Fotógrafo de um realismo frio, distante, de desconcertante intimismo, o alemão Juergen Teller propõe, agora, um magnífico portfolio de balanço do cinema de 2012. Assim, para o tradicional número especial da revista W — 'The Movie Issue' (Fev.) —, Teller fotografou 33 actores cujas composições marcaram, de forma indelével, os filmes do ano. São imagens que contam uma história que, de acordo com as palavras da apresentação de Lynn Hirschberg, reflectem um ano de peculiar austeridade: "Em 2012, o sexo quase desapareceu dos filmes. Talvez por ter sido um ano eleitoral, talvez porque a América viveu absorvida por uma nostalgia por heróis, os filmes deste ano surgiram largamente desprovidos de paixão física." Ironicamente, há sempre qualquer coisa de perturbantemente carnal nas fotografias de Teller. Aqui ficam três exemplos: Emma Stone (na capa), John Hawkes e Nicole Kidman.
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sábado, janeiro 19, 2013
terça-feira, janeiro 01, 2013
As imagens de 2012 (11 + 12)
É, talvez, desconcertante, mas é um facto: a nudez continua a ser um signo revelador das convulsões do espaço mediático.
Sobre a primeira imagem (MDNA Tour), vozes muito sérias e bem intencionadas acharam por bem reabrir alguns graves dossiers morais:
— sobre o facto de Madonna se "despir";
— sobre o facto de fazer o que faz com "54 anos" de idade;
— enfim, sobre o facto de se "atrever" a convocar o nome de um candidato à Presidência dos EUA.
Sobre a segunda imagem (Casa dos Segredos):
— ... continuamos à espera que essas e outras vozes (em especial da cena político-partidária) nos digam alguma coisa sobre o modo como encaram a pavorosa degradação populista que continua a triunfar no espaço televisivo.
* * * * *
Deixemo-nos de tretas: não se espera que Madonna seja um factor de união (aliás, ela sempre foi o exacto oposto de qualquer unanimismo, pelo menos desde a explosão mediática que constituiu a sua performance de Like a Virgin, nos Prémios MTV de 1984...).
A proclamada agitação em torno da "nudez" não passa de um pretexto para contornar a questão mais radical: no espaço do entertainment, cada exposição pública dos respectivos protagonistas envolve sempre algum tipo de entendimento sobre as próprias linguagens convocadas. Daí que as diferenças contem:
A proclamada agitação em torno da "nudez" não passa de um pretexto para contornar a questão mais radical: no espaço do entertainment, cada exposição pública dos respectivos protagonistas envolve sempre algum tipo de entendimento sobre as próprias linguagens convocadas. Daí que as diferenças contem:
— Madonna recusa o lugar-comum pueril e moralista, segundo o qual o corpo é um elemento "natural"; bem pelo contrário: tudo é signo, tudo é escrita.
— em programas como "Casa dos Segredos", cada personagem é instrumentalizada até ao metódico esvaziamento de qualquer centelha de humanidade: a sua mensagem "festiva" não passa da máscara demagógica do mais rasteiro niilismo consumista.
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segunda-feira, dezembro 31, 2012
Um Feliz 2013!
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| FOTO: Shakil Adil / AP Karachi, 13 Nov. 2012: "Diwali - Festival das luzes", tradição Hindu (2012 Year in Pictures / 'The Big Picture') |
* * * * *
Três canções para encerrar 2012. Com fotos de um Feliz Ano Novo!
>>> ANNE SOFIE VON OTTER: Ah! quel dîner!, ária da ópera bufa Le Périchole, de Jacques Offenbach — concerto em Paris, 1992.
>>> CARLY RAE JEPSEN: Call Me Maybe, do seu álbum de estreia (Kiss, 2012) — bastidores de Late Night with Jimmy Fallon, com Jimmy Fallon e The Roots.
>>> JUDY GARLAND: Get Happy, canção por ela interpretada no filme Summer Stock/Festa no Campo (1950), de Charles Walters — gravação do programa televisivo The Judy Garland Show (1963-64).
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sexta-feira, dezembro 28, 2012
Marco Ferreri: uma trágica performance
No suplemento "QI" (Diário de Notícias, 22 Dez.), vários críticos recordaram edições em DVD que consideraram marcantes no ano de 2012. A minha escolha recaiu em A Grande Farra, num texto intitulado 'A morte como performance'.
Há qualquer coisa de fascinante e absurdo no reencontro, em DVD, com um filme como A Grande Farra (1973), de Marco Ferreri (1928-1997). Estamos perante um dos títulos emblemáticos de toda uma vaga de objectos (lembremos o caso lendário de O Último Tango em Paris, produzido um ano antes) que, na ressaca das ilusões e desilusões herdadas da década de 60, encenaram os valores e, sobretudo, os equívocos da chamada sociedade de consumo (na época, a simples aplicação da expressão “sociedade de consumo” implicava mesmo alguma contundência crítica). Agora, chegados à paz podre do DVD, verificamos que desapareceu a aura de escândalo que envolveu o lançamento de A Grande Farra: além de não se repetir, nem sequer parece fazer parte de muitas formas de (des)conhecimento histórico do filme e do seu contexto de produção.
Qualquer banal discurso de boas intenções dirá que a ausência de escândalo reflecte a “evolução” das sociedades e a sua crescente “maturidade”. Tenho sérias dúvidas. Basta olhar à nossa volta: haverá escândalo maior do que assistirmos todos os dias ao bombardeamento de uma enorme percentagem da população pelos horrores televisivos do Big Brother e seus derivados? E, no entanto, não só a indignação democrática opta quase sempre por um dourado silêncio de equívoca tolerância, como passámos a viver um tempo em que os maus resultados de uma equipa de futebol são acompanhados por mais agitação mediática do que o “perverso” Ferreri alguma vez conseguiu gerar...
É por isso que a importância da edição de A Grande Farra não se reduz ao perene impacto e capacidade de perturbação de um filme que encena um grupo de quatro amigos (Marcello Mastroianni, Philippe Noiret, Michel Piccoli e Ugo Tognazzi) envolvidos numa trágica performance: a de comerem, comerem, comerem... até à morte. Há nessa performance a afirmação de vitalidade de um cinema (europeu, hélas!) que se perfila na linha da frente das convulsões sociais, funcionando como espelho das suas ânsias e perplexidades.
O filme é tanto mais cruel e desencantado quanto evita definir os seus anti-heróis a partir de qualquer discurso de “reivindicação”, “queixa” ou “reparação” (temas que se tornaram correntes no pobre imaginário televisivo, desde os talk shows aos noticiários). Fiel ao seu gosto irónico e surreal, exemplarmente condensado nesse filme inclassificável que é Dillinger Morreu (1969), Ferreri vai permitindo que se instale uma bizarra sensação de pacificação, não por acaso devedora da presença da única personagem feminina (Andréa Ferreol), distante, sem deixar de ser maternal.
Em 2012, no contexto português, A Grande Farra foi um filme (não faltaram outros exemplos, felizmente) capaz de nos fazer lembrar que o cinema europeu possui uma memória muito própria cuja herança plural, mais do que nunca, importa sistematizar, conhecer e divulgar. É bem verdade que o mercado do DVD, também ele afectado por uma crise endémica, não resolve tudo. Mas é bom saber que há condições para sermos espectadores, pelo menos, mais informados.
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quarta-feira, dezembro 26, 2012
As canções de 2012: Citizens
A canção (e o próprio teledisco, que é das coisas mais deliciosamente azeiteiras que vi nos últimos tempos) já vem de finais de 2011. Mas True Romance fez história em 2012, servindo de cartão de visita ao álbum de estreia dos londrinos Citizens, que contou com produção a cargo de Alex Kapranos, dos Franz Ferdinand.
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Os melhores livros de 2012
E com os livros que fizeram a história de um ano de leituras ficam contadas as listas que dão conta de lançamentos que marcaram 2012. Foi um ano muito divido entre livros técnicos (sobretudo na área da música) e ficção (aqui acolhendo alguns títulos na área da BD) e, por interesse pessoal, com algum espaço ainda para a ciência e a história.
O melhor do ano ficou por conta de Fun Home, de Alison Bechdel, que mereceu o título de livro do ano para o New York Times em 2008 e que em 2012 teve tradução publicada entre nós. Como aqui mesmo escrevi há alguns meses, foram sete anos de trabalho para a autora (a criadora das tiras Dykes To Watch Out For). Não é exatamente uma BD nem a devemos descrever como uma novela gráfica, mas antes uma memória gráfica. Fun Home - Uma Tragicomédia Familiar (o título guarda um duplo sentido, uma vez que a casa de que se fala é, além de um espaço de família, uma casa funerária) é um percurso auto-biográfico da juventude da autora, Alison Bechdel, essencialmente focado em si e na sua relação com o seu pai, ambos homossexuais, cada qual descobrindo e vivendo contudo a sua sexualidade de modo diferente, acrescentando Alison que o pai era alguém que tratava os móveis como pessoas e as pessoas como móveis. Ainda nos espaços das graphic novels e BD destacam-se ainda as edições de O Juramento dos Cinco Lords, de Yves Sente e Andre Julliard, talvez a melhor aventura pós-Edgar P. Jacobs da dupla Blake & Mortimer, e Persepolis, de Marjane Satrapic, as memórias que já conhecíamos na versão que realizou para cinema.
A história do que fui lendo ao longo do ano passou ainda pela continuação da descoberta de duas obras que cada vez mais ganham por aqui um valor de referência. Por um lado Bruce Chatwin, de quem este ano a Quetzal lançou um livro de correspondência mas também Utz, um pequeno (mas soberbo) romance que nos transporta ao que foi a Checoslováquia e a um olhar crítico sobre vidas e hábitos do outro lado da Cortina de Ferro. Político é também o cenário da Berlim dos anos 30 que acolhe Mister Norris Muda de Comboio, que é já o quarto volume de obras de Isherwood que a mesma editora já lançou (sendo que este ano publicou ainda Encontro À Beira Rio). Entre o espaço da ficção assinale-se ainda a publicação pela Sextante de Um Dia Na Vida de Ivan Deníssovitch, gritante relato de vinte e quarto horas na vida de um prisioneiro de um gulag (experiência relatada sob profunda carga autobiográfica) e ainda uma maravilhosa coleção de pequenas narrativas de Ryunosuke Akutagawa, o pai do conto na literatura japonesa.
Nos departamentos do ensaio vale a pena assinalar (e sugerir a tradução e edição local) de How Music Works, uma série de reflexões de David Byrne sobre a música e a sua própria história pessoal como músico. Ao melhor que li este ano junte-se ainda mais um título de Antony Beevor sobre a II Guerra Mundial, neste caso um olhar focado sobre a queda do III Reich procurando compreender como um regime em colapso se manteve repressivo e implacável até ao fim. E ainda o contundente Pipocas e Temelóvel, onde Carlos Fiolhais e David Marçal desmontam os mitos da falsa ciência.
1. Fun Home, de Alison Bechdel (Contraponto)
2. Utz, de Bruce Chatwin (Quetzal)
3. How Music Works?, de David Byrne (Canongate Books Ltd)
4. Um dia Na Vida de Ivan Denissovich, de Alexandr Soljenintsin (Sextante)
5. Até Ao Fim, de Anthony Beevor (D. Quixote)
6. O Juramento dos Cinco Lords, de Yves Sente e Andre Julliard (ASA)
7. Mister Norris Muda de Comboio, de Christopher Isherwood (Quetzal)
8. Piopcas e Telemóvel, de Carlos Fiolhais e David Marçal (Gradiva)
9. Persepolis, de Marjane Satrapi (Contraponto)
10. Rashomon e Outras Histórias, de Ryūnosuke Akutagawa (Cavalo de Ferro)
O melhor do ano ficou por conta de Fun Home, de Alison Bechdel, que mereceu o título de livro do ano para o New York Times em 2008 e que em 2012 teve tradução publicada entre nós. Como aqui mesmo escrevi há alguns meses, foram sete anos de trabalho para a autora (a criadora das tiras Dykes To Watch Out For). Não é exatamente uma BD nem a devemos descrever como uma novela gráfica, mas antes uma memória gráfica. Fun Home - Uma Tragicomédia Familiar (o título guarda um duplo sentido, uma vez que a casa de que se fala é, além de um espaço de família, uma casa funerária) é um percurso auto-biográfico da juventude da autora, Alison Bechdel, essencialmente focado em si e na sua relação com o seu pai, ambos homossexuais, cada qual descobrindo e vivendo contudo a sua sexualidade de modo diferente, acrescentando Alison que o pai era alguém que tratava os móveis como pessoas e as pessoas como móveis. Ainda nos espaços das graphic novels e BD destacam-se ainda as edições de O Juramento dos Cinco Lords, de Yves Sente e Andre Julliard, talvez a melhor aventura pós-Edgar P. Jacobs da dupla Blake & Mortimer, e Persepolis, de Marjane Satrapic, as memórias que já conhecíamos na versão que realizou para cinema.
A história do que fui lendo ao longo do ano passou ainda pela continuação da descoberta de duas obras que cada vez mais ganham por aqui um valor de referência. Por um lado Bruce Chatwin, de quem este ano a Quetzal lançou um livro de correspondência mas também Utz, um pequeno (mas soberbo) romance que nos transporta ao que foi a Checoslováquia e a um olhar crítico sobre vidas e hábitos do outro lado da Cortina de Ferro. Político é também o cenário da Berlim dos anos 30 que acolhe Mister Norris Muda de Comboio, que é já o quarto volume de obras de Isherwood que a mesma editora já lançou (sendo que este ano publicou ainda Encontro À Beira Rio). Entre o espaço da ficção assinale-se ainda a publicação pela Sextante de Um Dia Na Vida de Ivan Deníssovitch, gritante relato de vinte e quarto horas na vida de um prisioneiro de um gulag (experiência relatada sob profunda carga autobiográfica) e ainda uma maravilhosa coleção de pequenas narrativas de Ryunosuke Akutagawa, o pai do conto na literatura japonesa.
Nos departamentos do ensaio vale a pena assinalar (e sugerir a tradução e edição local) de How Music Works, uma série de reflexões de David Byrne sobre a música e a sua própria história pessoal como músico. Ao melhor que li este ano junte-se ainda mais um título de Antony Beevor sobre a II Guerra Mundial, neste caso um olhar focado sobre a queda do III Reich procurando compreender como um regime em colapso se manteve repressivo e implacável até ao fim. E ainda o contundente Pipocas e Temelóvel, onde Carlos Fiolhais e David Marçal desmontam os mitos da falsa ciência.
1. Fun Home, de Alison Bechdel (Contraponto)
2. Utz, de Bruce Chatwin (Quetzal)
3. How Music Works?, de David Byrne (Canongate Books Ltd)
4. Um dia Na Vida de Ivan Denissovich, de Alexandr Soljenintsin (Sextante)
5. Até Ao Fim, de Anthony Beevor (D. Quixote)
6. O Juramento dos Cinco Lords, de Yves Sente e Andre Julliard (ASA)
7. Mister Norris Muda de Comboio, de Christopher Isherwood (Quetzal)
8. Piopcas e Telemóvel, de Carlos Fiolhais e David Marçal (Gradiva)
9. Persepolis, de Marjane Satrapi (Contraponto)
10. Rashomon e Outras Histórias, de Ryūnosuke Akutagawa (Cavalo de Ferro)
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Livros
Figuras de 2012: Músicos do Tejo
Um dos maiores feitos recentes da música clássica made in este lado da fronteira foi a edição em disco de La Spinalba, ópera do compositor português Francisco António de Almeida (1702-1755). Primeira gravação integral desta ópera com instrumentos de época, La Spinalba conta, além das vozes, com a preciosa colaboração dos Músicos do Tejo, sob direção de Marcos Magalhães. O disco (um triplo CD) foi lançado há poucas semanas pela Naxos.
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segunda-feira, dezembro 24, 2012
Figuras de 2012: Jessica Chastain
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| [in Jessica Chastain Network] |
O seu nome começou por surgir associado a um filme de e com Al Pacino, Wilde Salome (2011), rapidamente transformado em objecto de culto mais ou menos "invisível" (Portugal é um dos países em que permanece inédito). Ao longo de 2012, vimo-la em vários filmes, alguns com data de produção do ano anterior, incluindo: Procurem Abrigo, de Jeff Nichols, Coriolano, de e com Ralph Fiennes, A Árvore da Vida, de Terrence Malick, e As Serviçais, de Tate Taylor; este último valeu-lhe uma nomeação para o Oscar de melhor actriz secundária. Entretanto, está no novo Zero Dark Thirty, de Kathryn Bigelow, sobre a caça a Osama bin Laden — as reacções americanas ao filme, incluindo as polémicas que o têm acompanhado, fazem com que não seja arriscado supor que a sua interpretação lhe valerá uma nova nomeação, desta vez na categoria de melhor actriz. De uma fragilidade paradoxal, há em Chastain uma cumplicidade carnal com a câmara de filmar que a distingue pela mais mágica duplicidade: uma actriz de infinitas nuances dramáticas e também uma figura com a energia icónica de uma star.
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As canções de 2012: Damon Albarn
Chama-se
Dr. Dee e foi o primeiro álbum a solo de Damon Albarn, editado este ano. Trata-de
do registo áudio da música que Damon criou para mais uma ópera. Aqui fica
Marvelous Dream, um dos momentos deste álbum.
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blur
Os melhores concertos de 2012 (N.G.)
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| Foto: Orlando Almeida / DN |
Na hora de fazer as contas ficou claro que vi poucos concertos este ano. Muito poucos mesmo. Andei mais pelas salas (e festivais) de cinema, é verdade... Mesmo assim, aqui ficam dez momentos de um ano de música ao vivo que não posso esquecer.
Pop/rock
Andrew Bird
(Aula Magna)
Finalmente em atuação com banda, a sua vinda a Portugal era uma das mais desejadas tanto pelo músico como pela plateia. E ao cabo de duas horas de concerto com aplauso em pé, a sala esvaziou com a sensação de ter assistido a , certamente, um dos melhores (senão mesmo o melhor) concerto deste ano.
Perfume Genius
(SBSR)
Há momentos em que o pouco faz muito. E o que Perfume Genius nos mostrou no concerto que abriu o último dia de atuações no palco secundário foi perfeita expressão desta mesma ideia, o momento, a tamanha intensidade de tanto que brota de quase nada, criando um dos mais belos momentos de palco que vi nos últimos tempos.
Rufus Wainwright
(Coliseu dos Recreios)
Rufus Wainwright passou por Lisboa, para mais um inesquecível concerto no palco do Coliseu dos Recreios. Havia lugares vazios (mesmo estando a sala composta). Todos repararam nisso. E os dias de carteira mais magra não permitiriam outro cenário... Mas Rufus esteve à altura e deu-nos mais um concerto inesquecível.
Leonard Cohen
(Pavilhão Atlântico)
Sabe enganar os 78 anos, cumpridos no passado mês de setembro, não só pelo modo como, pouco depois das nove da noite, entrou no palco a correr ou quase dançou durante as primeiras canções como, da primeira vez que se dirigiu ao Pavilhão Atlântico quase deu a sugerir que esta podia não ser a última vez. Cohen falou até mesmo num futuro possível. Mas ao mesmo tempo sublinhou que nesta noite ia dar aos presentes tudo o que tinha para lhes mostrar. E assim foi.
Peter Gabriel
(SBSR)
A ideia podia parecer o maior erro de 'casting'. Mas afinal resultou em pleno e o concerto de Peter Gabriel, acompanhado pela New Blood Orchestra, foi mesmo um dos maiores momentos da edição 2012 do Super Bock Super Rock. Não só pela afluência de um público maioritariamente mais velho que acorreu ao Meco para o ver. Como pela proposta de reinvenção orquestral das suas canções que, depois dos discos e de três anos na estrada, conheceu aqui o seu ponto final.
Clássica
Thomas Adès / Orq. Gulbenkian
Obras de Thomas Adès e outros compositores
(Fund. Gulbenkian)
É no mínimo um privilégio podermos assistir à história quando ela acontece frente aos nossos olhos. O britânico Thomas Adès foi lisboeta ao longo de alguns dias, num pequeno ciclo que culminou com a apresentação de Polaris: Voyage For Orchestra, uma obra co-encomendada pela Fundação que o compositor apresentou à frente da Orquestra Gulbenkian.
Uri Caine
'Wagner In Venice'
(Fund. Gulbenkian)
Acompanhado por dois violinistas (Pedro Pacheco e Otto Michael Pereira), uma violoncelista (Raquel Reis), um contrabaixista (Marc Ramirez) e um acordeonista (Paulo Jorge Ferreira), Uri Caine (ao piano) fez-nos mergulhar, sem rede, por uma música que parte diretamente de obras de Wagner mas que procura outros caminhos, outras descobertas, outras cores.
Philip Glass e Tim Fainn
(Metropolitan Museum, NY)
O Metropolitan Museum de Nova Iorque juntou-se às celebrações do 75º aniversário de Philip Glass com um concerto no espaço da Sackler Wing junto ao templo egípcio de Dendur (um dos ex libris da vasta coleção ali exposta). O próprio Philip Glass (ao piano) e o violinista Tim Fain foram os protagonistas num programa que teve transmissão em direto na Internet através do site do museu nova iorquino.
Lionel Bringer / Orq. Gulbenkian
Obras de Pedro Amaral, Debussy e Brahms
(Fund. Gulbenkian)
Sob a direção do jovem Lionel Bringuer (na foto), que é maestro residente na Los Angeles Philarmonic, a Orquestra Gulbenkian tomou como “prólogo” à estreia da nova obra de Pedro Amaral uma belíssima e suave leitura de Prélude à L’Aprés Midi d’un Faune, de Debussy. Igualmente sob direção decidida, mas polida, apresentou na segunda parte uma Sinfonia Nº 1 de Brahms
John Nelson / Orq. Gulbenkian
Bach, 'Missa em si menor BWV 232’
(Fund. Gulbenkian)
Sob direção de John Nelson, que fez notar os contrastes entre a exultante presença do conjunto orquestra/coro e os momentos de maior intimidade dos vários instrumentistas nas respetivas contribuições como solistas, e, contando na presença da soprano Johanette Zomer como a mais clara e presente das quatro vozes convidadas, a sala (com palco destapado para o jardim e uma plateia que cruzava gerações) viveu vibrante noite programa inaugural da temporada.
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Concertos
Figuras de 2012: Malala Yousafzai
Aos 15 anos de idade, a paquistanesa Malala Yousafzai é um símbolo da luta do conhecimento contra a ignorância. Ativista pelo direito das mulheres à educação – direito universal que é por vezes negado pelos talibã – a pequena Malala ganhou visibilidade primeiro com um blogue (que assinou sob pseudónimo) depois em entrevistas onde defendeu as suas posições. A 12 de outubro foi baleada numa tentativa de assassinato. Salva pela medicina, a sua voz acabou por chegar ainda mais longe. Mas nós, neste canto ocidental do mundo, não julguemos a opressão e a visão talibã como coisa que se esgota por estes lados. Basta ter ouvido os extremismos intolerantes e ignorantes de alguns dos candidatos à nomeação pelo Partido Republicano às presidenciais norte-americanas para o reconhecer. E se julgávamos escandaloso que a impensável impreparação de uma vigura como Sarah Palin chegasse a uma candidatura vice-presidencial em 2008, as palavras de um Herman Cain, uma Michele Bachmann ou um Rick Santorum moram entre as memórias mais assustadoras de 2012. E que, pelo patamar a que chegaram, não são menos assustadoras que a violência que fez da pequena Malala Yousafzai uma das figuras do ano.
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Política
Barack Obama por Nadav Kander
A foto de Barack Obama como "personalidade do ano" da revista Time é um pequeno prodígio de contenção e simbolismo. Assinada pelo fotógrafo israelita Nadav Kander, nela encontramos a funcionalidade jornalística do retrato convivendo com a hipótese argumentativa do mito.
O mito é uma narrativa, lembrava Roland Barthes. E é disso que se trata, de um magnífico paradoxo que se desenha perante o nosso olhar: à beira de assumir o seu segundo mandato, Obama apresenta-se como uma figura ao mesmo tempo serena e expectante — corpo vivo e monumento estático. Por um lado, ele é o objecto eleito pela luz, de acordo com um método clássico, obviamente não alheio à iconografia do star system; por outro lado, o seu olhar parece fixar um ponto preciso, talvez do cenário circundante, talvez meramente interior. Kander consegue a proeza de situar o seu retratado num devir que, em qualquer caso, a fotografia se priva de concretizar. É um instante de alguém que imagina alguma coisa. Ou que a pensa. Aliás, em boa verdade, é uma imagem cuja imaginação é já uma forma de pensamento.
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Fotografia,
Revistas
domingo, dezembro 23, 2012
Os melhores filmes de 2012 (J.L.)
* CÉSAR DEVE MORRER, de Paolo e Vittorio Taviani
* ERA UMA VEZ NA ANATÓLIA, de Nuri Bilge Ceylan
* COSMOPOLIS, de David Cronenberg
* CAVALO DE GUERRA, de Steven Spielberg
* A INVENÇÃO DE HUGO, de Martin Scorsese
* O SUBSTITUTO, de Tony Kaye
* AMOR, de Michael Haneke
* O CAVALO DE TURIM, de Béla Tarr
* CIRKUS COLUMBIA, de Danis Tanovic
* EXTREMAMENTE ALTO, INCRIVELMENTE PERTO, de Stephen Daldry
Tudo isto num ano em que a cultura dominante do audiovisual — isto é, a cultura televisiva — continuou a elaborar uma visão superficial e descartável do próprio cinema. Por uma ironia que vale a pena registar, algumas das mais ricas narrativas de 2012 vieram da... televisão: Mad Men, The Newsroom [trailer], The Walking Dead.
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sábado, dezembro 22, 2012
As canções de 2012: Frank Ocean
Não é exatamente um estreante (tinha já uma mixtape editada no ano passado), mas Frank Ocean foi dos nomes de quem mais se falou em 2012. E com razão. Em Channel Orange deu-nos um dos melhores álbuns do ano e em Pyramids uma das canções que o ano não vai esquecer.
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Frank Ocean
Os melhores DVD/Blu-ray de 2012 (N.G.)
Voltamos ao cinema, mas hoje através das edições em formatos de home vídeo. Resolvi dividir as listas entre edições em DVD e Blu-ray, já que entre nós o volume de lançamentos em tecnologia HD não é ainda dominante e muitos foram os casos de edições importantes que vale a pena destacar. Estas listas referem sobretudo a presença de títulos que não correspondem necessariamente ao plano das estreias em sala mais recentes (quando isso acontece é porque os extras valorizam as edições), sendo sobretudo dominadas pela presença de obras anteriores a 2011, antologias ou mesmo filmes que não tiveram estreia no nosso circuito comercial (algumas nem sequer mesmo em festivais). De ficção televisiva só vi, que me entusiasmasse mesmo, The Newsroom... E ainda não chegou a estes lados em DVD ou Blu-ray...
DVD
O filme venceu o DocLisboa no ano passado e teve estreia comercial em sala este ano. Mas não só é um dos mais surpreendentes filmes de produção nacional mais recente e nos dá um olhar sincero e tranquilo sobre um espaço que assim descobrimos no seu ritmo próprio, como ao chegar ao DVD revelou mais que apenas o filme. Na verdade a edição de É Na Terra Não É Na Lua é um exemplo do que pode ser o valor acrescentado de um lançamento em DVD, não só pelas (bem arrumadas) duas horas de imagens extra que acrescenta num segundo disco, como pelo diário de rodagem que, na forma de livro, soma experiências ao que foi a vivência de Gonçalo Tocha e Dídio Pestana durante as suas viagens à Ilha do Corvo, afinal o objeto do seu olhar. Da restante lista destaca-se a muito oportuna caixa (a primeira de um díptico) dedicada ao cinema de Béla Tarr, que chega no ano do sublime O Cavalo de Turim, que foi na verdade o seu primeiro filme a ter estreia comercial entre nós. Importante é também o três-em-um de João Salaviza que junta num mesmo DVD três curtas (Arena, Cerro Negro e Rafa) que, juntas, definem algumas características comuns e interessante base de trabalho para o estabelecer da sua própria linguagem. Passam ainda por aqui filmes que não estrearam em sala (mas que deviam ter estreado, até mesmo com potencial de mercado) como Maria-Rapaz, um poderoso olhar sobre identidade de género por Céline Sciama, Pão Negro, mais uma incursão de Agusti Villaronga pelas memórias da guerra civil espanhola, uma narrativa sobre imigração ilegal na fronteira entre os EUA e o Canadá por Courtney Hunt ou um dos mais interessantes retratos alguma vez feitos em cinema sobre a história dos Beatles em O Rapaz de Liverpool, que recua aos dias em que Lennon vivia na casa da sua Tia Mimi. Deste ano editorial merece ainda destaque a soma de olhares de Sergei Loznitsa sobre imagens dos tempos do cerco de Leninegrado (em plena II Guerra Mundial), a recuperação de dois títulos fulcrais do cinema de Koreeda ou, finalmente, a recuperação de um clássico radical do new queer cinema assinado em 1993 por Gregg Araki
1. É Na Terra Não é Na Lua, de Gonçalo Tocha (Alambique)
2. Coleção Béla Tarr, de Béla Tarr (Midas Filmes)
3. III Filmes de João Salaviza, de João Salaviza (Midas Filmes)
4. Maria-Rapaz, de Céline Sciama (Leopardo)
5. Totalmente Lixados, de Gregg Araki (Films 4 You)
6. Pão Negro, de Augusti Villalonga (Leopardo)
7. O Cerco de Leninegrado, de Sergei Loznitsa (Alambique)
8. O Rapaz de Liverpool, de Sam Taylor Wood (Zon Lusomundo)
9. Ninguém Sabe / Andando, de Hirokazu Koreeda (Leopardo)
10. Rio Gelado, de Courtney Hunt (Zon Lusomundo)
Blu-ray
Pelo Blu-ray têm regressado à vida uma série de títulos, agradecendo o espectador as vantagens do restauro digital na era da alta definição. Editada para já apenas para zona A (ou seja, as Américas), a trilogia Qatsi, de Godfrey Reggio (que junta os filmes Koyaanisqatsi, Powaqqatsi e Naqoyqatsi) é um dos exemplos maiores do relacionamento do mundo das imagens com o da música através de três experiências de diálogo muito próximo entre o realizador e Philip Glass, o compositor. Três visões do mundo do nosso tempo (a terceira, na verdade, coisa menor) que mereciam lançamento também por território europeu... Apesar de editados no Reino Unido ainda em 2011, o clássico Deep End de Skolimovsky sobre as leis do desejo (de 1970, aqui num restauro magnífico e bem acompanhado por um booklet extenso) e How I Ended This Summer, de Popogrebsky, que encena um espantoso confronto entre gerações com cenário num posto científico no Ártico, chegaram-me às mãos já em 2012 e marcaram o meu ano de visionamentos (e por isso estão na lista). Ao nosso mercado chegaram boas edições recordando filmes de Malick, Spielberg, Hitchcock, Lean ou Hawks. Entre o melhor que o ano nos deu conta-se ainda uma edição substancialmente rica em extras de Things To Come, utopia de ficção científica de 1936 de William Cameron Menzies e o documentário de Patricio Guzman Nostalgia For The Light, que nos mostra, com o deserto do Atacama por cenário, casos distintos de procura: a dos astrónomos que buscam pistas nos céus, a dos arqueólogos que procuram vestígios de antigos trilhos andinos e as mulheres que não desistiram de ali encontrar os restos de maridos, irmãos e filhos desaparecidos durante o regime de Pinochet.
1. Qatsi Trilogy, de Godrey Reggio (Criterion)
2. Deep End, de Jerzy Skolimovsky (BFI Video)
3. How I Ended This Summer, de Alexei Popogrebsky (New Wave)
4. A Barreira Invisível, de Terrence Malick (CLMC)
5. Things To Come, de William Cameron Menzies (Network)
6. E.T. – O Extraterrestre, de Steven Spielberg (Zon Lusomundo)
7. Lawrence da Arábia, de David Lean (Sony Pictures)
8. Obras Primas de Alfred Hitchcock (Zon Lusomundo)
9. Os Homens Preferem as Loiras, de Howard Hawks (CLMC)
10. Nostalgia For The Light, de Patricio Guzman
DVD
O filme venceu o DocLisboa no ano passado e teve estreia comercial em sala este ano. Mas não só é um dos mais surpreendentes filmes de produção nacional mais recente e nos dá um olhar sincero e tranquilo sobre um espaço que assim descobrimos no seu ritmo próprio, como ao chegar ao DVD revelou mais que apenas o filme. Na verdade a edição de É Na Terra Não É Na Lua é um exemplo do que pode ser o valor acrescentado de um lançamento em DVD, não só pelas (bem arrumadas) duas horas de imagens extra que acrescenta num segundo disco, como pelo diário de rodagem que, na forma de livro, soma experiências ao que foi a vivência de Gonçalo Tocha e Dídio Pestana durante as suas viagens à Ilha do Corvo, afinal o objeto do seu olhar. Da restante lista destaca-se a muito oportuna caixa (a primeira de um díptico) dedicada ao cinema de Béla Tarr, que chega no ano do sublime O Cavalo de Turim, que foi na verdade o seu primeiro filme a ter estreia comercial entre nós. Importante é também o três-em-um de João Salaviza que junta num mesmo DVD três curtas (Arena, Cerro Negro e Rafa) que, juntas, definem algumas características comuns e interessante base de trabalho para o estabelecer da sua própria linguagem. Passam ainda por aqui filmes que não estrearam em sala (mas que deviam ter estreado, até mesmo com potencial de mercado) como Maria-Rapaz, um poderoso olhar sobre identidade de género por Céline Sciama, Pão Negro, mais uma incursão de Agusti Villaronga pelas memórias da guerra civil espanhola, uma narrativa sobre imigração ilegal na fronteira entre os EUA e o Canadá por Courtney Hunt ou um dos mais interessantes retratos alguma vez feitos em cinema sobre a história dos Beatles em O Rapaz de Liverpool, que recua aos dias em que Lennon vivia na casa da sua Tia Mimi. Deste ano editorial merece ainda destaque a soma de olhares de Sergei Loznitsa sobre imagens dos tempos do cerco de Leninegrado (em plena II Guerra Mundial), a recuperação de dois títulos fulcrais do cinema de Koreeda ou, finalmente, a recuperação de um clássico radical do new queer cinema assinado em 1993 por Gregg Araki
1. É Na Terra Não é Na Lua, de Gonçalo Tocha (Alambique)
2. Coleção Béla Tarr, de Béla Tarr (Midas Filmes)
3. III Filmes de João Salaviza, de João Salaviza (Midas Filmes)
4. Maria-Rapaz, de Céline Sciama (Leopardo)
5. Totalmente Lixados, de Gregg Araki (Films 4 You)
6. Pão Negro, de Augusti Villalonga (Leopardo)
7. O Cerco de Leninegrado, de Sergei Loznitsa (Alambique)
8. O Rapaz de Liverpool, de Sam Taylor Wood (Zon Lusomundo)
9. Ninguém Sabe / Andando, de Hirokazu Koreeda (Leopardo)
10. Rio Gelado, de Courtney Hunt (Zon Lusomundo)
Blu-ray
Pelo Blu-ray têm regressado à vida uma série de títulos, agradecendo o espectador as vantagens do restauro digital na era da alta definição. Editada para já apenas para zona A (ou seja, as Américas), a trilogia Qatsi, de Godfrey Reggio (que junta os filmes Koyaanisqatsi, Powaqqatsi e Naqoyqatsi) é um dos exemplos maiores do relacionamento do mundo das imagens com o da música através de três experiências de diálogo muito próximo entre o realizador e Philip Glass, o compositor. Três visões do mundo do nosso tempo (a terceira, na verdade, coisa menor) que mereciam lançamento também por território europeu... Apesar de editados no Reino Unido ainda em 2011, o clássico Deep End de Skolimovsky sobre as leis do desejo (de 1970, aqui num restauro magnífico e bem acompanhado por um booklet extenso) e How I Ended This Summer, de Popogrebsky, que encena um espantoso confronto entre gerações com cenário num posto científico no Ártico, chegaram-me às mãos já em 2012 e marcaram o meu ano de visionamentos (e por isso estão na lista). Ao nosso mercado chegaram boas edições recordando filmes de Malick, Spielberg, Hitchcock, Lean ou Hawks. Entre o melhor que o ano nos deu conta-se ainda uma edição substancialmente rica em extras de Things To Come, utopia de ficção científica de 1936 de William Cameron Menzies e o documentário de Patricio Guzman Nostalgia For The Light, que nos mostra, com o deserto do Atacama por cenário, casos distintos de procura: a dos astrónomos que buscam pistas nos céus, a dos arqueólogos que procuram vestígios de antigos trilhos andinos e as mulheres que não desistiram de ali encontrar os restos de maridos, irmãos e filhos desaparecidos durante o regime de Pinochet.
1. Qatsi Trilogy, de Godrey Reggio (Criterion)
2. Deep End, de Jerzy Skolimovsky (BFI Video)
3. How I Ended This Summer, de Alexei Popogrebsky (New Wave)
4. A Barreira Invisível, de Terrence Malick (CLMC)
5. Things To Come, de William Cameron Menzies (Network)
6. E.T. – O Extraterrestre, de Steven Spielberg (Zon Lusomundo)
7. Lawrence da Arábia, de David Lean (Sony Pictures)
8. Obras Primas de Alfred Hitchcock (Zon Lusomundo)
9. Os Homens Preferem as Loiras, de Howard Hawks (CLMC)
10. Nostalgia For The Light, de Patricio Guzman
As imagens de 2012 (10)
Há os artistas. E também os artolas... E a dona Cecilia Giménez certamente não pertence ao primeiro grupo (não significando essa exclusão que a esteja a encaixar no segundo, até porque Artolas, se bem me lembro, era o gato da minha tia Teresa). Os meses passaram, e a euforia mediática que envolveu o dito “restauro” do ‘Ecce Homo’ numa igreja em Borja já vai longe (as noticias diluem-se cada vez mais depressa no tempo, é verdade...), mas ainda há dias se soube (mas já sem o mesmo festival noticioso) que a mesma senhora foi chamada a um lugar de direção criativa numa agência de publicidade... Este caso de destruição de um bem patrimonial – que foi o que aconteceu – gerou entusiasmo mediático e dividiu opiniões, o pitoresco da coisa (como a recente contratação o parece confirmar) sobrepondo-se frequentemente a um mais sério debate sobre a arte, o verdadeiro significado de restauro e, até mesmo (e independentemente das “qualidades artísticas” daquele Ecce Homo (o original, claro), o sentido da imagem e toda a carga histórica e simbólica que representa para o cristianismo. Fosse uma obra – até mesmo uma peça menor – num museu, e era o verdadeiro Ai Jesus do vandalismo. Um grafitti numa parede branca de uma igreja ou monumento causaria (justificado) horror global. Assim, foi apenas uma velhinha “bem intencionada” que julgou que ia fazer um remendo numa pintura que tinha buraco... E tão grave quanto a sua ação foi o modo como a maioria das notícias publicadas sobre este caso focaram sobretudo o insólito e não todo um mundo maior de questões que moravam por debaixo daquelas pinceladas que transformaram uma representação de Cristo (mesmo que ensopada em clichés e despida de personalidade) num borrão de parede.
Sobre o assunto podem recordar aqui o que na altura o João disse sobre o caso.
Sobre o assunto podem recordar aqui o que na altura o João disse sobre o caso.
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Balanço do ano - 2012
Os melhores discos de 2012 (J.L.)
1. Patti Smith, Banga
2. Fiona Apple, The Idler Wheel...
3. Dan Deacon, America
4. Frank Ocean, Channel Orange
5. Bob Dylan, Tempest
6. Bruce Springsteen, Wrecking Ball
7. alt-J, An Awsome Wave
8. Spiritualized, Sweet Light, Sweet Light
9. Divine Fits, A Thing Called Divine Fits
10. Angel Haze, Reservation
Memórias contraditórias do ano musical: por um lado, tenho consciência de que não tive possibilidade de escutar na íntegra — ou com a devida atenção — alguns álbuns que continuam a despertar-me, no mínimo, uma aguda curiosidade (os Pet Shop Boys, por exemplo, ainda estão em lista de espera...); por outro lado, num rápido balanço, deparo com uma lista francamente impressionante de assinaláveis proezas musicais em que, além dos incluídos neste sempre instável top, poderia citar a experiência “antiga” de Leonard Cohen (Old Ideas), The Roots (Undun), Bobby Womack (The Bravest Man in the Universe), Jack White (Blunderbuss) ou The Walkmen (Heaven), a par da tocante frescura de alguns magníficos “novatos”, incluindo a prodigiosa Angel Haze, com direito ao top dos “grandes”. Dos outros mais ou menos estreantes, vale a pena ficar com um breve ‘Top 5’:
II. Tame Impala, Lonerism
III. Jessie Ware, Devotion
IV. Now, Now, Threads
V. THEESatisfaction, Awe Naturale
Last but not least, este foi também o ano em que saíu a maravilhosa antologia de Amy Winehouse, At the BBC. Aqui fica uma memória, tão longe, tão perto.
sexta-feira, dezembro 21, 2012
As canções de 2012: Dirty Projectors
Entre os grandes discos do ano conta-se o mais recente dos Dirty Projectors e, na lista das canções de 2012 mais ainda se destaca aquela que lhe serviu de cartão de visita. Aqui fica Gun Has No Trigger.
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Balanço do ano - 2012
Os melhores filmes de 2012 (N.G.)
Continuando a fazer o balanço de 2012 (e num blogue que gosta de listas), hoje visitamos o espaço do cinema.
Para arrumar ideias, resolvi separar este ano os filmes que vi em sala (ou seja, que tiveram estreia comercial entre nós) dos muitos outros que vi em festivais (cá e lá fora). Como novidade junto ainda uma tabela de bandas sonoras, representando todas elas casos com lançamento em disco (o que deixa de fora as belíssimas contribuições de Mihaly Vig em O Cavalo de Turim e Kylie Minogue e Neil Hannon em Holy Motors).
Estreados em sala
É linda a vida, comenta a personagem que Emmanuelle Riva numa cena de Amor, de Michael Haneke, na qual folheia um velho álbum de fotografias onde o presente confronta o passado perante um futuro que a assombra. É apenas um dos muitos instantes profundamente humanos de um filme onde o pouco faz muitos, o simples explora o complexo e o olhar depurado à essência mostra tudo e que, tendo dado ao realizador a sua segunda Palma de Ouro em Cannes, chegou às nossas salas já nas últimas semanas do ano. Fecha assim um ano onde devemos destacar num mesmo plano dos acontecimentos maiores uma outra visão do fim, meticulosamente coreografada e magnificamente fotografada (e uma vez mais contando com a preciosa contribuição da música de Mihaly Vig) naquele que deverá ter sido o derradeiro filme de Béla Tarr e ainda um olhar desencantado do panorama do ensino, do papel do professor e da escola, em O Substituto, que brilha pela realização de Tony Kaye e a interpretação de um soberbo Adrien Brody. O ano trouxe-nos ainda um ponto de vista diferente (o dos criados) sobre a revolução francesa por Benoît Jacquot, a confirmação da relação ímpar entre Jeff Nichols e Michael Shanon (com importante contribuição de Jessica Chastain) em Procurem Abrigo e novo exemplo de um saber na exploração das relações familiares por Hirokazu Koreeda. O lugar e o tempo, como moldura para uma história na Anatólia pelo olhar de Ceylan, a desafiante composição de jogos de máscaras (e cinefilia) de Léos Carax em Holy Motors, o incompreendido e tão injustamente sovado olhar coletivo (centrado numa vivência pessoal) do 11 de setembro segundo Daldry e a Rússia do nosso tempo em mais um espantoso filme de Zvyaginstsev completam um quadro de dez escolhas que, fosse alargado (mas um top 10 é um top 10) poderia abarcar filmes como Deste Lado da Ressurreição de Joaquim Sapinho e o mais belo filme de Oliveira nos últimos anos (O Gebo e a Sombra) e o internacionalmente muito elogiado Tabu de Miguel Gomes, assim como experiências recentes de Steven Soderbergh, Steve McQueen, Steven Chobovsky (e é raro um escritor tratar tão bem do seu próprio livro como vimos em As Vantagens de Ser Invisível, o filme mais ignorado este ano pela imprensa portuguesa), o regresso de Tim Burton ao seu melhor (em Frankenweenie) ou o documentário sobre o último concerto dos LCD Soundsytem. Note-se ainda que, com Sam Mendes, 007 teve em Skyfall um dos seus melhores filmes de sempre. Já em O Hobbit, Peter Jackson tropeçou como nenhum momento da trilogia O Senhor dos Anéis poderia ter imaginado...
PS. O filme É Na Terra Não É Na Lua, de Gonçalo Tocha, integrou a minha lista de 2011, pelo que não se repete nesta, apesar de ter sido uma das melhores estreias do ano.
1. Amor, de Michael Haneke
2. O Cavalo de Turim, de Béla Tarr
3. O Substituto, de Tony Kaye
4. Adeus, Minha Rainha, de Benoît Jacquot
5. Procurem Abrigo, de Jeff Nichols
6. O Meu Maior Desejo, de Hirokazu Koreeda
7. Era Uma Vez Na Anatólia, de Nuri Bilge Ceylan
8. Holy Motors, de Léos Carax
9. Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de Stephen Daldry
10. Elena, de Andrei Zvyaginstsev
Estreados entre festivais
Vale-nos a cada vez mais bem recheada oferta de festivais para ver o que não chega às salas em sessões comerciais. O melhor que o ano nos deu nesse departamento chegou na noite de abertura do DocLisboa e, como outros títulos deste lista (mas poucos...), chegará a salas em 2013. Trata-se de A Última Vez Que Vi Macau, filme co-assinado por João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, uma das duplas mais ativas do ano (o primeiro tendo ainda estreado as curtas Manhã de Santo António e O Corpo de Afonso, o segundo O Que Arde Cura, filme sobre o qual, por nele ter colaborado, naturalmente me abstenho de me pronunciar em público). Partindo de um projeto de documentário, A Última Vez Que Vi Macau mostra-nos como são ténues as fronteiras que o podem separar da ficção, bastando que o olhar nos conduza e, nele, faça nascer uma narrativa. Uma experiência única e arrebatadora, terá estreia nacional (e noutros mercados) em inícios do novo ano. Da colheita festivaleira destaco ainda o épico pop de Xavier Dolan em Lawrence Anyways, um dos mais interessantes olhares que o cinema alguma vez deu a uma personagem transgénero, magnificamente interpretada por Melvil Poupaud. A estes títulos somam-se experiências inesquecíveis como Keep The Lights On de Ira Sachs, vencedor do Queer Lisboa 16 e parte do top 10 do ano nos Cahiers du Cinema, o filme de Mathew Akers sobre a exposição de Marina Abramovic no MoMA, um olhar sobre a morte a história de um condenado, visto por Herzog ou uma visão (partilhada inclusivamente pela participação de um dos realizadores) de uma escola de dança na Índia. E juntem-se quatro ficções que não caberiam nada mal num programa de estreias, do retrato da culpa no confronto entre as aparências e vida sexual paralela de um sul africano em Beauty, uma história sobre os efeitos do bullying em Despues de Lucia, um espantoso jogo narrativo construído em torno da escrita em Dans La Maison ou a história de um homem que, quase de três décadas depois, não se libertou da vivência hedonista dos seus anos 80, em Avalon (sim, o título da canção dos Roxy Music).
1. A Última Vez Que Vi Macau, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata
2. Lawrence Anyways, de Xavier Dolan
3. Keep The Lights On, de Ira Sachs
4. Marina Abramovic - The Artist is Present, de Mathew Akers
5. Into The Abyss, de Werner Herzog
6. La table Aux Chiens, de Cédric Martinelli e Julien Touati
7. Despues de Lucia, de Michel Franco
8. Beauty, de Oliver Hermanus
9. Dans La Maison, de François Ozon
10. Avalon, de Axek Pétersen
Bandas sonoras
Ao ser convidado a assinar, mensalmente, um espaço sobre bandas sonoras na revista Metropolis, estive mais atento que em muitos anos a este importante espaço discográfico profundamente ligado ao cinema. A lista que apresento é um top 10 dos melhores discos com música para cinema, não uma tabela da melhor música que o cinema viveu em 2012 (que nem todas as bandas sonoras foram editadas). A mais interessante das bandas sonoras do ano serviu em pleno as imagens e as personagens de Vergonha, de Steve McQueen, com particular brilho não apenas nas composições originais de Harry Escort, mas nos complementos escolhidos entre gravações de John Coltrane, Glenn Golud, Chic, Blondie ou Tom Tom Club. Igualmente soberba é a coleção de canções de Arthur Russell com que Ira Sachs valoriza os espaços de Keep The Lights On (sublinhando a identidade nova iorquina das vivências que retrata). E merece ainda nota maior a colaboração entre Howard Shore e os Metric na composição da música para o mais recente filme de David Cronenberg. Composições de Michael Brook, Alexandre Desplat, Nick Urata, Danny Elfman e David Wingo e uma invulgar colaboração entre um pianista e um cineasta, como vemos em Amor, de Haneke, que conta com uma contribuição de Alexadre Tharaud que não se limita ao plano do áudio completam uma lista de dez momentos que, depois de vistos no ecrã, podemos continuar a ouvir.
1. Shame, de Hary Escott + outros (Sony)
2. Keep The Lights On, de Arthur Russell (Audika Records)
3. Cosmopolis, de Howard Shore + Metric (Howe Records)
4. The Perks Of Being a Wallflower, de Michael Brook (Lions Gate Records)
5. Amour, de Alexandre Tharaud (EMI)
6. Moonrise Kingdom, de Alexandre Desplat + outros (Commercial Marketing)
7. Ruby Sparks, de Nick Urata (Milan)
8. Frankenweenie, de Danny Elfman (EMI Catalogue)
9. Extremly Loud And Incredibly Close, de Alexandre Desplat (Water Tower Music)
10. Take Shelter, de David Wingo (Grove Hill)
Para arrumar ideias, resolvi separar este ano os filmes que vi em sala (ou seja, que tiveram estreia comercial entre nós) dos muitos outros que vi em festivais (cá e lá fora). Como novidade junto ainda uma tabela de bandas sonoras, representando todas elas casos com lançamento em disco (o que deixa de fora as belíssimas contribuições de Mihaly Vig em O Cavalo de Turim e Kylie Minogue e Neil Hannon em Holy Motors).
Estreados em sala
É linda a vida, comenta a personagem que Emmanuelle Riva numa cena de Amor, de Michael Haneke, na qual folheia um velho álbum de fotografias onde o presente confronta o passado perante um futuro que a assombra. É apenas um dos muitos instantes profundamente humanos de um filme onde o pouco faz muitos, o simples explora o complexo e o olhar depurado à essência mostra tudo e que, tendo dado ao realizador a sua segunda Palma de Ouro em Cannes, chegou às nossas salas já nas últimas semanas do ano. Fecha assim um ano onde devemos destacar num mesmo plano dos acontecimentos maiores uma outra visão do fim, meticulosamente coreografada e magnificamente fotografada (e uma vez mais contando com a preciosa contribuição da música de Mihaly Vig) naquele que deverá ter sido o derradeiro filme de Béla Tarr e ainda um olhar desencantado do panorama do ensino, do papel do professor e da escola, em O Substituto, que brilha pela realização de Tony Kaye e a interpretação de um soberbo Adrien Brody. O ano trouxe-nos ainda um ponto de vista diferente (o dos criados) sobre a revolução francesa por Benoît Jacquot, a confirmação da relação ímpar entre Jeff Nichols e Michael Shanon (com importante contribuição de Jessica Chastain) em Procurem Abrigo e novo exemplo de um saber na exploração das relações familiares por Hirokazu Koreeda. O lugar e o tempo, como moldura para uma história na Anatólia pelo olhar de Ceylan, a desafiante composição de jogos de máscaras (e cinefilia) de Léos Carax em Holy Motors, o incompreendido e tão injustamente sovado olhar coletivo (centrado numa vivência pessoal) do 11 de setembro segundo Daldry e a Rússia do nosso tempo em mais um espantoso filme de Zvyaginstsev completam um quadro de dez escolhas que, fosse alargado (mas um top 10 é um top 10) poderia abarcar filmes como Deste Lado da Ressurreição de Joaquim Sapinho e o mais belo filme de Oliveira nos últimos anos (O Gebo e a Sombra) e o internacionalmente muito elogiado Tabu de Miguel Gomes, assim como experiências recentes de Steven Soderbergh, Steve McQueen, Steven Chobovsky (e é raro um escritor tratar tão bem do seu próprio livro como vimos em As Vantagens de Ser Invisível, o filme mais ignorado este ano pela imprensa portuguesa), o regresso de Tim Burton ao seu melhor (em Frankenweenie) ou o documentário sobre o último concerto dos LCD Soundsytem. Note-se ainda que, com Sam Mendes, 007 teve em Skyfall um dos seus melhores filmes de sempre. Já em O Hobbit, Peter Jackson tropeçou como nenhum momento da trilogia O Senhor dos Anéis poderia ter imaginado...
PS. O filme É Na Terra Não É Na Lua, de Gonçalo Tocha, integrou a minha lista de 2011, pelo que não se repete nesta, apesar de ter sido uma das melhores estreias do ano.
1. Amor, de Michael Haneke
2. O Cavalo de Turim, de Béla Tarr
3. O Substituto, de Tony Kaye
4. Adeus, Minha Rainha, de Benoît Jacquot
5. Procurem Abrigo, de Jeff Nichols
6. O Meu Maior Desejo, de Hirokazu Koreeda
7. Era Uma Vez Na Anatólia, de Nuri Bilge Ceylan
8. Holy Motors, de Léos Carax
9. Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de Stephen Daldry
10. Elena, de Andrei Zvyaginstsev
Estreados entre festivais
Vale-nos a cada vez mais bem recheada oferta de festivais para ver o que não chega às salas em sessões comerciais. O melhor que o ano nos deu nesse departamento chegou na noite de abertura do DocLisboa e, como outros títulos deste lista (mas poucos...), chegará a salas em 2013. Trata-se de A Última Vez Que Vi Macau, filme co-assinado por João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, uma das duplas mais ativas do ano (o primeiro tendo ainda estreado as curtas Manhã de Santo António e O Corpo de Afonso, o segundo O Que Arde Cura, filme sobre o qual, por nele ter colaborado, naturalmente me abstenho de me pronunciar em público). Partindo de um projeto de documentário, A Última Vez Que Vi Macau mostra-nos como são ténues as fronteiras que o podem separar da ficção, bastando que o olhar nos conduza e, nele, faça nascer uma narrativa. Uma experiência única e arrebatadora, terá estreia nacional (e noutros mercados) em inícios do novo ano. Da colheita festivaleira destaco ainda o épico pop de Xavier Dolan em Lawrence Anyways, um dos mais interessantes olhares que o cinema alguma vez deu a uma personagem transgénero, magnificamente interpretada por Melvil Poupaud. A estes títulos somam-se experiências inesquecíveis como Keep The Lights On de Ira Sachs, vencedor do Queer Lisboa 16 e parte do top 10 do ano nos Cahiers du Cinema, o filme de Mathew Akers sobre a exposição de Marina Abramovic no MoMA, um olhar sobre a morte a história de um condenado, visto por Herzog ou uma visão (partilhada inclusivamente pela participação de um dos realizadores) de uma escola de dança na Índia. E juntem-se quatro ficções que não caberiam nada mal num programa de estreias, do retrato da culpa no confronto entre as aparências e vida sexual paralela de um sul africano em Beauty, uma história sobre os efeitos do bullying em Despues de Lucia, um espantoso jogo narrativo construído em torno da escrita em Dans La Maison ou a história de um homem que, quase de três décadas depois, não se libertou da vivência hedonista dos seus anos 80, em Avalon (sim, o título da canção dos Roxy Music).
1. A Última Vez Que Vi Macau, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata
2. Lawrence Anyways, de Xavier Dolan
3. Keep The Lights On, de Ira Sachs
4. Marina Abramovic - The Artist is Present, de Mathew Akers
5. Into The Abyss, de Werner Herzog
6. La table Aux Chiens, de Cédric Martinelli e Julien Touati
7. Despues de Lucia, de Michel Franco
8. Beauty, de Oliver Hermanus
9. Dans La Maison, de François Ozon
10. Avalon, de Axek Pétersen
Bandas sonoras
Ao ser convidado a assinar, mensalmente, um espaço sobre bandas sonoras na revista Metropolis, estive mais atento que em muitos anos a este importante espaço discográfico profundamente ligado ao cinema. A lista que apresento é um top 10 dos melhores discos com música para cinema, não uma tabela da melhor música que o cinema viveu em 2012 (que nem todas as bandas sonoras foram editadas). A mais interessante das bandas sonoras do ano serviu em pleno as imagens e as personagens de Vergonha, de Steve McQueen, com particular brilho não apenas nas composições originais de Harry Escort, mas nos complementos escolhidos entre gravações de John Coltrane, Glenn Golud, Chic, Blondie ou Tom Tom Club. Igualmente soberba é a coleção de canções de Arthur Russell com que Ira Sachs valoriza os espaços de Keep The Lights On (sublinhando a identidade nova iorquina das vivências que retrata). E merece ainda nota maior a colaboração entre Howard Shore e os Metric na composição da música para o mais recente filme de David Cronenberg. Composições de Michael Brook, Alexandre Desplat, Nick Urata, Danny Elfman e David Wingo e uma invulgar colaboração entre um pianista e um cineasta, como vemos em Amor, de Haneke, que conta com uma contribuição de Alexadre Tharaud que não se limita ao plano do áudio completam uma lista de dez momentos que, depois de vistos no ecrã, podemos continuar a ouvir.
1. Shame, de Hary Escott + outros (Sony)
2. Keep The Lights On, de Arthur Russell (Audika Records)
3. Cosmopolis, de Howard Shore + Metric (Howe Records)
4. The Perks Of Being a Wallflower, de Michael Brook (Lions Gate Records)
5. Amour, de Alexandre Tharaud (EMI)
6. Moonrise Kingdom, de Alexandre Desplat + outros (Commercial Marketing)
7. Ruby Sparks, de Nick Urata (Milan)
8. Frankenweenie, de Danny Elfman (EMI Catalogue)
9. Extremly Loud And Incredibly Close, de Alexandre Desplat (Water Tower Music)
10. Take Shelter, de David Wingo (Grove Hill)
Figuras de 2012: Psy
Não encarar o sul-coreano Psy como uma das figuras de 2012 é o mesmo que aquela ideia de termos um elefante na sala e fingirmos que não o estamos a ver. Independentemente do(s) valores(s) do seu Gangnam Style (embora convenhamos que até o Nyan Cat é “artisticamente” mais estimulante), é um facto a inédita tamanha expressão global de uma voz asiática. É claro que depois temos de acrescentar ao fenómeno a carga viral que tomou, bem como a assimilação mainstream que se lhe seguiu, atingindo mesmo nomes como os de Madonna ou Noam Chomsky. Agora, contudo, há que pensar que há sempre um depois. E em casos semelhantes (mas sem esta dimensão colossal de visualizações na Internet, porque o mundo era então diferente) como os de uns Los del Rio ou Ozone, a verdade é que depois de, respetivamente, as suas Macarena e Dragostea din tei (aquela coisa insuportável do “nhumánhumánhei”) o que surgiu para ambos foi o silêncio... Há, por isso, tradições que convém respeitar...
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