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domingo, fevereiro 14, 2021

Da inocência de “A Guerra das Estrelas”
ao marketing de “Star Wars” [3/3]

Ewan McGregor, herdeiro de Alec Guinness

Foi em 1977 que surgiu o título inaugural de Star Wars, uma criação de George Lucas. Muitos anos depois, através de ramificações que vão desde a televisão aos videojogos, passando pelos brinquedos, a saga passou a ser um dos principais trunfos comerciais dos estúdios Disney; nas salas de cinema, o próximo filme está agendado para o Natal de 2023 — este texto foi publicado no Diário de Notícias, com o título 'Os "filhos" de George Lucas' (30 janeiro).

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Os filmes de Jenkins e Waititi deverão surgir em paralelo (ou alguma forma de alternância) com uma outra trilogia que se anuncia como “independente” da saga de Skywalker: os respectivos argumentos estão entregues a Rian Johnson, realizador responsável por Star Wars: Episódio VIII - Os Últimos Jedi (2017). Grande actividade está também prevista no domínio televisivo, sobretudo depois do impacto das duas primeiras temporadas da série The Mandalorian, um dos principais trunfos da plataforma Disney+: criada por Jon Favreau em 2019, a série, já com uma terceira temporada em fase de produção, aposta na recriação de referências de Star Wars num registo de aventuras que o próprio Favreau definiu a partir da inspiração do “western” e dos filmes de samurais.
Com lançamento previsto para 2022, Andor é outra série em gestação, neste caso narrando os antecedentes da história de Rogue One: Uma História de Star Wars (2016), o primeiro dos “filmes de antologia” que começou a desenvolver um novo conceito: recriar os elementos figurativos e o modelo de aventuras de Star Wars, agora introduzindo novas personagens (por exemplo, a guerreira Jyn Erso, interpretada por Felicity Jones). Obi-Wan Kenobi, o lendário mestre Jedi, estará também no centro de uma série (homónima) com Ewan McGregor a retomar o papel que, em 1977, foi criado por Alec Guinness.
Face a este ziguezague de histórias e personagens, não deixa de ser desconcertante recordar que o projecto de A Guerra das Estrelas nasceu assombrado por muitos percalços, adiamentos e dúvidas. Lucas estreara-se na longa-metragem com THX 1138 (1971), um brilhante exercício de ficção científica que desenvolvia os temas e ambientes de uma curta-metragem que realizara em 1967, ainda na condição de estudante de cinema na Universidade da Califórnia. Desde essa altura, alimentou a ideia de concretizar um outro tipo de aventura, menos trágica, mais festiva, tendo mesmo tentado garantir os direitos de adaptação de Flash Gordon, a banda desenhada criada em 1934 por Alex Raymond.
Entretanto, Flash Gordon foi adquirido pelo produtor italiano Dino De Laurentiis (que lançaria a respectiva adaptação, realizada pelo inglês Mike Hodges, apenas em 1980), levando Lucas a trabalhar em algo bem diferente: American Graffiti (1973), misto de romantismo e comédia, com muitas componentes autobiográficas, sobre um grupo de jovens que celebra o fim do liceu e a entrada na universidade (subtítulo português: Nova Geração).
Na altura, Lucas integrava uma galeria de notáveis — Francis Ford Coppola, Martin Scosese, Brian De Palma, Steven Spielberg, etc. — que, de facto, estavam a mudar todas as regras do jogo no interior da grande máquina de Hollywood. Em 1975, com o espectacular sucesso do seu prodigioso Tubarão, Spielberg inaugurara, para o melhor e para o pior, a idade dos “blockbusters”.
Ainda assim, para Lucas, a procura de um estúdio disposto a financiar Star Wars não foi simples: depois da revelação através de filmes relativamente baratos, os executivos duvidavam da sua capacidade para gerir um tão grande orçamento… Na sequência de sucessivas recusas, seria Alan Ladd Jr., presidente da 20th Century-Fox, a dar um voto de confiança a Lucas, avançando com 11 milhões de dólares para a produção (valor, apesar de tudo, mediano para a época). Para a história épica da galáxia de Hollywood, registe-se que entre os estúdios que, na altura, não quiseram colocar o seu dinheiro em Star Wars estava uma empresa lendária, de seu nome Walt Disney Productions.

quarta-feira, fevereiro 10, 2021

Da inocência de “A Guerra das Estrelas”
ao marketing de “Star Wars” [2/3]

C-3PO + George Lucas

Foi em 1977 que surgiu o título inaugural de Star Wars, uma criação de George Lucas. Muitos anos depois, através de ramificações que vão desde a televisão aos videojogos, passando pelos brinquedos, a saga passou a ser um dos principais trunfos comerciais dos estúdios Disney; nas salas de cinema, o próximo filme está agendado para o Natal de 2023 — este texto foi publicado no Diário de Notícias, com o título 'Os "filhos" de George Lucas' (30 janeiro).

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As muito mediatizadas manifestações dos fãs de Star Wars podem sustentar todo um imaginário festivo, em que a alegria da celebração se cruza com as estratégias da promoção, mas não bastam para abarcar e compreender a dinâmica financeira do universo Star Wars. Envolvem até um desconcertante valor de “purificação”: tudo se passa como se aquilo que acontece “numa galáxia muito, muito distante” fosse a expressão utópica de uma existência sem qualquer relação com as realidades muito terrenas em que, mesmo com todos os seus sonhos e artifícios, o cinema existe.
Até porque algo de essencial mudou a partir de 21 de dezembro de 2012, data em que a Walt Disney Company concluiu a aquisição da Lucasfilm. Valor global do negócio: 2,2 mil milhões de dólares em dinheiro e 1,85 mil milhões em acções — contas redondas: 1,8 e 1,5 mil milhões de euros, respectivamente.
Podemos acrescentar: não era caso para menos. A saga lançada por Lucas em 1977, precisamente com o filme que se intitulava apenas Star Wars, transformou-se num fenómeno realmente global, gerando uma multiplicidade de negócios que rapidamente envolveram outros domínios, para lá da produção de filmes para as salas escuras: séries de televisão, videojogos, banda desenhada, brinquedos, parques temáticos, etc.
Eram, realmente, tempos diferentes. Desde logo na percepção dos próprios filmes através da publicidade: a palavra “marketing” circulava como um preciosismo linguístico, não um cliché da linguagem corrente. No mercado português, podemos observar um curioso sintoma disso mesmo na identificação (comercial e popular) desse primeiro título da saga: para todos os espectadores, novos e velhos, que o descobriram nas salas, tratava-se, não de Star Wars, mas de A Guerra das Estrelas
O título possuía, aliás, o apelo de uma noção primitiva de aventura mais ou menos inocente. Agora, com o triunfo global de um marketing que aposta na imposição de palavras e fórmulas anglo-saxónicas, o filme de 1977 passou a ser um híbrido linguístico: Star Wars: Episódio IV - Uma Nova Esperança. A mais recente derivação do universo original (um dos chamados “filmes de antologia”) dá pelo nome bizarro de Han Solo: Uma História de Star Wars (2018).
Como é do conhecimento geral da população cinéfila, a saga de nove episódios não foi produzida por ordem cronológica das respectivas acções. Como produtor ou realizador, Lucas está directamente ligado aos seis primeiros: o quarto, o quinto e o sexto, que surgiram entre 1977 e 1983; o primeiro, o segundo e o terceiro lançados de 1999 a 2005. Já com chancela Disney, Star Wars adquiriu uma regularidade, industrial e comercial, que nunca tinha tido: a trilogia final (episódios VII, VIII e IX) chegou às salas de cinema de todo o mundo com intervalos de dois anos entre os respectivos títulos, em dezembro de 2015, 2017 e 2019.
Mais do que nunca, os actuais planos de expansão de Star Wars assemelham-se a um processo científico de infinita clonagem. Os filmes de longa-metragem, concebidos para o circuito clássico das salas (com ou sem pandemia, veremos…) constituem apenas uma das frentes de produção. Em boa verdade, essa é uma lógica de gestão que se foi consolidando ao longo das décadas, ainda sob o comando de Lucas. Basta lembrar que as receitas globais dos nove títulos canónicos (um pouco mais de 10 mil milhões de dólares) correspondem apenas a 14% das receitas geradas por todas as variações comerciais, da televisão aos brinquedos, encarnadas pela saga (estimadas em quase 70 mil milhões).

quinta-feira, fevereiro 04, 2021

Da inocência de “A Guerra das Estrelas”
ao marketing de “Star Wars” [1/3]

Foi em 1977 que surgiu o título inaugural de Star Wars, uma criação de George Lucas. Muitos anos depois, através de ramificações que vão desde a televisão aos videojogos, passando pelos brinquedos, a saga passou a ser um dos principais trunfos comerciais dos estúdios Disney; nas salas de cinema, o próximo filme está agendado para o Natal de 2023 — este texto foi publicado no Diário de Notícias, com o título 'Os "filhos" de George Lucas' (30 janeiro).

A tradição associa os novos títulos de Star Wars ao período natalício. Mas a saga de Darth Vader [foto] e Luke Skywalker já não é o que era. Como bem sabemos, em 2020, nem sequer haveria condições para cumprir a tradição, já que as salas de cinema de todo o mundo continuavam (e continuam) a debater-se com os dramas gerados pela situação de pandemia. Em qualquer caso, uma notícia marcou de forma indelével o final do ano: Patty Jenkins, a realizadora de Mulher Maravilha (2017) e Mulher Maravilha 1984 (2020), irá dirigir o próximo título da saga, intitulado Rogue Squadron. Para que a tradição possa voltar a ser o que era, a data de lançamento já está agendada: 25 de dezembro de 2023.
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A novidade foi devidamente sublinhada pelas regras de diversificação profissional que, a todos os níveis, têm marcado as políticas de produção de Hollywood. Ou seja: Jenkins será a primeira mulher a assinar a realização de um filme de Star Wars. Aliás, o simbolismo envolveu também o facto de a notícia ter sido dada por outra mulher, Kathleen Kennedy, presidente da Lucasfilm — aconteceu durante o chamado “dia dos investidores”, organizado pela Disney para dar conta dos seus principais projectos, do cinema aos parques temáticos.
Rogue Squadron é apenas uma das novidades que irá ostentar o “selo” Star Wars. A partir do momento, há quase uma década, em que a saga criada por George Lucas passou a integrar o império Disney, tem sido seguido um calendário com qualquer coisa de plano quinquenal (sem conotações soviéticas…): a estratégia desenvolve-se mantendo a presença multifacetada da marca Star Wars na paisagem global do “entertainment”. Assim, para depois de Rogue Squadron já está previsto, por exemplo, um outro filme, ainda sem título, dirigido por Taika Waititi, o neozdelandês que ganhou um Oscar com o argumento do seu filme Jojo Rabbit (2019).

segunda-feira, maio 04, 2020

John Williams em dia de Star Wars

Para John Williams, a sua 'Marcha Imperial', de Star Wars, nunca tinha soado assim; segundo ele, os músicos da Filarmónica de Viena tocaram-na "como se fosse sua". Aconteceu no passado mês de Janeiro, quando o próprio compositor assumiu pela primeira vez a condição de maestro de tão prestigiado ensemble. Para celebrar o 4 de Maio [Star Wars Day], a Deutsche Grammophon editou o tema em single e divulgou-o em video, antecipando a edição integral do concerto em que ocorreu tal performance — além do mais, com uma realização televisiva de milimétrica elegância.

sexta-feira, dezembro 27, 2019

THX 1138 + A Guerra das Estrelas + Star Wars

Robert Duvall em THX 1138
A estreia do episódio final da saga Star Wars é um bom pretexto para revisitarmos THX 1138, a primeira longa-metragem de George Lucas: em regime de produção independente, ele começou também pela ficção científica — este texto foi publicado no Diário de Notícias (21 Dezembro).

É para mim um mistério a alegria mediática com que, face a cada novo filme da saga Star Wars, as acções dos respectivos fãs adquirem tão especial peso público. É verdade que não sinto qualquer entusiasmo pelo episódio IX, A Ascensão de Skywalker, agora lançado nas salas de todo o planeta. Mas não é esse o motivo da minha perplexidade, quanto mais não seja porque há décadas, com argumentações certamente discutíveis, me mantenho fiel a uma linha básica de pensamento crítico: a acção desse pensamento não é normativa, quer dizer, não procura qualquer confirmação ou gratificação nos pontos de vista de outros.
O que está em causa é a própria globalização do fenómeno. Assim, por exemplo, no mesmo dia em que o planeta se agitava com a estreia de A Ascensão de Skywalker, chegou às salas portuguesas a versão final (“final cut”) de Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola, um dos títulos mais lendários de toda a história do cinema, além do mais em cópia primorosamente restaurada… Mas não houve espectáculo de fãs… Para quê, aliás?
Se o leitor teve a bondade de me acompanhar até aqui, peço que compreenda que nada disto pretende suscitar a aplicação dessa frase feita — “de quem é a culpa?” — que, hoje em dia, tende a enquadrar quase todos os debates, sejam eles sobre as complexidades das políticas sociais ou os golos sofridos pela instável defesa do Sporting… Não se trata de procurar “culpados”, mas de tentar perceber o que ganhamos e, sobretudo, perdemos com a visão clubista dos objectos cinematográficos.
No nosso país, Star Wars já se chamou A Guerra das Estrelas (título com que, em 1977, foi lançado o primeiro filme da saga). Era um tempo em que a violência normativa do marketing global ainda não tinha o poder de obliterar as singularidades da língua de um país. Mas era também um tempo em que, apesar de tudo, a pluralidade interior do cinema era objecto de conhecimento da maioria dos espectadores. Isso tinha um nome: cinefilia. Agora, dir-se-ia que ser fã de um filme, ou conjunto de filmes, implica a ignorância festiva dessa pluralidade. Não é uma questão que tenha a ver com a inteligência das pessoas — a sua agressiva formatação começa nos valores dominantes do mercado.
Seria interessante lembrar que a resistência às transformações introduzidas na saga pelos estúdios Disney, actuais proprietários da Lucasfilm (produtora de Star Wars), começaram no seu criador: George Lucas. O que, entenda-se, não exclui o reconhecimento de alguma fraqueza das razões de Lucas, já que as limitações dramáticas e dramatúrgicas de A Ascensão de Skywalker não podem ser separadas de um sistema de narrativa e produção que ele próprio colocou em movimento.
Ainda assim, é desconcertante que, com o passar das décadas, o triunfo económico e simbólico da “franchise” Star Wars não tenha gerado qualquer movimento de redescoberta de THX 1138 (1971), a primeira longa-metragem de Lucas produzida em regime rigorosamente independente. Porquê? Desde logo, porque se trata de um exemplar exercício narrativo, filiado na mais nobre tradição da ficção científica (literária, antes do mais), figurando um futuro distópico em que a “normalização” das relações humanas acontece através da proibição de tudo o que possa ser carnal, das emoções ao sexo.
Na sociedade hiper-vigiada de THX 1138, cada humano deixou de ter nome, sendo designado por um código imposto pelo estado: THX 1138 é a personagem de Robert Duvall, precisamente um trabalhador de uma fábrica de polícias-andróides. São esses “bonecos” que vigiam todas as actividades quotidianas, obedecendo apenas (e este “apenas” é terrível) a uma interpretação literal de um sistema fechado de leis. É certo que a acção do filme tem lugar no século XXV, mas a inquietação da frase promocional do seu cartaz persiste: “O futuro está aqui”.

sábado, dezembro 21, 2019

"Star Wars"
ou Hollywood já não é o que era

Com a estreia do episódio nº 9 de Star Wars, está encerrada a saga inter-galáctica concebida por George Lucas há mais de quatro décadas. Mas já não é o seu nome que identifica o fenómeno: agora, a galáxia muito, muito distante pertence aos estúdios Disney — este texto foi publicado no Diário de Notícias (18 Dezembro).

Nestes tempos em que tudo pode ser objecto de mercantilização, talvez seja adequado cedermos à linguagem dos tecnocratas, resumindo a história de Star Wars num número: 4,05. Não será muito impressionante, convenhamos. Mas devemos ser mais explícitos: 4,05 mil milhões de dólares, qualquer coisa como 3,6 mil milhões de euros (quase sete vezes a despesa prevista para a Cultura, em Portugal, no Orçamento de Estado para 2020). Foi esse o valor que, em 2012, os estúdios Disney pagaram para adquirir a Lucasfilm, precisamente a empresa através da qual George Lucas geriu as suas histórias de uma galáxia muito, muito distante.
A Ascensão de Skywalker é, assim, o terceiro título da saga concebido, produzido e distribuído pela marca Disney, depois de O Despertar da Força e Os Últimos Jedi, respectivamente em 2015 e 2017. Uma hipótese clássica, simplista e sedutora levar-nos-ia a especular sobre o modo como o estúdio do Rato Mickey e do Pato Donald “respeitou” ou “atraiçoou” o legado de Lucas. Na verdade, podemos poupar nas especulações. No seu livro de memórias, The Ride of a Lifetime (publicado em setembro deste ano), Bob Iger, CEO da Walt Disney Company, fornece um quadro objectivo do que aconteceu.
Assim, ao vender o seu estúdio de produção, Lucas achou por bem fornecer aos executivos da Disney um projecto com as linhas gerais de argumento que ele considerava interessantes para a derradeira trilogia de Star Wars, agora encerrada com A Ascensão de Skywalker. Com o apoio de Alan Horn, director criativo da companhia, Iger analisou o projecto, tendo ambos considerado que era lógico que o comprassem a Lucas. “Claro que estávamos abertos às ideias de George Lucas.” Sem deixar de sublinhar: “(…) no acordo de compra deixámos claro que não estaríamos contratualmente obrigados a aderir às linhas de argumento que ele definira.”
Há outra maneira de dizer isto. E não apenas porque, seja qual for a avaliação que cada espectador possa fazer destes títulos mais recentes, Star Wars já não existe, de facto, com um “produto da imaginação de George Lucas”. Acontece que este exílio multimilionário de Lucas encerra também um perverso conto moral sobre o fim da noção de independência criativa que ele tão exemplarmente simbolizou.
As galáxias podem ser as mesmas, mas tudo acontece agora numa outra paisagem de produção em que se esbateu o protagonismo dos autores que entraram na história com o rótulo carinhoso de “Movie Brats” (qualquer coisa como “a miudagem dos filmes”). Observe-se a sua contraditória actualidade. Francis Ford Coppola conseguiu, este ano, completar a montagem final (“final cut”) da sua obra-prima de 1979, Apocalypse Now — por irónica coincidência, o filme chega também esta semana às salas portuguesas e, apesar da sua irredutível importância histórica e estética, constitui um heróico acontecimento minoritário, claramente exterior às estratégias dominantes no mercado... Por sua vez, Martin Scorsese realizou o prodigioso O Irlandês com o dinheiro, e também a liberdade criativa, que a Netflix lhe concedeu, mas a plataforma de streaming persiste numa estratégia de confronto com as empresas tradicionais de distribuição/exibição, a ponto de em vários países (incluindo Portugal) o filme não passar nas salas escuras.
Hollywood, de facto, já não é o que era. O protagonismo do realizador J. J. Abrams na fase Disney de Star Wars é revelador — foi ele que dirigiu O Despertar da Força, reassumindo as mesmas funções em A Ascensão de Skywalker. Lucas era um experimentador, um “criador de ilusões” à maneira tradicional de George Méliès (1861-1938), o ilusionista francês que foi pioneiro cinematográfico. Não por acaso, o sucesso comercial do seu Star Wars — entre nós ainda estreado como A Guerra das Estrelas — levou-o a desenvolver um império de produção que integra alguns dos estúdios mais sofisticados dos EUA no domínio do som (Skywalker Sound) e dos efeitos visuais (Industrial Light & Magic).
Abrams será um novo “movie brat”, mas agora de uma geração mais marcada pela vertigem visual dos videojogos (vejam-se os dois títulos de outra saga, Star Trek, por ele realizados em 2009 e 2013) do que pelos valores clássicas das narrativas “hollywoodianas”. Para ele, a tecnologia não é uma área de pesquisa, antes uma colecção de instrumentos que lhe permite criar variações mais ou menos exuberantes de modelos cujas regras reconhece, mas que, na prática, já não integram o seu imaginário. Por alguma razão, Lucas e Abrams discordaram sobre os resultados de O Despertar da Força. Mais uma vez, foi o livro de Iger que tornou pública essa discussão: Lucas considerando que o filme não trazia “nada de novo”, Abrams reiterando a sua admiração por Lucas e dizendo compreender que “deve ser complicado" ter vendido “o seu bebé”...
Em qualquer caso, a saga fica, agora, completa. Na primeira trilogia rodada, Lucas apenas dirigiu o título inicial, entregando a realização de O Império Contra-Ataca (1980) e O Regresso de Jedi (1983) a Irving Kershner e Richard Marquand, respectivamente. Regressou para realizar A Ameaça Fantasma (1999), O Ataque dos Clones (2002) e A Vingança dos Sith (2005). Agora, os dois filmes de Abrams tiveram pelo meio Os Últimos Jedi, de Rian Johnson.
Fica uma indefinição que, como é óbvio, os estúdios Disney têm sabido instalar (entenda-se: rentabilizar) no imaginário comercial da saga. Assim, é verdade que os nove episódios “canónicos”, previstos e programados por Lucas nos tempos heróicos da década de 1970, estão concluídos. Mas não é menos verdade que as derivações, cinematográficas ou televisivas, andam por aí — recordemos apenas os exemplos de Rogue One (2016) e Solo (2018), ambos explorando “outras vidas” de algumas personagens da saga.
Se quisermos ser nostálgicos, diremos que há em tudo isto um retorno do primitivo conceito de “serials”, especialmente importante na evolução cinematográfica das décadas de 1930-40, depois da consolidação do som. Talvez que a “produção em série” de universos como Star Wars seja uma espécie de derivação pós-moderna, intelectual e digital, desses modelos de produção que, em qualquer caso, existiam através de um mercado bem diferente do actual, porque totalmente centrado e concentrado nas salas escuras.
Se gostamos de cultivar o paradoxo artístico, seremos inevitavelmente levados a lembrar que George Lucas se estreou na longa-metragem há quase meio século, em 1971, com THX 1138 (a meu ver, o seu melhor filme). Explorando vectores clássicos da ficção científica — tudo acontecia no século XXV, numa sociedade que proibira as relações sexuais, estando o policiamento a cargo de andróides —, o filme inscreveu-se na história da produção americana como um caso modelar do espírito independente da época, a par de Mean Streets (1973), de Martin Scorsese, ou O Fantasma do Paraíso (1974), de Brian De Palma.
Se nos ficarmos pela prudência do cepticismo, poderemos perguntar até que ponto — ou de que modo — tudo aquilo que tem acontecido nas últimas três décadas, incluindo o crescente e devastador poder normativo dos filmes de super-heróis da Marvel, corresponde já a um conceito de mercado cada vez mais distante dos valores clássicos da cinefilia e, sobretudo, mais movido pelas lógicas económicas do “streaming” (filmes, séries, etc.). Com ironia ou angústia (o leitor faça a sua escolha), não podemos deixar de lembrar que, em 2009, a Marvel Entertainment foi comprada pelos... estúdios Disney. O preço: 4 mil milhões de dólares.

sexta-feira, maio 25, 2018

A nova imagem de Han Solo

Alden Ehrenreich é o novo herói de Star Wars — este texto foi publicado no Diário de Notícias (24 Maio), com o título 'Alden Ehrenreich à procura da herança de Harrison Ford'.

Alden Ehrenreich, americano, nascido em Los Angeles há 28 anos, vai poder entrar na galeria dos rostos universais de Hollywood graças ao seu protagonismo no filme Han Solo: Uma História de Star Wars. Compreende-se porquê: afinal, ele surge como herdeiro directo de Harrison Ford, o actor que começou por interpretar o aventureiro galáctico Han Solo, a partir de 1977, quando George Lucas lançou, com impressionante sucesso, o universo de A Guerra das Estrelas.
Eis uma prova muito real do triunfo mediático das grandes produções sobre os filmes que, realmente, nascem de uma visão original do mundo e, em particular, do trabalho cinematográfico. De facto, Ehrenreich tem já uma filmografia de respeito: estreou-se sob a direcção de Francis Ford Coppola, em Tetro (2009), tendo também participado no admirável Rules Don’t Apply (2016), de e com Warren Beatty, sobre os anos finais do milionário Howard Hughes (1905-1976); neste caso, o filme nem sequer chegou às salas portuguesas, tendo apenas passado, de modo ultra-discreto, no cabo, com o título Excepção à Regra.
Em boa verdade, há muito que o universo Star Wars deixou de ser administrado como um conceito de aventura, dando lugar a uma máquina bem oleada de marketing. Ehrenreich não deixa de ser um talentoso actor, assumindo com serena contenção a herança de Harrison Ford. O certo é que estamos perante mais um capítulo da lógica de gestão dos estúdios Disney, desde que assumiram o controle do património da Lucasfilms — na prática, trata-se de garantir o lançamento de um título por ano. Em 2015, surgiu O Despertar da Força, episódio VII da saga original; no ano seguinte, foi a vez de Rogue One, a primeira “derivação”; no final do ano passado, estreou-se Os Últimos Jedi, episódio VIII. Agora, Han Solo: Uma História de Star Wars propõe mais uma variação, centrando-se na juventude do herói, estando agendado para Dezembro de 2019 o lançamento do episódio XIX, ainda sem título.
Convenhamos que não há muito a esperar de um empreendimento deste teor. As suas motivações principais já pouco envolvem de genuíno gosto cinematográfico, contrariando, aliás, a lógica inicial de Lucas (goste-se mais ou goste-se menos, ele foi um genuíno inovador na concepção da aventura e na aplicação das potencialidades da tecnologia). Daí que, apesar de tudo, não possamos deixar de saudar a competência tradicional que encontramos em Han Solo: Uma História de Star Wars.
Mérito de Ron Howard, sem dúvida, realizador veterano (oscarizado em 2002, por Uma Mente Brilhante) que consegue resistir à facilidade de entregar a gestão da narrativa às arbitrariedades das equipas de efeitos especiais. Há, pelo menos, algumas cenas em que as personagens não estão perdidas nos cenários digitais, dando hipótese aos actores de trabalharem um pouco, criando algumas linhas dramáticas de tensão. Perante a mediocridade de tantos filmes “juvenis”, saudemos alguém que não se esqueceu do que é o cinema.

sexta-feira, maio 04, 2018

"Star Wars" nunca existiu

1. O que é uma genuína cultura popular? Ou quando é que uma dinâmica cultural deixa de ser gerida pelos seus valores narrativos e simbólicos para passar a existir em função das opções do marketing e, genericamente, do mercado?

2. São perguntas que se justificam a propósito da atribulada existência do fenómeno Star Wars. No caso português, aliás, com um sinal inequívoco do poder normalizador desse marketing. Ou seja: a partir de certa altura, a designação "A Guerra das Estrelas" (de facto, o título oficial com que o primeiro filme da saga se estreou no nosso país) foi rasurada do espaço público — triunfou a expressão Star Wars.

3. Curiosamente, esta reconversão mercantil do produto continua a gerar resistências nos mais diversos sectores, a começar pela base de fãs que os filmes geraram em todo o mundo. Há mesmo quem trabalhe sobre as versões "modernizadas" dos primeiros títulos de Star Wars (nomeadamente nas edições em DVD e Blu-ray), criando, ou melhor, recriando os filmes com as componentes, sobretudo visuais, das primeiras cópias.

4. O que está em causa não é qualquer altercação pueril sobre os filmes "bons" ou "maus" que a saga contém — ninguém discute o seu lugar central na transfiguração técnica, temática e simbólica do cinema nas últimas décadas e, em particular, nas suas dinâmicas industriais e comerciais. O que está em causa é, isso sim, a defesa das matrizes originais das obras, aliás de acordo com o ponto de vista de George Lucas que, em 1988, a propósito da "colorização" dos filmes a preto e branco, se mostrava indignado com a manipulação da herança cultural cinematográfica, classificando-a mesmo de barbárie.

5. Há alguns meses, o jornal Le Monde produziu um video eloquente e didáctico, resumindo a complexidade de todas estas questões.

domingo, dezembro 17, 2017

"Star Wars" sem George Lucas

1977: George Lucas e Carrie Fisher
A estreia de Star Wars: Os Últimos Jedi renova uma certeza: a imaginação de George Lucas deu lugar ao imaginário da Disney — este texto foi publicado no Diário de Notícias (13 Dezembro), com o título 'O império de Lucas que se transformou em empório da Disney'.

Quando começa o novo Star Wars: Os Últimos Jedi, o logotipo da Lucasfilm envolve, de imediato, uma promessa de espectáculo com a chancela lendária de George Lucas. Goste-se muito ou goste-se pouco dos resultados, o certo é que aquelas letras brilhantes e elegantes definem um universo criativo com regras e temas muito próprios.
Seja como for, há uma distância considerável entre tal imagem de marca e as condições de produção em que Star Wars passou a existir. Podemos medi-la através de um número muito concreto: 4,06 mil milhões de dólares (perto de 3,5 mil milhões de euros), precisamente o valor que a Walt Disney Company pagou, em 2012, para adquirir a Lucasfilm.
Não vale a pena sermos demasiado moralistas mas, de facto, algo mudou. Desde logo, a proliferação de sequelas e derivações, com a Disney a estabelecer um verdadeiro plano quinquenal pós-Lucas para gerir o universo Star Wars: um primeiro filme em 2015 (episódio VII), outro em 2017 (episódio VIII, este que agora se estreia) e a conclusão em 2019 (episódio XIX); pelo meio, dois títulos autónomos: Rogue One: Uma História de Star Wars (2016) e Solo: A Star Wars Story (agendado para 2018).
O mais desconcertante é que podemos também considerar o lançamento do primeiro Star Wars, em 1977 como uma ruptura de George Lucas com... George Lucas (numa altura em que não havia preconceitos contra o português, tendo-lhe sido dado o título A Guerra das Estrelas). Na verdade, o homem que viria a criar um dos maiores impérios de produção da história do cinema começou por ser um típico, e muito talentoso, autor da geração dos “movie brats” (Coppola, Scorsese, Spielberg, etc.), apostado em fazer filmes eminentemente pessoais e intimistas.
Estreou-se com uma história de ficção científica de austero orçamento, THX 1138 (1971), num registo bem diferente, visceralmente trágico, daquele que aplicaria na sua saga inter-galáctica [trailer]. Depois, dirigiu American Graffiti (1973), uma deambulação romanesca em torno das vivências da sua própria adolescência, à descoberta de um novo entendimento do amor e da sexualidade pontuado por canções de Chuck Berry, The Platters ou The Beach Boys.
Dir-se-ia que Lucas desistiu de ser um criador confinado ao estatuto de realizador, apostando na consolidação e desenvolvimento da próprio tecnologia que os seus filmes ajudaram a experimentar. As empresas Skywalker Sound (estúdios de som) ou Industrial Light & Magic (efeitos especiais), inicialmente integradas na Lucasfilm, ajudam hoje a definir o empório da Disney como uma das mais poderosas máquinas de produção de Hollywood.
Pelo meio, Lucas envolveu-se em projectos com o seu amigo Spielberg, com destaque para Os Salteadores da Arca Perdida (1981), baseado numa história que escrevera com Philip Kaufman, tendo estado também ligado à produção de títulos como Kagemusha (Akira Kurosawa, 1980) ou Tucker (Francis Ford Coppola, 1988). Se quisermos ser românticos, podemos perguntar que cineasta ele seria se tivesse continuado a fazer filmes de pequeno orçamento.

sexta-feira, dezembro 15, 2017

O desaparecimento de "Star Wars"

Que está a acontecer com os primeiros filmes da saga "Star Wars", em particular o título fundador, lançado em 1977? Pois bem, num certo sentido, estão a desaparecer: as sucessivas intervenções digitais, apagando ou acrescentando elementos das imagens (e da banda sonora), modificaram muitas cenas das primeiras três longas-metragens (episódios IV, V e VI):
De tal modo que há fãs da saga que, em nome da preservação das características dos originais, se empenham em reconstituir as versões com que os filmes foram lançados nas salas (antes das modificações "impostas" pelas edições em DVD e Blu-ray). O assunto é tanto mais interessante quanto reflecte as perplexidades inerentes a qualquer processo de preservação e restauro do património cinematográfico — neste caso, aliás, com a contribuição contraditória do próprio George Lucas que autorizou tais intervenções depois de, nos anos 80, ter condenado com veemência a "colorização" de clássicos de Hollywood.
O jornal Le Monde fez um esclarecedor ponto da situação — eis o respectivo video, sob o mote: "Porque já não é possível ver a primeira trilogia na sua versão original".

domingo, novembro 19, 2017

FNAC: Star Wars & etc. [balanço]

A estreia próxima de um novo título da saga Star Wars serviu de pretexto para mais uma edição do nosso Magazine, na FNAC do Chiado. Em jeito de muito breve balanço, aqui ficam imagens de três dos títulos evocados, ilustrando marcas específicas de épocas bem diferentes. São eles:
Metropolis (1927), de Fritz Lang;
O Dia em que a Terra Parou (1951), de Robert Wise;
Debaixo da Pele (2013), de Jonathan Glazer.
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* O próximo SOUND + VISION MAGAZINE terá como tema:
Twin Peaks & David Lynch
(FNAC, 16 Dez., 18h30)
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sábado, novembro 18, 2017

Star Wars & etc.
— SOUND + VISION Magazine, FNAC [hoje]

O novo Star Wars: Os Últimos Jedi chega a 14 de Dezembro. É um bom pretexto para, antes da estreia, reorganizarmos as memórias, não apenas da saga criada por George Lucas, mas também da grande tradição cinematográfica (e não só) da ficção científica — será o tema do próximo SOUND + VISION Magazine, na FNAC.

* FNAC: Chiado, hoje, 18 Novembro (18h30)

quarta-feira, dezembro 21, 2016

Para ler: o debate ético que 'Rogue One' pode levantar


A utilização de técnicas de recriação digital - semelhantes à usadas em tantos filmes do nosso tempo - usada em Rogue One para ali fazer surgir várias personagens tal e qual as conhecíamos em A Guerra das Estrelas (1977) pode levantar um debate ético. Sobretudo com a figura de Moff Tarkin, um dos vilões mais célebres de Star Wars, que era então interpretado por Peter Cushing, ator que morreu em 1994.

Há no Guardian uma reflexão interessante sobre este debate.

sexta-feira, dezembro 16, 2016

"Star Wars" na casa do Rato Mickey

Chegou mais um título com a marca Star Wars, agora integrada nos estúdios Disney — este texto foi publicado no Diário de Notícias (15 Dezembro), com o título 'Aventuras do Rato Mickey'.

A saga da Guerra das Estrelas é um daqueles fenómenos que, como é hábito dizer-se, possui uma legião de fãs... Ora, tal facto pode alimentar muitas secções de curiosidades, mas pouco nos diz sobre um tema realmente interessante. A saber: neste, como noutros fenómenos, como encarar a pluralidade do público?
Que está, então, a acontecer? Algo de estranhamente paradoxal. O episódio VII, O Despertar da Força (2015), realizado por J. J. Abrams, era um objecto enérgico, capaz de relançar algumas matrizes mitológicas de George Lucas e, em particular, criar uma verdadeira personagem dramática, Rey, interpretada por uma notável actriz inglesa, de seu nome Daisy Ridley.
Agora, em Rogue One, repete-se a celebração de uma figura feminina, Jyn Erso, esforçadamente assumida por Felicity Jones, mas a actriz não tem nada de suficientemente denso para defender. Prevalece, assim, uma antologia de “situações” (incluindo o longuíssimo e monótono combate que ocupa o núcleo do filme) que se confundem com variações menores de banal jogo de vídeo, de tal modo privilegiam a “agitação” visual contra a intensidade do drama.
Lembremos, por isso, que há já uma ou duas gerações de espectadores cuja visão (do espectáculo, precisamente) foi formada pelos jogos de vídeo. Não é um problema de maior ou menor inteligência, mas sim algo que envolve um complexo factor identitário: a disponibilidade do olhar. Não se pode esperar, por exemplo, que um espectador “apenas” formado por tais parâmetros visuais e narrativos se interesse (por si só) pela vertigem perturbante de Lágrimas e Suspiros (1972), de Ingmar Bergman...
Agora que a saga pertence ao império Disney, será que o estúdio do Rato Mickey corre o risco de tornar asséptico aquilo que era já um capítulo à parte na história da cultura popular? A requintada concepção de alguns cenários e, sobretudo, o esforço do compositor Michael Giacchino no sentido de assumir a herança de John Williams são factores relevantes [audio: The Imperial Suite]. Resta saber se alguém se esqueceu que o elemento mais visceral da herança de Lucas é o gosto de contar histórias.

sexta-feira, setembro 30, 2016

Para ler: Que futuro para Star Wars depois de JJ Abrams?

Uma reflexão publicada no The Guardian questiona as implicações do que o realizador do Episódio VII colocou perante os cenários de futuro do franchise.

Podem ler aqui


segunda-feira, junho 27, 2016

Para ler: algumas revelações
sobre "Rogue One: a Star Wars Story"


Um especial da Entertainment Weekly apresentou uma série de revelações sobre o filme Rogue One, o primeiro do universo Star Wars a nascer além do espaço natural da saga.

O Guardian sistematizou as novidades. Podem ler aqui.

sexta-feira, dezembro 18, 2015

"Star Wars": elogio dos actores

Star Wars está mesmo de volta — esta nota foi publicada no Diário de Notícias (17 Dezembro), com o título 'Elogio das personagens'.

Vale a pena fazer um esforço para além dos efeitos mais simplistas induzidos pelo poder planetário do marketing. Não se trata, de facto, de reabrir a guerra estúpida entre cinema "comercial" e filmes de "autor", mas sim de avaliar de que modo J. J. Abrams retoma a herança de George Lucas, em particular da trilogia inicial de Star Wars (sendo a segunda claramente menor). Em Star Wars: O Despertar da Força nem sempre se terá evitado um certo efeito de "videojogo", hoje em dia dominante em muitas grandes produções. O certo é que este VII episódio, ainda que preservando a nostalgia dos heróis do passado, consegue criar uma nova galeria de personagens que refazem os dramas (familiares, antes do mais) de aventuras anteriores, deixando as necessárias pontas soltas a ser retomadas nos episódios seguintes. Destaque absoluto para Daisy Ridley (inglesa, 23 anos), intérprete de Rey, afirmando invulgares qualidades de interpretação — não tenhamos dúvidas que a sua história cinematográfica irá projectá-la muito para além desta galáxia.

quinta-feira, dezembro 17, 2015

A força despertou! Mesmo!


Acabou a travessia do deserto em que andava o universo Star Wars!

E hoje escrevi:

"Foram meses de espera, teaser após teaser, o trailer mais adiante e depois os mais curtos spots. As imagens iam apresentando personagens novas, recuperando velhas caras, mostrando novos espaços, recordando objetos, sublinhando sobretudo que a lógica do poderio digital em registo mais próximo do videojogo em que tinham vivido os filmes da segunda trilogia era coisa para esquecer. Falar do novo Star Wars: O Despertar da Força implica começarmos por aqui. Porque foram estas as primeiras janelas que se abriram, alimentando as esperanças de que os valentes tropeções das prequelas medíocres que o próprio George Lucas comandou a partir de 1999 não seria coisa a repetir-se por aqui… Agora, visto o filme, há que antes de mais elogiar o trabalho de quem fez os trailers e tesers… Porque ao contrário de tantos outros que temos visto nos últimos tempos, verdadeiras versões condensadas dos filmes, aqui nada da trama foi de facto sugerido. Despertou-se o apetite sem sequer desvendar um pedacinho da narrativa. Pelo que a “força” uma vez mais está com a história (e não com o arsenal digital). E convenhamos que há muito que um filme chegava a sala sem que a curiosidade fosse estragada por spoilers. E agora o filme. Sim, e que filme!"

Podem, ler aqui o que penso sobre o filme.

Hollywood sob o signo de "Star Wars"

J. J. Abrams
As notícias da ante-estreia, em Los Angeles, do novo episódio de Star Wars traduzem uma ideia básica: Hollywood está com o despertar da Força — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 Dezembro).

A Força está com os herdeiros de George Lucas? Podemos apostar que sim. De tal modo que a narrativa da primeira projecção oficial de Star Wars: o Despertar da Força, em Los Angeles, só podia ser a crónica de uma apoteose anunciada. O repórter do Los Angeles Times não resistiu a começar o seu texto em tom brincalhão: “A muito aguardada ante-estreia (...) realizou-se na segunda-feira à noite — e Hollywood apareceu em força (desculpem, mas já sabiam que tinha de ser)”.
Mesmo tendo em conta os padrões espectaculares da indústria americana e, em particular, dos estúdios Disney (proprietários da Lucasfilm, entidade produtora deste episódio VII e dos que se seguirão), a ante-estreia foi reconhecida como um evento de excepção pelos media americanos. Assim, foram realizadas projecções simultâneas nas três salas emblemáticas do Hollywood Boulevard — Dolby Theatre (palco habitual dos Oscars), TCL Chinese Theatre e El Capitan Theatre — para mais de cinco mil convidados. E se o aparato de segurança também pode caracterizar um acontecimento deste género, valerá a pena dizer que a polícia de Los Angeles mobilizou meia centena de agentes (tal como costuma acontecer em noite de Oscars).
Steven Spielberg
George Lucas e J. J. Abrams, respectivamente o criador da saga e o realizador do novo filme, foram as vedetas da noite. Em qualquer caso, Abrams (que tem entre mãos a produção de mais um episódio de Star Trek, agora com realização de Justin Lin) não deixou de agradecer a outro cineasta, também presente na ante-estreia, decisivo na sua escolha para dirigir O Despertar da Força — é ele Steven Spielberg.
Abrams e Harrison Ford (que retoma a figura heróica de Han Solo) foram os mais solicitados pelos fãs. Acompanhavam-nos os outros membros lendários do elenco, Mark Hamill (Luke Skywalker) e Carrie Fisher (Princesa Leia), a par da nova vaga de intérpretes: Adam Driver e Oscar Isaac, já relativamente conhecidos do grande público, e ainda os “novatos” Daisy Ridley e John Boyega, ambos nascidos em Inglaterra. Entre os convidados, estavam cineastas como Spike Lee, Michael Bay e Ava DuVernay, os actores Matthew McConaughey, Geena Davis, Rob Lowe, Sofia Vergara e Joseph Gordon-Levitt (vestido de Yoda, com o rosto pintado de verde), e ainda John Lasseter, director criativo da Pixar, Jeffrey Katzenberg, presidente dos estúdios de animação da DreamWorks, e o produtor musical Quincy Jones.
É bem verdade que, em pouco mais de 72 horas, o filme será conhecido por milhões de espectadores em todo o mundo — Portugal é um dos países em que a estreia ocorre na quinta-feira, com algumas salas a organizar sessões logo à passagem da meia-noite (dos maiores mercados mundiais, só a China esperará até 2016, com o lançamento agendado para 9 de Janeiro). De qualquer modo, a Disney solicitou aos meios de comunicação americanos um embargo até quarta-feira, esperando, em particular, não ter surpresas desagradáveis com a vida “social” nas redes da Internet. As primeiras reacções, nomeadamente no Tweeter, respeitavam o pedido da Disney, predominando um tom de inequívoco entusiasmo. Brett Morgen, realizador do recente documentário sobre Kurt Cobain (Cobain: Montage of Heck) surgiu como uma das vozes mais arrebatadas, rotulando o novo episódio de Star Wars como “o melhor blockbuster desde o original”.
Os grandes testes cinematográficos e industriais começam agora. Primeiro, trata-se de saber se há, de facto, uma renovação geracional na base de fãs da saga; depois, no contexto de Hollywood, está em jogo o investimento galáctico da Disney (que comprou a Lucasfilm por 4 mil milhões de dólares) e, em particular, a gestão do seu presidente, Robert Iger (acusado por alguns analistas de ter pago um preço excessivo). Nas páginas da Variety, publicação de referência da indústria do entertainment, especula-se sobre a possibilidade de O Despertar da Força superar as receitas globais de Avatar (quase 2,8 mil milhões de dólares): “Tendo em conta a reacção da multidão na segunda-feira à noite, a força foi, realmente, despertada.”

quarta-feira, dezembro 16, 2015

O marketing planetário de "Star Wars"

A chegada do episódio VII de A Guerra das Estrelas é um fenómeno transversal no mercado global do cinema — este texto foi publicado no Diário de Notícias (15 Dezembro), com o título 'Saga “Star Wars” põe em marcha um marketing planetário'

Algures, num recanto escondido das estepes da Ásia central, haverá ainda um espectador incauto que não sabe que esta semana o filme Star Wars: O Despertar da Força vai ocupar os ecrãs de todo o mundo... Não tenhamos dúvidas: esse espectador solitário só pode ser um extraterrestre que desembarcou acidentalmente no nosso planeta. De facto, desde que, em Janeiro de 2013, J. J. Abrams foi anunciado como realizador eleito para o relançamento da saga de George Lucas, é impossível ignorar que vêm aí herdeiros de Darth Vader (ou o próprio?...). Isso tem um nome: marketing.
Kathleen Kennedy
O cérebro do marketing do episódio VII de Star Wars é uma velha aliada de Lucas, e também de Steven Spielberg: Kathleen Kennedy, figura de topo de Hollywood, presidente da Lucasfilm desde a sua aquisição, em 2012, pelos estúdios Disney. O seu nome está ligado a uma lista imensa de títulos de sucesso, desde a saga de Indiana Jones até à trilogia de Regresso ao Futuro.
Sendo a marca “Star Wars” de tal modo forte e universal, importava adoptar uma estratégia de alguma prudência. Em entrevista a The Hollywood Reporter (9 Dez.), Kennedy refere mesmo que, há cerca de ano e meio, começaram por fazer uma lista, muito estrita, dos eventos californianos em que era fundamental marcar presença ao longo de 2015. A saber: a Convenção Star Wars, na cidade de Anaheim (Abril); a Comic-Con, em San Diego (Julho); e a exposição D23, do Clube de Fãs da Disney, de novo em Anaheim (Agosto).
Seja como for, a contenção de despesas do marketing é muito relativa. Pondo em prática uma regra consolidada, precisamente, através de filmes como a trilogia inaugural de Star Wars, lançada entre 1977 e 1983 (na altura, em Portugal, o mercado ainda usava a expressão A Guerra das Estrelas), o orçamento para a difusão de empreendimentos desta dimensão tende a ser, no mínimo, igual ao da rodagem: estimativas divulgadas pela imprensa dos EUA apontam para 200 milhões de dólares de produção, com mais de 220 milhões para as fases seguintes (desde a fabricação das cópias até às mais diversas formas de publicidade).
A exibição do filme terá um trunfo decisivo na exploração do circuito IMAX, as salas de ecrãs gigantes e sofisticados sistemas sonoros que parecem estar a revitalizar o gosto das superproduções da década de 60 (Lawrence da Arábia, Doutor Jivago, etc.), rodadas em película de 70mm (o novo filme de Quentin Tarantino, The Hateful Eight, a estrear no dia de Natal nos EUA, será mesmo um caso singular de revivalismo, já que foi rodado nessa película). Só nos EUA, O Despertar da Força surgirá em 390 ecrãs IMAX (mais quatro centenas no resto do mundo), cerca de duas dezenas mais do que aconteceu no Verão com Missão Impossível: Nação Secreta.
Na estratégia coordenada por Kathleen Kennedy, nada disto é arbitrário. Os primeiros números testemunham, aliás, a sua eficácia: no dia 20 de Novembro, o Wall Street Journal noticiava que a venda antecipada de bilhetes para as salas dos EUA tinha atingido o valor recorde de 50 milhões de dólares. Entretanto, em Portugal, ao fim da tarde de segunda-feira, já havia 40 mil bilhetes vendidos.
O que está em jogo implica, claro, a gestão da herança de George Lucas (que, em qualquer caso, se tem mantido distante das tarefas ligadas ao lançamento do filme). Mas envolve também o prestígio e, por certo, o investimento da Disney na reconversão da Lucasfilm (pela qual pagou 4 mil milhões de dólares). De tal modo que Kennedy sublinha o facto de estar em marcha “um plano estratégico” de análise das histórias da trilogia que arranca agora com O Despertar da Força, visando o episódios VIII e IX, agendados para 2017 e 2019. Nessa altura, mesmo um espectador chegado de outra galáxia não ficará surpreendido porque, entretanto, a ante-estreia terá ocorrido, quem sabe, num planeta muito, muito distante...