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segunda-feira, novembro 11, 2019

"Joker": um recorde financeiro

Falar dos dinheiros de Joker? Digamos que a pose de Joaquin Phoenix, entre a ironia e a amargura, resume a questão. A saber: poderíamos estar a falar de um apocalíptico desastre financeiro... sem que isso impedisse o filme de Todd Phillips de ser a esplendorosa obra de arte que é.
Mas... Qual é o mas que aqui se coloca? Mas o certo é que vivemos num contexto mediático em que qualquer acumulação de milhões de dólares de um medíocre filme de super-heróis serve para tratar esse mesmo filme como um objecto redentor e intocável sem que, precisamente, alguém faça contas com os números que se propagam.
Acontece que a revista Forbes, fiel ao seu estilo, decidiu fazer contas. Que é como quem diz: decidiu falar dos dinheiros de Joker, esclarecendo o que significam os seus (quase) mil milhões de dólares de receitas acumuladas. Ou seja: essas receitas multiplicam por 15,3 o seu orçamento de produção (62,5 milhões).
O contraste a reter pode caracterizar-se através de um elucidativo exemplo: Avengers: Endgame já acumulou mais de 2,7 mil milhões de dólares, mas isso "apenas" multiplica por 7,9 os seus custos.
A lição é rudimentar, mas incontornável: seria saudável que os media tratassem os dinheiros dos filmes e da indústria cinematográfica, não como bandeiras abstractas, antes como dados que importa compreender, relativizar e contextualizar — de tal modo que a Forbes pode noticiar que, entre os filmes inspirados em BD, Joker se transformou no "mais rentável de sempre".
Falando de coisas (ainda mais) sérias, aqui fica um video de Todd Phillips para a Vanity Fair, sobre a cena de abertura de Joker.

sexta-feira, novembro 08, 2019

Dia Mundial do Cinema
— e depois?...

[ Todd Phillips ]
Na data de 5 de Novembro, o Dia Mundial do Cinema celebrou-se numa conjuntura recheada de dúvidas sobre as actuais condições de produção e difusão dos filmes: O Irlandês, de Martin Scorsese, pode simbolizar os desafios que afectam todos os mercados, em particular os mais pequenos. No seu Instagram, Todd Phillips achou por bem (e muito bem!) dar a conhecer algumas magníficas fotografias de rodagem do seu Joker, muitas delas dando conta de diversos aspectos da genial transfiguração de Joaquin Phoenix [foto], afinal celebrando também o facto de um filme realmente ousado e inventivo poder surgir no coração de uma indústria cujos tecnocratas tendem a confundir efeitos especiais com trabalho narrativo — este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 Novembro).

Há qualquer coisa de insólito, misto de sedução e absurdo, no facto de, um pouco por toda a parte, estarmos a assinalar o Dia Mundial do Cinema [5 Novembro]. Uma coisa é certa: quase 124 depois da primeira projecção pública dos irmãos Lumière (a 28 de Dezembro de 1895, no Grand Café de Paris), não faltam sinais contraditórios, entre a euforia e o desespero, motivados pelo apelo simbólico da data.
Na Internet, os sites mais diversos, mesmo os que habitualmente não dedicam especial atenção ao cinema, propõem listas dos 10, 50 ou 100 filmes que importa conhecer antes de morrermos... De passagem, ficamos a saber que quase todos se esqueceram de figuras fundadoras da própria história do cinema, como o americano David W. Griffith (1875-1948) ou o russo Sergei M. Eisenstein (1898-1948)… Ao mesmo tempo, as lojas (materiais ou virtuais) promovem a venda de “clássicos” para celebrar o dia, por vezes deixando-nos a sensação de que estão sobretudo a tentar rentabilizar as sobras de armazém...
Sopram ventos agrestes sobre a paisagem cinematográfica. E há uma palavra anglo-saxónica que já todos adoptámos para condensar o imbróglio industrial, comercial e simbólico em que todos os filmes, directa ou indirectamente, passaram a estar envolvidos. Essa palavra — “streaming” — pode resumir, afinal, uma tragédia suspensa que começou há pouco mais de meio século.
Assim, a partir de finais dos anos 50 do século passado, e sobretudo ao longo da década de 60, a grande indústria “inventou” filmes ainda maiores (nos meios utilizados e visando o gigantismo dos ecrãs) a que deu o nome pomposo, mas adequado, de superproduções. Títulos como Ben-Hur, Lawrence da Arábia ou A Queda do Império Romano protagonizaram essa verdadeira frente de combate que tinha como principal motivação a dramática concorrência dos ecrãs mais pequenos. Leia-se: a televisão.
Dir-se-ia que, nos dias que correm, quase nada mudou. Se os espectadores fazem “greve” às salas escuras, isso resulta, precisamente, do facto de muitos ficarem em casa a consumir o que têm para ver no seu televisor ou no seu computador, ou ainda, e para sermos mais exactos, através das plataformas de “streaming”. Mesmo os que se mantêm fora dessa esfera de consumo, sabem que entidades como Netflix, Amazon ou Disney+ se tornaram o padrão de novas e frondosas formas de aceder à pluralidade dos filmes, dos mais recentes aos clássicos mais remotos.
Escusado será sublinhar que a conjuntura é mesmo global. Assim, se é verdade que aqueles nomes têm as suas raízes nos EUA (que ainda albergam a mais poderosa indústria cinematográfica do planeta), não é menos verdade que a consolidação dos circuitos de “streaming” afecta todos os mercados, incluindo os mais pequenos. Em Portugal, por exemplo, não estaremos a revelar nada de transcendente se dissermos que a proliferação do “streaming” (cujas potencialidades e virtudes não estão em causa) exige ideias ágeis e urgentes para todas as frentes do mercado. Justifica mesmo que os agentes desse mercado, a par dos responsáveis pelas chamadas políticas culturais, reflictam seriamente sobre questões tão delicadas como o futuro do parque das salas escuras — e sobre a trágica perda cultural e económica que seria favorecer a sua metódica desagregação.
Seja como for, todos sabemos também que aquilo que está a acontecer não corresponde a uma repetição do que se passou nas décadas de 50/60. Porquê? Porque não estamos a ser protagonistas/consumidores de uma mera reconversão tecnológica. Aliás, mesmo se assim fosse, a história do cinema é também uma sucessão de transformações mais ou menos dramáticas (lembremos apenas a passagem do mudo para o sonoro, nos anos 20/30) através das quais podemos perceber que qualquer novidade técnica transporta consigo, para o melhor ou para o pior, as mais variadas componentes culturais. Em causa, e para além do consumo propriamente dito, estão sempre a percepção do próprio fenómeno cinematográfico, as suas linguagens e, no limite, a sua inscrição no tecido vivo das trocas sociais.
A mudança é sensível. Agora, as tais plataformas de “streaming” não se limitam a funcionar como uma rede gigantesca (planetária, de facto) de distribuição de filmes ou, como se diz na gíria muito pouco cinéfila dos tecnocratas, de difusão de “conteúdos": as mesmas plataformas são também poderosíssimos produtores de filmes.
Convém acrescentar que tudo isto envolve tensões e conflitos que estão longe de estar resolvidos. Este ano (agora mesmo!) um filme que, creio, todos aguardamos com enorme expectativa serve de sintoma radical de tal situação. Chama-se O Irlandês, tem assinatura de um dos mais amados cineastas em actividade, Martin Scorsese, e exibe um elenco de luxo, liderado por Robert De Niro e Al Pacino.
Que se passa, então? As notícias são conhecidas de todos os espectadores que mantêm uma atenção regular à actualidade cinematográfica. Em termos esquemáticos: a Netflix (gigante do “streaming”, hélas!) produziu o filme e, apesar de ter prometido exibi-lo nas salas, não abdica de o tratar como um objecto especial na sua oferta (de “streaming”, precisamente).
Na prática, O Irlandês foi lançado a 1 de Novembro em apenas oito cinemas de Nova Iorque e Los Angeles (o novo Terminator/Exterminador Implacável estreou-se em 4.086 salas americanas). Entretanto, nas próximas semans, irá surgir em mais algumas salas... mas a 27 deste mês estará disponível em “streaming”. Ao mesmo tempo, em muitos países, incluindo Portugal, nem sequer passará pelas salas.
Que há para celebrar quando o trabalho de alguém como Scorsese já não é mostrado nas nossas salas? É neste estado das coisas que, com contido optimismo, algum empenho e muita hesitação, estamos a comemorar o Dia Mundial do Cinema. Atravessamos uma época em que, mais do que nunca, os próprios números das bilheteiras podem (e devem) ser lidos para além das evidências que transportam... ou parecem transportar.
Veja-se, por exemplo, o top das bilheteiras americanas do último fim de semana. Numa aproximação imediatista, podemos supor que a liderança de Exterminador Implacável - Destino Sombrio, envolvendo o regresso de Arnold Schwarzenegger à saga dos “cyborgs”, confirma a boa estrela comercial do antigo governador da Califórnia.


1 – EXTERMINADOR IMPLACÁVEL - DESTINO SOMBRIO
2 – JOKER
3 - MALÉFICA - MESTRE DO MAL
4 – HARRIET
5 – A FAMÍLIA ADDAMS

Ora, basta ler os metódicos analistas da indústria dos EUA para ficarmos a perceber que os 29 milhões de dólares de receita da superprodução com Schwarzenegger correspondem a um desastre anunciado: o filme custou 185 milhões de dólares a produzir (sem contar com os muitos milhões que, em casos como este, são também investidos na promoção), tornando-se praticamente impossível recuperar tão fantástico investimento.
Ao mesmo tempo, Joker, um filme enraizado no universo dos super-heróis, mas claramente alheio às suas regras correntes, chegou aos 300 milhões no mercado dos EUA, estando à beira dos mil milhões de receita global (custou 55 milhões). A sua performance é invulgar em todos os mercados, mesmo os mais secundários na dinâmica global da indústria cinematográfica, como é o caso de Portugal (recorde-se que Joker já vai na quinta semana de exibição, sendo Exterminador Implacável um lançamento da última semana).


1 - JOKER
2 - ETERMINADOR IMPLACÁVEL - DESTINO SOMBRIO
3 - MALÉFICA: MESTRE DO MAL
4 - A FAMÍLIA ADDAMS
5 - UM DIA DE CHUVA EM NOVA IORQUE

Eis um dado complementar que este Dia Mundial do Cinema também justifica que seja sublinhado. A saber: a noção de que “apenas” os filmes de super-heróis são um género rentável é todas as semanas posta em causa pelas convulsões da indústria e a imprevisibilidade dos mercados. A possibilidade de Hollywood poder favorecer a sua própria “implosão” — privilegiando orçamentos descomunais que, no limite, podem ameaçar a estabilidade de um grande estúdio — é um assunto regularmente discutido, e não porque tenha sido colocado na agenda industrial por jornalistas ou críticos de cinema. Recorde-se que, há cerca de cinco anos, entre os primeiros a chamar a atenção para essa ameaça estavam Steven Spielberg e George Lucas.
Nada disto é linear, quer do ponto de vista financeiro, quer em termos artísticos. Será preciso repetir que nenhum filme será “melhor” ou “pior” por causa da grandeza (ou da pequenez) do seu orçamento? No domínio financeiro, o exemplo de O Irlandês é, mais uma vez, perturbante e esclarecedor, até porque não será arriscado supor que o próprio Scorsese desejaria que o seu filme tivesse outro nível de distribuição no imenso parque de salas dos EUA.
O certo é que o realizador de clássicos como Taxi Driver (1976) ou Touro Enraivecido (1980) tentou durante uma década que algum dos grandes estúdios de Hollywood financiasse o projecto, além do mais, desde a primeira hora, contando com o apoio de De Niro. Não o conseguiu, já que todos temeram arriscar dar luz verde a um empreendimento tão dispendioso, em especial por causa dos efeitos especiais que, nas cenas do passado, permitem “rejuvenescer” De Niro e Pacino. Até que a Netflix aceitou investir a módica quantia de 159 milhões de dólares, para mais garantindo total liberdade criativa a Scorsese... Enfim, seja como for, e se outras razões não houvesse, eis o que justifica que continuemos a celebrar o cinema.

quarta-feira, outubro 09, 2019

"Joker" ou o retorno do trágico

Do teatro de Shakespeare ao melhor cinema contemporâneo, aprendemos a lidar com as componentes trágicas do destino: “Joker”, prodigioso filme, é um acontecimento fundamental nesse processo narrativo e humano — este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 Outubro).

Somos todos americanos: a agitação mediática em torno da ameaça de contaminação social pela “violência” do filme Joker é um esclarecedor sintoma do infantilismo narrativo em que vivemos. Entenda-se: não se trata de escamotear as tensões que circulam pelo tecido social (americano ou europeu); trata-se, isso sim, de tentar pensar de forma adulta, superando a equação alarmista segundo a qual a agitação nas ruas, benigna ou letal, se combate através da esterilização artística dos filmes (ou de qualquer outra narrativa).
Os exemplos pontuais não “explicam” o que quer que seja, mas ajudam-nos a resistir ao comodismo moralista. Assim, a 30 de Março de 1981, John Hinckley Jr. tentou matar Ronald Reagan, motivado pela ânsia de impressionar Jodie Foster, depois de a ter visto em Taxi Driver (1976), de Martin Scorsese. Será que alguém, de boa fé, se atreve em 2019 a negar ao filme de Scorsese um lugar fulcral, não apenas na história do cinema, mas na cultura popular do século XX?
E que fazer com o sangue, os gestos apocalípticos e as dores infinitas que circulam pelos textos de Coriolano, Júlio César ou Macbeth? Será que, num misto de candura e estupidez, nos preparamos para enclausurar William Shakespeare num qualquer domínio codificado cuja password só pode ser partilhada por alguns eleitos?
Não esqueço que as questões envolvidas excedem este (ou qualquer outro) filme, não cabendo, nem de longe nem de perto, na brevidade destas linhas. Mas como não reconhecer a cegueira narrativa das nossas sociedades que aceitam (e, mais do que isso, incentivam) o ocultismo barato de Harry Potter como forma de educação das crianças, resistindo a lidar com uma narrativa genuinamente trágica como Joker?
Aliás, em termos culturais e comerciais (é a mesma coisa…), a conjuntura surge ainda mais reveladora. Por um lado, temos assistido à ocupação dos mercados de todo o mundo pelos lugares-comuns dramáticos e técnicos da maioria dos filmes de super-heróis; por outro lado, basta a realização de Todd Phillips arriscar lidar com o imaginário dos mesmos super-heróis, repensando-o e reinventando-o, para que o mais básico gosto do cinema seja posto em causa pela ideologia mediática da vigilância e purificação social.
Sejam quais forem as notícias dos próximos dias, a questão de fundo será sempre outra. A saber: que nos está a acontecer para que as artes específicas das narrativas sejam tratadas como um “produto” cuja legitimidade seria medida pela “influência” que possam ter na vida quotidiana? Mais do que isso: como, porquê e para quê se tenta “explicar” as convulsões mais violentas desse quotidiano a partir das peripécias particulares de uma ou outra narrativa?
Em boa verdade, creio que a questão é infinitamente mais complexa, já que, através da genial composição de Joaquin Phoenix, Joker sabe devolver-nos um tabu contemporâneo. Ou seja: o carácter irredutível de um corpo. Circula por aí a grosseria ideológica de Kim Kardashian e outros “famosos” que celebram o corpo como um banal “gadget” promocional… Proliferam formatos da “reality TV” em que a vida sexual é tratada como uma proeza estatística… Tudo isso se instalou como o novo normal do imaginário do corpo e do desejo. Subitamente, descobrimos Phoenix a representar a estranheza do próprio corpo como elemento identitário e logo soam as trombetas vingativas do cinematograficamente correcto.
Será preciso acrescentar que a América (e o mundo) encontra em Joker um espelho surreal de muitos medos mediáticos ou mediatizados? Não é o Joker de Phillips/Phoenix esse ser solitário cujo desamparo não é estranho à crueldade que transporta? E como olhar as suas contradições sem sentir medo? O mais difícil será reconhecer que ele é o fantasma de cada um de nós — a tragédia nunca foi estranha a algum realismo.