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segunda-feira, agosto 03, 2026

Novas memórias da contracultura

William S. Burroughs na Nova Convention (Nova Iorque, 1978)

William S. Burroughs foi a figura central da Nova Convention, em 1978, um misto de espectáculo e forum de ideias: Nova ‘78 é um documentário feito a partir das respectivas imagens: está nas salas e também na Filmin — este texto foi publicado no Diário de Notícias (29 julho).

Figura emblemática da Geração Beat, a par de outros escritores como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, William S. Burroughs (1914-1997) deixou um peculiar legado como inspirador, personagem ou fantasma de projectos cinematográficos muito variados. Lembremos o seu breve e muito céptico diálogo com Matt Dillon no filme Drugstore Cowboy/No Trilho da Droga (1989), de Gus Van Sant. E destaquemos, sobretudo, dois títulos admiráveis, tão ousados quanto inclassificáveis, inspirados nos seus romances: Naked Lunch (David Cronenberg, 1991) e Queer (Luca Guadagnino, 2024). Podemos redescobri-lo agora através de um belo documentário, Nova ‘78, elaborado a partir de imagens da chamada Nova Convention, um evento de 1978 organizado para celebrar o regresso de Burroughs à América — tem assinatura de um americano, Aaron Brookner, e um português, Rodrigo Areias, e conta com música original de The Legendary Tiger Man.
Burroughs regressara aos EUA em 1974, iniciando um processo de superação da toxicodependência que contou com o apoio essencial do seu amigo Ginsberg. Recuperando o título da “Nova Trilogy” (com os romances The Soft Machine, The Ticket That Exploded e Nova Express, publicados no período 1961-64), a Nova Convention realizou-se em Nova Iorque, ao longo de três dias de 1978 (30 nov., 1 e 2 dez.). O programa contemplou uma série de conversas, performances e concertos que, em última instância, corresponderam a um “balanço” da contracultura da década de 1970 que elegera Burroughs como um inspirador e, no plano simbólico, um guru — recorde-se que o termo “contracultura” surgira em 1969 num livro do escritor e filósofo Theodore Roszak.
Esquematizando, poderá dizer-se que a contracultura, fortemente marcada pela contestação do envolvimento militar dos EUA no Vietname, funcionou como uma superação cultural e política das ilusões libertárias da década de 1960. No limite, o que estava em causa era a desmontagem dos valores de uma sociedade cada vez mais conservadora e com um crescente aparato legal de monitorização das diferenças individuais — neste contexto, Burroughs emergia, mais do que nunca, como “filósofo do futuro”.
Foi Howard Brookner, tio de Aaron Brookner, que obteve as imagens da Nova Convention — ele viria, aliás, a realizar o documentário Burroughs: The Movie (1983). Aaron e Areias evitam a facilidade de “descrever” tais imagens através de uma voz “off” convencional, preferindo preservar a contagiante espontaneidade de um registo que acaba por ser contaminado pelos sobressaltos da própria organização.
Os momentos têm tanto de variado como de surpreendente, incluindo o discurso de uma Patti Smith algo desorientada, mobilizada para explicar à assistência que a anunciada presença de Keith Richards (que tinha atraído a maioria dos espectadores) não vai acontecer... sendo “substituído” por Frank Zappa! Para lá das intervenções nos debates, deparamos ainda, por exemplo, com a leitura de um poema por Ginsberg, uma performance de Merce Cunningham, com John Cage, um discurso utópico de Laurie Anderson e um solo de sintetizador por Philip Glass. A deficiente logística de tudo isso não impede que se sinta o acontecimento como uma tentativa contracultural, precisamente, empenhada em definir os caminhos de pensamento e acção que estavam (ou estão) por percorrer.
Apostando na pluralidade dos actuais circuitos de difusão, a Nitrato Filmes, distribuidora de Nova ‘78, lança o filme em simultâneo nas salas e na plataforma Filmin.

segunda-feira, janeiro 24, 2022

Memórias e utopia de Rodrigo Areias

Acácio de Almeida em Cinema/Vencidos da Vida

Rodrigo Areias percorre momentos emblemáticos da sua filmografia, construindo um filme que celebra o cinema e o desejo de filmar: Vencidos da Vida está nos TVCine — este texto foi publicado no Diário de Notícias (6 janeiro).

De que se faz o território particular de um cineasta? E, sobretudo, como é que esse território se define e auto-define? Ou ainda: como é que o cineasta desenha o seu próprio mapa?
Em boa verdade, a evolução de qualquer filmografia pessoal vai respondendo a tais questões: cada nova obra existe como uma forma de refazer, porventura expandir, negar ou renegar, a paisagem criativa do autor. Por vezes, isso acontece até num tom em que pedagogia rima com ironia — lembro o delicioso exemplo de Entrevista (1987), de Federico Fellini, com o autor de La Dolce Vita a “inventar” uma entrevista com uma equipa da televisão japonesa, num jogo de escondidas em que Fellini brinca com a percepção corrente do seu trabalho. Outras vezes, a memória privada confunde-se com a dramatização da identidade cinematográfica — veja-se o belíssimo JLG por JLG (1994), de Jean-Luc Godard.
Rodrigo Areias apostou num registo bem diferente, encarando a sua memória criativa como um auto-retrato em forma de “puzzle” aberto a inesperadas (re)configurações. O seu filme Vencidos da Vida (TVCine) funciona, assim, como uma colagem de fragmentos de vários títulos da sua filmografia, incluindo Corrente (melhor curta-metragem portuguesa e prémio do público no Curtas Vila do Conde de 2008), Golias (2010), Cinema (2014), Pixel Frio (2018), etc.
Obviamente, o título escolhido está longe de ser indiferente, cruzando simbolicamente o filme com as memórias a Geração de 70 das décadas finais do século XIX português (Antero de Quental, Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, etc.). Reunidos regularmente sob a designação de “Vencidos da Vida”, o grupo corporizou um lema enunciado por Eça e evocado nas notas de produção do filme: “Para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou, mas do ideal íntimo a que aspirava.”
Dir-se-ia que Rodrigo Areias apostou numa sedutora ambivalência: há um saldo de desencanto nas imagens e sons agora coligidos, como se neles houvesse (e há!) um desejo de utopia que a história não cumpriu; ao mesmo tempo, esse desencanto coexiste com uma obstinada alegria de filmar a que, à falta de melhor, daremos o nome de felicidade artística.
Viajamos, assim, por experiências narrativas que vão desde o realismo (quase) expressionista de Corrente até ao ritual intimista de Pixel Frio. De qualquer modo, é a curta-metragem Cinema, protagonizada por uma personalidade maior da história do cinema português — o director de fotografia Acácio de Almeida — que emerge como “guia” de Vencidos da Vida. Aí descobrimos a tristeza das ruínas de uma sala emblemática de Guimarães, o Teatro Jordão (actualmente, em processo de reconstrução). Tudo se passa como se essa consciência amarga da emoção primitiva do cinema se tivesse tornado um bem precioso que importa preservar, não como objecto museológico, antes como visão e atitude que as novas gerações podem (e devem) conhecer.

quinta-feira, julho 09, 2020

"Surdina" em cine-concerto(s)

Com produção do Bando à Parte, Surdina, título do novo filme de Rodrigo Areias, com argumento de Valter Hugo Mãe e música de Tó Trips, também é nome de concerto. Aliás, concertos — no plural. Para lá da difusão tradicional, e retomando uma aposta experimentada pelo realizador desde Estrada de Palha (2012), haverá também quatro projecções com música ao vivo. Assim, em Julho, Tó Trips estará nas seguintes sessões:

* PORTO / cinema Trindade (dia 9, estreia nacional)
* GUIMARÃES / Centro Cultural Vila Flor (dia 10)
* LISBOA / Amoreiras (dia 15)
* AVEIRO / Festival dos Canais (dia 16)

Este é o 'Tango Surdina' da banda sonora original.