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domingo, junho 30, 2019

FNAC: algumas memórias lunares

Agradecemos a presença de todos os que quiseram partilhar a nossa deambulação pelas memórias (musicais, cinematográficas, literárias) da Lua — aconteceu na FNAC Chiado, no sábado, 29 [e agradecemos também a Nuno Campos o registo fotográfico que tomamos a liberdade de reproduzir].
Eis aqui algumas dessas memórias vistas, escutadas e comentadas.

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Próxima edição do SOUND + VISION Magazine:

FESTIVAL DE WOODSTOCK — FOI HÁ 50 ANOS
> FNAC Chiado — 27 de Julho, 18h30

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>>> Uma Mulher na Lua (1927), de Fritz Lang (com música de IOKOI, 2011).

>>> Os Primeiros Homens na Lua (1964), de Nathan Juran.

>>> A chegada à Lua (20 Julho 1969) — arquivos TIME.

>>> The Killing Moon (1984), Echo and the Bunnymen.

>>> The Whole Of The Moon (1985), The Waterboys.

quinta-feira, outubro 01, 2009

Homens na Lua

Originalmente publicado em 2005, o livro de Andrew Smith Moondust: In Search Of The Men Who Fell To Earth (título claramente evocativo do filme The Man Who Fell To Earth, de 1975, protagonizado por David Bowie) regressou recentemente aos escaparates numa edição com um novo prefácio e um novo epílogo, assinalando os 40 anos da chegada da Apollo XI ao solo lunar no Verão de 1969.
 
Apesar de ter nascido em Nova Iorque e ter vivido parte da juventude nos EUA (assistiu às emissões televisivas das alunagens das missões Apollo na sua casa, em San Francisco), Andrew Smith é inglês. Escreveu para publicações como o Melody Maker, The Face, Sunday Times ou o The Observer, abordando figuras tão distintas como os KLF, Damien Hirst, Jeff Bezos ou Bianca Jagger. O livro que agora foi reeditado (com nova capa, em lançamento paperback) traduz um interesse antigo pelas gentes e feitos do projecto Apollo que, entre 1969 e 1972 levou 12 homens à superfície lunar.
Muitos e muitos livros foram já publicados, alguns mesmo ainda em tempo de vida do projecto Apollo, sobre a conquista da Lua pelos astronautas da NASA. O que Moondust traz de especial não é apenas o relato na primeira pessoa dos homens que protagonizaram a aventura (que o autor conheceu nas mais variadas situações, descrevendo um a um os encontros), mas também o cruzamento das suas memórias com a história pessoal do próprio Andrew Smith. Episódios que marcaram a história do século XX ganham assim uma relação com uma dimensão pessoal, na sua escrita Andrew Smith aproveitando para partilhar opiniões, olhares e factos, sem colocar filtro a eventuais erupções de bom humor. Não se trata de uma incursão pelos bastidores da aventura, mas um conjunto de retratos comentados e dialogados dos homens (nove escutados no curso da preparação do livro, já que três entretanto morreram) que a levaram a bom porto. O texto deixa ainda clara a forma como cada astronauta viveu o “seu” momento, a ressaca da viagem e, mais tarde, a forma como aquelas horas na superfície lunar mudaram a sua forma de estar no mundo.

sexta-feira, julho 31, 2009

Outras viagens à Lua (5)

A fechar um mês que evocou os 40 anos da chegada do homem à Lua, memórias de livros que, pela ficção, anteciparam os feitos da missão Apollo 11.

Outra das primeiras visões “cientificamente” sustentadas (em terreno de ficção, naturalmente) de uma missão tripulada à Lua foi assinada em 1951 por Arthur C. Clarke. De resto, representou, para um autor que já contava com alguns contos publicados, a sua primeira experiência de maior fôlego. Prelude To Space foi na verdade escrito, em apenas 20 dias, em 1947, tendo a sua publicação acontecido apenas quatro anos depois, primeiro numa revista, chegando a livro pela primeira vez no Reino Unido, já em 1953. O texto centra-se essencialmente numa sequência de descrições e discussões que envolvem os técnicos relacionados com a missão Prometheus, destinada a cumprir a primeira missão lunar tripulada. A viagem assenta numa nave que se divide em duas partes. Uma delas assegura apenas o trajecto interplanetário, incapaz portanto de subir ou descer a atmosfera terrestre. Cabendo assim à outra componente (movida por propulsão nuclear) essas etapas da missão, de certa forma antecipando características que se tornariam realidade não necessariamente no programa Apollo, mas no Space Shuttle. A narrativa conclui-se com o lançamento da missão, centrando-se portanto o livro na etapa de preparação técnica e científica de um feito que Clarke assim ajudou a sonhar 20 anos antes de ser uma realidade.

quinta-feira, julho 30, 2009

Outras viagens à Lua (4)

A fechar um mês que evocou os 40 anos da chegada do homem à Lua, memórias de livros que, pela ficção, anteciparam os feitos da missão Apollo 11.

Um dos primeiros autores a pensar uma viagem à Lua numa narrativa suportada pelas características do que viria a ser a literatura de ficção científica (a demanda de explicações para os factos, a procura de verosimilhança nos acontecimentos e um interesse pela descoberta) foi, inevitavelmente, Julio Verne. Data de 1865 o clássico Da Terra À Lua, história protagonizada por dois norte-americanos e um francês que apresenta espantosas semelhanças com alguns factos, nomes e locais que fariam, mais de cem anos depois, a história da missão Apollo 11. Juntos constroem uma cápsula que, projectada por um canhão (grande diferença aqui, é bem verdade), leva uma equipa à Lua. São três os viajantes (como na Apollo), a bordo de uma nave de dimensões não muito distantes das que os astronautas da Nasa conheceram e, coincidência maior, foram lançados para o espaço… na Florida! O livro teve repercussões imediatas no seu tempo e, poucos anos depois de publicado, foi ponto de partida para Le Voyage dans la Lune, uma ópera de Offenbach. Já na alvorada do século XX, Georges Meliés cruzou elementos do livro de Verne com The First Men In The Moon para criar o seu Le Voyage dans la Lune. O livro de Julio Verne voltou a ser adaptado ao cinema em 1958 em From The Earth To The Moon (ver cartaz acima), realizado por Byron Haskin.

quarta-feira, julho 29, 2009

Outras viagens à Lua (3)

A fechar um mês que evocou os 40 anos da chegada do homem à Lua, memórias de livros que, pela ficção, anteciparam os feitos da missão Apollo 11.

Robert Heinlein (1907-1988) foi um dos autores dre literatura de ficção científica que mais narrativas colocou em solo lunar. Uma das suas primeiras abordagens à conquista da Lua data de 1949 (pouco depois de ter encetado a sua carreira na escrita), no conto The Man Who Sold The Moon (entre nós publicado como O Homem Que Vendeu a Lua, na colecção Argonauta). O conto projecta uma primeira missão tripulada à Lua no ano de 1978 (num daqueles raros casos em que a realidade acabou por antecipar a ficção). Porém, vinte anos antes da concretização dos objectivos da missão Apollo, Robert A. Heinlein foi dos primeiros a encarar, neste preciso texto, o facto da conquista do espaço ser, além de um feito técnico e científico, o resultado de um enorme esforço financeiro. A narrativa centra-se numa figura decidida a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para conquistrar e, depois, controlar a Lua. O conto, intergrado na sequência de textos através dos quais Heinlein ficcionou a história do futuro, conheceu sequelas com as mesmas personagens. O Homem Que Vendeu a Lua é um dos três contos “lunares” de Robert A. Heinlein que há poucos dias regressou aos escaparates das novidades nas livrarias portuguesas, integrado na antologia Cabeças na Lua, lançada este mês pela Saída de Emergência.

terça-feira, julho 28, 2009

Outras viagens à Lua (2)

A fechar um mês que evocou os 40 anos da chegada do homem à Lua, memórias de livros que, pela ficção, anteciparam os feitos da missão Apollo 11.

H.G. Wells (1866-1946) foi um dos mais importantes autores pioneiros da ficção científica. E entre os seus “romances científicos” (como ficaram conhecidos) contou-se a história de uma primeira ida de seres humanos da Terra à Lua. Originalmente publicado em 1901, The First Men In The Moon. A aventura lunar é protagonizado por duas figuras, um deles um homem de negócios, o outro um cientista. É de uma descoberta deste último (a cavorite, mineral que contraria a força da gravidade e assim permite o levantar voo de um veículo rumo à Lua) que decorre a possibilidade de concretização da aventura. Chegados à superfície lunar aí descobrem uma civilização que descrevem como “selenita”. Como em vários escritos de Wells, por aqui surgem marcas de um observador do seu tempo, comentando essencialmente formas de regime e modelos económicos e civilizacionais vigentes no mundo real da passagem do século XIX para XX, reflectindo ainda sobre o comportamento dos seres humanos em sociedade.
O livro de H.G. Wells gerou três adaptações ao cinema. As duas primeiras datam dos dias do cinema mudo, a primeira juntando ao texto de Wells elementos de uma outra odisseia lunarm, escrita alguns anos antes por Júlio Verne. Em 1964 surge outra adaptação (cartaz a ilustrar o post), assinada por Nathan Juran, com efeitos especiais trabalhados por Ray Harryhausen.

segunda-feira, julho 27, 2009

Outras viagens à Lua (1)

Recordamos esta semana outros exemplos de viagens à Lua. Viagens imaginadas na ficção, muitas delas antecipando os feitos da missão Apollo em finais da década de 60. E começamos com uma das mais incríveis antecipações, imaginada por Hegré em inícios da década de 50, ou seja, bem antes da Apollo 11 (e até mesmo antes da colocação em órbita do Sputnik).

Criados entre 1950 e 1954, os álbuns Rumo À Lua (1953) e Explorando a Lua (1954) levaram Tintim, Milou e alguns dos seus companheiros de aventuras ao solo lunar. Hergé procurou dar a ewsta aventura de Tintim um carácter cientificamente verosímil, pensado ao pormenor uma série de detalhes técnicos que pudessem justificar o feito que as páginas acompanham. O foguetão que serve a viagem assemelha-se à V2 alemã, na verdade desenvolvida pelo mesmo Von Braun que, anos depois, chefiaria a equipa que desenvolveu o foguetão Saturno V. A grande diferença com a realidade é o facto de, nesta aventura, o foguetão fazer toda a viagem de ida e volta sem largar parte da sua constituição no espaço. Tal como as últimas missões Apollo, também Tintin leva a bordo do foguetão um carro lunar. Os fatos espaciais são cor de laranja, mas aparentemente mais rígidos que os usados de facto pelos astronautas. A aventura coloca geograficamente a base de comando no Leste europeu, num país imaginário onde a descoberta de reservas de urânio possibilita o desafio lunar, que se concretiza com a construção de um foguetão e um sistema de propulsão nuclear, ambos criados pelo Prof Girassol. Não fatla, como sempre nas aventuras de Tintim, uma trams secundária que garante acção e surpresa a toda a narrativa.

sexta-feira, julho 24, 2009

Lua 1969: A chegada

A manhã do último dia da Apollo 11 começou pouco antes das sete da manhã, com os preparativos para a amaragem. Às 12.21 o Módulo de Comando (no fundo, a cápsula com os três astronautas a bordo) separa-se do Módulo de Serviço. Pelas 12.35 iniciam a reentrada na atmosfera... E, 16 minutos depois, atingem a superfície das águas do Oceano Pacífico, a Sul do Hawai. Os astronautas saem finalmente da cápsula pouco mais de meia hora mais tarde, conduzidos de helicóptero para o USS Hornet que os esperava. Missão cumprida. Entretanto, na agenda de Novembro, surgia já a meta seguinte: a Apollo 12.

quarta-feira, julho 22, 2009

Pioneiros de ficção

Texto originalmente publicado no suplemento DN Gente, a 18 de Julho, com o título "Os primeiros a sonhar uma viagem à Lua".

John F. Kennedy lançou o desafio num discurso, que fes história, em 1961. Neil Armstrong pisou o solo lunar a 20 de Julho de 1969... Mas muito antes de uma das maiores aventruras da ciência e da tecnologia se tornarem uma realidade, já a imaginação humana tinha sonhado com o momento em que o homem chegava ao pequeno astro que nos faz companhia todas as noites.
O mais antigo relato de uma viagem (naturalmente ficionada) à Lua data do século II a.C., assinada por Luciano de Samóstrata. Na sua História Verdadeira (que data de 160. a.C.) fala não apenas de uma viagem à Lua (onde os dois heróis chegam com a ajuda de uma tromba de água), mas dos habitantes e do rei que ali contactam.
No século XVII a Lua surge novamente na lista dos destinos de alguns dos primeiros ensaios de uma escrita que podemos entender entre as formas que antecederam a ficção científica. Kepler usa Somnium (escrito em 1610, mas apenas publicado depois da sua morte, em 1634), para reflectir sobre algumas das suas preocupações científicas num texto de ficção no qual leva um viagente islandês até à Lua.... Francis Goodwin, em 1638 imagina semelhante destino para as viagens de um espanhol, que chega à Lua depois de transportado por alguns gansos.
Cyrano de Bergerac levou-nos à Lua em Voyage dans La Lune (1657). Desta vez, a propulsão conta com a ajuda de fogo de artifício. Um engenho serve depois a viagem que acompanhamos, já no século XVIII, em The Consolidator (1705), de Daniel Defoe. Em plena idade das Luzes, a Lua surge por duas vezes entre as descrições das viagens do Barão Münchausen que descreve a flora e fauna locais. Em inícios do século XIX Washington Irving toma a Lua como cenário de The Conquest Of The Moon (1809).

A obra de Edgar Allan Poe inclui uma aventura lunar. De 1835, Uma Aventura sem paralelo de um certo Hans Pfaall (no original The Unparalleled Adventure of One Hans Pfaall) pode ser considerado como um dos exemplos pioneiros de uma narrativa de ficção científica com a Lua por destino. O conto assenta no retato de uma viagem de um holandês que, a bordo de um balão, chega à Lua em 19 dias. E ali chegado, descreve um mundo agreste e os seus habitantes.
Entre os pioneiros da literatura de ficção científica a ideia de uma viagem à Lua foi destino para nomes como Júlio Verne ou H.G. Wells. Do primeiro é clássico maior o romance Da Terra à Lua. Publicado em 1865, relata a odisseia de uma cápsula projectada por um canhão. Já The First Men In The Moon, um dos primeiros “romances científicos” de H.G. Wells (de 1901) apresenta um sistema de propulsão mais imaginativo, usando a “cavorite”, uma substância mineral que contraria a força da gravidade e, portanto, leva uma nave até à Lua.
Ao longo do século XX a literatura de ficção científica voltou muitas vezes ao solo lunar. De Robert A. Heinlein a Isaac Azimov, de Arthur C. Clarke a Ben Bova, de Stephen Baxter a Dan Simmons, muitos foram os autores a dar continuidade a esta aventura.

Lua 1969: A caminho da Terra

Pouco passava da meia noite de 22 de Julho quando, já com o Módulo Lunar deixado para trás, o Módulo de Comando inicia nova ignição que assegura a saída da órbita lunar, iniciando a viagem de regresso à Terra. O dia de viageem é tranquilo. Pelas nove da noite iniciam nova transmissão televisiva. Por essa altura já estavam num ponto em que a força de atracção da Terra sobre a nave era já maior que a que, nos últimos dias, a Lua havia exercido sobre o veículo.

terça-feira, julho 21, 2009

Ao som do luar

Texto originalmente publicado no suplemento DN Gente de 18 de Julho, com o título "De Beethoven a Frank Sinatra, uma história feita de inspiração lunar"

Em 1954, Bart Howard compunha In Other Words, que começou por ter discreta carreira na voz de Felicia Sanders. Dez anos depois, Frank Sinatra assinava uma nova versão. O verso “Fly me to the moon” (pelo qual muitos conhecem a canção), ganhara entretanto novo apelo de contemporaneidade e desafio numa América empenhada em concretizar o sonho lançado por Kennedy de levar um homem à Lua antes do final da década... A versão de Sinatra foi um êxito imediato. E chegou mesmo a voar até à Lua, tocada pelos astronautas da Apollo 10 em órbita lunar em Maio de 1969, regressando em Julho aos altifalantes da Apollo 11. Foi o primeiro êxito lunar... Mas, na verdade, há muito que a Lua morava na imaginação de cantores e compositores.
Debussy compôs Au Clair de Lune, Carl Orff a ópera Der Mond, Beethoven a Sonata ao Luar e Arnold Schoenberg o Pierrot Lunaire... Também o jazz tomou cedo a Lua como fonte de inspiração, contando entre os standards mais vezes recriados o histórico Blue Moon.
Em tempo de viagem à Lua, editado precisamente no mesmo 1969 que anunciava a Apollo 11, Space Oddity, de David Bowie, recriava um diálogo com Major Tom, algures no espaço... E na noite em que Neil Armstrong e Buzz Aldrin alunavam, a BBC convidava os Pink Floyd para acompanhar, com música ao vivo, as imagens que chegavam da Lua.
Sem relação com a missão Apollo, mas fazendo da Lua cenário ou protagonista, a história recente da música popular tem exemplos em todas as latitudes. Ainda as viagens tripuladas à Lua estavam na memória das notícias, Nick Drake editava Pink Moon (1972). Meses depois, os Pink Floyd usavam The Dark Side Of The Moon (1973) para reflectir sobre a loucura. Do New Moon On Monday dos Duran Duran a Man On The Moon dos R.E.M., esta é ainda uma boa fonte de inspiração.



Imagens de Frank Sinatra, ao som da canção que acabou por muitos conhecida como 'Fly Me To The Moon'

Lua 1969: Novamente em órbita

Após duas horas e 47 minutos na superfície da Lua, Buzz Aldrin e Neil Armstrong regressaram ao Módulo Lunar. Dorimiram umas horas e só depois iniciaram os preparativos para o regresso. Descolaram, deixando a base da estrutura e alguns instrumentos científicos no solo. Em órbita reencontraram depois Michael Collins, que havia permanecido, solitário, no Módulo de Comando.

segunda-feira, julho 20, 2009

"If you believed they put a man on the moon"

Man on the Moon/Homem na Lua (1999), de Milos Forman, não é exactamente um filme sobre a conquista da Lua. Mas é, à sua maneira, um épico. Trata-se de contar a história de Andy Kaufman (1949-1984), actor de todas as transfigurações e todos os assombramentos, cómico sempre tocado pelo sopro da tragédia: Jim Carrey assume-o numa composição de génio, além do mais célebre por ter ficado fora das nomeações para os Oscars (aliás, o filme não teve uma única nomeação). O título é o mesmo de uma canção dos R.E.M. — incluída no álbum Automatic for the People (1992) e no próprio filme —, canção que homenageia Kaufman através de um tocante e desconcertante barroquismo lírico:

If you believed they put a man on moon
Man on the moon
If you believed there's nothing up his sleeve
Then nothing is cool

>>> Concerto do movimento Rock the Vote: os R.E.M., com Bruce Springsteen, interpretam Man on the Moon.

Em directo da Lua


Muito antes do triunfo do conceito de globalização, o planeta Terra uniu-se para assistir à primeira visita humana à Lua — este texto foi publicado no Diário de Notícias (18 de Julho), com o título 'Uma aventura global vivida em câmara lenta'.

A 22 de Novembro de 1963, a televisão fez-nos saber da morte de John Kennedy e o mundo deixou de ser plano e transparente. No mês de Maio de 1968, estranhas imagens de Paris faziam-nos sentir que a juventude, como ideia e como projecto, nunca mais seria a mesma: nem a nossa, nem a das gerações seguintes. A 20 de Julho de 1969, na sua agitação acumulada ao longo de uma década de todas as euforias e todas as tragédias, o mundo parou: andava um homem na Lua.
Dizer que o mundo parou não é uma mera figura de retórica. Acima de tudo, nada tem a ver com a facilidade automática com que podemos ir ao YouTube buscar as imagens épicas de Neil Armstrong. De facto, hoje em dia, não nos limitamos a aceder rapidamente às imagens, rapidamente as consumindo e... passando à frente. O passeio de Armstrong na superfície lunar não pode ser reduzido àqueles minutos de espanto e radical silêncio. Para entender o seu impacto global (e, nessa altura, a noção de “globalização” era apenas um utopia de indecifráveis contornos), é preciso ter em conta também a espera da sua revelação e a lentidão do seu consumo.
Na linguagem corrente da época, dizia-se mesmo que o astronauta parecia mover-se e caminhar em câmara lenta. No seu sentido mais profundo, isso significava que Armstrong se assemelhava a uma personagem de filme, glorioso e universal na sua aventura. E não era caso para menos. Afinal de contas, importa recordar também que, um ano antes, ainda sob o perturbante efeito das imagens das barricadas de Paris, Stanley Kubrick, um americano a trabalhar em Londres, oferecera ao mundo a cartilha do seu futuro. Chamava-se 2001: Odisseia no Espaço e não se limitou a mudar a história do cinema, das suas fábulas e tecnologias. Integrando a herança de muitas artes, exponenciando a imaginação das ciências, Kubrick celebrava o ser humano, já não como centro do universo, mas como uma partícula acidental de um misterioso bailado de naves, computadores e galáxias. Armstrong já estava a viver a primeira sequela.

De Méliès aos Smashing Pumpkins

No imaginário cinematográfico da Lua, Georges Méliès (1861-1938) ocupa um lugar central, genuinamente pioneiro. Foi em 1902 que ele rodou A Viagem à Lua, filme de uma poesia e ironia que resistem através de todos tempos, além do mais desmentindo esse provincianismo cinéfilo (?) que considera que os efeitos especiais são uma invenção das mais recentes três décadas do cinema (versão com narrativa de Madeleine Malthête-Méliès, neta do realizador).



Em 1996, os Smashing Pumpinks filmaram a sua canção Tonight, Tonight invocando a herança de Méliès e, em particular, a iconografia de A Viagem à Lua — o teledisco, dirigido pelo casal Jonathan Dayton/Valeri Faris (cuja estreia em cinema ocorreria em 2006, com Little Miss Sunshine/Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos), ganhou seis prémios dos MTV Video Music Awards, incluindo melhor teledisco do ano.

Jean-Luc Godard e o luar

O romantismo sem fronteiras de Jean-Luc Godard colocou Marianne e Ferdinand (aliás, Anna Karina e Jean-Paul Belmondo) sob o efeito de um luar carregado de ironia política. Aconteceu em Pedro o Louco (1965). Afinal de contas, eram tempos da Guerra Fria e o discurso amoroso — do homem para a mulher — envolve algumas pedagógicas considerações sobre russos e americanos na superfície lunar... Avant la lettre.

Lua 1969: A chegada

Foi ao fim do dia que Neil Armstrong desceu as escadas do Módulo Lunar. Activou a pequena câmara que então revelou as imagens que as televisões puderam mostrar. Desceu o último degrau. Foi o primeiro ser humano a pisar um outro mundo. E pela sua voz dizia a frase mais célebre da era espacial: "É um pequeno passo para um homem, mas um salto gigantesco para a humanidade"... Faz hoje 40 anos.



As imagens mostram o momento da chegada de Neil Armstrong a solo lunar. Eram quase 23.00 quando Armstrong finalmente desceu para a superfície da Lua, Buzz Aldrin juntando-se a si 15 minutos depois. Na verdade estavam já sobre a Lua, todavia dentro do Módulo Lunar, há já algumas horas.
De manhã, bem cedo, Aldrin foi o primeiro a sair do Módulo de Comando, activando a energia do Módulo Lunarl. Armstrong juntou-se a ele uma hora depois, iniciando a verificação dos sistemas. Horas depois separavam-se do Módulo de Comando, no qual Michael Collins permaneceu em órbita.
Os minutos finais da descida sonbre a Lua não foram fáceis. Já perto do solo repararam estar a seis quilómetros do local inicialmente previsto, dirigindo-se para uma cratera. Armstrong tomou os comandos manuais do Módulo Lunar e, numa luta contra o tempo (e as reservas de combustível a terminar), alunou em segurança.
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Armstrong foi o primeiro a sair. Aldrin passou-lhe para as mãos uma máquina fotográfica Hasselbrad antes se abandonar o Módulo Lunar. As fotografias com boa resolução do passeio lunar da Apollo 11 só surgem então. Durante duas horas os astronautas permaneceram na superfície, tirando fotografias, colocando objectos para permitir a execução de experiências científicas e uma bandeira americana em pleno solo lunar. Depois de perdida a "primeira vez" para os soviéticos em anteriores conquistas na era espacial (o primeiro satélite, o primeiro ser humano no espaço e o primeiro cosmonauta em voo no vazio), os astronautas da Nasa davam uma vitória à Nasa.



Este outro vídeo apresenta um resumo de imagens da missão Apollo 11, desde a partida do foguetão ao regresso da cápsula à Terra, incluindo excertos de instantes no solo lunar. Note-se a presença da voz de Walter Cronkite, pivot que acompanhou a histórica emissão televisiva da CBS, nos EUA.

Três astronautas

Esta é a imagem da nova campanha da Louis Vuitton, pensada para assinalar os 40 anos da chegada da Apollo 11 à Lua. Na imagem três astronautas americanos. Da esquerda para a direita, Sally Ride (a primeira americana no espaço), Buzz Aldrin (da Apollo 11) e Jim Lovell (da Apollo 13).

domingo, julho 19, 2009

Na Lua com Stanley Kubrick

Proezas do génio cinematográfico: um ano antes de Neil Armstrong e Buzz Aldrin caminharem sobre a superfície lunar... Stanley Kubrick já por lá andava! Aliás, a história ensina-nos que o cinema nunca foi um parente pobre nem das proezas da ciência nem das imaginações da literatura — 2001: Odisseia no Espaço, escrito por Kubrick e Arthur C. Clarke, estreou-se em 1968 (6 de Abril, nas salas dos EUA) e rapidamente entrou para essa galeria nobre onde figuram as obras capazes de cruzar o desconhecimento e o maravilhoso de forma de tal modo subtil e intensa que se revela capaz de superar quaisquer tendências, géneros ou modas.
É na Lua, na base Clavius, que decorre a cena essencial do contacto dos humanos com o célebre monolito negro, por um lado ecoando a "alvorada" em que víramos os macacos, por outro lado servindo de ponte para o enigmático final depois da expedição a Júpiter — a imagem da mão humana que toca o monolito tornou-se mesmo um dos símbolos mais fortes do filme.
Essa cena foi rodada, a partir de Dezembro de 1965, nos estúdios de Shepperton, Londres, escolhidos precisamente por causa da sua dimensão permitir a construção do gigantesco cenário da cratera Tycho, onde é descoberto o monolito; depois, as filmagens transferiram-se para os estúdios da MGM, em Borehamwood. Vale a pena revermos o trailer original de 2001, feito num tempo em que não se cortava tudo em planos muito curtos, apenas para criar "velocidade" e simular que acontecem muitas coisas...

Lua 1969: Em órbita...

A 19 de Julho de 1969 a Apollo 11 passava pela primeira vez por trás da Lua e perdia, por momentos, o contacto com a Terra. Uma ignição do motor de bordo desacelerou a nave, assegurando a sua entrada em órbita lunar. A meio da tarde uma emissão televisiva mostrava, de órbita, imagens da superfície da Lua. A alunagem estava a menos de um dia de distãncia.