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quarta-feira, junho 05, 2019

"Rocketman": entre verdade e fantasia

Elton John, figura lendária do rock’n’roll, surge agora como personagem em destaque na actualidade cinematográfica. Rocketman é mais do que um tradicional filme biográfico: a celebração espectacular da música e das canções cruza-se com uma evocação muito directa dos anos de toxicodependência — este texto foi publicado no Diário de Notícias (30 Maio).

Elton John depois de Freddie Mercury? Na sequência do impacto internacional de Bohemian Rhapsody (2018), sobre o vocalista dos Queen, aí está um novo “musical biográfico”: revelado, extra-competição, no Festival de Cannes, Rocketman foi concebido como um retrato exuberante, de uma só vez dramático e festivo, do criador de canções lendárias como Crocodile Rock, Goodbye Yellow Brick Road ou, precisamente, Rocket Man (tema incluído no álbum Honky Château, editado em 1972).


O paralelismo parece reforçar-se se nos lembrarmos que o realizador de Rocketman, Dexter Fletcher, foi também responsável pela conclusão de Bohemian Rhapsody, depois das acusações de assédio sexual contra Bryan Singer terem implicado o seu afastamento da rodagem (por razões contratuais, o filme tem assinatura de Singer, surgindo Fletcher como produtor executivo). E convenhamos que não é difícil identificar em ambos os filmes o mesmo tratamento retórico das imagens e, em particular, o esquematismo da sua montagem: a subtileza não é, de facto, uma das virtudes de Fletcher e, não poucas vezes, Rocketman perde-se numa pompa algo postiça, de alguma maneira esbanjando a energia espectacular das próprias canções de Elton John.
Seja como for, Rocketman distingue-se por uma proximidade essencial com a sua figura central. E não apenas porque o nome de Elton John surge no genérico (curiosamente, também como produtor executivo). Fabricado 27 anos depois da morte do seu herói, Bohemian Rhapsody era uma biografia cruzada com a exaltação mitológica. No caso de Rocketman, trata-se de uma biografia autorizada e, de algum modo, desejada pelo próprio Elton John.
Acontece que, aos 72 anos (completados a 25 de Março), Reginald Kenneth Dwight — ou, se preferirem, Sir Elton John, entronizado cavaleiro pela Rainha Isabel II em 1998 — assume que, mais do que nunca, quer ter uma relação transparente e sincera com o seu passado. E já prometeu que o seu livro intitulado Me (lançamento a 15 de Outubro), além de se apresentar como “primeira e única auto-biografia oficial”, será uma “montanha russa” de emoções, até porque a sua escrita foi um “processo catártico”.
De catarse individual e histórica se poderá falar também a propósito da dramaturgia de Rocketman. É especialmente surpreendente o modo como são expostas as convulsões dos anos em que Elton John viveu dependente de drogas, tendo como permissa dramática, logo na cena de abertura, a sua integração num grupo terapêutico. Sem esquecer, claro, as muitas atribulações da sua cumplicidade (nunca quebrada!) com Bernie Taupin, interpretado por Jamie Bell, letrista da maioria das canções de Elton John.


Num artigo escrito para o jornal The Guardian (publicado a 26 de Maio), o próprio Elton John fez questão em sublinhar a serenidade da opção que o levou a aceitar a cândida representação de alguns elementos mais íntimos da sua existência: “Não quis um filme saturado de drogas e sexo mas, ao mesmo tempo, todos sabem que tive muito das duas coisas ao longo dos anos 70/80. Por isso, não fazia muito sentido fazer um filme que sugerisse que, depois de cada concerto, eu ia muito discretamente para o meu quarto de hotel tendo como companhia apenas um copo de leite e a Bíblia.”
Será que a crueza de algumas situações pode limitar o impacto comercial do filme? Também nesse domínio, Elton John não aceitou que a celebração do rock’n’roll pudesse servir para mascarar tudo o resto: “Alguns estúdios gostariam que o filme fosse mais discreto em relação a sexo e drogas de modo a ser exibido como PG-13 [classificação etária que, nos EUA, permite que os menores de 13 anos possam entrar, desde que acompanhados por um adulto]”. Mas a sua recusa foi clara: “Não vivi uma vida para menores de 13 anos.”
A aposta consistiu em fazer, não uma biografia “evocativa”, mas um filme todo ele pontuado pelos artifícios típicos de um musical, embora preservando um certo realismo psicológico. Fletcher definiu a ambição do projecto através de uma expressão sugestiva: tratou-se de criar uma “fantasia musical”. Aliás, um dos posters utilizados na promoção do filme ironiza a tradicional expressão “baseado numa história verídica”, apresentado Rocketman como “baseado numa fantasia verídica”.


É pena que, quase sempre, a passagem do domínio intimista para os delírios do espectáculo se faça através de esquemas de encenação que não superam as convenções correntes do mundo dos telediscos. Ainda assim, convenhamos que a interpretação da personagem de Elton John por Taron Egerton (revelação de 2014, em Kingsman: Serviços Secretos) envolve um fundamental desafio: é ele que interpreta as canções, num trabalho de “recriação” do timbre de Elton John que se revela, no mínimo, tecnicamente surpreendente (ao contrário de Rami Malek que surgiu num cruzamento de “playback” com a voz de Marc Matel, célebre imitador de Freddie Mercury).
É caso para perguntar se, no primeiro trimestre de 2020, tudo isto poderá valer ao filme — e, em particular, a Taron Egerton — uma presença de destaque na corrida aos Oscars de Hollywood. Evitando profecias de bolso, digamos apenas que a “biografia musical” parece estar na moda. Os super-heróis que se cuidem.

terça-feira, julho 19, 2016

No coração de Elton John

Lançado no passado mês de Fevereiro, o álbum Wonderful Crazy Night permitiu-nos reencontrar um Elton John fiel ao seu rock em tom intimista, piano q.b.; agora, podemos revê-lo também como personagem de um dos seus telediscos (o que já não acontecia há cerca de uma década) — com direcção de Daniel Kragh-Jacobsen, A Good Heart é mesmo feito com o coração.

sexta-feira, março 11, 2016

FNAC [hoje]: Sound+Vision Magazine

Os Oscars de Hollywood são o tema central da sessão de hoje do Sound+Vision Magazine. Com algumas derivações para outros temas da actualidade, incluindo o novo álbum de Elton John — FNAC, Chiado [sexta, dia 11, 18h30].

quinta-feira, abril 03, 2014

Reedições:
Elton John, Goodbye Yellow Brick Road

Elton John
“Goodbye Yellow Brick Road (40th anniversary edition”
Universal
4 / 5 

Candle in The Wind, Bennie and The Jets, Goodbye Yellow Brick Road... A sucessão de títulos parece coisa de um best of de Elton John, mas estes são títulos assim consecutivamente arrumados no alinhamento de um álbum duplo que o cantor editou em 1973 e que, transformado num dos seus maiores êxitos e muitas vezes apontado como a sua obra-prima, regressa hoje numa edição (ver caixa) que junta uma série de extras, entre os quais reinterpretações de algumas das suas canções por nomes como os de Miguel ou John Grant.

Sucessor de Don’t Shoot Me I’m Only the Piano Player (1973), que lhe dera os primeiros números um nas tabelas de vendas de álbuns no Reino Unido e Estados Unidos, o disco começara por ser pensado como uma experiência por outros ares. Depois de os Rolling Stones terem gravado a maior parte de Goats Head Soup (também de 1973) na Jamaica, Elton, o letrista Bernie Taupin e entourage rumaram a essas mesmas paragens. A temporada no Dynamic Sound Studio, em Kingston, foi contudo menos bem-sucedida que a dos Stones, chegando a equipa em pleno tempo de conflito laboral entre os funcionários do estúdio (também uma editora e fábrica de discos) e o patronato. Quando tentavam entrar no estúdio os profissionais atiravam-lhes “fibra de vidro esmigalhada”, o que deixou muitos com “erupções cutâneas”, explica o próprio Elton John no booklet da nova reedição. Lá dentro não havia microfones e a cada avaria falava--se em dias para a resolver. De malas aviadas acabaram por regressar aos estúdios no Château d’Herouville (França), onde tinham já trabalhado (e onde tanto Sérgio Godinho como José Mário Branco haviam já registado discos).

Gravado e misturado em apenas 17 dias, incluindo algumas canções que Bernie e Elton tinham composto na Jamaica, Goodbye Yellow Brick Road  nasceria na forma de álbum duplo a 5 de outubro de 1973. Imponente nos arranjos, seguro na composição (confirmando um momento de forma da dupla autoral), o disco vai dos espaços de grandiosidade do glam rock a terrenos de elegante sinfonismo pop, pelas suas canções passando sobretudo histórias e figuras trágicas como Marilyn Monroe (em Candle in The Wind), uma prostituta (Sweet Painted Lady) e o assassinado Danny Bailey. Em All the Girls Love Alice Elton John junta-se a David Bowie e Lou Reed ao assinar mais um entre os primeiros retratos de homossexuais na forma de canções pop.

Bernie Taupin descreveu este disco como a “raiz kármica” da música de Elton John. “Gostava de ter histórias de terror” para lembrar a criação do álbum, graceja Elton no booklet. Mas na verdade, sublinha, “foi bem divertido” de fazer. Mais de 40 anos depois ainda se sente o brilho dessa aura num alinhamento que, de facto, representa o melhor da obra de Elton John.

A edição comemorativa dos 40 anos do álbum surge em vários formatos, uns com mais extras do que outros. A versão standard, na forma de CD duplo, inclui um concerto no Hammersmith Odeon em 1973 e um tributo que apresenta versões para nove temas do álbum em novas vozes. Candle in The Wind é reinventada por Ed Sheeran e Sweet Painted Lady surge em nova leitura por John Grant. O tributo apresenta ainda Bennie and The Jets por Miguel e Wale, All The Girls Love Alice por Emily Sandé e Saturday Night's Alright for Fighting pelos Fall Out Boy. Na verdade, além da leitura de John Grant, nenhuma é particularmente motivadora.

PS. Este texto foi originalmente publicado na edição de 30 de mar do DN com o título 'Elton John pela estrada #dos tijolos dourados'

segunda-feira, setembro 23, 2013

Novas edições:
Elton John, The Diving Board

Elton John 
“The Diving Board” 
Mercury / Universal 
4 / 5 

Na música não há regras certeiras. E por isso os graus de imponderabilidade que nascem das atitudes dos músicos ou das reações dos públicos guardam sempre uma dose valente do fator surpresa para o momento da revelação do disco e de como com ele nos relacionamos. Há contudo entre os veteranos uma noção de que, muitas vezes, o regresso às origens – o tal “back to the basics” - costuma ser uma boa opção. Nem que pelo facto de devolver o músico a um terreno onde, muitas vezes, já foi feliz. Isto para não dizer que este tipo de opções devolvem também os músicos a formas e referências que lhes foram formadoras, que dominam bem e que, na generalidade dos casos, lhes terão dado alguns dos seus melhores discos (os Beatles são mesmo uma das raras exceções de carreiras em que a obra tardia supera a inicial). Elton John não tem gravado muito nos últimos anos. Mas convenhamos que data de 2001 aquele que é um dos seus melhores discos de sempre e, inexplicavelmente, um dos mais ignorados. Trata-se de Songs From The West Coast, um mergulho sóbrio e inspirado, com magníficas canções e a companhia de nomes como Rufus Wainwright ou Stevie Wonder por terrenos americanos. O disco passou longe das atenções. Mas não foi muito diferente o destino dos sucessores Peach Tree (2004), The Captain and the Kid (2009) ou o encontro com Leon Russell (editado em 2010), pelo caminho um novo 'best of' deixando claro que o seu nome ainda vale ouro... O álbum de 2009 ensaiava uma tentativa de regresso ao passado, nomeadamente através da busca de uma sequela para o álbum de 1975 Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy. Agora, quatro anos depois, e com T Bone Burnett na produção, a ideia de um reencontro com as suas raízes ganha ainda maior evidência num novo disco que aceitou o desafio de um reencontro com o piano, o baixo e as percussões. E a verdade é que, sob esse mais limitado elenco de sons à sua disposição, Elton John e Bernie Taupin criaram para The Diving Board o seu melhor disco desde esse já referido título maior de 2001, com ele fazendo o par dos seus melhores álbuns desde os anos 70. As canções são todas elas de recorte clássico, o vigor vocal e pianístico de Elton John revelando uma forma notável num alinhamento que merece ser referido entre os melhores da sua discografia. No fim, é este fulgor vocal e interpretativo, quem juntamente com as qualidades da escrita de Taupin, acaba por fazer deste um disco que, mesmo recuando no tempo rumo a formas instrumentais de outro tempo, acaba na verdade por projetar a música de Elton John num espaço adiante do grosso da sua obra. Tal como aconteceu no encontro de Neil Diamond com Rick Rubin, este pode ser o primeiro disco do resto da sua discografia.

domingo, julho 28, 2013

Elton John: à espera do 30º álbum

Está a chegar (meados de Setembro) o 30º álbum de estúdio de Elton John. Chama-se The Diving Board e apresenta quinze novos temas — música de Elton John, letras de Bernie Taupin, produção de T-Bone Burnett. Nostalgia dos sons mais remotos da década de 70? Talvez, nada contra... Aqui fica o primeiro single, Home Again, em formato "lyric video".


>>> Site oficial de Elton John.

sexta-feira, agosto 10, 2012

Madonna em São Petersburgo

Pulseiras cor de rosa, de apoio à comunidade LGBT de São Petersburgo, foram distribuídas no espectáculo da MDNA Tour, naquela cidade russa.
Não se intimidando com o epíteto de "vagabunda" que lhe foi dirigido pelo vice-primeiro ministro Dmitry Rogozin (na sequência do concerto de Moscovo e da sua defesa do direito à expressão da banda Pussy Riot), Madonna proclamou no palco do Centro de Desportos e Concertos de São Petersburgo a sua inquietação pelas circunstâncias em que as pessoas deixam de ser tratadas com "dignidade, respeito e amor" — eis o respectivo registo videográfico.


E porque o mundo não é a "preto & branco", vem a propósito perguntar se Sir Elton John (que, salvo erro, não habita em São Petersburgo) tem algo a acrescentar ao sentido político da intervenção daquela que, recentemente, ele apelidou de "stripper de feira". Na melhor das hipóteses, e recordando um célebre cartoon de 2004, assinado por Rob Jacobs, aguardamos que ele cante — e nos encante.

segunda-feira, novembro 21, 2011

Novas edições:
Kate Bush, 50 Words For Snow

Mês Kate Bush - 19


Kate Bush
“50 Words For Snow”

Fish People / EMI Music
5 / 5

O regresso aos discos de músicos com regularidade bissexta na edição de novos álbuns gera necessariamente um clima de expectativa maior. Kate Bush levou doze anos a vencer o silêncio que se seguira a Red Shoes, lançando em 2005 o duplo Aerial. Seis anos depois regressou com Director’s Cut, uma nova abordagem a temas dos álbuns de The Sensual World e Red Shoes... E agora, apenas poucos meses depois, apresenta um novo álbum de originais. E que revela ser, muito simplesmente, o seu melhor disco desde Hounds Of Love, de 1985! 50 Words For Snow é um disco de Inverno. Um disco sobre (e como o título desde logo sugere) a neve, os dias de frio e as histórias e figuras que nele habitam. Apesar de alguma abertura de horizontes nos caminhos que toma (Wild Man, o single, abrindo mais evidentes contactos com heranças mais remotas da sua carreira, os restantes momentos procurando antes novos caminhos segundo linhas já sugeridas em alguns instantes mais contemplativos de Aerial), 50 Words For Snow é um álbum esteticamente afinado segundo um rumo concreto e tematicamente bem definido. Um álbum conceptual? Talvez. Apesar da franca demarcação de um espaço muito pessoal e, mais que em qualquer álbum anterior, de assegurar uma clara expressão de uma demanda que olha para dentro antes de abrir a voz ao mundo, 50 Words For Snow não é todavia para a história da obra de Kate Bush um exercício tão radical e de ruptura como o foi, por exemplo, o (igualmente arrebatador) Tilt, álbum através do qual Scott Walker calou igualmente longo silêncio e estabeleceu claras bases para uma nova etapa na sua obra. O piano é aqui o parceiro mais próximo da voz, as cenografias oscilando entre as texturas ambientais de Snowed In At Wheeler Street (num soberbo dueto com Elton John) ou o travo jazzístico que cruza os ares de Misty. O filho da cantora abre o alinhamento dando voz a Snowflake, vestindo, como um actor, o papel de um floco de neve que cai e deseja ser agarrado por alguém. Mais adiante, no tema-título, cabe a Stephen Fry a enumeração exaustiva de 50 expressões sinónimas de neve, sob a contagem discreta, mas atenta, da voz de Kate Bush. O alinhamento terminando, ao som de Among Angels, num suave diálogo para voz e piano que acolhe depois a presença de uma orquestra. Se Aerial era expressão uma busca de novos caminhos e Director’s Cut um rearrumar de ideias, 50 Words For Snow encontra Kate Bush já firme num novo patamar. Tem pela frente um mundo novo a explorar. Que o faça (e agora que, tal como em 1978, editou dois álbuns num mesmo ano), mais atenta ao calendário.