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domingo, janeiro 28, 2018

10 FILMES DE 2017 [10]
— Raoul Peck


[ Kathryn Bigelow ]  [ Martin Scorsese ]  [ Pablo Larraín ]  [ Andrei Konchalovsky ]  [ Stéphane Brizé ]
[ Terrence Malick ]  [ André Téchiné ]  [ Woody Allen ]  [ Richard Linklater ]

A presença regular de documentários no mercado de exibição é um factor cultural cuja importância nem sempre é devidamente sublinhada. Para além dos temas específicos de cada título, trata-se de manter em aberto a possibilidade cinematográfica de contrariar a aceleração televisiva, pensando para além da colagem mais ou menos mecânica de fragmentos & soundbytes. O exemplo de Eu Não Sou o Teu Negro, de Raoul Peck, é tanto mais extraordinário quanto a evocação do escritor James Baldwin (1924-1987) se faz, não apenas, nem sobretudo, das matérias visuais de arquivo (todas fascinantes, não é isso que está em causa), mas da intensidade irredutível das palavras. Mais concretamente, trata-se de evocar o modo como Baldwin abordou três líderes afro-americanos — Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King Jr. —, todos assassinados na década de 60, no espaço de cinco anos. Lidas pelo actor Samuel L. Jackson, as palavras do escritor evocam um tempo de grandes convulsões, ao mesmo tempo que instalam uma aproximação dialéctica da América que tem um líder chamado Donald Trump — o cinema do passado é sempre uma narrativa do presente.

sábado, janeiro 27, 2018

10 DISCOS DE 2017 [10]
— Radiohead

[ Arca ]  [ Tricky ]  [ Lorde ]  [ The Rolling Stones ]  [ Thelonious Monk ]  [ St. Vincent ]  [ Robert Plant ]
[ Ambrose Akinmusire ]  [ Sampha ]

Nova embalagem, retomando o essencial dos elementos gráficos do original; remasterização, singles, três canções inéditas; um toque de azul na edição em vinyl... A edição comemorativa dos 20 anos de OK Computer, dos Radiohead — título integral: OK Computer OKNOTOK 1997 2017 — impôs-se como objecto de incontornável valor histórico, tanto mais quanto parece ilustrar uma certa deslocação do próprio mercado das edições físicas (bizarra terminologia que o virtual nos impôs) no sentido de revalorizar tudo aquilo que, de uma maneira ou de outra, possa ser recoberto pelo adjectivo "clássico". Talvez haja uma outra maneira de dizer isto. A saber: apesar da aceleração em que esse mercado nos obriga a viver (e não só na música, como é óbvio), continua a ser possível manter uma relação aberta, criativa e inteligente com a memória. Que foi, que é, então, OK Computer? Um trabalho que condensa os caminhos criativos da música dos 20 anos anteriores? Ou uma experiência que antecipa os 20 anos seguintes? Em boa verdade, 2017 foi também o ano dessa maravilhosa ambivalência, porventura impossível de sintetizar. A propósito: por altura da edição original, os Radiohead cantavam assim No Surprises no programa Later with Jools Holland, da BBC — foi a 31 de Maio de 1997.

segunda-feira, janeiro 22, 2018

10 FILMES DE 2017 [9]
— Richard Linklater


[ Kathryn Bigelow ]  [ Martin Scorsese ]  [ Pablo Larraín ]  [ Andrei Konchalovsky ]  [ Stéphane Brizé ]
[ Terrence Malick ]  [ André Téchiné ]  [ Woody Allen ]

A noção de tempo, mais do que isso, o gosto da duração são valores menosprezados por muito cinema contemporâneo, confundindo a fragmentação caótica das imagens com a produção de uma narrativa. Não admira, por isso, que Derradeira Viagem, de Richard Linklater, tenha sido um dos filmes menos vistos, realmente vistos, ao longo do ano. Acontece que a história do veterano do Vietname que convoca dois companheiros para cumprir os rituais fúnebres do filho, morto em combate no Iraque, é uma viagem empreendida em nome dessa ambivalência do tempo que nos faz, ou pode fazer, habitar presente e passado como duas variantes de um mesmo mistério — o de, apesar de tudo, sobrevivermos. Filme amargo, sem dúvida, estranho ao quotidiano "trágico" das televisões em que não é possível formular qualquer ideia sobre a crueza do tempo. Filme de esperança, também, sentimento selvagem no imaginário de Trump em que alguma América se asfixia. Com três actores em estado de graça: Steve Carrell, Bryan Cranston e Laurence Fishburne.

10 DISCOS DE 2017 [9]
— Sampha

SBTRKT, Jessie Ware, Kanye West e Solange são alguns dos artistas que já beneficiaram da colaboração de Sampha (nome completo: Sampha Lahai Sisay, nascido em Londres em 1988). Dir-se-á que a sua estreia a solo, com o álbum Process, reflecte as suas qualidades de produtor, especialmente aplicado na construção de uma sonoridade cristalina, tecnicamente impecável. Assim é, sem dúvida, mas seria precipitado reduzir a performance de Sampha a uma exibição de competências. Na verdade, através de caminhos enraizados no património do R&B, com calculadas contaminações electrónicas, Process é produto de uma voz singular, não apenas no sentido vocal (passe a redundância), mas também enquanto sofisticado instrumento narrativo e dramático. (No One Knows Me) Like The Piano ficou como tema emblemático desses poderes, mas o álbum está longe de ser uma mera acumulação de canções em torno de um hit seguro — veja-se e escute-se esta interpretação de Timmy's Prayer, numa edição das Piano Sessions na BBC Radio 1.

sábado, janeiro 13, 2018

10 FILMES DE 2017 [8]
— Woody Allen


[ Kathryn Bigelow ]  [ Martin Scorsese ]  [ Pablo Larraín ]  [ Andrei Konchalovsky ]  [ Stéphane Brizé ]
[ Terrence Malick ]  [ André Téchiné ]

Escrever crítica de cinema nada tem a ver com dons de profecia... A afirmação é banal, mas adquire uma inquietante relevância neste contexto moralmente agitado de 2017/2018. Porquê? Porque, apesar de tudo, nos deixa uma interrogação perturbante: quantos anos, porventura décadas, serão necessários para que Roda Gigante, de Woody Allen, seja olhado, pelo menos, como um dos trabalhos mais ambiciosos, e também mais complexos, de toda a sua filmografia? Ou ainda, de modo mais rudimentar: quanto tempo passará até que o trabalho de imagem de Vittorio Storaro seja reconhecido como uma das proezas absolutas na direcção fotográfica nas primeiras décadas do século XXI? Futuros à parte, lembremos que Woody Allen arrisca aqui, mais do que nunca, na sua relação com a herança (teatral e cinematográfica) de Tennessee Williams. A saga do casal interpretado por Kate Winslet e Jim Belushi, no cenário festivo de Coney Island na década de 1950, evolui assombrada por esse erotismo difuso que as palavras transportam como armas letais ao serviço da verdade humana. Estamos, afinal, perante um conto moral sobre os dolorosos sobressaltos de qualquer romantismo — quanto à performance de Winslet, quase ninguém fala dela, mas haverá dezenas de actrizes que já ganharam Oscars por infinitamente menos.

10 DISCOS DE 2017 [8]
— Ambrose Akinmusire

[ Arca ]  [ Tricky ]  [ Lorde ]  [ The Rolling Stones ]  [ Thelonious Monk ]  [ St. Vincent ]  [ Robert Plant ]

Herdeiro de Miles Davis?... Mas qual é o trompetista de jazz que não é herdeiro de Miles Davis? Apetece dizer que, se não é, talvez não seja trompetista de jazz... Nascido em 1982, o californiano Ambrose Akinmusire conhece as suas raízes, sem que isso o impeça de experimentar as derivações mais "vanguardistas" — escutámo-lo, por exemplo, numa faixa do álbum To Pimp a Butterfly (2015), de Kendrick Lamar. Na sua trajectória pessoal, o álbum The Imagined Savior Is Far Easier to Paint (2014) tinha ficado como um depurado monumento de serena introspecção. E não se pode dizer que este registo ao vivo num lugar mítico de Nova Iorque — A Rift in Decorum: Live at the Village Vanguard — seja o desmentido de tal postura. Será mesmo uma intensificação dos seus dispositivos, agora com um acompanhamento ainda mais "abreviado": Akinmusire dispensou, desta vez, a presença de Walter Smith III (saxofone), conservando Sam Harris (piano), Harish Raghavan (contrabaixo) e Justin Brown (bateria) para uma elaborada deambulação tecida de dores e alegrias primordias, exemplarmente condensada nessa faixa de uma dezena de minutos que ostenta o belo título Moment in Between the Rest (To Curve an Ache) — para ouvir aqui.

quinta-feira, janeiro 11, 2018

10 FILMES DE 2017 [7]
— André Téchiné


[ Kathryn Bigelow ]  [ Martin Scorsese ]  [ Pablo Larraín ]  [ Andrei Konchalovsky ]  [ Stéphane Brizé ]
[ Terrence Malick ]

Odisseia amorosa de dois rapazes — magnificamente interpretados por Kacey Mottet Klein e Corentin Fila —, Quando se Tem 17 anos constitui mais um capítulo fundamental na grande obra romanesca de André Téchiné. A sua lei central é visceralmente contraditória: a pulsão amorosa, passível de ser descrita como um movimento de fusão com o outro, existe também como processo de afastamento desse mesmo outro, como se fosse insustentável (nele ou nela) reconhecer a verdade mais indizível do nosso desejo. O trabalho de Téchiné afigura-se tanto mais intenso quanto nada disso exclui, bem pelo contrário, a integração de componentes da vida quotidiana que conferem ao seu universo a dimensão essencial de cinema social — não sendo a herança de Jean Renoir alheia a tal dinâmica. Infelizmente, o mercado português tem falhado alguns dos seus filmes, incluindo Les Témoins (2007) e La Fille du RER (2009). Quando se Tem 17 Anos também não conseguiu vencer a passividade e os preconceitos desse mesmo mercado, nem sempre empenhado em defender a diferença de criadores como Téchiné — em qualquer caso, quem quis (ou quiser) descobri-lo saberá orientar-se.

quinta-feira, janeiro 04, 2018

10 DISCOS DE 2017 [7]
— Robert Plant

[ Arca ]  [ Tricky ]  [ Lorde ]  [ The Rolling Stones ]  [ Thelonious Monk ]  [ St. Vincent ]

Ei-lo a caminho dos 70 anos (a festejar no dia 20 de Agosto de 2018), mas sem nunca rentabilizar o trunfo da idade como matéria de uma nostalgia mais ou menos complacente: para sempre inscrito na história da música popular como voz e poeta das canções dos Led Zeppelin, Robert Plant prossegue a sua carreira a solo através de uma impecável fidelidade às raízes que sempre definiram a sua postura moral e musical. Carry Fire, 11º álbum de estúdio da sua discografia, retoma a companhia dos Sensational Space Shifters (já presentes no anterior, lullaby and… The Ceaseless Roar, lançado em 2014) para propor uma colecção de canções filiadas num frondoso património em que rock, blues e folk se apresentam num jogo de permanente deslocação das suas fronteiras. Tudo devidamente recriado pela dramática serenidade da voz de Plant. Exemplo modelar: Bones of Saints, provavelmente o mais belo lyric video de 2017.

sábado, dezembro 30, 2017

10 FILMES DE 2017 [6]
— Terrence Malick


[ Kathryn Bigelow ]  [ Martin Scorsese ]  [ Pablo Larraín ]  [ Andrei Konchalovsky ]  [ Stéphane Brizé ]

Estranho processo de discriminação de Terrence Malick. Ninguém espera, como é óbvio, que a sua obra seja tratada como se fosse um objecto de transcendental veneração. O certo é que, depois da consagração quase universal de A Árvore da Vida (2011), é, no mínimo, desconcertante que não se reconheça que os seus títulos seguintes são, afinal, descendentes directos desse filme seminal — em boa verdade, poderiam (ou podem) existir como sucessivos capítulos das forças anímicas e dos princípios narrativos colocados em movimento através A Árvore da Vida. No caso de Música a Música, Malick filma um trio em estado de graça — Michael Fassbender, Rooney Mara e Ryan Gosling — nos cenários do South by Southwest, festival anual da cidade de Austin, no Texas, habitando uma deriva afectiva que, em última análise, compromete a verdade intrínseca de cada identidade. Poucos, como Malick, levaram tão longe a consolidação de uma linguagem do fragmento e do acontecimento efémero sem descolar das matrizes clássicas do melodrama. Como se as relações humanas fossem um sobressalto vivido "canção a canção" — é esse, aliás, o título original: Song to Song.

10 DISCOS DE 2017 [6]
— St. Vincent

[ Arca ]  [ Tricky ]  [ Lorde ]  [ The Rolling Stones ]  [ Thelonious Monk ]

A americana Annie Clark é um dos mais belos enigmas da pop contemporânea. Enfim, por alguma razão ela adoptou o nome artístico de St. Vincent, avisando-nos que por tudo o que faz perpassa uma assumida teatralidade. De tal modo que, ao quinto álbum de originais, Masseduction, somos tentados a descrever as suas luminosas propostas através de um inusitado cruzamento: por um lado, nunca a sua sonoridade terá sido tão genuinamente pop, integrando influências que oscilam entre Jimi Hendrix e os Talking Heads (recorde-se que, em 2012, gravou o álbum Love This Giant com David Byrne); por outro lado, a sua versatilidade poética, associada à misteriosa transparência da sua voz, vai-lhe emprestando a dimensão de uma cantora lírica que, felizmente para nós, nasceu na época errada. Assim é Masseduction, uma colecção de treze pérolas musicais, entre a crueza do comentário social e a vibração do mais delicado intimismo. Ei-la, na rádio pública WFUV (Nova Iorque), a interpretar Slow Disco, por certo uma das grandes canções de 2017 — Slip my hand from your hand / Leave you dancin' with a ghost.

quarta-feira, dezembro 27, 2017

10 FILMES DE 2017 [5]
— Stéphane Brizé


[ Kathryn Bigelow ]  [ Martin Scorsese ]  [ Pablo Larraín ]  [ Andrei Konchalovsky ]

A ideia de que há um cinema "literário" (positiva para uns, negativa para outros) é uma pobre ideia. De facto, a literatura — e, em particular, o romance — não é um bálsamo, mas também não é uma maldição, para uma qualquer narrativa cinematográfica. Tudo depende da relação que tal narrativa estabelece com o material literário. Stéphane Brizé é um talentoso discípulo de Max Ophüls. No caso de A Vida de uma Mulher, adaptado de Une Vie, de Guy de Maupassant (autor querido de Ophüls), trata-se de colher no romance essa tensão que se estabelece entre as forças sociais dominantes, predominantemente masculinas, e o destino singular de uma mulher, a vulnerável e sublime Jeanne Le Perthuis des Vauds, interpretada por Judith Chemla, actriz de excepção no actual panorama europeu. Apaixonado pela pulsação realista (lembremos o seu título anterior, A Lei do Mercado), Brizé encena Jeanne como personagem ameaçada, mas obstinadamente livre, de um espaço que não lhe reconhece uma verdadeira identidade — dir-se-ia uma reportagem sobre os detalhes do quotidiano, tão delicada e sensível, que nos põe em contacto com o invisível das relações humanas.

10 DISCOS DE 2017 [5]
— Thelonious Monk

[ Arca ]  [ Tricky ]  [ Lorde ]  [ The Rolling Stones ]

A história do jazz cruza-se frequentemente com a história do cinema. E há, por assim dizer, um capítulo francês, mais ou menos ligado à Nova Vaga, que tem na banda sonora de Miles Davis para Ascenseur pour l'Échafaud/Fim de Semana no Ascensor (1958), de Louis Malle, o seu símbolo mais universal. A tal capítulo pertencem os registos do pianista Thelonious Monk para a adaptação/modernização do clássico de Chordelos de Laclos, As Ligações Perigosas, assinada por Roger Vadim em 1960 — Jeanne Moreau, Gérard Philipe, Annette Stroyberg e Jean-Louis Trintignant eram os nomes centrais do elenco. Na prática, tais registos permaneceram mais de meio século apenas no filme, já que não existiam disponíveis as bobines originais. Acidentalmente (re)descobertas em 2014, foram este ano editadas num álbum duplo, Les Liaisons Dangereuses 1960, uma verdadeira preciosidade musical e cinéfila (o segundo CD inclui diversos materiais alternativos, concluindo com uma take de mais de 14 minutos em que escutamos a fascinante gestação do tema Light Blue). Além do mais, esta foi uma das mais importantes edições simbolicamente ligadas à passagem do centenário de Monk, nascido em 1917 (faleceu em 1982, contava 64 anos). Por razões de saúde, e também devido a problemas legais, Monk não teve condições práticas para produzir uma banda sonora original, pelo que As Ligações Perigosas integra diversas composições pré-existentes de Monk, gravadas numa única sessão, em Nova Iorque, a 27 de Julho de 1959, nos Nola Penthouse Sound Studios. Entre os temas clássicos de Monk, encontramos Well, You Needn't, composto em 1944 e diversas vezes por ele regravado, surgindo também, por exemplo, no álbum Steamin' (1956), de Miles Davis — ei-lo numa performance televisiva de 1965.

terça-feira, dezembro 26, 2017

10 FILMES DE 2017 [4]
— Andrei Konchalovsky


[ Kathryn Bigelow ]  [ Martin Scorsese ]  [ Pablo Larraín ]

O silêncio que se abateu sobre o filme de Andrei Konchalovsky, Paraíso, envolve muitos e angustiantes factores que vão desde a vulnerabilidade de estreias que acontecem em apenas duas ou três salas, sem qualquer protecção publicitária, à volubilidade de um público que, em muitas das suas faixas (sociais ou etárias), perdeu o gosto da procura e da descoberta. Sejamos claros, quand même: Konchalovsky refaz as memórias do Holocausto através de um dispositivo de três personagens — um colaboracionista francês, uma aristocrata russa que ajuda a Resistência em França e um oficial das SS alemãs — que não satisfaz as convenções de nenhuma retórica histórica ou política. Retomando uma riquíssima herança do cinema da Rússia (e também da sua literatura), o autor de Siberíade (1979) e Os Amantes de Maria (1984) encena as convulsões desumanas das relações humanas, numa vertigem em que o próprio "sentido da história" parece ameaçado pelo apocalipse das significações. Tudo isso contado num preto e branco que, muito longe de qualquer nostalgia "estética", nos recorda que há no cinema uma energia primitiva que importa não deixar morrer — e, tanto quanto possível, tentar merecer.

segunda-feira, dezembro 25, 2017

10 DISCOS DE 2017 [4]
— The Rolling Stones

[ Arca ]  [ Tricky ]  [ Lorde ]

Porque é que a esmagadora maioria dos gestos revivalistas do nosso presente soa a falso? Mais do que isso: porque é que a sua postura nostálgica tende a esgotar-se na auto-indulgência promocional de quem não tem qualquer perspectiva criativa sobre a própria distância temporal que tais gestos implicam? Mesmo sem respostas seguras, lembremos a primordial evidência: não há revivalismo nem nostalgia quando quem visita o passado pertence também a esse passado. Assim é On Air, a antologia de The Rolling Stones que, na edição de dois CD, recupera 32 registos das suas passagens por vários programas da BBC, entre 1963 e 1969, expondo a energia primordial de um grupo — Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts, Bill Wyman e, last but not least, Brian Jones — que, como se diz nas notas de apresentação da edição, ainda não tinha conquistado o epíteto de 'The Greatest Rock'n'Roll Band in the World'. Eis uma das canções incontornáveis da antologia, (I Can't Get No) Satisfaction, num registo da mesma época, embora do outro lado do Atlântico — a 13 de Fevereiro de 1966, no programa de Ed Sullivan.

domingo, dezembro 24, 2017

10 FILMES DE 2017 [3]
— Pablo Larraín


[ Kathryn Bigelow ]  [ Martin Scorsese ]

Mais um título de 2016 cuja descoberta foi, para alguns, um dos acontecimentos maiores do cinema em 2017. Dizer que o cineasta chileno Pablo Larraín refaz a história do assassinato de JFK através da figura de sua mulher, Jacqueline Kennedy, é francamente redutor. Jackie não cede à retórica simplista da "reconstituição" histórica, mesmo se todos os elementos cenográficos — e, claro, a prodigiosa composição de Natalie Portman — trabalham para o espírito realista da abordagem. Em última instância, deparamos com um mergulho, directo e angustiado, nessa região em que a dor privada e a gestão pública da simbologia política se cruzam de forma inusitada. De algum modo retomando as linhas de força da sua trilogia sobre o Chile sob a ditadura de Pinochet — Tony Manero (2008), Post Mortem (2010) e Não (2012) —, Larraín expõe a inscrição da morte nas relações humanas, da sua negação à cruel nitidez do seu silêncio.

10 DISCOS DE 2017 [3]
— Lorde

[ Arca ]  [ Tricky ]

Em 2013, não era possível virar uma esquina sem ouvir Royals — parecia ser a fatalidade tradicional de uma voz condenada a receber o rótulo de one hit wonder. É verdade que o respectivo álbum, Pure Heroine, foi muito estimado, mas as vozes da desgraça profetizaram uma efémera vida artística para a neozeolandesa Lorde — para mais, a menina tinha, na altura, 17 anos... Pois bem, a arte de ser jovem envolve também a força e a energia para renegar a juventude. E o segundo álbum de Lorde, Melodrama, revela-se à altura das responsabilidades que a escolha do título envolve — We told you this was melodrama / oh, how fast the evening passes / cleaning up the champagne glasses. Na sua viagem de introspecção, Lorde consolida o dramatismo amargo e doce da sua voz, ao mesmo tempo reafirmando o carácter genuíno da sua alma pop, capaz de diluir a fronteira entre a sensibilidade indie e o chamado mainstream. Ei-la, na plena posse das suas virtudes de palco, interpretando Green Light, no 'Radio 1's Big Weekend', organizado pela BBC.

sábado, dezembro 23, 2017

10 FILMES DE 2017 [2]
— Martin Scorsese


[ Kathryn Bigelow ]

Lançado em Portugal nos primeiros dias de Janeiro de 2017, é bem verdade que o filme de Martin Scorsese surgiu, em muitos mercados, como uma estreia de 2016... mas como contornar tamanho monumento apenas em nome das divisões do calendário? Estamos, de facto, perante o relançamento da questão da fé religiosa, nuclear no imaginário pessoal e cinematográfico de Scorsese: o que é acreditar? Ou ainda: quando acredito, até que ponto todo o meu ser segue a crença que formulo? Pode dizer-se que Silêncio encerra a trilogia iniciada com A Última Tentação de Cristo (1988) e Kundun (1997), mais uma vez cruzando a noção de missão religiosa com a drástica avaliação dos limites da acção humana. Nada que, afinal, não esteja também noutros títulos emblemáticos do cineasta, nomeadamente Taxi Driver (1976). Para Scorsese, o humano existe sempre face ao silêncio de algum Outro que justifica os nossos actos. Por isso mesmo, o sagrado que os rituais convocam só pode ser conhecido através de uma odisseia interior.

sexta-feira, dezembro 22, 2017

10 DISCOS DE 2017 [2]
— Tricky

[ Arca ]

O trip hop morreu?... Longa vida ao trip hop! Enfim, a celebração não envolve nenhum belicismo, apenas um suave tom militante, tentando sugerir o que está em jogo no luminoso álbum nº 13 com que Tricky nos presenteou este ano. Ununiform não é, de facto, um panfleto, antes uma colecção de contrastes (o título não mente) através dos quais Adrian Nicholas Matthews Thaws, à beira de celebrar meio século de existência (no próximo dia 27 de Janeiro), achou por bem prolongar a sua arte de colagem e desmontagem, crueza dramática e apelo poético. Sem se esquecer de convocar os suspeitos do costume, nomeadamente a indispensável Martina Topley-Bird, e agregando, entre outros, os rappers russos Smoky Mo e Scriptonite (rezam as crónicas que a concepção do álbum começou em Moscovo). No caso de New Stole, Tricky refaz o tema Stole, de Francesca Belmonte, com colaboração da própria — é, além do mais, um dos mais belos e encantatórios telediscos do ano.

quinta-feira, dezembro 21, 2017

"Time": 100 fotos de 2017

PHIL HATCHER-MOORE
Ensaio teatral numa escola primária de Juba, no Sudão
Tragédias que nos acompanharam ao longo de 2017, momentos de desespero absoluto, rituais de alegria ou esperança — de tudo se faz um ano de vida e nem tudo pode ser dito, visto e compreendido através da equívoca velocidade que a televisão nos impôs. Eis uma prova eloquente de que há imagens que transcendem o instante que registam, superando também a aceleração dos nossos circuitos informativos: os editores da revista Time escolheram uma centena de fotografias, das mais extraordinárias que foram registadas ao longo dos últimos doze meses — um admirável portfolio.

ADRIAN KRAUS
Jogadores do Buffalo Bills ajoelham-se antes de um jogo
FILIP SINGER
Monumento evocativo do Muro de Berlim
EMANUELE SATOLLI
Ruínas de Mosul

quarta-feira, dezembro 20, 2017

10 FILMES DE 2017 [1]
— Kathryn Bigelow

Na contínua reavaliação das relações documentário/ficção, esquecemo-nos, por vezes, que aquilo que está em jogo excede a banal "alternância" dos dois registos. Daí o lugar central que Detroit, de Kathryn Bigelow, ocupa nas memórias de 2017. Mesmo o rótulo, afinal justificado, de "espelho-crítico" da era Trump está longe de recobrir as especificidades da mise en scène de Bigelow, aliás prolongando as experiências de Estado de Guerra (2008) e 00:30, A Hora Negra (2012): trata-se de criar um fluxo de acontecimentos dramáticos — neste caso, evocando os motins de 1967, em Detroit — que transcenda a mera acumulação "informativa" de muitos tratamentos televisivos, expondo as complexas relações entre os gestos individuais e as dinâmicas colectivas. Num tempo de saturação "política" dos media, a relativa indiferença que se abateu sobre o trabalho de Bigelow é reveladora: escasseia a vontade de pensar, politicamente, o cinema.