Lady Gaga
“Artpop”
Interscope
3 / 5
Houve um equívoco meio deslumbrado a acompanhar o nascimento do novo disco de
Lady Gaga, logo no momento em que o conceito foi divulgado. Juntar uma ideia de arte à música da pop está longe de ser novidade ou mesmo coisa rara. Basta um par de segundos para nos lembrarmos da capa com a banana, criada por Andy Warhol para o álbum de estreia dos Velvet Undreground ou a colagem que, no mesmo 1967, definia a multidão de referências que habitavam o
Sgt. Pepper's dos Beatles... Mas agora que o álbum está aí, fica claro que nem sempre os conceitos (bem estimulantes) que a cantora norte-americana toma como principio de trabalho conhecem expressão no mesmo patamar nas canções que nos apresenta. E mesmo sendo
Artpop um esforço musical mais consequente (e interessante) que o mergulho menos vitaminado entre sabores da cultura rock que floresceu em
Born This Way, a verdade é que ao novo disco falta o fulgor pop que fez de
The Fame Monster o momento mais sólido (até ver) da sua discografia. Na verdade, e além desse mini-LP editado como complemento ao “famoso”
The Fame, nunca os alinhamentos dos álbuns da cantora conseguiram igualar no seu todo os momentos de grande inspiração pop das suas melhores canções (que, reconheço, estão algumas entre o que de melhor a pop
mainstream nos deu nos últimos cinco anos). Se
The Fame (e o complemento) expressaram um relacionamento com os espaços de diálogo entre a pop, as eletrónicas e um geometrismo rítmico apontado à pista de dança, estabelecendo uma relação natural com sinais dos tempos no que era então a música pop (vincando mesmo assim claras marcas de personalidade interpretativa), já
Born This Way optou em ser um presente atento a memórias mais remotas, tentando assimilar heranças de um certo classicismo rock sem contudo abdicar de muitas das formas "modernas" que entretanto a cantora trabalhara e integrara na sua linguagem. Independentemente da demanda “arty” (que é aqui mais conceito inspirador que real materialização da coisa),
Artpop procura antes olhar adiante, partindo em busca do que poderia ser uma pop
mainstream nascida da linha da frente de alguns dos entusiasmos do presente de alguma eletrónica dançável (ler terrenos de Skrillex e suas periferias). Ao contrário das poucos inspiradas opções de Madonna nos seus mais recentes dois álbuns, Lady Gaga junta-se aqui a uma série de jovens produtores (como Zedd ou Hugo Leclerq), neles confiando importante ajuda para a construção desta visão, com resultados francamente interessantes em temas como
Swine ou
Aura (uma das melhores canções do alinhamento). Porém o que de melhor há entre os 15 temas de
Artpop são as suas duas abordagens mais clássicas a heranças pop que escutamos entre
Mary Jane Holland ou
Fashion, esta última em claro
flirt por memórias de Bowie em finais dos anos 70. E só a vocalização excessivamente dramática de
Dope (onde colabora o veterano Rick Rubin) faz com que não se fale aqui de três momentos maiores em terreno clássico. Essencialmente exultante e festivo (com trégua melancólica em
Dope),
Artpop é um disco tão variado nas formas que acaba por diluir quasiquer tentativas de procura de um conceito (real) que o estruture. Se, depois do mafgnífico
Aura, o arranque do alinhamento é seguro (
Venus, mesmo longe da inspiração de um
Bad Romance, dá conta do recado), a fúria visionária perde entretanto gás nos algo medianos
G.U.Y. e
Sexxx Dreams, tropeçando fora de portas ao tentar (sem sucesso) um diálogo com o
hip hop em
Jewels'n'Drugs) e um retomar do tom rock estafado de
Born This Way em
Manicure. O diálogo com R Kelly em
Do What You Want e o pouco vitaminado tema-título não ajudam, recuperando o disco ao som de
Swine, Donatella,
Fashion ou
Mary Jane Holland. Na reta final, e depois de
Dope, o histrionismo desfocado de
Gyspy e o single pouco nutritivo em ideias que
Aplause nos mostrou encerram um disco irregular, bem intencionado na busca de uma modernidade pop, pontualmente iluminado por momentos irresistíveis, mas com tropeções que se deviam ter evitado onde tanta reflexão parece ter existido.
PS. A capa, criada por Jeff Koons e citando a Laranja Mecânica de Kubrick, é a melhor dos discos de Lady Gaga até ao momento.