Até que ponto o free jazz é, ou pode ser, free? Podemos responder evocando Ascension, álbum fulcral de John Coltrane em que, abraçando as liberdades da improvisação, o saxofonista de Blue Train (1958) e A Love Supreme (1965) reforçava a lógica de uma etapa criativa para lá da formação clássica do quarteto — entre
os convidados estão Freddie Hubbard (trompete), Pharoah Sanders (saxofone tenor)
e McCoy Tyner (piano).
O álbum teve duas "versões" — 'Edition I' (aqui em baixo) e 'Edition II' — que existem numa edição conjunta, datada de 2000, com chancela da Impulse!. As gravações ocorreram a 28 de junho de 1965, tendo Ascension sido lançado em fevereiro de 1966 — 60 anos depois, o tempo imobilizou-se na vertigem do seu próprio futuro.
Eis a matéria de que se faz a história — ou refaz. A Love Supreme, de John Coltrane, um dos objectos incontornáveis do património jazzístico, surgiu nas lojas em janeiro de 1965. Cerca de nove meses mais tarde, a 2 de outubro, o saxofonista reunia o seu ensemble em Seattle, no Penthouse Club, para uma performance do álbum que foi registada pelo músico e professor Joe Brazil (que viria a participar, como flautista, noutro álbum de Coltrane, Om, lançado postumamente em 1968). A gravação permaneceu inédita até ao ano da graça de 2021...
Ainda e sempre com chancela Impulse, perante A Love Supreme / Live in Seattle dir-se-ia que revemos o futuro do jazz refeito em exercício presente de revisitação do passado — aqui fica a primeira parte, Acknowledgement; em baixo, o mesmo tema tal como surge no álbum original.
>>> Sobre A Love Supreme — programa 'Jazz United', rádio WBGO (Newark, New Jersey).
Noblesse oblige... Em 1960, ao partir para a sua digressão europeia, o quinteto de Miles Davis era um colectivo que a história viria a consagrar, não apenas como fenómeno artístico, mas também entidade mitológica: Miles coabitava com John Coltrane (saxofone), Wynton Kelly (piano), Paul Chambers (contrabaixo) e Jimmy Cobb (bateria). O certo é que, rezam as crónicas, era também um grupo em irreversível processo de desagregação. Dito de forma necessariamente esquemática, o génio de Miles ia por caminhos que o génio de Coltrane não estava disposto a seguir. E vice-versa: o primeiro lançara Kind of Blue no ano anterior, o segundo Soultrane em 1958. Daí que estes cinco concertos — dois em Paris, um em Copenhaga, dois em Estocolmo — estejam pontuados por capítulos de evidentes dissonâncias, por assim dizer entre a aritmética intimista do trompete e a vertigem galáctica do saxofone. Pois bem, tal conflito ficou como um dos mais belos capítulos da história do jazz, com todos os músicos (ouçam-se, por exemplo, as sofisticadas deambulações de Kelly) a desafiarem os seus próprios limites técnicos e criativos, expondo às suas atónitas audiências a beleza de uma liberdade tão material quanto espiritual. Depois do também fundamental Freedom Jazz Dance, editado em 2016, com o "outro" quinteto de Miles (Wayne Shorter, Herbie Hancock, etc.), este é o prodigioso Vol. 6 da série de "bootlegs" do trompetista — eis o som de So What (tema de abertura de Kind of Blue), registado no segundo concerto da noite de 22 de Março de 1960, no Konserthuset, de Estocolmo.
Se for necessário citar um álbum, um só, da discografia de John Coltrane (1926-1967) ao longo da década de 60, a escolha tem qualquer coisa de compulsivo: A Love Supreme (1965) é, de uma só vez, a cristalização perfeita do bop ou hard bop e uma afirmação radical de uma lógica de experimentação e improviso inseparável de uma inigualável pureza poética (enfim, não simplifiquemos: Kind of Blue, de Miles Davis, é de 1959...). Mas não são os tops ou as classificações o mais importante. O que, realmente, importa não esquecer é que a década de 60 foi, para Coltrane, então ligado à etiqueta Impulse!, um período de fascinante criação e reinvenção, desafiando sempre os seus próprios limites.
Pois bem, este Verão de 2018 essa história adquiriu um novo e esplendoroso capítulo com a edição de um conjunto de inéditos cujo reunião em álbum ficou, na altura, adiada [ler, a esse propósito, a contextualização de Giovanni Russonello no New York Times]: Both Directions at Once: The Lost Album é o fascinante registo de uma única sessão, no dia 6 de Março de 1963, com Coltrane acompanhado pelos fiéis McCoy Tyner (piano), Jimmy Garrison (contrabaixo) e Elvin Jones (bateria), os mesmos de A Love Supreme — em boa verdade, este é o quarteto que encontramos noutros registos fundamentais, da mesma época, como Ballads (1963), John Coltrane and Johnny Hartman (1963), Live at Birdland (1964) e Crescent (1964).
Como refere Hank Shteamer, encontramos aqui matéria preciosa para compreendermos como Coltrane pensava a sua própria evolução [Rolling Stone]. Enfim, dir-se-ia que, mesmo através da sua incompletude, Both Directions at Once é um testemunho exemplar dessa capacidade de ir por um caminho e... experimentar outro, até porque podemos escutar várias, e bem diferentes, takes de alguns dos temas — eis duas faixas do álbum: Untitled Original 11383 (Take 1) e Slow Blues; em baixo, recordamos Psalm, de A Love Supreme.