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quarta-feira, janeiro 19, 2011

Mark Zuckerberg vs. E. M. Forster


No final de cada ano, os tradicionais balanços jornalísticos arrastam, muitas vezes, uma simbologia simplista — ou porque tais balanços se limitam a reproduzir uma dicotomia pueril (os "bons" e os "maus"), ou então porque se favorece uma percepção redutora das próprias escolhas que são propostas.
Assim, por exemplo, a consagração de Mark Zuckerberg como "pessoa do ano", para a revista Time. Por um lado, muitos quiseram ver nisso o reconhecimento do criador do Facebook como uma espécie de guru intocável da moderna "comunicação"; por outro lado, quase nada se disse (ou citou) do extraordinário artigo, assinado por Lev Grossman, que fundamenta a escolha da revista. Acima de tudo, importa referir que o artigo sabe conciliar o espanto e admiração pelas proezas de Zuckerberg com a pedagógica interrogação do endeusamento pueril da "informação" (data), lembrando: "(...) nós não somos informação e as relações [humanas] não podem ser reduzidas à troca de informação ou à tomada de decisões binárias entre gostar e não gostar, ser amigo ou não ser amigo." Tudo isto com uma evocação irónica de E. M. Forster [foto] de quem, afinal, Zuckerberg nunca ouviu falar.
Citação:

>>> For all its industrial efficiency and scalability, its transhemispheric reach and its grand civil integrity, Facebook is still a painfully blunt instrument for doing the delicate work of transmitting human relationships. It's an excellent utility for sending and receiving data, but we are not data, and relationships cannot be reduced to the exchange of information or making binary decisions between liking and not liking, friending and unfriending. It's as if Zuckerberg read E.M. Forster's famous rallying cry in Howards End, "Only connect", and took it literally: only connect, do nothing else. (There's no chance that this actually happened. I asked Zuckerberg if he'd read Forster and got the spider stare. He'd never heard of him.) <<<

sábado, janeiro 01, 2011

Fotogramas de 2010 (5)


* SHUTTER ISLAND, de Martin Scorsese

Na gíria tecnicista, o digital estaria a "ameaçar" os actores, podendo mesmo substituí-los. Ora, como demonstra Martin Scorsese, não se trata de escolher uma coisa ou outra, mas de trabalhar com ambas: num momento carregado de simbolismo, Michelle Williams esfuma-se nos braços de Leonardo DiCaprio, sem que isso nos leve a qualquer tipo de fixação no "efeito especial" — o que importa é o facto de tudo contribuir para intensificar a carga humana do instante. Afinal, o humano não é o contrário da técnica, mas o assombramento carnal da sua origem.

[1] [2] [3][4]

sexta-feira, dezembro 31, 2010

2010: a frase do ano


Como uma espécie de lei transcendente e apócrifa, a frase surge nas caixas de mail para sinalizar a (in)actividade dos "amigos" das redes sociais [contexto na imagem de baixo].
Se, do outro lado, ninguém fez click, ninguém pôs a circular uma qualquer força virtual, então podemos ter a certeza : nada acontece... Em tempos de agressivo marketing da "personalização", não poderia haver ilustração mais eloquente do metódico esvaziamento do conceito de pessoa. Talvez que o mais chocante seja a partícula "seus" — parece que a máquina quer que eu seja tão despreocupado e feliz que até considera útil retirar-me a gestão das minhas relações com os meus amigos. Em 2011, vai ser ainda mais difícil dizer/escrever "eu".
Bom ano.

Fotogramas de 2010 (4)


* STICKY & SWEET TOUR, de Nathan Rissman e Nicola Doring

Verdade cruel dos tempos: já não nos podemos sentir apenas como o encontro instável das nossas ideias com o nosso corpo; vivemos muito (e muitas vezes vivemos mal) com as imagens que também somos, ou nos obrigam a ser. Madonna, hélas!, chegou a essa luta antes de quase todos os outros — daí o seu sempre incómodo e irónico primitivismo: se eu sou as minhas imagens, então sou que controlo a sua produção, manipulação e difusão. Como aqui se prova, é um jogo permanente de ecrãs que se multiplicam, em conjugação com a presença viva do ícone. Mais ainda: em casos como este, a memória pessoal (do teledisco de Material Girl, 1985) cruza-se com a memória mitológica (Marilyn Monroe em Os Homens Preferem as Louras, 1953), a provar que as heranças não são uma mera questão de merecimento — é preciso estar à altura das suas exigências.

[1] [2] [3]

Canções do ano (15)
Robyn, Dancing On My Own


Prometeu e cumpriu. Três discos num mesmo ano, afirmando o tríptico a que deu o título Body Talk como um cativante encontro entre as linguagens da pop e as da música de dança. Robyn confirmou um estatuto em ascensão e em 2010 inscreveu várias canções na banda sonora das fundamentais do ano. Uma delas foi este Dancing On MY Own.

Acontecimentos do ano:
Beatles por 'download'


Era o episódio que mais faltava para que um novo paradigma se instalasse em definitivo. Ao colocar a a música dos Beatles à venda para download, a indústria da música gravada deu um decisivo passo no sentido de um rumo que, mais ano menos ano, fará modalidade o centro das suas atenções, votando os formatos físicos (do CD ao vinl) a um espaço para melómanos.

quinta-feira, dezembro 30, 2010

Fotogramas de 2010 (3)


* UM HOMEM SÉRIO, de Joel e Ethan Coen

A cena desemboca na angústia paradoxal do labor cognitivo: todo o conhecimento do mundo... para quê? Raras vezes o sentido de irrisão dos Coen terá sido levado tão longe — e tanto mais quanto Um Homem Sério conserva a alegria "superficial" do burlesco. O plano geral da sala de aula é mais, muito mais que o tradicional master shot para nos situar no espaço global da cena: a figura do professor surge como um frágil astronauta no cosmos do conhecimento. E, no entanto, porque há alunos/espectadores, é preciso que haja um professor — os Coen filmam o carácter inexorável da Lei.

[1] [2]

Canções do ano (14)
Ou Est Le Swimming Pool, The Key


Uma das revelações do ano, os Ou Est Le Swimming Pool estrearam-se com um promissor disco feito de uma pop electrónica que cruza ecos de heranças referenciais do género com marcas de contemporaneidade. The Key foi o quarto single extraído do alinhamento do álbum.

As canções de 2010


Um ano de grandes canções . É o que se pode dizer em balanço do que se escutou ao longo de 2010. Seria por isso possível fazer uma lista bem maior, onde caberiam além dos nomes abaixo representados outros como, por exemplo, os Broken Bells, Kasper Bjorke, Eels, Belle & Sebastian, Vampire Weekend, MGMT, Mark Ronson, CocoRosie, Yeasayer, Ou Est Le Swimming Pool, The Walkmen, Silver Columns, Casiokids, Hurts, Wavves, Deerhunter, Magic Kids, Kanye West, N.E.R.D., Darkstar, Patrick Wolf, John Grant ou Robyn, entre muitos mais... Mas para seguir as regras, aqui ficam as dez mais do ano. No topo da lista, um bom exemplo de uma escrita pop atenta às linguagens do presente e conhecedora dos métodos da dança.

1. Hot Chip “I Feel Better”
2. Duran Duran “Blame The Machines”
3. Gorillaz “On Melancholy Hill”
4. Twin Shadow “Tyrant Destroyed”
5. Perfume Genius “No Problem”
6. Matthew Dear “Gem”
7. Beach House “Zebra”
8. Crystal Castles “Celestica”
9. Men “Off Our Backs”
10. LCD Soundsystem “I Can Change”

Figuras do ano: James Blake


Mais que apenas uma “revelação” em 2010, James Blake é já um nome a ter em conta entre as referencias emergentes na segunda década do século XXI. Londrino com formação clássica, mostrou nos três EPs que lançou ao longo do ano uma série de ideias que cruzam pontes entre linguagens acima das barreiras dos géneros, a sua relação com o piano e com as electrónicas, o seu interesse pela canção e uma atenção sobre os espaços do silêncio talhando caminhos que assim fazem do seu álbum de estreia, agendado para Fevereiro, um dos mais aguardados de 2011.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Fotogramas de 2010 (2)


* A DANÇA, de Frederick Wiseman

Frederick Wiseman filma o trabalho — não o conceito ou a legislação, mas a certeza de alguma transformação material. E isso é válido quando ele se interessa por um liceu, um quartel militar ou um laboratório de ciência. Ou ainda uma companhia de dança (aqui, o Ballet da Ópera de Paris). Na sua discreta presença no filme, estas mãos exprimem a verdade material de um mundo que não se rendeu às vertigens do digital, da sua prática ou da sua mitologia. Precisamos de cineastas como Wiseman para resistirmos à incessante "catalogação" do real, todos os dias promovida pela televisão — para não nos esquecermos, sobretudo, que um instante é apenas um instante, um precalço do tempo maravilhosamente enredado na sua própria redundância.

[1]

Canções do ano (13)
Gorillaz, On Melancholy Hill


Uma das canções do terceiro álbum dos Gorillaz deu-nos um dos melhores momentos pop do ano. On Melancholy Hill foi inclusivamente editada em single. Aqui fica o teledisco.

Os concertos de 2010

Foto: DN

POP/ROCK:

Lady Gaga
(Pavilhão Atlântico, Lisboa)
Mais que mero aparato visual, mais que apenas um desfile de canções e de criações de moda. Houve comunicação, causas, interacção com a plateia. E uma partilha das cenografias e poses com os músicos e até mesmo episódios ao piano. A Monster Ball Tour foi mesmo um dos acontecimentos do ano.

Janelle Monáe
(Teatro Tivoli, Lisboa)
Foi “o” concerto da edição deste ano do Super Bock em Stock. Com o álbum The Archandroid por pano de fundo, um percurso por vários géneros e referências numa invulgar exposição de versatilidade.

Divine Comedy
(Teatro Maria Matos, Lisboa)
Em palco apenas um piano e uma guitarra. As canções, despidas à medula da sua essência, falaram mais alto e o já conhecido sentido de humor de Neil Hannon fez o resto.

Vampire Weekend
(Campo Pequeno, Lisboa)
Um já sólido corpo de canções, apenas dois álbuns após o arranque da aventura, sustentam um concerto irresistível, no qual as qualidades de uma banda bem rodada na estrada ficaram bem claras.

Rufus Wainwright
(Aula Magna, Lisboa)
Um concerto para voz e piano, com as canções de All Days Are Nights – Songs For Lulu na primeira parte e uma série de clássicos na segunda.



CLÁSSICA:


Mitsuko Uchida + Simon Rattle
Berliner Philharmoniker
(Philharmonie, Berlim)
Um programa, em Fevereiro, com obras de Ligeti, Sibelius e Beethoven. Foi para um dos concertos para piano e orquestra deste último que ao maestro e orquestra se juntou a pianista Mitsuko Uchida.

Maria João Pires + John Eliott Gardiner
London Symphony Orchestra
(Coliseu dos Recreios, Lisboa)
Uma das mais aclamadas digressões do ano por uma das grandes orquestras mundiais levou à sala lisboeta um programa dedicado a Beethoven.

‘A Flowering Tree’, de John Adams
Joana Carneiro + cantores
Orquestra Gulbenkian
(Fundação Gulbenkian, Lisboa)
Espantosa leitura de compromisso para uma versão de concerto da mais recente ópera de John Adams, num modelo que permitiu valorizar as qualidades narrativas da música.

Ambrose Field + John Potter
(Teatro Maria Matos)
O ponto de partida era a música do álbum Being Dufay, de 2009, que estabelecia pontes entre a música antiga e texturas electrónicas do presente. Actuação minimalista nos recursos, mas plena de sentidos.

Lawrence Foster
Orquestra Gulbenkian
(Fundação Gulbenkian)
Num programa logo no início do ano destacava-se a Sinfonia Nº 1- Jeremiah, de Leonard Bernstein.O viço na direcção de Foster deu-nos uma leitura daqueles que mereciam disco. O programa incluía ainda obras de Tilson Thomas e Mahler.

Acontecimentos do ano:
Óperas do Met em HD


Uma das grandes novidades da temporada de música 2010/2011 da Gulbenkian assinalou a entrada de Lisboa no circuito de cidades (e são já mais de 40) que, pelo mundo fora, assistem às óperas do Met, em Nova Iorque, em transmissões em directo em alta definição. A programação abriu com um soberbo Ouro do Reno.

terça-feira, dezembro 28, 2010

Fotogramas de 2010 (1)


* IRÈNE, de Alain Cavalier

O cinema como janela aberta para o mundo. O filme como espelho do seu realizador. Num momento cristalino, Alain Cavalier relança dois mitos fundadores do imaginário cinematográfico do século XX, com um desvio que está longe de ser banal: a sua câmara digital. Em boa verdade, o seu gesto aceita coexistir com um terceiro mito, pós-moderno e televisivo: o "amador" com a sua câmara, redesenhando a paisagem da sua própria identidade. É uma coexistência perversa, porque em tudo e por tudo alheia à pornografia televisiva: não se trata de fazer "apanhados" nem de promover patéticos "desnudamentos" do corpo ou da alma, mas de voltar a sentir como o cinema se aproxima do desejo e da morte. Bataille sente-se por aqui — como num espelho.

Canções do ano (12)
Darkstar, Gold


Inicialmente um lado B dos Human League, Gold surgiu em 2010 numa belíssima versão assinada pelos Darkstar e que integrou o alinhamento do seu muito recomendável álbum North.

Reedições de 2010


A memória (a sua redescoberta, entenda-se) fez parte das atenções da agenda editorial de 2010 muitos foram os casos de reedições a ganhar grande visibilidade mediática. As grandes apostas neste campo não se limitam contudo mais a uma cosmética no som, com a inevitável remasterização em função do state of the art tecnológico do nosso tempo. Station To Station de Bowie é um bom exemplo da integração de vinil e CD, do disco original e de elementos adicionais (neste caso um concerto da época), somando ainda informação escrita e imagens à oferta final. Do lado de cá da fronteira celebre-se a reedição da obra do GAC. E em Com que Voz, de Amália, assinale-se um patamar de excelência que deverá servir de paradigma para futuras operações do género.

1. David Bowie “Station To Station”
2. Amália Rodrigues “Com Que Voz”
3. Rolling Stones “Exile On Main Street”
4. Arcadia “So Red The Rose”
5. Nick Cave & The Bad Seeds “The Good Son”
6. GAC “Pois Canté!”
7. Riechmann “Wunderbar”
8. Propaganda “A Secret Wish”
9. Wings “Band On The Run”
10. Galaxie 500 “This Is Our Music”

Figuras do ano: Lady Gaga


Em recta final da Monster Ball Tour (que recentemente passou por Lisboa), Lady Gaga conclui um ciclo iniciado com a edição do seu álbum de estreia e que, em dois anos, de si fez um caso de popularidade planetária. Como deixou claro na actuação lisboeta, nem só de música, imagens e criações de moda vive a sua agenda, uma clara política de causas não tendo nunca deixado de a acompanhar. Sobretudo na luta pelos direitos da comunidade LGBT e pela expressão da identidade de cada um.

segunda-feira, dezembro 27, 2010

Canções do ano (11)
Perfume Genius, No Problem


Uma das revelações do ano, o projecto Perfume Genius apresentou ao mundo indie a voz e o talento raro de Mike Hadreas. O seu álbum de estreia, Learning, é um dos grandes discos do ano, propondo canções de incrível fragilidade. Este é um dos temas do álbum e tem por título No Problem.

Revelações de 2010


Entre os que entraram em cena em 2010 (ou aqueles que, já antes com vida activa, só este ano captaram as devidas atenções), destacam-se uma mão cheia de figuras, entre absolutos estreantes e novos projectos de gente já experiente (como o são, por exemplo, o ex-Czars John Grant ou a dupla James Mercer e Danger Mouse, entretanto reunida sob a designação comum Broken Bells). A “revelação” do ano, apresentada numa sucessão de três belíssimos EPs e um single (e anunciando a edição de um álbum de estreia para inícios de 2011, colocou em cena, e já com merecido destaque, a figura de James Blake. Londrino, com formação clássica, revela um interesse pelas electrónicas e por uma muito pessoal assimilação de ecos de escolas da chamada música de dança. É um nome a seguir com toda a atenção em 2011.

1. James Blake
2. Perfume Genius
3. Twin Shadow
4. Broken Bells
5. John Grant
6. Ou Est Le Swimming Pool
7. Hurts
8. Verão Azul
9. Silver Columns
10. Casiokids