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sábado, outubro 19, 2019

Jolie + Fanning + Pfeiffer

Maléfica: Mestre do Mal relança o gosto da fábula que já distinguia o filme Maléfica, estreado em 2014. No centro dos acontecimentos está de novo a bruxa má, interpretada por uma Angelina Jolie em espectacular transfiguração visual — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 Outubro).

E aí está Maléfica: Mestre do Mal, mais uma sequela… De novo com Angelina Jolie. O hábito leva-nos a perguntar: mais uma sequela semelhante às de muitos super-heróis, vazia de ideias, com efeitos especiais repetidos e repetitivos, tudo embrulhado numa banda sonora apenas apostada em deixar-nos com dores de cabeça?…
Nada disso. Desta vez é mesmo a sério, de alguma maneira demonstrando que a produção com chancela Disney continua a possuir talento e energia para não se deixar enredar na monótona vulgaridade a que chegou a maior parte dos filmes dos estúdios Marvel (que integram o império Disney desde 2009). Maléfica: Mestre do Mal retoma o pressuposto central de Maléfica (2014), ou seja, reencenar o conto clássico de A Bela Adormecida, não apenas recriando o filme de animação da própria Disney lançado em 1959, mas também a narrativa de Charles Perrault publicada em 1697.
De que se trata, então? A prudência jornalística aconselha-nos a não revelar aquilo que foi concebido para ser descoberto pelo espectador… Seja como for, digamos que este segundo filme, dirigido pelo norueguês Joachim Rønning, retoma o legado simbólico do primeiro — afinal, a bruxa má transfigurava-se em figura maternal da pequena Aurora — para relançar uma história que, em última instância, lida com as ambiguidades da moral e a continuada demanda do Bem.
Importa dizer, por isso, que Maléfica: Mestre do Mal não receia recuperar e, mais do que isso, celebrar o misto de candura e perversidade que sempre foi matéria nuclear do território da fábula. A dinâmica dramática do novo filme impõe-se, assim, como um inesperado exercício sobre as configurações do feminino: Aurora é a “bela adormecida” que, cinco anos depois do filme anterior, está noiva do Príncipe Philip; Ingrith, mãe de Philip, a Rainha que encara o noivado de modo, no mínimo, hesitante; enfim, sempre dotada de poderes devastadores, Maléfica reaparece com a sua cabeça demoníaca e as asas ameaçadoras para reafirmar os mesmos poderes malignos… Ou talvez não.
Duas componentes paradoxais contribuem para tal dinâmica. Em primeiro lugar, uma sofisticada criação de cenários (mais ou menos) digitais, mostrando que é possível integrar os mais modernos recursos de produção sem que isso seja um fim em si mesmo — Maléfica: Mestre do Mal fundamenta-se numa invenção visual cuja exuberância possui qualquer coisa de saborosamente primitivo. Depois, Angelina Jolie, Elle Fanning e Michelle Pfeiffer (respectivamente como Maléfica, Aurora e Ingrith) definem um trio de inusitadas cumplicidades de composição capaz de nos fazer lembrar uma verdade estética que nenhuma forma de marketing pode rasurar: o elemento humano, neste caso as actrizes, continua a ser essencial, mesmo quando o cinema acontece através de mundos e efeitos de pura fantasia.
O exemplo de Angelina Jolie afigura-se modelar: a sua transfiguração através de uma complexa caracterização do rosto e do corpo não anula (parece mesmo intensificar) a subtileza do trabalho de representação. Ela é, afinal, uma actriz capaz de registos eminentemente trágicos (lembremos esse admirável filme de 2008 que é A Troca, realizado por Clint Eastwood), mas também deste festivo revivalismo do conto de fadas, monstros & etc.
Agora que as memórias de Judy Garland (por causa do filme Judy, com Renée Zellweger) têm levado a uma certa redescoberta do clássico O Feiticeiro de Oz, lançado em 1939, vale a pena sublinhar que Maléfica: Mestre do Mal surge como um objecto em ligação muito directa com o gosto de artifício desse cinema da idade de ouro de Hollywood. Não se trata de uma banal equivalência de valor — 1939 foi incomparavelmente mais rico e diversificado que 2019. Acontece que a transcendência gerada pelas imagens e sons de uma sala escura não se define pelo “vanguardismo” das suas bases tecnológicas. O que mais conta é o prazer de contar histórias, num permanente ziguezague entre o clássico e o moderno.

quarta-feira, outubro 16, 2019

Maléfica em 40 segundos

Produzido pela Disney, Maléfica: Mestre do Mal (estreia dia 17) é um genuíno filme de estúdio... à moda antiga: os efeitos especiais são exuberantes, mas não representam um fim em si mesmo, estando ao serviço da criação de um genuíno mundo de fábula. Curiosidade especial: a caracterização de Angelina Jolie — eis um brevíssimo, mas eloquente, video.

sábado, julho 29, 2017

Angelina Jolie por Mert & Marcus

Mert Alas & Marcus Piggott fotografaram Angelina Jolie para aquela que é a sua primeira grande entrevista depois da separação de Brad Pitt. É o tema de capa da edição da revista Vanity Fair (com data de Setembro), com especial destaque para o novo filme de Jolie como realizadora: com produção da Netflix, First They Killed My Father adapta a memória de Loung Ung, que foi uma criança sobrevivente do regime sanguinário dos Khmers Vermelhos, no Cambodja — eis um video de apresentação do projecto; portfolio e artigo de Evegnia Peretz no site da VF.

quinta-feira, março 02, 2017

Terrence Malick filma Angelina Jolie

Angelina Jolie e Terrence Malick reuniram-se em nome de um novo perfume da marca Guerlain ('Mon Guerlain'). O resultado é um pequeno grande filme de um minuto, sensual e cerebral, numa espécie de derivação formal do trailer do novo filme de Malick, Song to Song, recentemente divulgado — o cachet de Jolie será integralmente distribuído por instituições humanitárias.

sexta-feira, setembro 23, 2016

Angelina Jolie & Brad Pitt

I. Em boa verdade, há um padrão informativo (?) que importa desmontar — uma vez mais, de tal modo esse padrão corresponde a uma vacuidade jornalística que, hoje em dia, tem um poder realmente transversal, global e globalizante.

II. Tudo começou com Mr. & Mrs. Smith (2005), o filme que Angelina Jolie e Brad Pitt rodaram antes de se constituirem como casal — formalmente, casaram-se em 2014 e, como é sabido, estão em processo de divórcio. Ou seja, o padrão é este: as notícias sobre o par são sempre notícias dos outros. Há mesmo grandes "relatórios" noticiosos que se organizam como citações de algo que, algures, foi publicado — veja-se o exemplo sintomático de PopSugar (escusado será sublinhar que o simples título do site é um sinal inequívoco da sua assumida ligeireza).

III. Agora, com a revelação do divórcio Jolie/Pitt [BBC], rapidamente se instalou uma vertigem de informações, insinuações e acusações que, na prática, ninguém assume como suas. Podemos supor, claro, que tais informações, insinuações e acusações transportam algo de factualmente consistente. Mas não é a dicotomia verdade/mentira que aqui se discute — é, isso sim, a redução do trabalho jornalístico a um diz-que-diz em que, em última instância, já ninguém pode (ou quer) ser responsabilizado pelo que quer que seja.

IV. E não deixa de ser cruelmente irónico que tudo isto aconteça com o filme Junto ao Mar [título original: By the Sea] em pano de fundo. Realizado por Jolie, com Jolie/Pitt como par central, coloca em cena um casal a tentar salvar o seu casamento... Alguns paralelismos (?) foram sugeridos, mas mesmo essa sugestão, eventualmente legítima, não passa de uma manobra de diversão. Porquê? Porque quase ninguém viu o filme (sobretudo os jornalistas que fazem notícias a partir do que talvez tenha sido dito por alguém que disse que alguém terá dito...). Junto ao Mar foi um imenso falhanço comercial nos EUA e, na maior parte dos mercados, incluindo o português, apenas surgiu num tímido lançamento em DVD — que seja um filme brilhante, eis o que, desgraçadamente, não tem peso nesta conjuntura.

V. Vão, por isso, agravar-se as notícias mais ou menos irónicas ou sensacionalistas que começarão (já começaram, aliás) a acusar os respectivos protagonistas de serem perversos manipuladores dos media. Não nos finjamos ingénuos: no mundo em que vivemos, todos sabemos que personalidades públicas como Angelina Jolie ou Brad Pitt cuidam de forma muito profissional (discutível ou não) da sua imagem pública. Mas se a questão é a sua "utilização" dos meios de comunicação, porque é que aqueles que os acusam de abuso de imagem não param, imediatamente, de tratar a respectiva vida privada como um teatro de guerra? E em nome de quê nos convocam para acedermos de forma automática, automaticamente irresponsável, a essa vida privada?

quarta-feira, junho 08, 2016

Angelina Jolie — amor de perdição

Um belo filme de e com Angelina Jolie, contracenando com o marido, Brad Pitt. Grande estreia nas salas? Não: directo para DVD... — este texto foi publicado no Diário de Notícias (4 Junho), com o título 'Angelina Jolie filma os enigmas da intimidade'.

Recentemente, alguns tablóides de língua inglesa voltaram a especular sobre uma crise do casal Angelina Jolie/Brad Pitt. Convenhamos que o caso não merece especial atenção, já que o tom das notícias não era um primor de jornalismo (mesmo que nelas houvesse algum elemento verídico...), e também porque há coisas mais sérias e, sobretudo, mais inteligentes para fazer com o poder de informar e fazer opinião.
Ainda assim, conhecendo o tipo de “pensamento” de tais tablóides, não deixa de ser surpreendente que nenhum tivesse arriscado alguma “comparação” com o novo filme realizado por Angelina Jolie: chama-se By the Sea, encena a crise aguda de um casal e tem como intérpretes principais... Angelina Jolie e Brad Pitt!
Em boa verdade, tal silêncio tem uma justificação desconcertante. A saber: quase ninguém viu o filme. Além de ter sido um desastre de bilheteira nos EUA (pouco mais de meio milhão de dólares de receita para um orçamento de 10 milhões), estreou em muito poucos países (onde não chegou a render 3 milhões) e, na esmagadora maioria dos mercados, só estará disponível em DVD — chega às lojas portuguesas na quarta-feira, dia 8, com o título Junto ao Mar.
Há pelo menos duas razões que podem ajudar a explicar o fenómeno — porque de fenómeno se trata, já que estamos a falar da marginalização comercial de um objecto que ostenta os nomes de duas genuínas estrelas de cinema que, mais do que isso, são celebridades planetárias.

Sob o signo do marketing

A primeira dessas razões decorre de uma lógica perversa que passou a contaminar o marketing global de Hollywood, em última instância prejudicando o conhecimento da sua imensa (e fascinante) diversidade criativa. Os decisores desse mesmo marketing tendem a considerar que um falhanço nas salas dos EUA está condenado a ser, automaticamente, um falhanço em qualquer outro mercado. Mesmo reconhecendo que se trata de um problema complexo, que não pode ser reduzido à performance de um filme isolado, vale a pena lembrar um dado que os estúdios americanos bem conhecem: há cada vez mais produções de Hollywood que obtêm mais de 50% das respectivas receitas fora dos EUA, nomeadamente na Europa e nos grandes mercados asiáticos (exemplo extremo e extremamente sintomático: Mundo Jurássico, um dos grandes sucessos de 2015, fez 60% da sua receita fora dos EUA).
A segunda razão para a hecatombe de Junto ao Mar é a mais interessante, e também a mais paradoxal, uma vez que decorre das suas características específicas, quer dizer, de tudo aquilo que o faz ser um singularíssimo objecto de cinema. Dito de outro modo: na sua delicada sensibilidade e no seu intransigente rigor formal, Junto ao Mar não é um filme “simples”... Ou será exactamente o contrário? Não será que, ao colar-se às emoções mais puras, à flor da pele, interessando-se em particular pela sua expressão através dos rostos e corpos dos actores, Angelina Jolie está a fazer o mais “complicado” dos filmes, não cedendo aos vícios de um tempo em que se confunde o espectáculo com a patética acumulação de efeitos especiais?

Para além da “psicologia”

Complicados, convenhamos, são os filmes de super-heróis: o primarismo narrativo em que descambaram, “disfarçado” pela sua agressividade visual e, sobretudo, pela sua violência sonora, tende a fazer esquecer que o cinema é também um exercício de contemplação e, nos seus momentos mais intensos, uma suave arte da escuta.
Junto ao Mar é um filme feito disso mesmo. E para isso mesmo. Que é como quem diz: uma cadeia de instantes em que as palavras parecem falhar como instrumentos de comunicação, dando lugar aos silêncios que, por vezes da forma mais amarga, nos aproximam de uma verdade radical e irrecusável, eventualmente libertadora.
Na prática, seguimos a história de Vanessa (Jolie), uma ex-bailarina, e Roland (Pitt), um escritor cuja criatividade bloqueou... Algures em meados da década de 1970, tentam encontrar alguma hipótese de redenção no cenário paradisíaco de um praia no sul de França (a rodagem decorreu, de facto, em Malta). Graças a um acaso cruel, mas pleno de ironia, vão reviver os impasses da sua relação através do modo como espiam (literalmente, através de um buraco na parede do seu quarto) um outro casal (Mélanie Laurent/Melvil Poupaud). Dir-se-ia um teatro psicanalítico: cada ser existe através da sua duplicação imaginária. Ou ainda: o amor é esse resto inefável que nos faz perceber que o encontro com o outro envolve sempre alguma forma de perdição.
Não será por acaso que este é um filme visceralmente europeu. Pelos cenários, claro, mas também pelo modo como relança alguns pressupostos de algum cinema europeu das décadas de 60/70. Vem à memória, por exemplo, esse misto de ansiedade e mágoa, cenários naturais e luz radiosa, que encontramos no Michelangelo Antonioni dos tempos de A Aventura (1960). Contra o determinismo dos retratos “psicológicos”, Angelina Jolie fez um filme sobre os enigmas que a intimidade envolve e, num certo sentido, atrai. Provavelmente, Junto ao Mar é apenas o mais simples dos filmes — nos nossos dias de muitos “likes” e poucos pensamentos, paga-se um preço por assumir tão cristalino olhar.

quarta-feira, junho 01, 2016

Angelina Jolie, apelido Pitt

Angelina Jolie reaparece como realizadora, assinando e interpretando o brilhante By the Sea; infelizmente, as opções do mercado impuseram um lançamento directo em DVD — este texto está publicado no nº 38 da revista Metropolis.

Há qualquer coisa de bizarro e, num certo sentido, incómodo na descoberta de By the Sea (título português: Junto ao Mar), terceira longa-metragem de ficção realizada por Angelina Jolie, directamente no mercado do DVD. Daí a desencantada pergunta que, mesmo sem respostas seguras, importa formular: que está a acontecer no espaço público do cinema (português e não só) quando um filme, dirigido e interpretado por alguém como Angelina Jolie, na companhia do seu marido Brad Pitt, é objecto de tão desconcertante secundarização?
Enfim, importa não alimentarmos qualquer falsa ingenuidade. Ninguém está a sugerir que a imagem mais estereotipada de Jolie (uma espécie de “eterna” Lara Croft) se adequa a Junto ao Mar ou que, em última instância, poderia servir para promover o filme junto dos seus espectadores potenciais. Nada disso. Este é mesmo um exemplo de um cinema de invulgar pulsação intimista, alheio a qualquer look da moda, com um timing narrativo tão delicado e subtil que faz mesmo lembrar algumas experiências revolucionárias dos anos 60, em particular de um autor como o italiano Michelangelo Antonioni (A Aventura, A Noite, O Eclipse).
Em termos simples, digamos, então, que estamos perante a história de um casamento exposto aos seus mais radicais silêncios. Em meados da década de 1970, o cenário de uma praia esquecida do Sul de França (de facto, a rodagem decorreu na ilha de Malta) acolhe Vanessa (Jolie), uma ex-bailarina que parece perdida na nostalgia da arte que já não pratica, e o marido Roland (Pitt), escritor confrontado com a angústia da página em branco. A expectativa romântica — a reconciliação afectiva de Vanessa e Roland — vai-se transfigurando num insólito processo de redescoberta que encontra uma espécie de espelho, material e simbólico, num outro par (interpretado por Mélanie Laurent e Melvil Poupaud).
Através de uma admirável depuração dos tempos narrativos, este é um filme em que o “nada” que acontece se vai consolidando como uma arquitectura de afectos em que cada personagem se revela muito para além das aparências que cultiva. Dir-se-ia um filme de análise psicológica, mas é, sobretudo, uma fascinante peça dramática sobre a física e a metafísica de uma relação a dois (ou, como sugeria Freud, a quatro...)
Depois de Na Terra de Sangue e Mel (2011) e Invencível (2014), Angelina Jolie confirma-se, assim, como uma cineasta de muitas singularidades, além do mais conseguindo neste caso, a partir de um argumento minimalista (também de sua autoria), concretizar um projecto alheio às convenções da sua imagem de marca e também à facilidade de qualquer moda cinematográfica ou mediática. Filme com ambíguas componentes autobiográficas?... Não nos precipitemos em jogos fúteis, cúmplices da desavergonhada mediocridade da imprensa cor de rosa. Registe-se apenas que, desta vez, ela assina: Angelina Jolie Pitt.

quinta-feira, junho 04, 2015

Angelina Jolie, 40 anos

FOTO: Mario Testino (Vanity Fair)
Na edição de Dezembro de 2014 da Vanity Fair, Angelina Jolie era assunto de capa (eleita 'Mulher do Ano' pela revista), através de uma peça assinada por Janine di Giovanni. A jornalista conversara com ela alguns meses antes, na Austrália, durante a rodagem do seu segundo filme como realizadora, Invencível. Avaliando a abordagem da história épica de Louis Zamperini, atleta olímpico e militar preso pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial, Jolie resumia assim o seu programa de trabalho: "(...) a principal mensagem [do filme] é sobre o modo como escolhemos viver a nossa vida — e que há grandeza em qualquer um." Em tempos de muitas narrativas cínicas, mais ou menos ligada ao simbolismo rasteiro de super-heróis e afins, eis uma afirmação que, obviamente, se demarca dos valores correntes da ficção (a começar pela ficção de Hollywood).
Vale a pena lembrar tais palavras no dia em que Angelina Jolie celebra o seu 40º aniversário (nasceu a 4 de Junho de 1975, em Los Angeles, filha dos actores Jon Voight e Marcheline Bertrand) — ela é, afinal, uma das derradeiras personalidades do cinema cuja identidade pública pode ainda ser ligada às leis mais clássicas do glamour de Hollywood.

* Angelina Jolie trabalha actualmente na pós-produção da sua terceira realização, By the Sea, em que contracena com o marido, Brad Pitt.

sexta-feira, junho 06, 2014

Angelina Jolie entre o Bem e o Mal

Angelina Jolie lidera uma bela revisitação de A Bela Adormecida: Maléfica, de Robert Stromberg, refaz o conto de Perrault para o séc. XXI — este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 Junho), com o título 'Atribulações do Bem e do Mal'.

Que aconteceu entre a escrita da frase de abertura do conto de Charles Perrault, A Bela Adormecida (Era uma vez um Rei e uma Rainha...), e o filme Maléfica, dirigido por Robert Stromberg, com chancela dos estúdios Disney? Digamo-lo da maneira mais simples: aconteceram nada mais nada menos que 317 anos, uma vez que a edição original data de 1697. Será inútil tentar reencontrar uma qualquer “pureza” original, quanto mais não seja porque o cinema é também essa arte de nos dizer que não há narrativas imaculadas, muito menos definitivas, mas sim histórias que continuamente revisitamos e, melhor ou pior, reinventamos.
Sublinhemos a evidência mais cândida: Maléfica é um filme deste tempo que vivemos, envolvidos que estamos nas muitas vertigens que, porventura contra as nossas crenças mais fundas, nos levam a duvidar das fronteiras tradicionais entre a crueldade do Mal e a promessa redentora do Bem. Nada que o velho Hitchcock não soubesse, quando avisava que as boas histórias precisam de uma grande personagem “má”.
Maléfica conta, assim, com toda a maldade que Angelina Jolie sabe injectar na sua personagem, de forma tão determinada e ambígua que a consequência mais intensa acaba por ser também a mais perturbante: afinal, quando ela desenha uma fronteira intransponível com o reino vizinho, de que lado está a bondade? Ou ainda: cada um de nós, como espectador, pertence a que paisagem?
A imagem do filme construída pelo marketing esgota-se na presença magnética da sua estrela, mas importa reagir a essa formatação promocional: Maléfica é um espantoso exercício de reinvenção narrativa que reconhece que a conjugação das histórias clássicas com as novas conjunturas tecnológicas gera novos sentidos e diferentes significações — a começar pela noção simbólica de maternidade.

sexta-feira, maio 09, 2014

Angelina Jolie a preto e branco

Nostalgia do preto e branco: num magnífico portfolio, o francês Hedi Slimane fotografa Angelina Jolie como uma musa do presente, mas tocada pelo glamour mais austero e também mais primitivo. Para ver (e ler) na edição americana da Elle — todas as imagens disponíveis em fashionprodution.

domingo, abril 08, 2012

A Bósnia filmada por Angelina Jolie (2/2)

Zana Marjanovic e Angelina Jolie
(rodagem de Na Terra de Sangue e Mel)

Com a sua primeira realização, Na Terra de Sangue e Mel, Angelina Jolie arrisca, de forma brilhante, lidar com as memórias traumáticas da guerra da Bósnia — este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 Abril), com o título 'Uma história de amor e sangue'.

1 ] Com Na Terra de Sangue e Mel, Angelina Jolie fez um filme vibrante, de notável rigor de mise en scène, sobre a guerra da Bósnia. O certo é que há todo um aparato mediático que continua a considerar que fazer jornalismo sobre o seu trabalho é especular sobre o facto de o vestido que ela usou na cerimónia dos Oscars (lindíssimo, por sinal) expor a sua perna direita... Consciente da avalancha de estupidez que assim se promove, Jolie decidiu arrumar o assunto de vez, numa resposta a uma pergunta da revista Time (com data de 9 de Abril), aplicando um adequado sarcasmo: “De facto, esse era o vestido de reserva. Decidi escolher aquele que chamava menos a atenção.”
Dito de outro modo: mesmo que se possa ter uma reacção reticente ou menos entusiasta face a Na Terra de Sangue e Mel, aquilo que está em jogo é demasiado sério e grave para assistirmos passivamente ao triunfo de uma visão das estrelas de cinema que as reduz (e reduz os próprios espectadores) a patetas alegres, sem ideias nem sensibilidade. Mais do que isso: este é um filme que convoca questões muito particulares, e também muito perturbantes, relacionadas com a coesão do continente europeu, relembrando um conflito que deixou uma interrogação amarga e desesperada: afinal, o que é isso de ter uma identidade nacional?
Acima de tudo, Angelina Jolie vem reafirmar as potencialidades de um realismo estrito que não menospreza, bem pelo contrário, os recursos de uma elaborada escrita melodramática. Na Terra de Sangue e Mel não é uma história de amor cujo “pano de fundo” seria a guerra, mas sim uma história em que o amor, na sua infinita vulnerabilidade, também faz parte da guerra. Saber mostrar (e pensar) tudo isso está longe de ser sorte de principiante.

sábado, abril 07, 2012

A Bósnia filmada por Angelina Jolie (1/2)

Com a sua primeira realização, Na Terra de Sangue e Mel, Angelina Jolie arrisca, de forma brilhante, lidar com as memórias traumáticas da guerra da Bósnia — este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 Abril), com o título 'A guerra da Bósnia revista por Angelina Jolie'.

Ao estrear-se na realização com Na Terra de Sangue e Mel, sobre a guerra da Bósnia, Angelina Jolie não está a seguir uma lógica de marketing, porventura tentando “diversificar” a sua imagem de estrela. É bem certo que essa imagem nunca será estranha a tudo o que ela possa fazer ou dizer. Mas importa recordar que a origem do projecto está ligada a uma missão muito específica da actriz, exterior à sua inserção na indústria de Hollywood: foi enquanto embaixadora do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (presidido, desde 2005, por António Guterres) que, numa visita à Bósnia, Angelina Jolie começou a contactar com a complexa herança política e afectiva da guerra, acabando por decidir escrever um argumento para um filme.
Nesse processo, viria a encontrar um conselheiro especial na pessoa de Richard Holbrooke (1941-2010), um dos diplomatas americanos que trabalhou nas negociações que conduziram aos Acordos de Dayton (que puseram fim aos combates, em Novembro de 1995). Para ela, tratava-se de construir uma visão que conferisse particular ênfase ao facto de a guerra ter sido travada por pessoas que, para além de todas as tensões (sociais, culturais ou religiosas), tinham convivido de forma pacífica na antiga Jugoslávia. E de tal modo se sentiu emocionalmente tocada pelos factos que acabou por se envolver na produção do filme, com a GK Films do britânico Graham King (ligado a vários títulos de Martins Scorsese, incluindo A Invenção de Hugo), decidindo por fim assumir as tarefas de realização.
Na Terra de Sangue e Mel expõe os horrores da guerra a partir de uma complexa história de amor (ou da sua impossibilidade). No centro do filme está o par formado por Ajla (Zana Marjanovic) e Danijel (Goran Kostic): ela uma mulher de origem muçulmana, ele um soldado do exército sérvio. O seu envolvimento amoroso antes da guerra vai prolongar-se, de forma tão estranha quanto perturbante, quando Ajla dá entrada num campo de prisioneiros em que Danijel é um dos principais oficiais. Mais do que isso: o tratamento brutal das mulheres e os massacres de civis muçulmanos que vão sendo perpetrados pelos sérvios conferem à tragédia do par a dimensão de símbolo cruel de um conflito cujas ressonâncias persistem nos Balcãs e, em boa verdade, na consciência histórica de todo o continente europeu. Como a própria Angelina Jolie já referiu numa declaração formal: “É um filme a que não é fácil assistir, mas sentimos que é importante recordar a guerra da Bósnia e reflectir sobre os seus temas.”

>>> Angelina Jolie, entrevistada por Bob Simon, no programa 60 Minutes (CBS).

sexta-feira, dezembro 09, 2011

Angelina Jolie na Bósnia

FOTO Sofia Sanchez & Mauro Mongiello (para Newsweek)
Chama-se In the Land of Blood and Honey e é um filme sobre a guerra da Bósnia, com realização de Angelina Jolie. Esta semana, a revista Newsweek publica um belo trabalho de Janine di Giovanni, dando conta da sua gestação, da utilização de actores bósnios e sérvios, enfim, das relações do projecto com o trabalho da actriz no âmbito do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Inclui declarações de Jolie, registadas em Budapeste (onde decorreu parte da rodagem). A estreia americana está marcada para 23 de Dezembro — este é o trailer.

sexta-feira, setembro 02, 2011

Angelina Jolie: o "glamour" e o resto


Na sua estreia como argumentista e realizadora, Angelina Jolie filma a guerra da Bósnia (1992-95): com um elenco liderado por dois actores bósnios (Goran Kostić e Zana Marjanović) e um croata (Rade Šerbedžija), In the Land of Blood and Honey tem lançamento agendado para 23 de Dezembro nos EUA.
Entretanto, Jolie é tema de capa da edição de Outubro da Vanity Fair, num retrato de sereníssimo glamour com assinatura da dupla Mert Alas / Marcus Piggott. Decisão a reter, sobre a escolha exclusiva de actores da região: "Não podia ser mais ninguém. É a história deles. Era muito importante que estivessem disponíveis para o fazer. Se ninguém tivesse aceitado, não teria feito o filme."

sexta-feira, novembro 12, 2010

Angelina Jolie por Mario Testino


Depois de Salt, Angelina Jolie protagonizou The Tourist, com Johnny Depp (a estrear em Dezembro), e prepara a sua realização de um filme, ainda sem título, sobre a guerra da Bósnia e o cerco de Sarajevo. É um pouco sobre tudo isso que ela fala a Vicki Woods, nas páginas da Vogue — as fotografias, magníficas no seu depurado classicismo, são de Mario Testino.

quinta-feira, agosto 19, 2010

Evelyn Salt (aliás, Angelina Jolie)

No seu novo filme, Salt, Angelina Jolie interpreta uma agente da CIA suspeita de colaborar com a Rússia — este é um esboço de retrato da actriz, publicado no Diário de Notícias (18 de Agosto), com o título 'A mulher que quis ser James Bond'.

Há poucos meses, Angelina Jolie esteve em Veneza para filmar The Tourist, um drama em que contracena com Johnny Depp. Como é habitual em situações de rodagem, a família, Brad Pitt e os seis filhos do casal, viajou até Itália, instalando-se com armas e bagagens (incluindo os professores das crianças). É um programa de vida que ambos tentam cumprir metodicamente: quando um deles tem um filme para fazer, o outro está livre para cuidar dos filhos.
Nesse ambiente, Jolie deu uma entrevista a Rich Cohen, publicada na edição de Agosto da revista Vanity Fair, em que esclarece a origem do seu novíssimo filme de acção, o espectacular Salt onde, sob a direcção de Philip Noyce, assume a personagem de Evelyn Salt, uma agente da CIA acusada de trabalhar para os russos. Tudo começou com um telefonema de Amy Pascal, co-presidente da Sony Pictures, perguntando-lhe se gostaria de interpretar uma personagem tipo “Bond girl”. A resposta é um pequeno tratado de ironia feminina: “Não, não me sinto confortável com isso, mas gostava de interpretar Bond.”
Talvez esteja aí, nessa capacidade de desafiar os clichés dos próprios papéis que interpreta, o segredo de uma carreira que está muito longe de poder ser reduzida ao mundo feérico de Lara Croft (que Jolie interpretou duas vezes, em filmes de 2001 e 2003) ou às peripécias mais ou menos anedóticas com que a imprensa cor de rosa vai retratando o casal Brad Pitt/Angelina Jolie (consagrado com o cognome de “Brangelina”).
Afinal de contas, estamos a falar de uma actriz distinguida com um Oscar de melhor actriz secundária, em Vida Interrompida, dirigido por James Mangold em 1999, e ainda três Globos de Ouro: um pelo mesmo filme, e mais dois por interpretações televisivas (melhor actriz secundária na mini-série George Wallace e melhor actriz no telefilme Gia, respectivamente de 1997 e 1998).
Do mesmo modo que quis interpretar uma variação feminina de James Bond, Jolie tem procurado não se deixar cristalizar em nenhum modelo de personagem. Assim, por um lado, percebeu que a imagem “juvenil” de Lara Croft deixou de ser compatível com o desenvolvimento do seu trabalho e também com a sua idade (fez 35 anos no dia 4 de Junho); por outro lado, tem apostado em constantes ziguezagues, contrariando qualquer fixação dramática ou espectacular: por exemplo, depois da comédia de acção Mr. & Mrs. Smith (2005), em que contracenava com Brad Pitt (foi aí que se conheceram), optou por dois papéis intensamente dramáticos, em O Bom Pastor (2006), um thriller político sob a direcção de Robert de Niro, e Um Coração Poderoso (2007), de Michael Winterbottom, assumindo a personagem trágica de Mariane Pearl, viúva do jornalista americano Daniel Pearl, raptado e assassinado por terroristas no Paquistão.
Como Angelina Jolie diz à Vanity Fair, lendo as manchetes de algumas revistas, a sua vida com Brad Pitt esgota-se num ciclo monótono: “Vamos separar-nos, estou grávida, vamos casar...” Tudo isso pode acontecer, claro, mas não basta para definir uma actriz que, para mais, concilia o facto de ser uma verdadeira estrela planetária com as funções de embaixadora do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Não basta ser James Bond para fazer tanto em tão pouco tempo.