMANA (1967)
Continuamos, assim, a vogar entre as cósmicas promessas redentoras e os restos do nosso mal viver. Ao percorrermos as ruas de Paris através dos directos televisivos, as urgências da nossa vida social — da informação ao pensamento, da economia à política — emergem, intratáveis, para além da celebração quotidiana de links e polegares ao alto. O trabalho cognitivo que tudo isso exige está muito para além da imagem realista do repórter, arfante e sacrificial, heroicamente perturbado pelo gás lacrimogéneo da polícia. Não creio que necessitemos de heróis. Seja como for, precisamos de outro realismo.