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sexta-feira, setembro 27, 2019

"Here Comes the Sun", 2019

1969 - 2019: as comemorações dos 50 anos do álbum Abbey Road (e as respectivas edições especiais) continuam a suscitar as mais diversas actualizações sonoras e visuais. Aqui está o novo visual de Here Comes the Sun, por certo uma das composições mais emblemáticas de George Harrison, com ou sem os Beatles — não exactamente um teledisco, antes uma pequena e tocante colecção de memórias.

quarta-feira, setembro 25, 2019

Ringo Starr recria "Yellow Submarine"

Depois de ter entrevistado Paul McCartney, Jimmy Fallon recebeu Ringo Starr, tendo como mote o lançamento do seu novo álbum, What’s My Name (25 Outubro). Na companhia do próprio Fallon, e com a ajuda dos elementos de The Roots, Starr protagonizou uma deliciosa recriação de Yellow Submarine, utilizando brinquedos musicais — tema-título da longa-metragem de animação lançada em 1968, a canção, recorde-se, estreou-se no alinhamento do álbum Revolver (1966).

terça-feira, setembro 24, 2019

"Yesterday", por Marvin Gaye

Na história da música popular, Yesterday (Lennon/McCartney) é uma das canções com maior número de versões: incluída em Help! (1965), quinto álbum de estúdio dos Beatles, dela existirão perto de 3000 interpretações. De passagem por The Late Show, o programa de Stephen Colbert, Paul McCartney falou do seu top dessas versões, mencionando mesmo a sua preferida. A saber: a de Marvin Gaye, no álbum That's the Way Love Is (1970).
Eis o fragmento do programa em que o assunto é focado e, em baixo, a versão de Yesterday por Marvin Gaye.



sexta-feira, setembro 20, 2019

"Come Together", take 5

Sinal dos tempos... O culto obsessivo das memórias, mesmo quando não enriquece o nosso conhecimento do passado, envolve a recuperação dos incidentes de que (também) se faz a história. Exemplo insólito, mas irresistível, divulgado a propósito dos 50 anos de Abbey Road, dos Beatles: uma take de Come Together em que John Lennon se engana várias vezes — a imperfeição pode fascinar.

segunda-feira, setembro 09, 2019

"Oh! Darling", 50 anos depois

Defeito geracional: tradicionalmente incluída nas proezas competentes, mas mais ou menos fúteis, dos Beatles, a canção Oh! Darling sempre me pareceu um desses inestimáveis diamantes, gloriosos e impuros (de uma glória que começa na sua impureza), que vão pontuando a discografia dos quatro de Liverpool — para ouvir de novo, na remistura incluída na edição de celebração dos 50 anos de Abbey Road.

quarta-feira, agosto 14, 2019

A utopia de Abbey Road

A célebre fotografia dos Beatles a atravessarem uma passadeira da Abbey Road, em Londres, foi registada há meio século: as memórias da imagem e da música continuam a ser vividas como um acontecimento do nosso presente — este texto foi publicado no Diário de Notícias (10 Agosto).

Foi a 8 de Agosto de 1969 que o fotógrafo escocês Iain Macmillan (1938-2006) registou uma das imagens mais célebres da história da música popular do século XX: nela vemos George Harrison, Paul McCartney, Ringo Starr e John Lennon a atravessarem uma passadeira da Abbey Road, em Londres. A 26 de Setembro do mesmo ano, a fotografia surgiria nas lojas de discos como capa do penúltimo álbum de estúdio dos Beatles: Abbey Road, precisamente.
Iain Macmillan
Na quinta-feira, a imprensa de todo o mundo deu conta do 50º aniversário da imagem e, em particular, das celebrações in loco. Algumas centenas de pessoas (segundo a Time), porventura alguns milhares (garantia a BBC), estiveram no local, junto dos estúdios em que Abbey Road foi gravado, para evocar tão emblemática imagem, fazer as suas próprias fotografias e até, no caso de um “sósia” de McCartney, propor casamento à namorada...
O evento envolve um curioso sintoma do modo como passámos a viver muitas celebrações colectivas e, em particular, as efemérides. Não se trata, de modo algum, de reduzir os protagonistas anónimos a qualquer caricatura. Aliás, consigo imaginar-me, sem relutância, a fazer a mesma peregrinação a tão mítico lugar.
Mas vale a pena registar a contradição: o festivo “regresso” à capa de Abbey Road não envolveu quaisquer impulsos “sociais” (decididamente, as “redes” são preguiçosas...) no sentido de uma metódica e apaixonada revisitação dos 17 títulos do álbum. E não faltariam motivações para o fazer: começando no prodigioso Come Together (que durante algum tempo não passou na rádio da BBC, já que a sua referência à Coca-Cola contrariava as regras internas no sentido de não difundir canções que contivessem alusões a produtos comerciais) e terminando no delicioso e minimalista Her Majesty (em que Paul refere a Rainha como “a pretty nice girl” [audio]). Sem esquecer Something e Here Comes the Sun, duas obras-primas assinadas por Harrison, quase sempre o mais “ausente” dos quatro.


Não estamos perante um fenómeno isolado que se possa “explicar” pelas peculiaridades de alguns fãs dos Beatles. Para compreendermos a sua lógica (ou a falta dela), podemos, e devemos, superar a ditadura simbólica que decorre do actual tribalismo mediático: segundo o grosseirismo de tal conceito, qualquer relação com um determinado evento — musical, cinematográfico, futebolístico, etc. — só poderia existir se enquadrada pela “razão” compulsiva de uma multidão mais ou menos ululante.
De um ponto de vista geracional (da minha geração, entenda-se), vale a pena lembrar que o aparecimento de Abbey Road foi vivido numa encruzilhada de fascínio, perplexidade e, se é que consigo aplicar a palavra num sentido visceralmente cultural, angústia.
Desde logo, porque estávamos perante um objecto de vertiginosa criatividade, porventura ainda mais radical que o “Álbum Branco” (publicado dez meses antes), oscilando da candura pop até às mais enigmáticas ousadias experimentais; depois, porque o seu lançamento foi enquadrado pelas notícias de uma ruptura iminente dos quatro de Liverpool; enfim, porque essa ruptura aconteceu mesmo passado pouco tempo, de tal modo que o álbum final, Let It Be, editado em Maio de 1970, foi já escutado como um ritual de despedida (ironicamente, a maior parte do seu material tinha sido registada antes das sessões de Abbey Road).
A herança dos Beatles não pode ser dissociada dessa sensação, de um só vez racional e anímica, que faz com que a música exista como uma aventura da própria identidade de quem a escuta. Não é, evidentemente, um exclusivo de qualquer passado (musical ou não). É mesmo um misto de energia e mistério que as décadas vão reforçando e que, em última análise, não necessita da caução de qualquer efeméride.
Talvez encontremos aí os restos de um impulso utópico que, mesmo quando se exprime através do ruído mediático, não se esgota na nostalgia. A saber: tudo é presente, a nossa casa fica numa esquina de Abbey Road.

ABBEY ROAD STUDIOS

quinta-feira, agosto 08, 2019

Abbey Road, 8 Agosto 1969

Seis fotografias. Dez minutos de trabalho.
Tanto bastou para que o fotógrafo escocês Ian Macmillan (1938-2006) obtivesse aquela que é, por certo, uma das imagens mais célebres no universo da música popular ao longo (e para lá) do século XX: George Harrison, Paul McCartney, Ringo Starr e John Lennon atravessam uma passadeira da Abbey Road, em Londres, junto aos estúdios da EMI.
Foi no dia 8 de Agosto de 1969 — faz hoje 50 anos.
Cerca de um mês e meio mais tarde, a 26 de Setembro, a fotografia nº 5 da série de seis [ao centro, na linha de baixo] entrava na história como capa de Abbey Road, penúltimo álbum dos Beatles, apesar de, em boa verdade, ter sido o derradeiro a ser gravado (os registos de Let It Be, lançado a 8 de Maio do ano seguinte, eram anteriores).


Em 1970, os estúdios da EMI mudavam de nome para Abbey Road Studios.
Entretanto, para assinalar o cinquentenário do lançamento de Abbey Road está prevista para o dia 27 de Setembro uma especialíssima edição comemorativa (com remisturas e material inédito das gravações). Eis o video promocional dessa edição e, em baixo, o novo/velho som de Something, uma das composições assinadas por George Harrison.



sexta-feira, julho 05, 2019

Os Beatles nunca existiram

No novo filme de Danny Boyle, Yesterday, as canções dos Beatles desapareceram da memória colectiva: a premissa é desconcertante e sugestiva, os resultados são apenas simpáticos — este texto foi publicado no Diário de Notícias (28 Junho).

No cinema, como é possível sustentar uma brincadeira absurda? Uma resposta possível será esta: aceitar o seu absurdo e partilhá-la como se fosse a coisa mais natural deste mundo... Assim é o filme Yesterday, uma comédia que se passa num mundo contemporâneo, em tudo e por tudo parecido com o nosso. Com uma “ligeira” diferença: ninguém conhece os Beatles e as suas canções!


O realizador inglês Danny Boyle gosta de desafios desta dimensão. Lembremos apenas que a sua filmografia inclui a vertigem perturbante de Trainspotting (1996), o delírio aventuroso de A Praia (2000), ou ainda essa saga admirável que é Steve Jobs (2015), com argumento de Aaron Sorkin, desenhando um retrato infinitamente subtil do génio da Apple. Em boa verdade, não creio que Yesterday esteja à altura de qualquer um dos títulos referidos. Isto apesar (ou precisamente por causa) da curiosa dimensão surreal, quase onírica, que o argumento de Richard Curtis parece ambicionar.
Curtis, também ele, é um criador de insólitas ousadias, indissociáveis da sua formação em algumas das séries cómicas mais originais da televisão britânica (por exemplo, Blackadder, com Rowan Atkinson). São dele os argumentos de sucessos como Quatro Casamentos e um Funeral (1994) e Notting Hill (1999), ou ainda O Barco do Rock (2009), evocação amarga e doce dos tempos heróicos das rádios pirata (que o próprio Curtis também realizou).
Desta vez, porém, dir-se-ia que a premissa de Yesterday se vai rarefazendo, transformando o bloco central da narrativa numa antologia de variações não muito inspiradas sobre as canções dos Beatles. Além do mais, a participação de Ed Sheeran (no seu próprio papel) tem qualquer coisa de postiço e gratuito, mais parecendo resultar de um golpe simplista de marketing.
Ainda assim, importa sublinhar a energia contagiante do intérprete principal, Himesh Patel. Mostrando a agilidade suficiente para se manter fiel ao espírito das canções (além de Yesterday, escutamos temas de todas as fases dos Beatles, de She Loves You a Let It Be), sabe também evitar qualquer postura de banal imitação. Apesar do esquematismo dramático em que o filme se vai instalando, Patel consegue emprestar alguma densidade dramática à personagem do cantor desconhecido que se apropria das canções que não lhe pertencem, embora não desistindo de repor a verdade — ei-lo numa recente edição do show de Jimmy Kimmel, interpretando o tema que dá o título ao filme.

domingo, novembro 18, 2018

Memórias do "Álbum Branco"

Como breve balanço na nossa sessão na FNAC, motivada pelos 50 anos do "Álbum Branco" dos Beatles, aqui ficam as canções desse lendário registo que foram ouvidas no forum do Chiado. São elas: Revolution, Glass Onion e Back in the USSR (a primeira num registo da época, as outras duas em telediscos agora produzidos).






>>> Site oficial dos Beatles.

sábado, novembro 17, 2018

BEATLES: 50 anos do "Álbum Branco"
— SOUND + VISION Magazine [hoje]

Foi há meio século que os Beatles lançaram o lendário "Álbum Branco": propomos uma revisitação das suas canções, cruzando as memórias musicais com outros eventos marcantes do ano de 1968.

* FNAC / Chiado: hoje, 17 Novembro (18h30)

segunda-feira, setembro 24, 2018

A sociedade do Google

Keir Dullea
2001: ODISSEIA NO ESPAÇO (1968)
Afinal, quando acedemos a toda a “informação do mundo”, que tipo de conhecimento estamos a construir através do Google? Larry Page será um herdeiro dos enciclopedistas do século XVIII? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 Agosto), com o título 'O algoritmo da felicidade'.

Últimos dias do mês de Agosto do glorioso ano de 2018. Consulto o Google Play e verifico que posso escolher entre cinco áreas temáticas: aplicações, filmes, música, livros e dispositivos. Nunca o utilizei, não tendo sequer fornecido ao sistema qualquer informação sobre eventuais formas de pagamento dos respectivos conteúdos. Em todo o caso, ao visitar a área dos filmes, depois de duas zonas identificadas por expressões inglesas — “Top Selling Movies” e “New Releases” —, deparo com uma oferta em português: “Recomendados para Si” [link actual].
Apesar do meu distanciamento, o Google Play tem alguma ideia sobre quem eu sou. Ou, pelo menos, sobre os filmes que quero ver. O título que encabeça a lista de “recomendações” não podia ser mais eloquente: Rampage – Fora de Controlo, “acção e aventura” em que Dwayne Johnson enfrenta George, o gorila gigante que era seu amigo, mas que se tornou violento devido a experiências genéticas...
A lista prossegue mais ou menos no mesmo tom (com banais notas informativas, umas em inglês, outras num pavoroso português com sotaque brasileiro), mas há que reconhecer-lhe uma festiva diversidade. Assim, o Google Play recomenda-me A Forma da Água, a par, por exemplo, de As Cinquenta Sombras Livre (aliás, Cinquenta Tons de Liberdade), neste caso prometendo um fascinante desenlace: “(...) novas ameaças podem atingir um final feliz, antes mesmo que ele comece.” Não sei se percebi, mas não é essa questão.
Em que cultura mediática nos obrigam a viver? Como é possível que o prazer cinéfilo tenha sido reduzido a este deprimente caos informativo? Com o seu aparato global de hardware e software, entidades como o Google estão longe de existir apenas como instrumentos de “pesquisa”. Em boa verdade, a sua acção não pode ser dissociada da definição de um novo modelo de pessoa e, em particular, da actividade cognitiva.
Como é que o Google me define como indivíduo? Ou será que é suposto não perguntar e seguir em frente? Devo entregar-me como um sonâmbulo à abundância da oferta, aceitar a boa vontade do sistema de busca, gastar 3,99 € no aluguer do filme e ficar a saber se Dwayne Johnson consegue reconquistar o coração do seu bem amado gorila?...

“Acessível e útil”

Evitemos o alarido tão típico da Net: não se trata de reduzir o Google a uma qualquer dicotomia “pró/contra”. Seria como demonizar as maravilhas existenciais que o automóvel nos concedeu ao longo de mais de um século — afinal, sabemos que não podemos omitir o automóvel das nossas ansiosas reflexões sobre a poluição do planeta.
Na sua universalidade, omnipresença e omnipotência, o Google existe como expressão contemporânea do desejo de conhecimento enciclopédico. Relembremos as palavras de um dos seus fundadores, Larry Page: “No essencial, o nosso objectivo é organizar a informação do mundo, tornando-a universalmente acessível e útil” (peço desculpa pela perversão, mas todas as citações foram obtidas através do... Google).
Eis uma afirmação que, até pela sinceridade do seu tom panfletário, suscita uma dúvida básica. Isto é, sobre as bases de onde partimos: até que ponto, ou de que modo, a mera acumulação de informação é geradora de conhecimento?
Fazemos, por exemplo, uma pesquisa sobre um dos registos emblemáticos dos Beatles, “White Album” (à beira de completar 50 anos), e o computador diz-nos que gastou 0,42 segundos para encontrar 2.100 milhões de resultados... Depois de tão vertiginosa experiência, que sabemos — e como sabemos — sobre o álbum em questão? O romantismo de While My Guitar Gently Weeps passou a integrar a nossa visão multifacetada do amor entre os humanos? Será que reconhecemos a estrutura agreste de Happiness Is a Warm Gun como mais ousada do que muitas experiências do hip hop do século XXI? Sabemos, ao menos, que em 2015 o tema Revolution foi recriado numa versão absolutamente genial para o genérico final do filme de animação dos Mínimos?...
Para Page, tais perguntas serão irrelevantes. O paradoxo tecnológico em que se coloca envolve um conceito instrumental do próprio trabalho humano: “Sempre acreditei que a tecnologia deve fazer o trabalho difícil — descoberta, organização, comunicação —, de modo que os utilizadores possam fazer aquilo que os torna mais felizes: viver e amar, em vez de arranjar confusões com computadores irritantes! Isso significa que os nossos produtos trabalham sem se dar por eles.”
Sem se dar por eles? Convenhamos que é modéstia a mais para um sistema de busca que regista 3.500 milhões de pesquisas diárias... O que está em causa não é “tudo o que o Google me permite fazer”. Trata-se, isso sim, de colocar uma pergunta técnica e existencial: “Como sou através do Google?” Ou ainda: “No mundo global, colectivizado e generalista do Google, que significa dizer eu?”

Que sistema social?

Será Larry Page um herdeiro dos enciclopedistas do século XVIII e, em particular, do seu racionalismo e espírito de tolerância?
Digamos que há nele uma mesma vontade, ética e política, de partilha de saber e engrandecimento dos outros: “O homem mais feliz é aquele que dá felicidade ao maior número de outros homens”, escreveu Denis Diderot (1713-1784), resumindo a vocação da obra monumental — Encyclopédie, ou Dictionnaire Raisoné des Sciences, des Arts et des Métiers (35 volumes, 1751-1772) — cuja organização coordenou com Jean le Rond d’Alembert. Com uma diferença que está longe de ser secundária. Para Diderot e, de um modo geral, para os mestres do Iluminismo, há (ainda) uma natureza que se perfila como pano de fundo dos gestos humanos e da sua dimensão moral: “Nenhum homem recebeu da natureza o direito de comandar os outros.” No caso de Page, a sensualidade multifacetada da natureza deu lugar à gélida precisão dos algoritmos.
Denis Diderot
A sua lei é: não comandar ninguém, celebrando o algoritmo como a comovente encarnação da neutralidade cognitiva. Para além do determinismo redentor do seu apelido (page=página), foi também Page que criou o principal algoritmo aplicado nas pesquisas Google (PageRank), determinando a importância das páginas disponíveis na Net e, por fim, hierarquizando-as para, de alguma maneira, consumarem o milagre de corresponder às nossas pesquisas. Se Dwayne Johnson e o seu gorila gigante me aparecem como hipótese de consumo, isso significa apenas que o algoritmo se preocupa com a minha felicidade — mesmo que isso me deixe indiferente, eventualmente indignado, como é que eu dialogo com as boas intenções de um algoritmo?
Que sistema social estamos a construir através deste saber informático e informatizado? A pergunta justifica-se tanto mais quanto há, pelo menos, duas gerações que interiorizaram a “ideia” de que o conhecimento se define apenas pelo número de clicks a que nos obriga — sendo essa obrigação apresentada como expressão de uma natureza inquestionável.
Dir-se-ia que à clássica concepção vertical do saber, com entidades e categorias hierarquizadas, sucedeu um mundo virtual de monótona horizontalidade: tudo está disponível no mesmo plano, no mesmo território homogéneo, enorme planície de links regidos por algoritmos. Já não é ficção científica — tornou-se modelo social.
Na minha memória, reaparece uma imagem com 50 anos (trinta anos anterior ao nascimento do Google). É o rosto do astronauta interpretado por Keir Dullea em 2001: Odisseia na Espaço, de Stanley Kubrick. Face ao sadismo do computador HAL 9000 — disposto a sacrificar as vidas humanas para consumar os objectivos do seu programa —, o pânico do adulto cruza-se, nos olhos de Dullea, com a magoada nostalgia da infância.
Para que conste: posso rever o filme de Kubrick no Google Play por 2,99 €, menos um euro que o gorila de Dwayne Johnson. Enfim, não me posso queixar: a democracia digital oferece a inteligência a preço de saldo.

* * * * *

>>> 'Is Google Making Us Stupid?': ensaio de Nicholas Carr (The Atlantic, Julho/Agosto 2008).
>>> 'Silicon Valley has designed algorithms to reflect your biases, not disrupt them': ensaio de Ramesh Srinivasan (QUARTZ, 27 Fevereiro 2017).
>>> 'How language shapes the way we think': apresentação de Lera Boroditsky (TED Talks, Novembro 2017).

segunda-feira, setembro 10, 2018

Concerto surpresa de Paul McCartney

O cenário: Grand Central Station, em Nova Iorque. Com memórias de outras noites: começou, adequadamente, com A Hard Day's Night... Na sexta-feira, 7 de Setembro, Paul McCartney deu um concerto surpresa, celebrando o lançamento do seu 17º álbum a solo, Egypt Station. O evento, transmitido em directo no seu canal do YouTube, cruzou as novas canções com memórias dos Beatles e Wings — nostalgia, ma non troppo, aqui na versão integral.

sexta-feira, agosto 24, 2018

"Imagine" sem Phil Spector

Pergunta mais ou menos utópica: como soaria a canção Imagine sem o arranjo de Phil Spector? Pois bem, a pergunta adquiriu agora uma dimensão completamente objectiva. Isto porque uma versão anterior da canção, apenas com John Lennon ao piano, acaba de ser revelada. Trata-se de uma das novidades absolutas de uma monumental reedição do álbum Imagine, agendada para 5 de Outubro, 47 anos passados sobre o seu lançamento, em Setembro/Outubro de 1971.
Agora, através de demos, versões não utilizadas no alinhamento final, curiosidades de estúdio e um documentário, tudo em 4 CDs + 2 Blu-rays [Rolling Stone], será possível redescobrir, não apenas esse tema que se transformou numa espécie de hino pessoal de Lennon (cerca de dois anos passados sobre o desmembramento dos Beatles), mas também aquela que é, porventura, a sua mais confessional colectânea de canções. Eis a versão agora divulgada, a par do registo originalmente editado.

Imagine there's no heaven
It's easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people living for today

Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people living life in peace, you

You may say I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope some day you'll join us
And the world will be as one

Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man
Imagine all the people sharing all the world, you

You may say I'm a dreamer
[...]



segunda-feira, junho 25, 2018

Paul McCartney: duas novas canções

Aos 76 anos (celebrados a 18 de Junho), Paul McCartney anuncia um novo álbum, o 17º da conta pessoal: chama-se Egypt Station e estará nas lojas a 7 de Setembro. O primeiro single contém um poderoso tema rock, Come On to Me, e uma balada de sedutor primitivismo, I Don't Know — para já, temos os respectivos lyric videos.




>>> Site oficial de Paul McCartney.

sexta-feira, março 16, 2018

The Beatles, "I Feel Fine"

Não é uma novidade, longe disso. Apenas um registo do single I Feel Fine, dos Beatles, desde o início considerado impróprio para consumo devido ao facto de os quatro de Liverpool estarem a comer num intervalo de gravações... O certo é que reapareceu agora no YouTube, além do mais num impecável restauro. Foi gravado em Novembro de 1965 (o single fora editado cerca de um ano antes) e, em nome da "fast food", talvez lhe possamos chamar "fast video" — em tom elogioso, claro.

terça-feira, outubro 31, 2017

Gary Clark Jr. — sob o signo dos Beatles

Espectacular versão do clássico Come Together, dos Beatles, por Gary Clark Jr.! A canção integra a banda sonora do filme Justice League [estreia: 16 Novembro] e tem teledisco a condizer — realização de Kris Merc.

domingo, julho 23, 2017

Beatles — redescobrindo "Hey Bulldog"

Do baú dos Beatles não param de sair objectos mais ou menos desconhecidos, quase sempre sedutores. Poucas semanas depois do 50º aniversário do lançamento de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, eis mais uma deliciosa revelação, neste caso uma espécie de teledisco de Hey Bulldog, tema de Yellow Submarine, lançado cerca de um ano e meio depois de Sgt. Pepper's..., em Janeiro de 1969 — a canção viria a surgir em vários singles, associada, por exemplo, a All Together Now.
Não será, de facto, um teledisco (formato que, aliás, em termos comerciais, não existia na época), até porque a gravação da canção decorreu quase por acidente, durante as filmagens de um video promocional para Lady Madonna. Antes uma montagem, particularmente hábil e envolvente, de uma canção algo esquecida. Embora com assinatura Lennon/McCartney, Hey Bulldog é, no essencial, uma criação do primeiro, típica do seu gosto surreal do absurdo, que o segundo ajudou a concretizar em estúdio — sem esquecer o magnífico solo de guitarra de Harrison.

Sheepdog
Standing in the rain
Bullfrog
Doing it again
Some kind of happiness is measured out in miles
What makes you think you're something special when you smile?

Child-like
No one understands
Jack knife
In your sweaty hands
Some kind of innocence is measured out in years
You don't know what it's like to listen to your fears

You can talk to me
If you're lonely you can talk to me

Big man
Walking in the park
Wigwam
Frightened of the dark
Some kind of solitude is measured out in you
You think you know me but you haven't got a clue

You can talk to me
[...]

Hey bulldog! Hey bulldog!

quinta-feira, julho 06, 2017

Lennon/McCartney — há 60 anos...

John Lennon e Paul McCartney [FOTO: NPR]
As efemérides não são necessariamente uma "obrigação" decorrente do calendário. Por vezes, os números redondos das datas transportam um misto de transparência e nostalgia que importa reter e contemplar. Assim, por exemplo, as memórias dos Beatles. Por um lado, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band está a comemorar 50 anos de existência; por outro lado, se recuarmos ainda mais 10 anos, podemos recordar que esta data de 1957 — 6 de Junho — corresponde ao primeiro encontro de John Lennon e Paul McCartney, em Liverpool. O primeiro, 16 anos, tocava com a sua banda The Quarrymen; o segundo, um ano mais novo, estava na assistência [leia-se a evocação da NPR].
Lembremo-los, cerca de seis anos mais tarde, em Março de 1963 — estavam já, obviamente, na companhia de George Harrison e Ringo Starr e, como é da tradição dizê-lo, o resto pertence à história.

terça-feira, julho 04, 2017

SOUND + VISION Magazine
— hoje na FNAC Chiado

Memórias dos 50 anos de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band? Sim, mas sobretudo memórias de 1967, um ano em que todas as fronteiras artísticas e simbólicas pareceram mais abertas do que nunca — hoje estaremos na FNAC para mais uma edição do nosso magazine.

* SOUND + VISION Magazine
> hoje, FNAC/Chiado, 18h30

quinta-feira, junho 01, 2017

A capa de "Sgt. Pepper's..." — quem é quem?

Mae West.
Lenny Bruce.
Karlheinz Stockhausen.
Marilyn Monroe.
Karl Marx.
James Joyce.
Stuart Sutcliffe.
...
Que liga todos estes nomes? Pois bem, todos eles figuram na capa do álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, lançado há exactamente 50 anos.
A reunião de tantos nomes ilustres, consagrados ou não pela história colectiva, permanece como uma configuração simbólica capaz de desafiar qualquer interpretação linear e definitiva — se é verdade que a cultura pop é também um processo de permanente reconversão de todas as heranças (musicais ou não), então os Beatles conseguiram com esta apresentação criar um objecto que define um tempo e, espectacularmente, o transcende. Isto sem esquecer os que assinaram, efectivamente, o trabalho de concepção e grafismo: Jann Haworth e Peter Blake, dois nomes emblemáticos da pop art britânica.
Para saber quem são as dezenas de personalidades figuradas na capa, podemos consultar a lista da Wikipedia. Para identificarmos todos os rostos, eis duas pistas: Oxford Dictionary + Pepper Cover.
Este é o trailer de lançamento das reedições de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band.