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sexta-feira, janeiro 03, 2014

10 actores de 2013... aliás, 11

Apetece propor uma muito primária leitura "psicanalítica" deste cartaz de Homem de Ferro 3: apesar de o seu elenco ser liderado por um dos grandes actores contemporâneos, Robert Downey Jr., o seu nome não é citado... Porquê? Porque há um cinema que, mesmo quando as suas características não o justificam, vive parasitado por um tipo de marketing que ignora os actores (além de que o talento de Downey Jr. se encontra, neste caso, literalmente enlatado). Daí a simples e empenhada evocação: algum do mais interessante cinema contemporâneo passa pela arte de representar (com mais ou menos derivações digitais). Aqui ficam algumas memórias soltas de 2013, através de homens e mulheres que, decididamente, estão muito longe de poder ser substituídos por efeitos especiais. 

* * * * *

* ANIELLLO ARENA
> Reality, de Matteo Garrone
O cinema, felizmente, resiste ao horror "natural" do Big Brother. Na personagem de um concorrente enredado na teia da versão italiana do programa, Aniello Arena supera qualquer estereotipo, expondo um paradoxal processo de desumanização.

* MICHAEL DOUGLAS
> Por Detrás do Candelabro, de Steven Soderbergh
Como representar a sexualidade de Liberace? Talvez começando por contornar a hiper-sexualização e revelando a solidão. O filme é um... telefilme e, por isso, o génio de Michael Douglas não poderá chegar aos Oscars.

* CATE BLANCHETT
> Blue Jasmine, de Woody Allen
Woody Allen sabe onde colher inspiração: Tennessee Williams, Um Eléctrico Chamado Desejo. E Cate Blanchett sabe que é tudo teatro, no sentido em que cada movimento de pálpebras compromete a coerência do cosmos. Faz medo, claro.

* RACHEL WEISZ
> O Profundo Mar Azul, de Terence Davies
Que se espera de um actor? De uma actriz? Que se entregue, sem mágoa nem ressentimento, à insensatez que um filme pode conter. Terence Davies filma como se o melodrama fosse a linguagem dos deuses e Rachel Weisz não o desmente.

* MAX THIERIOT
> Desligados, de Henry Alex Rubin
Neste espantoso labirinto assombrado pela Internet (porventura o mais ignorado filme do ano), Max Thieriot interpreta o prisioneiro "feliz" de um show erótico — raras vezes vimos a solidão que se desconhece representada com esta subtileza.

* OPRAH WINFREY
> O Mordomo, de Lee Daniels
Oprah como especialista do underacting: na fronteira instável entre a história utópica do marido (mordomo na Casa Branca) e a crueza do dia a dia (incluindo a sua dependência do álcool), ela é a personagem secundária em que tudo ecoa.

* SASKIA ROSENDAHL
> Lore, de Cate Shortland
No desamparo da sua personagem — uma filha de um oficial nazi, em 1945, quando a derrota da Alemanha é irreversível —, Saskia Rosendahl consegue pôr em cena a descoberta brutal do Holocausto. Acedemos a um perturbante intimismo.

* OSCAR ISAAC
> A Propósito de Llewyn Davis, de Joel e Ethan Coen
Se existisse uma versão zombie de Bob Dylan, chamar-se-ia Llewyn Davis. Oscar Isaac consegue representá-lo, celebrando a música folk e nunca cedendo à banalização psicológica. Além de que o gato ameaça roubar todas as cenas.

* BRADLEY COOPER
> Como um Trovão, de Derek Cianfrance
Cruel problema expressivo: codificado como actor "ligeiro", mais ou menos galã, Bradley Cooper possui dotes dramáticos invulgares — o polícia assombrado por uma culpa sem nome é uma espantosa personagem, visceralmente trágica.

* AMY ADAMS
> O Mentor, de Paul Thomas Anderson
Transparente ou indecifrável, Amy Adams pode representar tudo e o seu contrário. Na circulação entre pólos opostos, baralhando todas as nossas certezas. Aqui, ela está no coração do poder mais absoluto, expõe o terror repetindo gestos angelicais.

* * * * *

Porque é que a exaltação dos actores quase só se faz através dos filmes que são grandes sucessos de bilheteira? Por uma razão muito simples: a ideologia mediática dominante reduz a vida artística do cinema aos tops de receitas... Assim, não há actor mais celebrado pela sua capacidade de transfiguração do que Johnny Depp, mas a partir do momento em que o brilhantíssimo O Mascarilha, de Gore Verbinski, se revelou um enorme falhanço comercial, parecia que muitas notícias eram escritas por quem tinha acções nos estúdios Disney — experimentem representar com um pássaro morto agarrado à cabeça e depois voltamos a fazer contas...

quarta-feira, janeiro 01, 2014

"Weekend"/Godard em 2013

Nas memórias cinéfilas de 2013, a edição do lendário Weekend (1967), de Jean-Luc Godard, ficou como momento marcante no mercado do DVD — este texto foi publicado na edição de balanço do ano do suplemento "QI", do Diário de Notícias (21 Dezembro), com o título 'Entre o cosmos e o ferro-velho'.

Por vezes, o filme Fim de Semana, de Jean-Luc Godard, é citado como um objecto revelador da crise de Maio 68 que abalou a França. Estão lá as marcas de uma notória crise civilizacional: o consumismo desenfreado, a decomposição cultural da classe média, enfim, o esvaziamento afectivo das relações humanas.
Que Fim de Semana tenha reaparecido em DVD (Films4You), eis uma ironia que os mais perversos avaliarão, talvez, como um comentário ambíguo aos nossos tempos difíceis. Seja como for, vale a pena lembrar que a própria caracterização do filme como painel crítico de Maio 68 carece de pertinência... cronológica. De facto, a sua estreia em Paris ocorreu a 29 de Dezembro de 1967, o que lhe confere uma perturbante energia premonitória – Godard filmava o weekend de um típico casal parisiense (Jean Yanne/Mireille Darc), deparando com a monstruosidade de uma existência desbaratada entre os gadgets da sociedade de consumo e a mais radical incapacidade de qualquer gesto genuinamente amoroso.
Nada disso era novo na metodologia com que Godard observava a sociedade francesa. 2 ou 3 Coisas sobre Ela (1966) já fizera o retrato real e surreal das famílias dos novos agregados suburbanos, enquanto La Chinoise (1967) propunha uma visão terna e cruel do quotidiano dos jovens “maoístas”. A sensação de estarmos perante um universo à deriva, sintoma de uma sociedade carente de valores, começa na emblemática legenda de abertura de Fim de Semana: “Um filme perdido no cosmos”. Depois, em poucos segundos, percebemos que há uma casal, um adultério e uma família minada pelo ódio, para outra legenda nos informar: “Um filme encontrado no ferro-velho”.
Que se passa entre uma coisa e outra? Pois bem, a hipótese desesperada, mas pedagógica, de aplicar o cinema como um derradeiro instrumento de olhar e pensar, capaz de resistir à formatação dos discursos dominantes, emergindo a publicidade como o modelo mais sistemático de normalização de ideias e comportamentos.
Há, assim, uma fúria apocalíptica que perpassa em todos os elementos de Fim de Semana (lembremos o célebre plano de um engarrafamento monstruoso, desembocando num acidente brutal). Para Godard, tratava-se também de colocar um ponto final na lógica experimental em que existira a Nova Vaga. A partir daí, na sua “fase militante”, começaria o inventário de temas e traumas de uma Europa confrontada com um outro apocalipse: o das ideologias que, para o melhor e para o pior, tinham desenhado o mapa das ilusões e desilusões do nosso século XX.

terça-feira, dezembro 31, 2013

5 telediscos de 2013

Confesso a minha visão parcial: não me é fácil aderir a um teledisco cuja canção me seja indiferente... Por isso, este não é um top de "melhores" telediscos do ano, mas apenas uma pequena antologia de sintomas das coisas extraordinárias que a MTV passou a secundarizar, privilegiando os horrores da "reality TV", e as televisões generalistas gostam de ignorar. Dito de outro modo: as alianças entre música e imagens tiveram um ano muito bom — para ver e ouvir, para escutar através da visão.

*

* HOT KNIFE, Fiona Apple
> real.: Paul Thomas Anderson

Senhora de enigmática nobreza, Fiona Apple expõe-se como um corpo revitalizado pela própria música que dele emana. No nosso cinismo banal, diremos, talvez, que Paul Thomas Anderson se limitou a filmá-la em tradicional playback... Pois.


* RESERVOIR, PUP
> real.: Chandler Levack e Jeremy Schaulin-Rioux

São punk mesmo punk, sem pós-modernismos chiques. E do Canadá! Nesta requintada encenação perpassa uma urgência documental que reduz a pó as "coisas reais" que a televisão nos impinge todos os dias. Ponham bolinha vermelha.


* FEEL REAL, Deptford Goth
> real.: Aneil Karia e Daniel Woolhouse

Admirável reconversão do corpo como instrumento musical: ponto de fuga de todas as formas e, ao mesmo tempo, objecto cúmplice do desejo de escrita. Não há diferença entre o mapa da pele e a imaginação dos cosmos.


* TEMPEST, Lucius
> real.: Scott Cudmore

Subitamente, a inocência pop adquire contornos de inquietude. E a cena familiar transfigura-se em teatro da crueldade (merci, monsieur). Em comparação, Miley Cyrus, a pôr a língua de fora, não passa de uma menina mal educada.


* DESPAIR, Yeah Yeah Yeahs
> real.: Patrick Daughters

Karen O é também um bicho visual. Entenda-se: uma daquelas divas que se dá bem com a câmara e conhece as nuances de todas as poses. Além do mais, como diria o outro, basta por a banda no topo do Empire State Building... Pois, pois.

Contar 2013 em três episódios

Depois de tantas listas, hoje falo na primeira pessoa. E de trabalho. Foram 12 meses intensos. Com as rotinas habituais no DN, no site Dinheiro Vivo e na Radar, a melhor edição de sempre do Queer Lisboa e reforçada presença do Sound + Vision não apenas como espaço de informação, divulgação e reflexão mas também como motor de acontecimentos, os encontros mensais na Fnac Chiado sendo disso o mais evidente exemplo. Fui júri em dois festivais de cinema – o Timihort (em Timisoara, na Roménia) e o Córtex (em Sintra), que me permitiram ver ainda mais e melhor cinema. Como DJ fiz apenas três noites, a festa de abertura do Queer Lisboa, no Teatro do Bairro, tendo sido a mais entusiasmante (as restantes foram um set no Sabotage em noite com os Lur Lur e uma festa de recolha de fundos para o Checkpoint LX).

2013 foi também um ano de descobertas e novos projetos em construção de que darei sinais oportunamente. Mas para já, arrumo aqui memórias de feitos de um ano que, por razões naturais, não pude juntar às listas dos melhores de 2013.


Plutão. Já conhecia o Jorge Jácome. Mas o desafio de vestir uma personagem num filme aproximou-nos. Tive apenas de ceder a voz. Não a que faz os Discos Voadores na Radar. Mas uma voz que ele dirigiu (em ensaios e depois em estúdio) para um papel de presença subjetiva numa curta-metragem visual e narrativamente bela, com espantosa banda sonora do Luís Giestas. Foi a minha estreia como ator. E que honra estar num elenco partilhado pela Joana de Verona e pelo David Cabecinha. Foi diferente. Foi bom.


As Flores do MalColaborei nos três filmes que o Flávio Gonçalves realizou, todos eles estreados este ano em festivais de cinema. Co-produzi e fui consultor musical em De Manhã. Produzi As Flores do Mal. E fui consultor musical em Noite de Aniversário. Não sei o que 2014 me trará no cinema... Mas haverá notícias, espero... Porque destaco dos três filmes As Flores do Mal? Não só é o de que mais gosto como aquele em que sinto que colaborei mais ativamente (e no qual vi como uma boa pequena equipa pode fazer muito). Na imagem vemos o Flávio a dirigir a cena de abertura, com a Joana e o Francisco.


Contos de Amor e Trabalho num País: Portugal. A pedido do Nuno Rodrigues escrevi um pequeno livrinho sobre a história da Banda do Casaco que integrou a segunda das caixas com a integral da obra do grupo que a CNM editou na reta final do ano. É um dos nomes que mais admiro na história da música portuguesa. Depois de ter escrito uma biografia de Sérgio Godinho e ter trabalhado na arqueologia das memórias pessoais de António Variações que permitiram depois fazer o disco dos Humanos, esta foi uma experiência que guardo entre as que mais me satisfizeram profissionalmente.

segunda-feira, dezembro 30, 2013

Bowie em 2013

Nas memórias musicais de 2013, o álbum The Next Day, de David Bowie, emerge como marca de um veterano que não desiste da ousadia juvenil — este texto foi publicado na edição de balanço do ano do suplemento "QI", do Diário de Notícias (21 Dezembro), com o título 'A arte de celebrar 66 anos'.

Desde a publicidade aos programas televisivos de “divertimento”, continuamos a ser violentados por uma ideologia que promove a “juventude” contra tudo o resto, exaltando-a quase sempre como símbolo de ligeireza e risonha irresponsabilidade. Veja-se o espaço publicitário: quantos anúncios nos bombardearam com a ideia (?) de que um jovem exemplar é aquele que gasta o tempo a consumir bebidas alcoólicas ou a olhar para o ecrã do telemóvel?
Neste contexto, é bom podermos dizer que uma das figuras emblemáticas de 2013 completou este ano uns radiosos 66 anos. Por mera celebração da “velhice”? Nada disso. Apenas porque David Bowie, o senhor que completou 66 anos no dia 8 de Janeiro, reapareceu com uma energia criativa de fazer inveja a muita “juventude” que anda por aí enredada no mais triste conformismo temático e estético.
Where Are We Now?, primeiro single de The Next Day (Columbia), 24º álbum de estúdio de Bowie, foi lançado precisamente no dia 8 de Janeiro. O acontecimento teve um impacto tanto mais bizarro quanto Bowie dispensou o aparato que, melhor ou pior, tende a enquadrar este tipo de eventos: nenhuma campanha, nenhum teaser, nenhum junket para jornalistas de todo o mundo... Em boa verdade, nem sequer uma banal notícia de antecipação: no dia 8 de Janeiro, Where Are We Now? e o respectivo teledisco apareceram no iTunes. Depois, veio mesmo a saber-se que o novo álbum tinha sido preparado, em absoluto segredo, ao longo dos últimos dois anos.
A partir daí, Bowie transformou-se numa das personalidades em destaque ao longo de 2013. Desde logo, claro, porque The Next Day se revelou uma colecção de canções capaz de envolver a revisitação do seu próprio património criativo, a par de uma serena avaliação da passagem do tempo (“Aqui estou eu, não exactamente a morrer”, diz ele no tema que empresta o título ao álbum). A sua presença adquiriu mesmo uma sedutora ubiquidade, através de alguns notáveis telediscos e também de uma exposição retrospectiva (“David Bowie is”) no Victoria & Albert Museum, depois deslocada para Toronto (São Paulo e Chicago recebê-la-ão ao longo de 2014).
Não se trata, entenda-se, de apresentar Bowie como modelo universal seja do que for. O certo é que a sua estratégia de apresentação de The Next Day acabou por funcionar também como uma pedagógica demarcação dos efeitos correntes do imaginário dos “famosos”. Com uma rima exemplar no final do ano: a 13 de Dezembro, sem dizer nada a ninguém, Beyoncé lançou um novo álbum directamente no iTunes...

As canções de 2013:
Moby feat. Mark Lanegan, The Lonely Night




O mais recente álbum de Moby vem carregado de contribuições de peso. E, mesmo longe de ser um disco marcante, na verdade representa o seu mais interessante conjunto de composições desde o célebre Play. Esta colaboração com Mark Lanegan está contudo acima da média do resto do que ali se escuta.

As imagens de 2013: um teledisco no espaço


O primeiro teledisco nascido no espaço... Sim, foi um dos feitos musicais e científicos do ano. O comandante canadiano Chris Hadfield aproveitou o período que passou na ISS (iniciais internacionais para a Estação Espacial Internacional) para juntar ao trabalho científico o seu gosto pela música. E na hora de pensar um teledisco para enviar de órbita para os que andam aqui pela Terra, escolheu naturalmente o clássico Space Oddity, de David Bowie.

Podem ver aqui o teledisco.

domingo, dezembro 29, 2013

Os melhores filmes de 2013 (J. L.)

1 - LINCOLN, de Steven Spielberg
2 - O OUTRO LADO DO CORAÇÃO, de John Cameron Mitchell
3 - O MENTOR, de Paul Thomas Anderson
4 - O PROFUNDO MAR AZUL, de Terence Davies
5 - LIKE SOMEONE IN LOVE, de Abbas Kiarostami
6 - BLUE JASMINE, de Woody Allen
7 - FAUSTO, de Aleksandr Sokurov
8 - A ESSÊNCIA DO AMOR, de Terrence Malick
9 - A VIDA DE ADÈLE, de Abdellatif Kechiche
10 - LORE, de Cate Shortland

Foi um ano simbolicamente dominado por Steven Spielberg.
Primeiro, porque, ecoando uma dramática intervenção pública de Steven Soderbergh, lembrou que o cinema americano, insistindo numa estratégia económica totalmente dependente de uma dúzia de "blockbusters" anuais, corre o risco de "implosão".
Depois, porque veio à Europa e, na qualidade de presidente do júri do Festival de Cannes, foi peça decisiva na atribuição da Palma de Ouro ao filme menos cómodo e universalista da competição: A Vida de Adèle, de Abdellatif Kechiche.
Enfim, porque dirigiu Lincoln, ensaio actualíssimo sobre o poder político da palavra, depois de a relutância dos estúdios quase o ter obrigado a decidir-se pelo formato de mini-série televisiva — Soderbergh, precisamente, não conseguiu concretizar o seu Por Detrás do Candelabro em cinema, acabando por rodá-lo como se fosse um telefilme, em qualquer caso outro grande acontecimento do ano (com estreias em sala em diversos mercados, incluindo o português).
Os problemas estruturais apontados por Spielberg estão longe de se poder compreender como questões internas de Hollywood: no seu imenso poder económico (que não pode ser confundido com a sua fascinante energia artística), o cinema americano continua a ser o principal formatador da maior parte das regras de difusão de filmes um pouco por toda a parte, nomeadamente na Europa. Exemplo cruel deste ano: o prodigioso O Outro Lado do Coração (Rabbit Hole), de John Cameron Mitchell, chegou às salas portuguesas cerca de dois anos e meio depois da estreia americana e nem o facto de ter valido a Nicole Kidman uma nomeação para o Oscar de melhor actriz lhe trouxe qualquer suplemento promocional.
Estamos cansados, enfim, do horror afectivo e narrativo, numa palavra, humano que a desvergonha do Big Brother e seus derivados todos os dias injecta na nossa vida. Não só por isso, mas também por isso, o cinema persistiu como uma paisagem de resistência às imposturas do "naturalismo" televisivo. Por certo celebrando os seus mais primitivos artifícios (veja-se o genial anacronismo do trabalho de Aleksandr Sokurov), mas também repondo a possibilidade de algum esquecido realismo  — Lore, por exemplo, arriscou mergulhar nos fantasmas do nazismo para nos devolver factos, personagens e corpos. É uma exemplar lição política e estética.

As canções de 2013:
Elvis Costello + The Roots,
Cinco Minutos Con Vos



Um encontro entre Elvis Costello e o coletivo The Roots deu-nos um espaço de diálogo entre linguagens em mais um álbum que ajuda a definir o tempo de híbridos em que vivemos. O travo latino dos climas jazzy desta canção emergem como um dos momentos mais felizes do alinhamento.

Os melhores DVD e Blu-ray de 2013 (N.G.)

É um percurso pessoal. E a voz – que em nada serve os caminhos habituais da locução para documentários – é apenas uma das mais evidentes expressões das marcas de personalidade que definem a alma do projeto. Falo de um espantoso percurso através da história do cinema que, sob condução de Mark Cousins, não deixa de focar a essência dos factos mais determinantes, juntando contudo o entusiasmo e a paixão de quem partilha depois a sua visão das coisas. Num ano de muitos lançamentos e de muito cinema, o melhor que chegou a estes suportes caseiros foi mesmo esta História do Cinema. Um retrato do melhor do ano passa ainda pelo reencontro com aquele que em 1953 tinha sido o primeiro filme de Stanley Kubrick (onde na verdade já se lançam ideias futuras, ao mesmo tempo que se repara na presença do olhar do fotógrafo que fora até aí). Da música que chegou às imagens o melhor de 2013 surgiu do palco do Met, sobretudo as óperas Nixon In China de John Adams e The Tempest, de Thomas Adès. Espantosa ainda a rapidez com que a estreia mundial de The Perfect American, de Philip Glass, passou do palco do Teatro Real, em Madrid, para o Blu-ray.

1. História do Cinema, de Mark Cousins (DVD, Midas)
2. Medo e Desejo, de Stanley Kubrick (Blu-ray, Divisa)
3. Nixon In China, de John Adams (Blu-ray, Nonesuch)
4. Theorem, de Pier Paolo Pasolini (Blu-ray + DVD, BFI)
5. The Perfect American, de Philip Glass (Blu-ray, Opus Arte)
6. The Newsroom (1ª temporada), criado por Aaron Sorkin (DVD, Warner / Lusomundo)
7. Shoah, de Claude Lanzmann (DVD, Midas)
8. Stromboli (dual edition), de Roberto Rosselini (Blu-ray + DVD, BFI)
9. Kilas, o Mau da Fita, de José Fonseca e Costa (DVD, Satyricon)
10. The Tempest, de Thomas Adès (DVD, Deutsche Grammophon)

As figuras de 2013: Mark Lewisohn

Se Hunter Davies ficou na história como o primeiro biógrafo “oficial” dos Beatles, Mark Lewisohn será um dia lembrado como o autor daquela que parece começar a afirmar-se como a biografia definitiva dos fab four. Ele, que já publicou outros títulos sobre o grupo e assinou textos em vários lançamentos discográficos, anunciara em 2005 que iria escrever uma grande biografia dos Beatles. O processo de investigação levou mais tempo que o esperado e só este ano o primeiro dos três volumes da obra anunciada ganhou vida. Editado já na reta final do ano, The Beatles: All These Years, Volume One – Tune In é um espantoso tratado de 960 páginas, que cruza um intervalo de tempo entre memórias de família dos músicos e o ano de 1962. Sim, aquele em que é editado o single de estreia Love Me Do. Esperamos agora as cenas dos próximos capítulos...

Os melhores discos de 2013 (J. L.)

ARCHY MARSHALL (nome artístico: King Krule)
* OS VELHOS. ... lembro-me quase sempre do mau humor de Jean-Paul Belmondo, em O Acossado (1959), de Jean-Luc Godard — numa cena de rua, quando uma jovem lhe tenta vender um exemplar dos Cahiers du Cinéma, sugerindo que, por certo, ele não tem nada contra a juventude, Belmondo responde: "Sim, gosto muito dos velhos".
Este ano, musicalmente, houve muitas e gratas razões para continuar a gostar dos velhos, a meu ver quase sempre mais genuínos e verdadeiros que muitas sofisticadas "imitações" pós-modernas, tão seriamente profissionais quanto emocionalmente inócuas. Lembro, por isso, as proezas de John Fogerty (Wrote a Song for Everyone), Paul McCartney (New) ou David Bowie (The Next Day); ou o monumento de relíquias esquecidas e recuperadas de Eric Clapton (Give Me Strength: The '74/'75 Recordings); ou ainda as novas aventuras de veteranos, embora de uma geração posterior, como The Flaming Lips (The Terror) e Nine Inch Nails (Hesitation Marks); além de que, last but not least, 2013 voltou a ter Beatles (On Air - Live at the BBC Vol. 2)!

* OS NOVOS. Dito isto, não posso deixar de reconhecer que a imagem corrente da juventude, combinando ridicularização mental e indiferença social (como é possível a MTV ter chegado tão baixo?...), foi sendo compensada e, sobretudo, corrigida pela simples e maravilhosa verdade do talento realmente jovem. É verdade: dos álbuns que fui escutando (e não tenho, nem de longe nem de perto, a pretensão de ter acedido a tudo, nem sequer a tudo o que, à partida, suscitava a minha curiosidade), muitos dos que me tocaram têm assinatura de gente muito nova, admiravelmente criativa.
Para mim, de facto, alguns dos grandes momentos musicais de 2013 foram de nomes estreantes. Daí a minha proposta, naturalmente instintiva e nada científica, de um top de primeiros álbuns — não sei se foram os "melhores", mas atrevo-me a pensar que a alegria de continuar a fazer música (velha, nova ou sem calendário) passa por aqui.

1 - 6 FEET BENEATH THE MOON, King Krule.


[Canção: EASY, EASY] Archy Marshall nasceu em Londres, usa o nome artístico King Krule e canta num registo de elaborado dramatismo que alguns incluem nos domínios da chamada neo-soul; o seu primeiro álbum foi editado a 24 de Agosto de 2013, dia do seu 19º aniversário.

2 - IF YOU WAIT, London Grammar.


[Canção: NIGHTCALL] Paisagens pop, horizontes electrónicos, alguma contaminação trip hop, dois rapazes (Dan Rothman, guitarra; Dot Major, piano, bateria e tudo o que for necessário) e uma rapariga (Hannah Reid, vocalista de serena teatralidade): são de Londres, of course.

3 - SAN FERMIN, San Fermin.


[Canção: DAEDALUS] San Fermin? O festival de Pamplona? O álbum tem um touro na capa, mas a banda é a cena de trabalho de um compositor de Brooklyn, Ellis Ludwig-Leone, ex-assistente de Nico Muhly: sofisticação pop reescrita, em apoteose, como monumento sinfónico.

4 - SILENCE YOURSELF, Savages.


[Canção: HUSBANDS] Londres, outra vez. É um quarteto feminino que abraçou as radiosas angústias do pós-punk e soa como se o mundo tivesse começado ali (ou acabado, tanto faz...). A vocalista, Jehnny Beth, é de facto francesa e chama-se Camille Berthomier. C'est la vie.

5 - PURE HEROINE, Lorde.


[Canção: TENNIS COURT] Ninguém escapou a Royals, o single que fez de Lorde uma espécie de Miley Cyrus em versão alien. É bastante melhor, digo eu. E não vem de Londres: nasceu na Nova Zelândia, tem 17 anos e no seu BI consta o nome Ella Maria Lani Yelich-O'Connor.

6 - AMOK, Atoms for Peace.


[Canção: DEFAULT] Aviso à navegação: é o joker desta selecção. Porque é um primeiríssimo álbum, mas de uma banda de experts reunidos por Thom Yorke, incluindo o produtor Nigel Godrich e Flea, dos Red Hot Chili Peppers. Mas não será que soa um pouco a Radiohead? Não um pouco... Muito!

7 - TORRES, Torres.


[Canção: HONEY] Será que podemos, ou devemos, falar de maturidade aos 22 anos? Torres chama-se, de facto, Mackenzie Scott e vem de Nashville. Em todo o caso, as suas raízes não estão exactamente no country, mas num rock primitivo, feminino, apaixonado e apaixonante.

8 - SING TO THE MOON, Laura Mvula.


[Canção: THAT'S ALRIGHT] Diz-se influenciada pelo som das Eternal. As profundezas da soul e as nuances do R&B ressurgem, cristalinas e sensuais, na voz desta intérprete inglesa, natural de Birmingham. Passou pelo coro de uma igreja, o que, bem entendido, só lhe fez bem.

9 - DAYS ARE GONE, Haim.


[Canção: FALLING] Beach Girls? As três irmãs Haim são da Califórnia (Los Angeles) e praticam uma pop tão visceral quanto versátil, a que tem sido reconhecida a influência dos Fleetwood Mac. Elas preferem evocar as Destiny's Child, o que talvez seja outra maneira de dizer o mesmo.

10 - 180, Palma Violets.


[Canção: LAST OF THE SUMMER WINE] Provavelmente, como num filme dentro de um filme, não saímos do mesmo sítio. Ou seja: ainda de Londres, aí estão os Palma Violets, senhores de um garage rock puro e duro, sem desculpas nem modernices — e quem vier atrás que feche a porta.

sábado, dezembro 28, 2013

As canções de 2013:
Major Lazer feat. Ezra Koenig, Jessica



Em 2012 tinha chegado um promissor aperitivo do que poderíamos esperar de um novo álbum do projeto de Diplo. O disco confirmou. E entre o alinhamento destacou-se esta expressão da cultura dub sob uma colaboração do vocalista dos Vampire Weekend.

Os melhores discos nacionais de 2013 (N.G.)


Há tempos em que andamos por caminhos diferentes. E este ano os meus caminhos não andaram por estes lados... Tirei assim o fim de ano para procurar um retrato do que me escapara. E afinal descobri melhor que o que esperava, entre esses episódios acabando mesmo por surgir algumas das melhores notas de uma colheita que assim convida a um reencontro já a seguir. Há pausas que fazem bem por isso mesmo. E mesmo não tendo vivido tão intensamente este ano de produção nacional como o fiz em outras ocasiões, não faltaram assim elementos para juntar um conjunto do que de mais interessante 2013 nos deu por estes lados. Destaco naturalmente o disco do projeto nascido em paralelo aos Hipnótica. Chamaram-lhe Beautify Junkyards, o mesmo nome que deram ao grupo que foi gravando na estrada e procurando encontrar formas de diálogo entre as paisagens do campo e da cidade, num lote de versões que partem de temas de Nick Drake ou Vashti Bunyan e passam pelos Mutantes ou Kraftwerk. O melhor do ano nacional em disco passou também pelo regresso à discografia ativa da obra da Banda do Casaco (e não refiro aqui as caixas antológicas porque tive uma participação ativa na sua construção, assinando um dos livrinhos que as acompanham). Tiago Sousa reafirmou uma voz pianística contemporânea cativante. E Gisela João trouxe mesmo algo de novo ao universo do fado. Atenção também aos espaços da chamada música de dança. Nomes como Mirror People, Sabre ou TNT Subhead dão-nos sinais de movimentações que, mesmo mais partilhadadas em solo underground que à vista de todos, revelam focos de criatividade que não podemos ignorar ao retratar o que de melhor por aqui vai acontecendo. 

1. Beautify Junkyards, Beautify Junkyards (Metropolitana) 
2. Banda do Casaco, 40 Anos de Som (CNM)
3. Tiago Sousa, Samsara (Immune) 
4. Gisela João, Gisela João (Valentim de Carvalho) 
5. Mirror People, 2013 Complete Works (Discotexas) 
6. Sérgio Godinho, Caríssimas Canções (Universal) 
7. Sabre, Nightdrive To Bolland (WT Records) 
8. Noiserv, A.V.O. (ed. autor) 
9. Carlos do Carmo, Fado é Amor (Universal) 
10. TNT Subhead, Ecstasy & Realease (Groovement PT)

As imagens de 2013: 30 anos do CAM

Foto: N.G.

Os 30 anos do Centro de Arte Moderna Madalena Azeredo Perdigão foram assinalados por uma exposição que não só procurou representar a sua coleção e atividade como soube encontrar em Amadeo de Souza Cardoso um importante ponto de partida e fio condutor. Foi uma das grandes exposições de um ano em que deve também ser assinalada a magnífica ‘Encomenda Prodigiosa’, que se materializou entre o Museu Nacional de Arte Antiga e a Igreja de S. Roque, dando-nos uma mostra com capacidade para integrar a agenda internacional que hoje faz do turismo cultural um importante foco de atenções.

sexta-feira, dezembro 27, 2013

As canções de 2013:
Pixies, Andro Queen



Têm andado pelos palcos, sobretudo a revisitar canções com mais de vinte anos. Mas este ano juntaram um novo EP à sua discografia, o primeiro de uma série que terá continuidade em 2014. E uma das novas canções mostrou, mesmo sem marcas de mudança face ao passado, uma das mais belas composições dos Pixies.

Os melhores concertos de 2013 (N.G.)

Foto: Teatro M. Matos
Marc Almond
(Teatro Maria Matos, Lisboa)
Foi preciso esperar mais de 30 anos para vermos Marc Almond num palco português. Mas a espera foi compensada. E a noite de dia 20 de dezembro fez do Natal no Maria Matos um acontecimento emotivo de partilha de canções, onde não faltaram as referências a Jacques Brel nem mesmo aos Soft Cell.

Panda Bear
(Lux, Lisboa)
Era uma noite programada por ele mesmo. Mas ele era também o mais aguardado do cartaz, até porque ia apresentar apenas temas novos. Um trabalho de mais clara abordagem a ritmos mais pronunciados e, pelo caminho, uma nova canção (mais lenta) que é das melhores que alguma vez nos deu.

John Grant
(Cinema São Jorge, Lisboa)
O mais apelativo dos nomes do Mexefst, John Grant visitou Lisboa com o grupo (essencialmente islandês) com o qual dá corpo às canções de um soberbo segundo álbum – Pale Green Ghosts - que editou este ano. O encontro deixou claro que este é nome para nos voltar a visitar brevemente.

Justin Timberlake
(Rock in Rio, Rio de Janeiro)
Foi o grande concerto da edição deste ano do Rock In Rio e é já um nome certo no cartaz do festival que em 2014 vai assinalar os dez anos de presença em Lisboa. Sem aparato maior no palco, Timberlake centrou as atenções nas canções e nas suas capacidades como performer. E venceu o desafio.

Dead Can Dance
(Coliseu dos Recreios, Lisboa)
Poucas vezes os regressos e reuniões são matéria digna de entusiasmar mais que o departamento da nostalgia. Talvez tenha havido alguma ali, sim. Mas foi um serão de intensa vivência de uma linguagem que transporta ecos dos oitentas, mas que acolheu também os sons do álbum recentemente editado.


Clássica


The Perfect American, de Philip Glass
Cantores e Coro e Orquestra do Teatro Real, dir. Dennis Russel Davies
(Teatro Real, Madrid)
Uma das melhores óperas de Philip Glass, The Perfect American parte de um retrato de Walt Disney para refletir também sobre o mundo político e social do seu tempo (estabelecendo pontes com o nosso). Trabalho de orquestra e voz reflete procura de novos sentidos dramáticos e soberba encenação.

Candide, de Leonard Bernstein
Cantores, Orq. Sinfónica Portuguesa e Coro do T.N. São Carlos, dir. João Paulo Santos
(Largo S. Carlos, Lisboa)
A ópera saiu à rua. Foi numa noite quente, apresentando a Lisboa um dos mais brilhantes (e bem humorados) trabalhos de música dramática do século XX, na versão “definitiva” que o próprio Bernstein chegou a dirigir em finais dos anos 80. Largo cheio para um dos grandes momentos que a cidade viveu este ano.

Sinfonia Nº 7, de Sibelius
Mahler Jugendorchester, dir. Leo McFall
(Fund. Gulbenkian, Lisboa)
Já nos habituamos à visita anual da brilhante Mahler Jugendorchester ao Grande Auditório da Gulbenkian. Este ano, com o maestro LeoMcFall escutámos uma belíssima interpretação da Sinfonia Nº 7 de Sibelius (e com ela uma rara oportunidade para ouvir, ao vivo, a música deste grande sinfonista do séc. XX).

Diabelli Variations, de Beethoven
Uri Caine + Orq. Gulbenkian, dir. Joana Amaral
(Fund. Gulbenkian, Lisboa)
Depois de uma visita triunfal no ano passado, evocando Wagner e a sua relação com Veneza, Uri Caine regressou à Gulbenkian para nos propor uma abordagem livre e muito pessoal das Diabelli Variations, numa interpretação que contou com uma espantosa cumplicidade da Orquestra Gulbenkian.

Emilie, de Kaaija Saariaho
Barbara Hannigan + Orq. Gulbankian
(Fund. Gulbenkian, Lisboa)
Tal como ali vimos recentemente uma expressão de palco que transcende o modelo da versão de concerto, de um A Flowering Tree, de John Adams, este ano a finlandesa Saariaho levou à Gulbenkian Emilie, com uma pungente Barbara Hanningan e bela criação cénica de Vasco Araújo e André Teodósio.

As figuras de 2013: J.J. Abrams


Aos poucos começa a afirmar-se como um dos grandes do cinema de aventuras (e muito a puxar para a ficção científica) do nosso tempo. Este ano J.J. Abrams confirmou que a sua abordagem ao universo Star Trek é coisa consistente e capaz de dar à série uma vitalidade continuada que parecia perdida nos últimos filmes e spin offs televisivos. Mas a grande notícia do ano foi mesmo a confirmação de que o episódio VII de Star Wars, que conta já com a confirmação de várias presenças da trilogia original, terá o seu nome na cadeira do realizador.