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quinta-feira, dezembro 12, 2019

Greta Thunberg — a pessoa ou a imagem?

* Greta Thunberg, a activista sueca que tem protagonizado uma campanha global de sensibilização para as convulsões climatéricas e a defesa do ambiente, é a "Pessoa do ano" para a revista Time. Não será necessário sublinhar a importância das chamadas de atenção proferidas nas suas intervenções públicas, sobretudo tendo em conta que poderosas forças (leia-se: Donald Trump) continuam a propalar um discurso demagógico sobre as tragédias, consumadas ou anunciadas, do aquecimento global do planeta Terra.

* Ao mesmo tempo, como não perguntar o que significa esse "poder da juventude" que, na sua capa, a Time associa a Thunberg. Que é como quem diz: de que falamos quando falamos de juventude? Em boa verdade, a designação de juventude serve para recobrir, hoje em dia, com inusitada frequência, uma pluralidade de fenómenos — entenda-se também: um sistema de mercados — que quase ninguém questiona no seu funcionamento e implicações.

* Desse ponto de vista, Thunberg  — ou, pelo menos, a sua imagem de marca — repete a lógica mediática da celebração inerente a universos como "Harry Potter". Porque a eles se cola uma caução juvenil, ninguém ou quase ninguém formula dúvidas. No caso do império narrativo de J. K. Rowling, quase nunca se pergunta, por exemplo, se o feiticeiro adolescente não estará a criar uma geração focada numa escrita banalmente instrumental, cega à vastidão da história da literatura. Mais ainda: quais os efeitos da promoção de uma visão "mágica" da educação em que o confronto com a realidade se confunde com o aparato dos feitiços que cada personagem pode ou sabe aplicar?


* Inútil discutir a sinceridade (ou a falta dela) do discurso de Thunberg. Porquê? Porque, precisamente, a fulanização de quase todos os fenómenos mediáticos — aliás, os media como sistema de fulanização de todos os fenómenos — funciona para além do grau de compromisso de cada indivíduo, por vezes contra os princípios ou valores desse compromisso. A sinceridade de Thunberg não está em causa — é o efeito Thunberg que importa pensar.

* Num tempo de óbvia decomposição prática e simbólica de muitas formas de poder — a começar pelo poder das estruturas familiares junto dos jovens —, enunciar a juventude como fonte de poder corre o risco de deixar incólumes os efectivos sistemas de poder em que vivemos, propagando apenas uma ruidosa utopia mediática, tanto mais vazia quanto mais ruidosa. A esse propósito, somos mesmo levados a reconhecer que a multiplicação de "photo-ops" se tornou a linguagem dominante da presença de Thunberg no nosso dia a dia saturado de (des)informação. Involuntariamente ou não, o trabalho (interessantíssimo, não é isso que está em causa) da Time em torno de Thunberg contém os sintomas de uma hipotética irrisão. Como nesta foto [da autoria de Evgenia Arbugaeva], mostrando Thunberg a chegar a Madrid para marcar presença na Cimeira sobre o Clima — que vemos aqui: uma pessoa cercada pelos olhares das câmaras, ou tão só uma personagem a cumprir um ritual pré-formatado?

quinta-feira, dezembro 05, 2019

Uma lição jornalística de Nancy Pelosi

Nancy Pelosi
1. A degradação dos padrões jornalísticos não fez desaparecer o próprio jornalismo. O certo é que tal degradação, transversal e multinacional, raras vezes é enfrentada pela própria comunidade jornalística. Como se reafirmar a deontologia e os valores jornalísticos fosse um sinal de enfraquecimento.

2. Felizmente (ou infelizmente), ainda há quem, na classe política, não se deixe submeter à desvergonha do jornalismo fulanizado e provocador, apenas à procura da agitação pela agitação. Aconteceu hoje, quando a presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, anunciou a passagem à fase seguinte do processo de destituição de Donald Trump [notícia: DN]. Quando um jornalista lhe perguntou se ela "odeia Trump", Pelosi teve a reacção firme e pedagógica de quem não se submete à obscenidade mediática [video].

3. Nada disto, entenda-se, envolve qualquer desvalorização do papel de informação, investigação e escrutínio que a classe jornalística pode e deve desempenhar (e que, obviamente, em muitos casos, continua a desempenhar). O que está em causa é a resistência a esse comportamento que combina a irresponsabilidade profissional e a vulgaridade humana.

quarta-feira, dezembro 04, 2019

Emmanuel Macron
e a violência contra as mulheres

1. Na sua edição de 25 de Novembro, o jornal Libération publicou um artigo intitulado: 'No tribunal, Macron escuta uma vítima "sob o domínio" de um marido violento'. O texto relata uma das sessões organizadas pelo Presidente da França, decorrente do seu empenho em reforçar as políticas de combate à violência doméstica. Neste caso, tratou-se de um diálogo realizado numa pequena sala do tribunal de Créteil, na presença de apenas dois jornalistas, garantido à mulher escutada por Emmanuel Macron a não divulgação da sua identidade, sendo apenas referida pelo nome fictício "Hélène".

2. Escusado será sublinhar o valor social e pedagógico da atitude de Macron e a importância da sua cobertura jornalística. O artigo começa, aliás, de uma forma que condensa, com certeiro didactismo, aquilo que está em jogo:

>>> "Ainda tem medo?", pergunta-lhe o presidente. "Sim. Mas quis encontrar-me consigo porque isso pode ajudar outras mulheres".

3. Nada disso, creio, pode ou deve impedir o (re)lançamento de uma reflexão que, a meu ver, está quase sempre ausente dos próprios meios de comunicação. A saber: que discurso (jornalístico, justamente) se constrói a partir de temas como este e situações como a que aqui é noticiada?

4. Veja-se a chamada do artigo disponível na página de entrada do site do Libération [no topo deste post]: na base de uma foto de Macron podemos ler um destaque de maiúsculas brancas em fundo vermelho: "VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES". Aliás, a mesma foto, ainda com mais peso visual, ilustra o próprio texto.


5. Perversamente, poderá perguntar-se: estará o jornal a sugerir que o próprio presidente é, de alguma maneira, protagonista do tema em destaque? Nada disso, como é óbvio. Não se trata de brincar com coisas sérias, apenas de reconhecer um exemplo francamente pouco feliz de aplicação de uma imagem concreta e da sua articulação com as palavras escritas.

6. Qual seria a imagem "ideal" para ilustrar o artigo? Não sei. Nem creio que a pergunta seja pertinente: as infinitas discussões (?) sobre aquilo que o jornalismo poderia ou deveria ser desencadeiam, todos os dias, o mesmo inglório efeito. A saber: recalcar qualquer pensamento construtivo sobre o jornalismo que, realmente, se faz.

7. Este exemplo não põe em causa a pertinência do tema nem a boa fé do Libération. É tão só um sintoma benigno do nosso contexto mediático & global: todos repetimos que "vivemos num mundo de imagens" mas, com perturbante frequência, as imagens são descartadas como coisa banal e inconsequente.

sexta-feira, novembro 15, 2019

Impeachment, em 7 minutos

Conhecer o presente, compreender os acontecimentos para além da espuma mediática: eis um trabalho eminentemente jornalístico que alguns videos do New York Times ilustram de modo exemplar — aqui, para entender melhor o processo de destituição [impeachment] de Donald Trump, eis 7 didácticos minutos.

quarta-feira, novembro 13, 2019

Impeachment segundo a Rua Sésamo

No debate sobre a possível destituição [impeachment] de Donald Trump, a Rua Sésamo dá o seu contributo, em colaboração com The Late Show, de Stephen Colbert — eis um alfabeto para lidarmos com o processo político em curso.

quarta-feira, outubro 30, 2019

IMPEACHMENT
—Trump, as palavras & etc.

Sinal dos tempos: nesta sociedade de imagens em que vivemos, a instrumentalização quotidiana das palavras não anulou os seus poderes primitivos. A saber: fazer política é também uma arte de administração de palavras, discursos e significações.
Sintomaticamente, o processo de destituição [impeachment] do Presidente Donald Trump está a ser dirimido em muitos e complexos cenários que, para além, ou melhor, através das suas componentes audiovisuais, envolvem os mais diversos gestos de consciência e análise das palavras.
Este video da CNN pode servir de exemplo modelar: em diálogo com John Berman, Elie Honig, analista do sistema legal, faz o ponto de situação do que já foi dito, das mensagens claras às hipóteses mais ou menos obscuras. Correspondendo à dinâmica dos acontecimentos, a CNN criou mesmo uma newsletter a que deu o nome de Impeachment Watch.

quarta-feira, outubro 23, 2019

Donald Trump em verso

Actor de filmes tão populares como Blow Out (Brian de Palma, 1981), Laços de Ternura (James L. Brooks, 1983) ou Interstellar (Christopher Nolan, 2014), vedeta da série televisiva 3º Calhau a Contar do Sol (1996-2001), John Lithgow nunca desistiu do gosto de desenhar e escrever poesia. De tal modo que surge agora como autor total, palavras e imagens, de Dumpty, livro com um subtítulo especialmente sugestivo: "A idade de Trump em verso". É também, acrescenta ele, uma forma de lidar com o vazio humorístico do próprio Donald Trump — explicações saborosas e festivas em The Late Show, com Stephen Colbert; em baixo, um magnífico sketch da mesma edição do programa, com Lithgow a interpretar o surreal advogado de Trump, Rudy Giuliani.



terça-feira, outubro 22, 2019

A morte da privacidade

Se continua a existir algo a que podemos chamar “cinema político”, o filme O Candidato Principal constitui um exemplo modelar das suas virtudes. Infelizmente, chegou aos ecrãs televisivos sem ter passado pelas salas — este texto foi publicado no Diário de Notícias (19 Outubro).

De John Ford a Clint Eastwood, passando por Elia Kazan, Otto Preminger ou Sam Peckinpah, o cinema de Hollywood sempre foi visceralmente político. Entenda-se: não porque reflicta “um” ponto de vista político, antes porque a sua riqueza narrativa espelha uma pluralidade que, de uma maneira ou de outra, nos remete para importantes clivagens políticas e sociais.
A evolução dos mercados cinematográficos, marcada pelo domínio dos chamados “blockbusters”, tem favorecido uma crescente indiferença a essa pluralidade. Não se trata, entenda-se, de demonizar os “blockbusters” (nem, como é óbvio, de os santificar). Trata-se tão só de reconhecer que, por vezes, as regras dominantes no mercado tendem a marginalizar alguns dos melhores e mais sofisticados produtos gerados pelo cinema dos EUA.
Um exemplo recente será o magnífico The Front Runner (2018): ausente das salas escuras, surgiu directamente nos circuitos do cabo com o título O Candidato Principal (TVCine). Ainda bem, claro... O que se discute não são critérios de programação televisiva, antes formas de esvaziamento do espaço social do cinema. Até porque convenhamos que é, no mínimo, desconcertante que não haja uma aposta convicta num filme que tem como intérprete principal um actor tão popular como Hugh Jackman.
Estamos perante um objecto que reflecte a persistente energia de um modelo de abordagem das convulsões da cena política cujas raízes se podem encontrar no “cinema político” da década de 70, em particular no trabalho de realizadores como Alan J. Pakula (1928-1998) ou Sydney Pollack (1934-2008). Esse cinema tem como um dos seus pilares fundamentais o estudo de uma interacção clássica, de alguma maneira gerada nas décadas finais do século XIX e consolidada ao longo do século XX. A saber: os muitos cruzamentos da actividade política com os meios de informação. O filme mais conhecido de Pakula, Os Homens do Presidente (1976), sobre a investigação jornalística do caso Watergate, e a subsequente resignação do Presidente Richard Nixon, pode servir de símbolo modelar.
O Candidato Principal é, justamente, um filme sobre um momento emblemático na história de tais cruzamentos, evocando as atribulações que marcaram o processo de nomeação do candidato do Partido Democrata às eleições presidenciais dos EUA de 1988: líder de todas as sondagens (era o “front runner”, como diz o título original), Gary Hart, senador do estado do Colorado (com Jackman numa das mais subtis composições da sua carreira), acabou por desistir na sequência da revelação pública de uma relação extra-conjugal.
Jason Reitman, realizador de O Candidato Principal, tem-se revelado capaz de abordar situações delicadas, sabendo libertá-las de clichés dramáticos ou moralistas — recordemos o seu Juno (2007), centrado na personagem de uma adolescente que fica grávida. Neste caso, sem recalcar os drásticos efeitos emocionais do drama conjugal de Hart, Reitman sabe colocar em cena um outro drama cuja actualidade não será necessário sublinhar. Assim, depois do rigor deontológico do jornalismo de Os Homens do Presidente, estamos perante o “novo” mediatismo que passou a tratar a vida privada como terreno bélico de (des)informação, a ponto de aniquilar o fundamento democrático e o valor existencial da própria noção de privacidade.
Vem a propósito referir que Reitman é também autor de um dos mais notáveis filmes que já se fizeram sobre a degradação dos mais básicos princípios humanistas através de algumas formas de relação “social” promovidas pela Internet: chama-se Homens, Mulheres e Crianças (2014) e, tal como O Candidato Principal, chegou aos circuitos digitais sem ter sido mostrado nas salas do nosso país. É caso para perguntar se se trata de uma coincidência ou um padrão de tratamento do cinema mais ousado e inventivo.

quinta-feira, outubro 03, 2019

Trump contra Trump

"Um dia dramático para a América" — foi a expressão usada por Jim Baker, antigo conselheiro do FBI, comentando na CNN as novas declarações de Donald Trump perante as câmaras de televisão.
Como é sabido, o Presidente dos EUA enfrenta um processo de destituição, motivado pelo facto de, num telefonema, ter "solicitado" ao Presidente da Ucrânia que investigasse Joe Biden e o seu filho. Ora, que novo e perturbante "dramatismo" Trump introduziu em toda esta situação? Pois bem, repetiu, agora em público [video: NYT], o mesmo apelo, chegando ao ponto de sugerir que não deveria ser apenas a Ucrânia a investigar os Biden... mas também a China!
Escusado será dizer que este novo episódio, tragicamente caricatural, fragiliza ainda mais a posição institucional de Trump, ao mesmo tempo que reforça (?) a sua existência como entidade que vive apenas pela televisão, para a televisão. De uma maneira ou de outra, o desenlace da sua saga política não poderá deixar de envolver alguma reflexão, metódica e exigente, sobre o perverso funcionamento da galáxia mediática que habitamos.

quarta-feira, setembro 25, 2019

“No one is above the law.”

I. "Ninguém está acima da lei", lembrou Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, ao anunciar a abertura de um processo formal de investigação com vista à destituição [impeachment] do Presidente dos EUA, Donald Trump. Motivo: uma suposta tentativa de Trump em pressionar o presidente ucraniano a investigar o antigo vice-presidente Joe Biden [DN].

II. Primeiro: a presunção de inocência de Trump (como de qualquer cidadão que, por uma ou outra razão, é objecto de alguma investigação legal) não está em causa. Segundo: o resultado concreto deste processo está longe de poder ser antecipado, até porque cabe ao Senado decidir, por maioria de dois terços, a eventual demissão do presidente (recorde-se que o Partido Republicado é maioritário no Senado).

III. Uma coisa é certa: este novo facto político [video: New York Times] implica alguma reconversão de forças no interior da paisagem política americana, com incidências mais que prováveis na cena internacional. De uma maneira ou de outra, para o melhor ou para o pior, depois do impacto ambivalente do Relatório Mueller, a discussão sobre a legitimidade política de Trump deixou de ser um exercício estritamente moral — agora, mais do que nunca, a exigência ética exprime-se no plano institucional.

sábado, setembro 21, 2019

Os cartazes da política

Ballot Box Bunny (1951)
Nas nossas ruas, quase todos os cartazes eleitorais reflectem uma exasperante pobreza criativa. Será que a maioria dos nossos políticos já pensou sobre o que significa dizer que “vivemos num mundo de imagens”? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (14 Setembro).

Convenhamos que a pose de Bugs Bunny a apelar ao voto na sua pessoa é uma imagem que não nos deixa indiferentes. Pertence a Ballot Box Bunny, curta-metragem de 1951 realizada por Fritz Ferleng, incluída na lendária série “Merrie Melodies”, da Warner Bros. Os espectadores de cinema com pelo menos 50 anos de idade lembrar-se-ão dessas pequenas pérolas dos desenhos animados como “complementos” das sessões de cinema, isto é, antecedendo a projecção do “filme de fundo”.
Mas não estou a propor uma mera vocação nostálgica. Falo do presente, perguntando-me (e perguntando ao leitor) se nas ruas das nossas cidades, vilas e aldeias podemos encontrar alguma imagem do actual momento pré-eleitoral que possua uma pequena fracção da energia, e também da alegria, do coelho da Warner.
O mais estrito bom senso impõe que contrariemos qualquer tentativa de generalização fácil: ao longo das próximas semanas, vamos, por certo, deparar com cartazes de contagiante imaginação. Ainda assim, o actual panorama é confrangedor: a maioria dos cartazes eleitorais reflecte uma desesperante pobreza criativa e, mais do que isso, faz equivaler direitas e esquerdas numa só linguagem iconográfica.
Ironizo? Não necessariamente. Claro que não peço a qualquer dirigente político que tente reproduzir a performance de Bugs Bunny. Acontece que, tal como em anteriores períodos eleitorais, assistimos ao triunfo daquilo que, a meu ver, justifica a criação de uma nova terminologia científica. A saber: o síndrome das agências de imobiliário.
Observem-se os cartazes dos profissionais que trabalham nessas agências. Bem sei que eles se tornaram figuras importantes da dinâmica social, ajudando-nos a enfrentar os problemas de habitação. Não é isso que está em causa. Mas isso também não anula o facto de os seus cartazes serem de uma apoteótica pobreza iconográfica: banais fotografias “photomaton” enquadradas por um amontoado de letras de cores mais ou menos berrantes.
Tal banalidade estética não impede que, através deles, consigamos um bom arrendamento. As coisas tornam-se um pouco mais perturbantes quando observamos os nossos políticos a usarem a mesma estética: uma foto de uma cabeça desligada de qualquer contexto, por vezes agregada a outra foto de outra cabeça, seguramente obtidas em momentos diferentes, de tal modo que a montagem das imagens parece ter sido feita por um (mau) aluno de uma escola infantil.
Dir-me-ão que a pertinência das ideias políticas de cada um não se pode reduzir a estes incidentes figurativos. Não poderia estar mais de acordo. E faço questão em sublinhar que, embora o nosso mundo mediático nem sempre me ajude, resisto à facilidade de apreciar as ideias seja de quem for a partir do seu “visual”.
O que também não nos impede de enfrentar uma questão assaz interessante: estamos perante objectos quase sempre gerados por especialistas de marketing e gabinetes de comunicação que, pelo que vemos, se limitam a repetir, estoicamente, o imaginário promocional das agências de imobiliário. Surgindo, assim, uma pergunta pedagógica: como todos os políticos gostam de proclamar que “vivemos num mundo de imagens”, que aconteceu para que se exponham em tão medíocre iconografia?
Será que esses mesmos políticos se dão ao luxo de possuir um conceito meramente instrumental das imagens? Dir-se-ia que nunca pensaram sobre o facto de, nos nossos dias, não haver prática política que, para o melhor ou para o pior, não passe por alguma matéria figurativa. No limite, alguns deles viverão mesmo na candura de acreditar que a tristeza conceptual dos seus cartazes atrairá aos locais de voto os 4.273.748 abstencionistas das últimas legislativas. Por mim, não sei se recorreria aos seus serviços para alugar casa.

terça-feira, setembro 03, 2019

Boris Johnson & Donald Trump
— anatomia do burlesco

[ DN ]
Será que Boris Johnson e Donald Trump vão cair das escadas? Algumas imagens contemporâneas da vida política passaram a integrar componentes eminentemente burlescas — este texto foi publicado no Diário de Notícias (31 Agosto).

O burlesco já não é o que era. Quando vemos a fotografia de Donald Trump a apoiar-se em Boris Johnson para enfrentar um lanço de escadas, compreendemos que o burlesco mudou de cenário. E não é a reunião dos G7 que define tal cenário: o que está inscrito na história do cinema como uma sofisticada linguagem de desafio aos limites físicos e simbólicos do corpo passou a existir como elemento mais ou menos hilariante (burlesco, justamente) do nosso espaço mediático.
Que aconteceu, então? Não é fácil lidar com o burlesco, quanto mais não seja porque tudo o que envolve a comédia e o riso tende a ser socialmente celebrado como "entretenimento", logo alheio a qualquer derivação intelectual. E por aí começam equívocos e incompreensões. Porquê? Porque a inscrição do burlesco na cultura popular não anula o facto de a sua linguagem envolver uma especial capacidade de abstração intelectual.
Lembremos a referência óbvia dos filmes da Keystone Film Company de Mack Sennett, produzidos há mais de um século (até 1917). As célebres e aceleradas perseguições desencadeadas pelos polícias ("Keystone Cops") não se limitavam a ser uma acumulação de correrias e trambolhões [foto]. O seu funcionamento pressupõe sempre que tais atribulações decorrem de uma determinada ordem social e legal, conceito intelectual entre todos. Dito de outro modo: são filmes sobre a possibilidade de reposição da ordem, sendo o riso uma expressão visceral do misto de necessidade e fragilidade que reconhecemos nessa mesma ordem.


Escusado será acrescentar que, de Charlie Chaplin a Jerry Lewis, sem esquecer o genial Buster Keaton, esse poder revelador está presente em toda a história do burlesco. Os sinais mais evidentes das suas encenações nunca são alheios a uma estranheza genuinamente humana que começa na dificuldade de compreendermos as mensagens que recebemos do nosso próprio corpo. Veja-se ou reveja-se O Homem das Mulheres (1961), obra-prima de e com Jerry Lewis [poster] — será preciso sublinhar que todos os acidentes e incidentes que ele protagoniza decorrem da dificuldade, potencialmente trágica, de lidar com o universo feminino?


Trump e Johnson pertencem a outro mundo, vivem através de outro sistema de linguagem. Claro que neles encontramos a verdade mais primitiva do burlesco. A saber: o corpo é esse elemento visível, mas imponderável, que em qualquer momento pode pôr em causa o nosso papel no interior de um determinado evento, grupo ou comunidade. Dito de forma muito simples: a possibilidade de os dois líderes políticos caírem escada abaixo faz parte do humor que, de modo mais ou menos consciente, associamos à imagem.
Acontece que, agora, neste tempo em que a velocidade da informação tende a desqualificar o próprio trabalho informativo, a esmagadora maioria dos eventos que vemos obedece a uma lógica de spot publicitário: o que conta não é a "mensagem" que se passa, mas apenas a criação de uma agitação efémera cuja vibração possa gerar uma infinita circulação. E não há dúvida de que Trump e Johnson são mestres dessa arte menor de protagonizar imagens suscetíveis de alimentar os nossos circuitos virtuais. A imagem adquiriu mesmo um funcionamento idêntico ao chamado soundbite: o que se diz (ou mostra) pode ser vazio, até mesmo liminarmente estúpido, mas a sua multiplicação mediática confere uma espécie de dignidade abstrata a quem o gerou.
Surgem, assim, duas questões perturbantes. A primeira é ancestral na vida do jornalismo e, como é óbvio, não pode ser pensada apenas a partir de exemplos mais ou menos anedóticos como esta fotografia: trata-se de discutir, não apenas o que se mostra, mas como mostrá-lo e difundi-lo. A segunda adquiriu configurações muito particulares no novo universo "social", exponenciado pela nossa vida em rede: no limite, há mecanismos de intervenção política que passaram a aplicar uma linguagem mais ou menos burlesca. E não temos Keystone Cops para lidar com o problema.

sábado, agosto 03, 2019

"Green River" — 50 anos

John Fogerty, Tom Fogerty, Stu Cook e Doug Clifford. Nas convulsões musicais e políticas de 1969, os Creedence Clearwater Revival distinguiram-se por uma participação emblemática, a começar pelo facto de terem lançado três álbuns de originais: Bayou Country, em Janeiro, Green River, em Agosto, Willy and the Poor Boys, em Novembro [NPR].
A canção Bad Moon Rising, do segundo desses álbuns, ficou como bandeira de um rock cuja nostalgia folk se projectava numa desencantada visão do presente — there's a bad moon on the rise.
Green River foi lançado a 3 de Agosto de 1969 — faz hoje 50 anos.

I see a bad moon a-rising
I see trouble on the way
I see earthquakes and lightnin'
I see bad times today

Don't go 'round tonight
It's bound to take your life
There's a bad moon on the rise

I hear hurricanes a-blowing
I know the end is coming soon
I fear rivers over flowing
I hear the voice of rage and ruin

Don't go 'round tonight
[...]

I hope you got your things together
I hope you are quite prepared to die
Look's like we're in for nasty weather
One eye is taken for an eye

Don't go 'round tonight
[...]

terça-feira, julho 23, 2019

O helicóptero de Donald Trump

Quando vemos Donald Trump a falar aos jornalistas nos jardins da Casa Branca, nem sempre é fácil ouvir o que ele diz. Porquê? Porque lá ao fundo está um helicóptero a rugir — este texto foi publicado no Diário de Notícias (20 Julho), com o título 'Porque grita Trump'.

A imagem possui um valor icónico. No sentido figurativo que António Houaiss estabelece no seu dicionário: “pessoa ou coisa emblemática do seu tempo, do seu grupo, de um modo de agir ou pensar, etc.”
Creio que esse valor começa num básico efeito de reconhecimento. Aí está o contorno do corpo de Donald Trump, a coloração do seu cabelo e o gesto de desenhar um arco com as mãos, reiterando algo que considera evidente. Tudo isso pressupõe a ocupação de um lugar concreto, os jardins da Casa Branca, em que as figuras dos seguranças e os microfones dos jornalistas são elementos correntes da cenografia da informação presidencial.
Trata-se, curiosamente, de uma imagem oficial: um fotograma — ou “frame”, para aplicarmos a terminologia que o digital impôs — retirado de um vídeo da Casa Branca (repare-se no emblema colocado no topo direito com o endereço abreviado: WH.GOV). O certo é que tão cândida descrição está longe de ser suficiente para compreendermos o funcionamento da imagem e do fluxo de imagens em que está integrada.


Falta-nos algo que quase sempre esquecemos quando proclamamos esse lugar-comum, tão cómodo e tão preguiçoso, segundo o qual “vivemos num mundo de imagens”. Falta o som do ambiente em que a imagem foi gerada. Dito de outro modo: precisamos de olhar para o fundo e sublinhar a presença do Marine One, o helicóptero presidencial. No vídeo, o ruído do helicóptero domina a cena, levando Trump a gritar para que as suas palavras possam ser ouvidas.
Como espectador interessado na quotidiana convivência de políticos e televisões, ou melhor, nas narrativas geradas através dessa convivência, fui-me apercebendo desse dado insólito: na Casa Branca, a esmagadora maioria das declarações de Trump aos jornalistas passou a ser feita antes das suas saídas em helicóptero, com o Presidente dos EUA a “integrar” o ruído no seu espaço comunicacional.
Em boa verdade, a situação já tinha sido considerada por alguma informação americana. Assim, em Março do corrente ano, o jornal The Washington Post publicou um pequeno vídeo (um minuto e meio) em que inventariava as suas variações dramáticas. É fascinante, com o seu quê de assustador, observar como Trump, consciente das dificuldades de comunicação originadas pelo ruído do helicóptero, promove esse ruído a contraponto do seu discurso. Quando um jornalista lhe coloca uma questão que ele próprio não terá entendido, diz: “Você está a competir com o helicóptero...” Ou dá conta das suas dificuldades de audição: “Peço desculpa, mas tenho um helicóptero a rugir ali ao fundo...” Ou ainda: “Não consigo ouvi-lo, tenho ali um helicóptero...”


Ainda em 2018, numa edição de Dezembro do programa The David Pakman Show (disponível em televisão, rádio e Internet), o próprio Pakman tinha perguntado se faria sentido acusar Trump de organizar este tipo de situações para evitar enfrentar as perguntas mais difíceis dos jornalistas. Com louvável prudência, Pakman evitava cair nesse género de especulação “policial”, chamando antes a atenção para o essencial: na prática, aquela conjuntura “informativa” favorece a fuga sistemática de Trump a qualquer diálogo sério.


Falta recordar o mais perturbante, eventualmente o mais incómodo. A saber: a possibilidade de os próprios jornalistas recusarem “dialogar” naquele aparato ruidoso em que, objectivamente, apenas é possível registar um ou outro “soundbyte”.
Será tal possibilidade uma via pertinente para afirmar a identidade do jornalismo? Não tenho qualquer certeza sobre isso, mas é um facto que os “soundbytes” assim obtidos são regularmente lançados (e reproduzidos ad infinitum) nos circuitos internacionais de televisão. Sobra, por isso, uma interrogação cruel: de que modo o exercício do poder político passou a conter muitos elementos induzidos, sustentados e, por vezes, inconscientemente potenciados pelos dispositivos “naturais” da televisão?

terça-feira, julho 09, 2019

Philip Roth no país de Trump

PHILIP ROTH
(1933 - 2018)
A obra de Philip Roth contém algumas das páginas mais admiráveis que se escreveram sobre a América das últimas décadas. Com ou sem o seu beneplácito, o cinema e a televisão não lhe são indiferentes — este texto foi publicado no Diário de Notícias (6 Julho).

Oito meses antes do seu falecimento, o escritor americano Philip Roth (1933-2018) publicou uma colectânea de memórias, entrevistas e ensaios, incluindo alguns inéditos, intitulada Why Write? (Library of America, 2017). São páginas fascinantes de alguém que manteve uma reflexão tão obstinada quanto exigente sobre as convulsões do seu país e, em particular, o lugar do escritor no interior dessas convulsões.
São dele estas palavras, proferidas numa sessão de celebração do seu 80º aniversário, a 19 de Março de 2013, no Museu de Newark: “(...) esta paixão pela especificidade das coisas, pela hipnótica materialidade do mundo em que vivemos, surge de modo fundamental na tarefa assumida por todos os romancistas americanos, desde Melville e a sua baleia ou Mark Twain e o seu rio: encontrar em palavras a descrição mais tocante e mais sugestiva para dar conta da mais remota das pequenas coisas que fazem da América o que ela é. Sem uma sólida representação da coisa — animada ou inanimada —, sem uma representação decisiva do real, não há nada” (traduzo da edição francesa, Pourquoi écrire?, Folio/Gallimard, 2019).
Roth não abdica do valor das palavras e, por maioria de razão, do labor da escrita. Há nele uma intransigência do dizer e do escrever cada vez mais importante face a uma vida política tecida de muitas acelerações, visuais e audiovisuais, em que a brevidade pueril do Twitter foi mesmo transformada pelo Presidente dos EUA em “gestão” quotidiana da esfera política. Em Janeiro de 2017, em declarações à revista The New Yorker, Roth resumiu a questão, definindo Donald Trump como um “artista da ilusão” (tradução branda de “con artist”).
Não deixa de ser curioso e, de alguma maneira, pedagógico observar que Roth não explora qualquer sugestão de paralelismo entre o seu trabalho — e, em boa verdade, de toda a geração de escritores do pós-guerra (Cormac McCarthty, Don DeLillo, Joyce Carol Oates, etc.) — e as aventuras narrativas que foram acontecendo no grande cinema americano, de John Ford a Clint Eastwood. Nem sequer gasta tempo a avaliar as adaptações cinematográficas dos seus romances, algumas delas, a meu ver, francamente brilhantes. Penso, por exemplo, e para ficarmos pelos títulos mais recentes, em A Humilhação (Barry Levinson, 2014), Indignação (James Schamus, 2016) e Uma História Americana (Ewan McGregor, 2016), este último baseado, como é óbvio, em Pastoral Americana (todos disponíveis em traduções portuguesas com chancela Dom Quixote).
Em boa verdade, faz sentido que Roth se distancie das imagens do cinema. A sua defesa de uma “sólida representação da coisa” enraíza-se num modo de ver, pensar e escrever que não necessita de qualquer caução corrente, até porque ele aponta o dedo a uma “cultura popular voraz e devoradora” que leva os jovens a “viverem segundo crenças para eles fabricadas pelos que não pensam” (palavras de uma entrevista de 2014).
O elogio do pensamento envolve, não a especulação abstracta, mas sim essa “representação decisiva do real” que pode até fundamentar-se em elementos inventados, como acontece no seu romance A Conspiração Contra a América (2004). Aí, Roth formula a hipótese de as presidenciais americanas de 1940 terem sido ganhas, não por Franklin D. Roosevelt, mas sim por Charles Lindbergh, o célebre aviador cujas ideias anti-semitas (reais) o levam a negociar (no livro) um pacto com Adolf Hitler. Ou como o próprio Roth referiu, em 2017, nas citadas declarações a The New Yorker: “É mais fácil entender a eleição de um Presidente Charles Lindbergh do que um verdadeiro Presidente como é Donald Trump.”
Eis uma lição pouco popular nos dias de hoje (porque, precisamente, contraria muitas crenças da cultura popular): a representação “espontânea” e “automática” da nossa existência, dominante no território das chamadas redes sociais, não pode ser confundida com uma visão transparente, muito menos redentora, da cidadania.
Registemos, enfim, que o autor e produtor David Simon (criador da série The Wire) está a trabalhar numa mini-série inspirada em A Conspiração Contra a América. E também que, numa entrevista ao New York Times, em Janeiro de 2018, Roth considerou que o assunto “está em boas mãos”.

sexta-feira, junho 28, 2019

Migrações, jornalismo e fotografia

Uma mãe e os seus filhos a norte de Palenque, estado de Chiapas, México
[FOTO: Marco Ugarte/AP]
Dar a ver o labirinto de dramas das migrações contemporâneas — eis uma via essencial, porventura uma missão, do trabalho jornalístico. Ao mesmo tempo, dar a ver pressupõe e, num certo sentido, impõe que tal tarefa possa desenvolver-se para lá da mera gestão de imagens "emblemáticas" (mesmo reconhecendo que tais imagens podem possuir um inestimável valor simbólico e político). Eis o exemplo modelar de um portfolio organizado pelo jornal The Boston Globe: 19 fotografias de muitas formas de sobrevivência e resistência.

À espera de um comboio em Salto del Agua, Chiapas, México
[FOTO: Marco Ugarte/AP]
Abrigo do Bom Pastor em Tapachula
[FOTO: Rebecca Blackwell/AP]

quinta-feira, junho 27, 2019

Madonna: "American Life", Parte 2

Mais um video para figurar em lugar de destaque na história de Madonna — e, em boa verdade, na história iconográfica dos EUA em tempos de Donald Trump. Com God Control, Madonna assina aquele é que, seguramente, o seu mais contundente panfleto político desde o teledisco de American Life (lançado em 2003). Neste, a América de George W. Bush surgia encenada como uma paisagem de delirante e irresponsável proliferação de muitas formas de violência, tudo envolvendo uma interrogação radical da própria identidade pessoal:

I'd like to express my extreme point-of-view
I'm not a Christian and I'm not a Jew
I'm just living out the American dream
And I just realized that nothing is what it seems

Agora, o tema duplica-se e transfigura-se, tanto mais que "A nossa nação mentiu/Perdemos respeito":

Everybody knows the damn truth
Our nation lied, we lost respect
When we wake up, what can we do?
Get the kids ready, take them to school
Everybody knows they don't have a chance
To get a decent job, to have a normal life

O efeito é tanto mais perturbante quanto o crescendo de violência que o teledisco sugere (em momentos que, perversamente, não deixam de recordar encenações festivas como a de Deeper and Deeper, em 1992) se apresenta tratado através de uma sequência de situações cronologicamente invertida, protagonizada pela própria Madonna. De acordo com uma regra de ouro da sua iconografia de obstinada Material Girl, ela duplica-se numa personagem que escreve a letra da própria canção, numa pontuação de crescente desencanto e desespero. Coincidência nada acidental: American Life e God Control foram ambos realizados por um velho aliado, o sueco Jonas Åkerlund.


* * * * *

American Life existe em duas versões: a primeira, produzida antes do início da invasão do Iraque pela coligação liderada pelos EUA (20 Março 2003), surgiu já com essa invasão em marcha, de imediato suscitando acesas controvérsias. Poucos dias depois, a 1 de Abril, Madonna decidiu retirar o teledisco, divulgando uma declaração em que dizia, nomeadamente: "Decidi não difundir o meu video. Foi filmado antes da guerra começar e não creio que seja apropriado emiti-lo neste momento. Devido ao volátil estado do mundo, por manifestação de sensibilidade e respeito pelas forças armadas, que apoio e por quem rezo, não quero correr o risco de ofender quem quer que seja que possa interpretar erradamente o significado deste video."
A segunda montagem de American Life conserva a imagem introdutória de Madonna em uniforme militar, agora como "narradora" de todo o teledisco, apresentando como pano de fundo bandeiras de países de todo o mundo; começou a circular a 16 de Abril de 2003 — eis as duas versões.



terça-feira, junho 25, 2019

Trump, Buzz Lightyear & etc.

Joe Biden? Bernie Sanders? Elizabeth Warren? Quando o Libération pergunta quem poderá "vencer Trump", dir-se-ia que todas as hipóteses parecem... sequelas — tal como, aliás, o próprio Donald Trump que se foi transformando numa interminável sequela mediática da sua mitologia, dispensando mesmo qualquer verosimilhança narrativa. Neste contexto, Buzz Lightyear, reencontrado em Toy Story 4, pode mesmo surgir como alternativa. A caricatura é feliz, embora talvez arraste consigo a mais infeliz das constatações. A saber: quem voar mais alto no seu delírio paranóide já está a fazer política — to infinity and beyond!

segunda-feira, junho 17, 2019

"O nosso planeta que se afunda"

Um pouco por toda a parte, as convulsões do clima estão mesmo a provocar a "subida dos mares", a obrigar à "fuga de habitantes", enfim, a contribuir para o "desaparecimento de povoações". Mas a fotografia do Secretário-Geral das Nações Unidas não se esgota na sua espantosa vibração simbólica. Acontece que a imagem de António Guterres, assinada por Christopher Gregory, possui um efeito realista suplementar: foi obtida na costa de Tuvalu, pequeno país da Polinésia, a sentir de forma dramática a alteração dos mais primitivos equilíbrios ecológicos.
Como escreve o jornalista da Time, Justin Worland, "Guterres está a trabalhar no sentido de posicionar as pequenas nações-ilhas não apenas no centro político do debate, mas também como o seu centro moral" — eis uma urgência que, como se prova, o melhor jornalismo sabe assumir no interior do seu trabalho específico.

Sailosi Ramatu (à direita), administrador da povoação de Vunidogoloa,
e o seu filho Simi Botu naquilo que resta da sua antiga casa
[FOTO: Christopher Gregory]

quarta-feira, junho 12, 2019

Jon Stewart ou a precisão das palavras

Que não haja confusões típicas da cultura mediática "cor de rosa": o facto de alguém, anónimo ou figura pública, surgir em imagens de evidente comoção, eventualmente em lágrimas, nada tem a ver com uma qualquer compulsiva prova de verdade — e só por chantagem afectiva pode ser tratado como um fim em sim mesmo.
O certo é que as emoções que podemos ver no rosto e na pose de Jon Stewart, dirigindo-se a elementos do Congresso dos EUA, não pertencem ao domínio do gratuito informativo nem da manipulação cognitiva. O ex-apresentador de The Daily Show falava em defesa das pessoas envolvidas nas acções de salvamento no World Trade Centre de Nova Iorque, na sequência do atentado de 11 de Setembro, voltando a criticar com veemência a inacção dos legisladores no sentido de garantir as devidas condições de tratamento e apoio médico a essas pessoas. São momentos em que, também na televisão, voltamos a acreditar no valor primordial das palavras e na precisão que o seu uso pode envolver — eis a intervenção de Jon Stewart em registo da CNN.