Mostrar mensagens com a etiqueta Obituários. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Obituários. Mostrar todas as mensagens

domingo, dezembro 15, 2019

Anna Karina (1940 - 2019)

Símbolo modelar da Nova Vaga francesa, presença emblemática da obra de Jean-Luc Godard, intérprete de delicada subtileza e vulnerabilidade, a actriz dinamarquesa Anna Karina faleceu no dia 14 de Dezembro, em Paris, vitimada por um cancro — contava 79 anos.
Há qualquer coisa de fábula na história de Karina como figura nuclear da produção francesa (e, em boa verdade, europeia) da década de 60. Começou aos 18 anos, em Paris, como modelo. Um ano depois, era convidada por Godard para um papel na sua primeira longa-metragem, À Bout de Souffle/O Acossado (1959), recusando por não querer representar uma cena que envolvia nudez. Em 1961, acaba por rodar mesmo sob a direcção de Godard em Uma Mulher É uma Mulher, deliciosa evocação, de uma só vez romântica e paródica, da tradição dos musicais de Hollywood — no mesmo ano, celebram um casamento que duraria até 1967.
Dir-se-ia que os filmes em que ambos trabalharam juntos são também um eco afectivo, imponderável e indecifrável, da sua vida comum. Foram mais seis longas-metragens: Viver a sua Vida (1962), O Soldado das Sombras (1963), Bando à Parte (1964), Alphaville (1965), Pedro, o Louco (1965) e Made in USA (1966); e ainda a curta Antecipação, um dos episódios de A Mais Antiga Profissão do Mundo (1967).
Algures entre o imaginário romântico e uma arte teatral de metódica distanciação, Karina foi, sob o olhar de Godard, um ser cinematográfico sem equivalente, encarnando o misto de nostalgia e experimentação que a Nova Vaga conteve. O que, entenda-se, não diminui a importância de outros filmes também marcados pela sua presença luminosa, com inevitável destaque para A Religiosa (1966), de Jacques Rivette, adaptando a obra de Diderot sobre uma freira forçada a assumir votos religiosos contra sua vontade. Vimo-la ainda, por exemplo,  em A Ronda do Amor (1964), de Roger Vadim, O Estrangeiro (1967), de Luchino Visconti, Michael Kohlhaas, o Rebelde (1969), de Volker Schlöndorff, Encontro em Bray (1971), de André Delvaux, ou L'Assassin Musicien (1976),de Benoît Jacquot.
Por duas vezes, em Vivre Ensemble (1973) e Victoria (2008), experimentou as tarefas de realização, em ambos os casos assumindo também o papel principal. Curiosamente, para o público francês, era ainda muito conhecida pelas suas performances musicais, em particular os duetos com Serge Gainsbourg para o telefilme Anna (1967), de Pierre Koralnik.

>>> Cena de Alphaville, com Eddie Constantine.


>>> Trailer de Made in USA.


>>> Com Serge Gainsbourg, canção Ne Dis Rien, do telefilme Anna.


>>> Obituário no jornal Le Monde.

Danny Aiello (1933 - 2019)

Se ser secundário é uma arte específica, Danny Aiello foi um dos seus mais requintados especialistas: o actor americano faleceu no dia 12 de Dezembro, em New Jersey – contava 86 anos.
Depois de ter passado pelas mais diversas actividades, incluindo as funções de segurança em The Improv (um célebre clube de comédia, por onde passaram nomes como Milton Berle, Billy Crystal ou Liza Minnelli), Aiello só começou a ter uma actividade regular em cinema no começo dos anos 70, estreando-se com três títulos exemplares: Toca o Tambor Devagar (1973), de John D. Hancock, O Padrinho - Parte II (1974), de Francis Ford Coppola, e O Testa de Ferro (1976), de Martin Ritt.
A sua filmografia de muitas dezenas de títulos é tanto mais impressionante quanto, de facto, a sua versatilidade lhe permitiu aparecer nos registos mais contrastados. Na década de 80, vale a pena destacar Era Uma Vez na América (1984), de Sergio Leone, A Rosa Púrpura do Cairo (1985) e Os Dias da Rádio (1987), ambos de Woody Allen, O Feitiço da Lua (1987), de Norman Jewison, e Não Dês Bronca (1989), de Spike Lee — este último valeu-lhe uma nomeação para o Oscar de melhor actor secundário.
Vimo-lo ainda, por exemplo, em Léon, o Profissional (1994), de Luc Besson, Prêt-à-Porter (1994), de Robert Altman, ou A Sombra da Corrupção (1996), de Harold Becker. Presença sempre visceral e transparente, Aiello surgiu mesmo no peculiar registo do teledisco, em Papa Don't Preach (1986), de Madonna, dirigido por James Foley, assumindo a personagem do pai que toma conhecimento da gravidez da filha. Com carreiras paralelas no teatro e na música (interpretando, sobretudo, standards americanos), deixou por estrear a comédia One Moment, de Deirdre O'Connor.

>>> Teledisco de Papa Don't Preach + trailer de O Feitiço da Lua + cena de Não Dês Bronca.






>>> Obituário em The Hollywood Reporter.

sábado, dezembro 07, 2019

Ron Leibman (1937 - 2019)

Secundário de metódico talento, o actor americano Ron Leibman faleceu no dia 6 de Dezembro, em Nova Iorque, na sequência de complicações motivadas por uma pneumonia — contava 82 anos.
Entre os momentos altos da sua carreira teatral, destaca-se a composição da personagem de Roy Cohn na peça Anjos na América — com ela ganhou, em 1993, um prémio Tony. Muito conhecido também através da sua participação na série televisiva Friends (1996-2004), teve no cinema uma presença quase sempre discreta, mas plena de versatilidade. Entre os seus papéis mais importantes contam-se as participações em O Grande Golpe (1972), de Peter Yates, Matadouro 5 (1972), de George Roy Hill, Norma Rae (1979), de Martin Ritt, O Grande Zorro (1981), de Peter Medak, O Lado Obscuro da Lei (1996), de Sidney Lumet, Velocidade Pessoal (2002), de Rebecca Miller, e Auto Focus (2002), de Paul Schrader, este comercialmente inédito no mercado português. No seu derradeiro trabalho, deu voz à personagem de Ron Cadillac na série animada para adultos Archer (2013-2016).

>>> Trailer de O Grande Golpe [com o World Trade Center em fase de construção].


>>> Entrega do prémio Tony por Anjos na América.


>>> Trailer da segunda temporada de Archer.


>>> Obituário em The Hollywood Reporter.

domingo, novembro 24, 2019

Michael J. Pollard (1939 - 2019)

Figura bizarra, inclassificável e fascinante, foi um secundário com uma carreira irregular, mas pontuada por momentos inesquecíveis: o actor americano Michael J. Pollard faleceu no dia 20 de Novembro, em Los Angeles, vitimado por uma paragem cardíaca — contava 80 anos.
Formado no Actors Studio (foi colega de Marilyn Monroe), começou a sua carreira na televisão, tendo surgido, por exemplo, em Alfred Hitchcock Presents, The Andy Griffith Show ou The Lucy Show. A sua peculiar figura "infantil" valeu-lhe pequenos papéis em dois filmes significativos das convulsões económicas e formais da indústria ao longo da década de 60: Vêm aí os Russos, Vêm aí os Russos (1966), de Norman Jewison, e The Wild Angels (1966), de Roger Corman, este uma referência exemplar da nova produção independente.
Seja como for, foi em 1967 que Pollard interpretou o papel que ficou, para sempre, associado à sua imagem: C. W. Moss, o cúmplice nem sempre muito talentoso dos anti-heróis de Bonnie e Clyde, o par de bandidos da Grande Depressão interpretados, respectivamente, por Faye Dunaway e Warren Beatty. A realização de Arthur Penn soube transformá-lo numa personagem cuja vocação caricatural envolvia, afinal, uma desconcertante pulsão trágica — a notável composição de Pollard valeu-lhe uma nomeação para o Oscar de melhor actor secundário.
Em 1972, obteve um dos seus poucos papéis principais em Billy the Kid, História de um Patife (título original: Dirty Little Billy), por certo um dos mais brilhantes westerns "revisionistas" dos anos 60/70, encenado num tom de surpreendente realismo barroco. Vimo-lo também, por exemplo, em Melvin e Howard (1980), insólita comédia de Jonathan Demme sobre a herança de Howard Hughes, Roxanne (1987), variação moderna de Cyrano de Bergerac com assinatura de Fred Schepisi, Tango & Cash (1989), thriller quase burlesco de Andrei Konchalovsky, Dick Tracy (1990), admirável recriação da BD por Warren Beatty, e Arizona Dream (1993), comédia surreal de Emir Kusturica. Ironicamente, depois de Bonnie e Clyde, que lhe valeu também nomeações para os Globos de Ouro e os BAFTA (sem qualquer vitória), nunca mais obteve qualquer nomeação na sua carreira de mais de meio século.

>>> Bonnie e Clyde: Michael J. Pollard + Faye Dunaway + Warren Beatty.


>>> Entrevista com Skip E. Lowe, em 1990.


>>> Obituário em The Washington Post.

sábado, novembro 23, 2019

Jean Douchet (1929 - 2019)

Crítico de cinema, historiador, realizador, a sua personalidade é indissociável da história, da imaginação e do imaginário da Nova Vaga francesa: Jean Douchet faleceu no dia 22 de Novembro — contava 90 anos.
O obituário do jornal Le Monde chama-lhe "o último moicano de um período lendário da crítica de cinema". A designação não tem nada de pomposo nem peca por excesso de simbolismo; resume mesmo, com sugestiva precisão, o papel de Douchet como compagnon de route de Jean-Luc Godard, François Truffaut & etc., cruzando o gosto da análise crítica com o labor específico do cinema. Participou mesmo num "filme-bandeira" da Nova Vaga, Paris Visto por... (1965), assinando um dos seus seis sketches. Por essa altura, está ligado aos Cahiers du Cinéma, participando das convulsões teóricas e práticas de uma época de profunda interrogação do cinema e da sua relação com o mundo — recentemente, numa reedição com chancela da própria revista, ressurgiu L'Art d'aimer, antologia dos principais textos de Douchet para os Cahiers du Cinéma e a revista Arts.


Foi professor do IDHEC e, mais tarde, da escola que o integrou, La Fémis. A sua elaborada e elegante arte de exposição, combinando a contextualização histórica com a especulação analítica, ficou célebre através de muitas sessões públicas regulares, nomeadamente na Cinemateca Francesa (onde existe um cineclube com o seu nome) e na sala de cinema Le Panthéon, em Paris. Como realizador, assinou uma série de trabalhos sobre cineastas e diversas temáticas fílmicas, com destaque para Godard plus Godard (1985) e Eric Rohmer, preuves à l'appui (1994), este para a série "Cinéastes de notre temps".
Insolitamente, ou talvez não, cumpriu uma carreira de actor, surgindo em mais de duas dezenas de títulos, incluindo La Maman et la Putain (1973), de Jean Eustache, Céline et Julie Vont en Bateau (1974), de Jacques Rivette, e A Comédia de Deus (1995), de João César Monteiro. Na sua vasta bibliografia, encontramos um estudo sobre Alfred Hitchcock (1967), La Modernité cinématographique en question (1992) e Le Théâtre dans le cinéma (1993). Em 2011, Thierry Jousse dedicou-lhe o documentário Jean Douchet ou l'art d'aimer.


>>> 1968: diálogo Eric Rohmer/Jean Douchet sobre a obra de Jean Renoir.


>>> Trailer do documentário Jean Douchet, l'enfant agité (2017), de Vincent Haasser, Fabien Hagege e Guillaume Namur.


>>> Obituário em Les Inrockuptibles.

sexta-feira, novembro 22, 2019

Eduardo Nascimento (1943 - 2019)

Celebrizou-se como vencedor do Festival RTP da Canção de 1967: o cantor Eduardo Nascimento faleceu no dia 22 de Novembro, vítima de doença prolongada — contava 76 anos.
Nascido em Angola, aí formou, em 1962, Os Rocks, conjunto que conseguiu algum impacto, sobretudo através de "covers" de temas clássicos, tendo recebido um Prémio Bordalo da Casa da Imprensa, em 1967, na categoria de música ligeira. Com o seu triunfo no Festival da Canção, com a canção O Vento Mudou (Nuno Nazareth Fernandes/João Magalhães Pereira), tornou-se um dos primeiros afrodescendentes a marcar presença no certame e também no Festival da Eurovisão (nesse ano a vencedora foi Sandie Shaw, com a canção Puppet on a String).
Eduardo Nascimento abandonou a actividade musical em finais da década de 60, tendo prosseguido uma carreira na TAP e outras companhias aéreas. Este ano, a 16 de Fevereiro, regressou ao Festival da Canção para interpretar O Vento Mudou, com o colectivo Cais Sodré Funk Connection.

>>> I Put a Spell on You (Os Rocks, 1966) + O Vento Mudou (1967) + O Vento Mudou (2019).






>>> Obituário na SIC Notícias.

quinta-feira, novembro 21, 2019

Terry O'Neill (1938 - 2019)

[FOTO: Misan Harriman / The Guardian]
Fotógrafo de moda muito ligado ao imaginário da década de 60, o inglês Terry O'Neill faleceu a 16 de Novembro, em Londres, vítima de cancro — contava 81 anos.
Judy Garland, os Beatles e os Rolling Stones estão no seu imenso portfolio, embora seja insuficiente defini-lo como um retratista de personalidades do mundo do espectáculo. O desporto e a política foram também áreas que despertaram o seu interesse, sendo sempre capaz de fixar as figuras mais conhecidas e célebres, contrariando a procura de qualquer pose abstracta, privilegiando antes uma espontaneidade (quase) naturalista — recordemos apenas o exemplo modelar da fotografia de "reportagem" de Winston Churchill, em 1962, saindo do hospital em que tinha estado internado.


A família real britânica e a actriz Faye Dunaway (com quem foi casado) são também referências fundamentais no seu universo fotográfico. No cinema, desempenhou as funções de produtor executivo num filme protagonizado por Dunaway: Mommie Dearest/Querida Mãezinha (1981), de Frank Perry, evocação biográfica de Joan Crawford.


Entre os livros que publicou incluem-se Celebrity (2003), Every Picture Tells a Story (2016) e Bowie by O'Neill: The definitive collection with unseen images (2019). O seu trabalho está representado na National Portrait Gallery, em Londres, através de um conjunto de 77 imagens.
Audrey Hepburn (1966)
David Bowie (1977)
Jerry Hall (1988)

>>> Obituário na BBC.
>>> Terry O'Neill em Iconic Images.

terça-feira, novembro 19, 2019

José Mário Branco (1942 - 2019)

Personalidade central na história da música portuguesa do último meio século, José Mário Branco faleceu na noite de 18 para 19 de Novembro, vítima de um acidente vascular cerebral — contava 77 anos.
A presença de José Mário Branco nos caminhos portugueses da música reflecte uma invulgar versatilidade criativa, desde os tempos de resistência ao Estado Novo através de um álbum tão emblemático como Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades (1971), até ao recente Sempre (2018), álbum de Katia Guerreiro por ele produzido.
Desde muito jovem envolvido na luta política, como militante do Partido Comunista Português, exilou-se em França em 1963, só regressando a Portugal no imediato pós-25 de Abril. Conjugando autores como Luís de Camões, Alexandre O’Neill, Natália Correia e Sérgio Godinho, Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades seria uma das bandeiras da canção de protesto anti-fascista, registo que se transfiguraria em novos modos de intervenção social e política em álbuns como A Mãe (1978), Ser Solidário (1982), A Noite (1985), Correspondências (1990) ou Resistir É Vencer (2004) — este seria o seu derradeiro álbum de originais.
Na condição de produtor, a sua trajectória artística cruzou-se, entre outros, com José Afonso, Sérgio Godinho, Fausto Bordalo Dias, Carlos do Carmo e Camané. A colaboração com Camané, iniciada com Uma Noite de Fados (1995), é normalmente apontada como um momento decisivo de reconversão da estética clássica de encenação musical do fado. Em 2014, a sua vida e obra foi tema de Mudar de Vida (2014), documentário da autoria de Nelson Guerreiro e Pedro Fidalgo.

>>> Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades + Ser Solidário + Dueto com Katia Guerreiro (Quem Diria).






>>> Obituário no Diário de Notícias.
>>> Emissão especial na Antena 1 [19-11-2019].

quarta-feira, novembro 13, 2019

Manuel Jorge Veloso (1937 - 2019)

[FOTO: Blitz]
Personalidade marcante na história do jazz português e do jazz em Portugal, Manuel Jorge Veloso faleceu no dia 13 de Novembro, vítima de doença oncológica — contava 82 anos.
Músico, compositor e crítico, foi, em 1950, um dos fundadores do Hot Clube de Portugal. Começou por se distinguir como baterista de jazz, mesmo se a sua formação, no violino e na composição, era de raiz clássica — tocou com muitos músicos, portugueses e estrangeiros, incluindo Don Byas, Chet Baker e Gerry Mulligan.
O seu trabalho no universo do jazz é tanto mais notável quando resultou também de uma invulgar versatilidade profissional, criativa e pedagógica. Foi produtor de programas de música clássica e de jazz na RTP, tendo ainda apresentado vários programas dedicados ao conhecimento e divulgação do jazz no Rádio Clube Português, Rádio Renascença e Antena 2. No cinema, compôs música para dois filmes de Fernando Lopes, Belarmino (1964) e Uma Abelha na Chuva (1972), e Pedro Só (1972), de Alfredo Tropa. Foi professor na Escola de Cinema do Conservatório Nacional (1971-72), tendo exercido a crítica de jazz em diversas publicações, incluindo os jornais A Capital e Diário de Notícias.

>>> Fragmento de Uma Abelha na Chuva, com música de Manuel Jorge Veloso.


>>> Obituário no Diário de Notícias.

domingo, novembro 03, 2019

Marie Laforêt (1939 - 2019)

Símbolo pop da canção francesa, teve também uma multifacetada carreira em cinema e teatro: Marie Laforêt faleceu no dia 2 de Novembro, em Genolier, na Suíça — contava 80 anos.
A sua presença enigmática, misto de sedução e resistência ao olhar dos outros, fez dela uma estrela relutante, ainda que muito popular no panorama da canção francesa dos anos 60/70 — é, aliás, ao longo dessas duas décadas que regista o essencial da sua obra discográfica. No cinema, estreou-se na época de lançamento da Nova Vaga, embora num título exterior ao movimento — Plein Soleil/À Luz do Sol (1960), de René Clément —, adaptação de Patricia Highsmith, em que contracenava com Alain Delon e Maurice Ronet, e que, com o passar dos anos, se transformou em objecto de culto (a sua cópia restaurada foi lançada em 2013, na secção de Clássicos do Festival de Cannes).
Como um dia escreveu o crítico e escritor François Weyergans, Laforêt era um rosto que resistia à luz, desse modo intensificando o mistério da sua presença. Entre os seus filmes mais importantes, incluem-se aqueles em que foi dirigida por Jean-Gabriel Albicocco, seu primeiro marido, com destaque para La Fille aux Yeux d'Or (1961), inspirado em Balzac, ou ainda Marie Chantal contra o Dr. Kha (1965), de Claude Chabrol, e Tangos - O Exílio de Gardel (1985), de Fernando E. Solanas. Autora também de vários livros, publicou, por exemplo, o confessional Contes et Légendes de Ma Vie Privée (1981).

>>> Duas canções de Marie Laforêt: Je Suis Folle de Vous e Viens, Viens.




>>> Trailer de À Luz do Sol, versão restaurada de 2013.


>>> Obituário na revista L'Obs.

segunda-feira, outubro 28, 2019

Robert Evans (1930 - 2019)

Terá sido o derradeiro produtor de Hollywood a merecer o epíteto de Maverick, estando ligado a títulos lendários como O Padrinho (1972) ou Chinatown (1974): de saúde frágil desde um ataque cardíaco sofrido em 1998, Robert Evans faleceu no dia 26 de Outubro, em Beverly Hills — contava 89 anos.
A biografia de Evans (de seu nome: Robert J. Shapera) está pontuada por muitas atribulações, de natureza legal ou conjugal (foi casado sete vezes), incluindo um episódio mais ou menos burlesco de declarada resistência inicial à escolha de Al Pacino para interpretar Michael Corleone em O Padrinho, de Francis Ford Coppola. Além do mais, como um dia confessou a Larry King [video], tornou-se produtor porque reconheceu não ter qualidades para cumprir a ambição de ser actor...
O certo é que o seu trabalho, sobretudo enquanto director de produção dos estúdios Paramount, lhe confere um lugar à parte na história pós-clássica de Hollywood, tendo dado luz verde, além do filme de Coppola, a projectos como A Semente do Diabo (1968), de Roman Polanski, Love Story (1970), de Arthur Hiller, Serpico (1973), de Sidney Lumet, ou The Conversation/O Vigilante (1974), de novo com Coppola.
Tornou-se produtor autónomo a partir de Chinatown, tendo ainda o seu nome ligado a títulos como O Homem da Maratona (1976), de John Schlesinger, O Cowboy da Noite (1980), de James Bridges (uma das melhores composições de John Travolta), ou The Two Jakes/O Caso da Melhor Infiel (1990), de e com Jack Nicholson (brilhante sequela de Chinatown).
A sua autobiografia, The Kid Stays in the Picture, lançada em 1994, é uma confissão amarga e doce que se tornou uma referência clássica na literatura sobre os bastidores de Hollywood — em 2002, serviu de base a um documentário homónimo, realizado por Nanette Burstein e Brett Morgen.


>>> Extracto de uma entrevista com Larry King (CNN, 1994) + genérico de Chinatown + trailer de The Kid Stays in the Picture.






>>> Obituário no Variety.

quinta-feira, outubro 17, 2019

Sally Soames (1937 - 2019)

[FOTO: The Telegraph]
Retratista de exemplar sobriedade, a foto-jornalista inglesa Sally Soames faleceu no dia 5 de Outubro, em Londres, sua cidade natal — contava 82 anos.
Começou a sua carreira em 1963, nas páginas de The Observer. Embora tenha assinado diversos trabalhos de foto-reportagem, nomeadamente no conflito árabe-israelita de 1973, foi como retratista de personalidades das artes, da política ou da moda que se distinguiu — preferindo sempre o preto e branco, os seus retratos parecem procurar uma neutralidade formal que, em qualquer caso, possui um paradoxal poder de revelação. Colaborou também em The Guardian, The New York Times e The Sunday Times, este o jornal com que manteve uma relação profissional mais prolongada (1968-2000).

MARTIN AMIS (1989)
GIORGIO ARMANI (1985)
BRUCE CHATWIN (1987)
>>> Obituário no jornal The Guardian.

terça-feira, outubro 15, 2019

Harold Bloom (1930 - 2019)

Escritor, professor e crítico literário, foi ele que nos disse que, em Harry Potter, "não há nada para ler" [video]. Figura central de muitos debates contemporâneos sobre o património literário e a identidade cultural, o americano Harold Bloom faleceu no dia 14 de Outubro, num hospital de New Haven, Connecticut — contava 89 anos.
Nasceu em Nova Iorque, de ascendência ucraniana e bielorussa (respectivamente pela parte do pai e da mãe), sendo educado em ambiente familiar segundo as regras do judaísmo ortodoxo — começou por falar o iídiche dos seus antepassados, só adquirindo prática da língua inglesa a partir dos seis anos. Talvez se possa dizer que essa sua origem plural, tecida de muitos cruzamentos de culturas e linguagens, o preparou para o estudo e celebração daquele que é o conceito mais célebre legado pela sua obra: o de Cânone Ocidental, enraizado em séculos de literatura que, segundo ele, estava a ser desvirtuada pelo ensino universitário.
O Cânone Ocidental, publicado em 1994, é, justamente, o seu livro mais célebre, mais discutido e mais polémico. A Angústia da Influência: Uma Teoria da Poesia (1973), Como Ler e Porquê (2000) e Génio (2003) são outros títulos marcantes de uma obra vastíssima, dominada pelos ensaios. Este ano publicara Possessed by Memory: The Inward Light of Criticism, revisitação dos seus autores canónicos, sempre com William Shakespeare como factor nuclear das suas reflexões e argumentações.


>>> Entrevista por Charlie Rose a propósito do lançamento de Como Ler e Porquê?


>>> Obituário na NPR.
>>> Nas páginas da Universidade de Yale.

sábado, outubro 12, 2019

Robert Forster (1941 - 2019)

Secundário de discreto e fascinante talento, obteve uma nomeação para o Oscar com Jackie Brown: o americano Robert Forster faleceu no dia 11 de Outubro, em Los Angeles, vítima de cancro no cérebro — contava 78 anos.
As gerações mais novas identificam-no, antes do mais, através da personagem do xerife Frank Truman, na série Twin Peaks (2017), de David Lynch, e também da sua participação em Jackie Brown (1997), sob a direcção de Quentin Tarantino (nesse ano, o vencedor do Oscar de actor secundário foi Robin Williams, em O Bom Rebelde). Em qualquer caso, mesmo não esquecendo que grande parte do seu trabalho passou pela televisão, Forster deixou a sua marca em alguns títulos marcantes, a começar por aquele em que se estreou: Reflexos num Olho Dourado (1967), bizarro e fascinante drama vivido em cenário militar, dirigido por John Huston, com Marlon Brando e Elizabeth Taylor nos papéis centrais. Um dos seus poucos papéis como personagem central é também dessa época, em Medium Cool/América, América, para Onde Vais? (1969), de Haskell Wexler, retrato actualíssimo das contradições da prática jornalística e televisiva, centrado na Convenção do Partido Democrata em Chicago, no Verão de 1968.
Como ele próprio reconheceu, o convite de Tarantino para integrar o elenco de Jackie Brown foi decisivo no relançamento da sua carreira. Vimo-lo, por exemplo, em Psico (1998), de Gus Van Sant, Mulholland Drive (2001), também de Lynch, Confiança (2003), de James Foley, ou Os Descendentes (2011), de Alexander Payne. Forster morreu no dia em que se estreou o seu derradeiro filme: El Camino: A Breaking Bad Movie, de Vince Gilligan.

>>> Cena de abertura de Medium Cool + cena de Jackie Brown.




>>> Obituário em The Hollywood Reporter.

domingo, outubro 06, 2019

Philip Gips (1931 - 2019)

Notável artista gráfico de Hollywood, Philip Gips faleceu no dia 3 de Outubro, em White Plains, Nova Iorque — contava 88 anos.
O seu nome pertence a uma pequena galeria de notáveis — em que também se inclui Saul Bass (1920-1996) — que, ao longo de décadas, garantiram a exuberância iconográfica de Hollywood, dos clássicos aos modernos. Gips foi também executivo de departamentos publicitários, mas o essencial do seu legado é feito de alguns dos posters mais emblemáticos da história do cinema americano, com destaque para Rosemary's Baby/A Semente do Diabo (1968), de Roman Polanski. Eis alguns dos seus trabalhos.

A SEMENTE DO DIABO (1968), de Roman Polanski
OS CORREDORES DA MONTANHA (1969), de Michael Ritchie
ALL THAT JAZZ (1979), de Bob Fosse
KRAMER CONTRA KRAMER (1979), de Robert Benton
DESESPERADAMENTE PROCURANDO SUSANA (1985), de Susan Seidelman

>>> Obituário em The Hollywood Reporter.

sexta-feira, outubro 04, 2019

Diahann Carroll (1935 - 2019)

Actriz e cantora muito popular no teatro e na televisão dos EUA ao longo dos anos 60/70, Diahann Carroll faleceu no dia 4 de Outubro, em Los Angeles, depois de uma longa luta contra o cancro — contava 84 anos.
O começo da sua carreira, no cinema, ficou, desde logo, ligado ao canto, tendo participado em dois musicais profundamente inovadores, ambos com assinatura de Otto Preminger: Carmen Jones (1954) e Porgy e Bess (1959). Seria, porém, nos palcos e no pequeno ecrã que obteve decisivo impacto: a sua interpretação no musical No Strings, na Broadway, valeu-lhe um prémio Tony, em 1962, o primeiro atribuído a uma mulher negra; como personagem central de Julia (1968-1971), foi também a primeira actriz negra a liderar uma série televisiva.
Para além da sua actividade como cantora, o essencial da sua carreira passou pela televisão, tendo integrado o elenco de séries como Dinastia, Lonesome Dove ou, mais recentemente, Anatomia de Grey. Ainda assim, obteve uma nomeação para o Oscar de melhor actriz graças à sua interpretação em Claudine (1974), de John Berry. Em 2009 publicou uma autobiografia com um título de esclarecedora ironia: The Legs Are the Last To Go: Aging, Acting, Marrying, Mothering, and Other Things I Learned Along the Way.

>>> Interpretando a canção Where Am I Going?, num programa de televisão de 1968 + genérico da série Julia.




>>> Obituário em The Hollywood Reporter.
>>> Entrevista na NPR, em 2008, a propósito do lançamento da autobiografia.

quinta-feira, outubro 03, 2019

Giya Kancheli (1935 - 2019)

Nome grande da música da Geórgia, por vezes designado como "minimalista místico" da Europa de Leste, o compositor Giya Kancheli faleceu em Tbilisi, no dia 2 de Outubro — contava 84 anos.
A sua obra imensa vai desde as composições orquestrais até às bandas sonoras para cinema, tendo tido uma especial divulgação nas últimas três décadas através das edições ECM. Entre os cineastas que integraram composições de Kancheli nos seus filmes incluem-se Terrence Malick (A Árvore da Vida, 2011) e Jean-Luc Godard (Adeus à Linguagem, 2014).
A motivação primeira para a sua formação musical foi o jazz, tendo sido depois especialmente marcado pelas obras de Igor Stravinsky, Béla Bartók e Anton Webern. Durante duas décadas dirigiu o Teatro Rustaveli, em Tbilisi; depois da dissolução da URSS, viveu em Berlim e Antuérpia, nesta cidade tendo sido compositor-residente da Real Filarmónica Flamenga. De alguma maneira, essa sua trajectória pessoal espelha-se no sentimento de exílio e contemplação frequentemente associado à sua música — por alguma razão, ele era o primeiro a sublinhar a importância do(s) silêncio(s) na estrutura das suas peças.

>>> Sinfonia nº 4, "in memoria di Michelangelo" (1974) — gravação de 1995 pela Orquestra Filarmónica de Helsínquia; maestro James DePreist.



>>> Styx, composição de 1999, para viola, coro misto e orquestra, interpretada pela Orquestra Filarmónica da Geórgia, com Giorgi Zagareli na viola — concerto de celebração do 80º aniversário de Giya Kancheli.


>>> Programa de televisão belga, com Kancheli na sua casa de Antuérpia, emitido em 2018.


>>> Obituário na NPR.
>>> Giya Kancheli na BBC.

terça-feira, outubro 01, 2019

Jessye Norman (1945 - 2019)

Personalidade central na história do canto lírico, soprano de fama internacional, a americana Jessy Norman faleceu no dia 30 de Setembro, em Nova Iorque, devido a um choque séptico que motivou a falência de múltiplos órgãos, na sequência de complicações causadas por uma lesão medular sofrida em 2015 — contava 74 anos.
Como escreveu o New York Times, Jessye Mae Norman, nascida em Augusta, Georgia, pertencia à realeza da arte do canto. A lista de personagens que interpretou — Aida (Aida, Verdi), Carmen (Carmen, Bizet), Donna Elvira (Don Giovanni, Mozart), Isolda (Tristão e Isolda, Wagner), Salome (Salome, Richard Strauss), etc., etc. — reflecte não apenas uma espantosa versatilidade, mas sobretudo um invulgar domínio, e sentido de recriação, das mais delicadas nuances dramáticas.
Na sequência da sua formação na Alemanha, começou por se distinguir em companhias de ópera alemãs e italianas, estreando-se no La Scala (Milão) com Aida, corria o ano de 1972. Passou com grande sucesso por palcos de todo o mundo — uma das suas derradeiras performances ocorreu em 2014, na Universidade de Sonoma, Califórnia, interpretando standards de George Gershwin, Duke Ellington e Ella Fitzgerald.
Em 2003, fundou a Jessye Norman School of the Arts; a sua autobiografia, Stand Up Straight and Sing!, surgiu em 2014.

>>> Ave Maria (Schubert) + As Últimas Quatro Canções (Richard Strauus).




>>> Obituário no New York Times.

sexta-feira, setembro 20, 2019

Charles Gérard (1922 - 2019)

O seu nome fica associado a uma tradição em que o chamado filme de acção se cruza sempre com a comédia: francês de ascendência arménia, Charles Gérard faleceu no dia 19 de Setembro, em Paris — contava 96 anos.
A sua mitologia é indissociável da amizade com Jean-Paul Belmondo: conheceram-se em 1948, num combate de boxe, tendo sido os golpes de Belmondo responsáveis pela forma bizarra do seu nariz. Foi também um actor fetiche de vários filmes de Claude Lelouch, incluindo Le Voyou/O Patife (1970), Smic Smac Smoc (1971), Aventura é Aventura (1972), Uns e... os Outros (1981) e La Belle Histoire (1992). Começou a sua carreira como realizador, tendo dirigido vários policiais ao longo da década de 60, entre os quais La Loi des Hommes (1962); na curta-metragem La Bande à Bebel (1966), fez o retrato do seu amigo Belmondo. Em 1994, publicou a autobiografia La Vie... C'est Pas Toujours Du Cinéma.

>>> Trailer de Aventura é Aventura.


>>> Obituário em Le Point.

segunda-feira, setembro 16, 2019

Ric Ocasek (1944 - 2019)

Personalidade emblemática da new wave, cantor, guitarrista e compositor, fundador da banda The Cars, o americano Ric Ocasek foi encontrado morto, no dia 15 de Setembro, na sua casa de Nova Iorque — contava 75 anos.
Depois de ter integrado vários grupos com o seu amigo Benjamin Orr (1944-2000), Ocasek e Orr fundaram The Cars em 1976, impondo-se como uma síntese elegante de sonoridades new wave cruzadas com uma depurada tradição pop. O tema You Might Think, do primeiro álbum Heartbeat City, poderá ser citado como símbolo fundador do seu sucesso, tendo arrebatado o prémio de video do ano, na primeira edição dos MTV Awards, em 1984. Canções como My Best Friend's Girl, Drive ou Good Times Roll ficaram como momentos marcantes da banda — curiosamente, Drive, porventura a referência mais automaticamente associada à figura de Ocasek, é um tema originalmente cantado por Orr.
Ocasek era casado com a modelo e actriz Paulina Porizkova, que conheceu em 1984, como intérprete do teledisco de Drive. Foi produtor de várias bandas (Weezer, No Doubt, Nada Surf, etc.), tendo também uma significativa discografia a solo — o seu derradeiro álbum, Nexterday, surgiu em 2005.

>>> Teledisco de Drive + Silver (do álbum Nexterday).




>>> Obituário na Rolling Stone.
>>> Site oficial de Ric Ocasek.