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quarta-feira, março 24, 2021

Para descobrir Garrett Bradley

Lançado na plataforma Prime Video, Time, de Garrett Bradley, é um filme admirável que está na corrida dos Oscars, com uma nomeação para melhor documentário — uma prodigiosa reflexão & montagem sobre o ser afro-americano, fazendo o retrato de uma mulher que tenta libertar o marido preso, condenado a uma sentença de 60 anos.
Lembremos, para já, apenas alguns factos:
— com Time, Bradley foi a primeira mulher afro-americana a ganhar o prémio de realização, na secção de documentários, do Festival de Sundance.
— o seu filme America (2019), sobre as imagens históricas, ou a história das imagens, de afro-americanos passou no Curtas Vila do Conde.
— em Alone (2017), no mesmo registo didáctico e austero, Bradley tratou o caso de uma mulher que quer casar com um homem que está na prisão: trata-se de uma produção do New York Times, aqui reproduzida.
 

terça-feira, julho 16, 2019

CURTAS 2019
— seis filmes a reter


Eis um pequeno balanço de alguns dos filmes mais interessantes vistos na 27ª edição do CURTAS Vila do Conde — estas notas integravam um texto de balanço do festival, publicado no Diário de Notícias (14 Julho).

De uma visão (incompleta) da selecção apresentada pela 27ª edição do CURTAS fica uma ideia de encruzilhada. Tal como nas longas-metragens, os “pequenos formatos” andam também à procura de novos modelos narrativos, ao mesmo tempo integrando os recursos tecnológicos que, melhor ou pior, fazem parte da vertigem virtual em que vivemos. E isto em todos os domínios, da ficção com actores aos desenhos animados, passando pelos registos documentais.
Eis uma breve galeria de seis títulos (dos mais interessantes que vi em Vila do Conde) que podem ajudar a resumir tal conjuntura:


PLEASE SPEAK CONTINUOUSLY AND DESCRIBE YOUR EXPERIENCES AS THEY COME TO YOU – Novíssima proposta de Brandon Cronenberg (filho de David Cronenberg), encenando em 9 intensos minutos a experiência de uma jovem internada numa clínica como cobaia para experiências com um revolucionário implante cerebral... O longo título faz parte do pedido que é feito à paciente (descrever espontaneamente o que vai “vendo” no seu cérebro) e serve de mote a uma fábula sobre a perda de identidade em nome do avanço tecnológico — é um prolongamento coerente e envolvente de Antiviral (2012), longa-metragem de estreia do cineasta.

THE SIX – Enigmática e belíssima animação chinesa, realizada por Xu An e Xi Chen. Num espaço a preto e branco que mais parece uma ilustração de um livro que ganha vida, assistimos às seis “acções” que o título promete, acompanhando os gestos de aproximação amorosa de um homem a uma mulher, enquadrados por duas luas em permanente transfiguração luminosa. O resultado tem qualquer coisa encantatório, devolvendo ao cinema um gosto ilusionista, de pura e descomplexada contemplação.

A STORY FROM AFRICA – Como revisitar as memórias coloniais (neste caso, de Portugal) sem ceder aos lugares-comuns históricos ou ideológicos que se foram consolidando no imaginário colectivo? O cineasta americano Billy Woodberry propõe um admirável trabalho de inventariação e decifração de fotografias de uma “campanha de pacificação” levada a cabo pelo exército português, em 1907, em Angola, no território do povo Cuamato. Construído a partir de imagens arquivadas na Fundação Mário Soares, este é um exemplo invulgar, ao mesmo tempo histórico e pedagógico, de revisitação das memórias do colonialismo português.


LES EXTRAORDINAIRES MÉSAVENTURES DE LA JEUNE FILLE DE PIERRE – Uma estátua de pedra do Louvre sai todos os dias dos seu pedestal para “conviver” com outras obras do museu, acabando por arriscar sair para a rua e sofrendo as consequências da sua ousadia... Com assinatura de Gabriel Abrantes, eis um exemplo feliz de como é possível elaborar uma fábula “à moda antiga”, genuína e contagiante, ao mesmo tempo aplicando os mais modernos efeitos especiais. O realizador parece ter superado os equívocos “simbólicos” do seu trabalho anterior (em especial a longa-metragem Diamantino), optando por um cinema que celebra o seu artifício sem nunca alienar o gosto de contar histórias, interessando-se, realmente, pela humanidade das personagens. Surpreendentemente ou não, uma dessas personagens é uma estatueta egípcia do tempo dos faraós ou, mais exactamente, um simpático hipopótamo de nome Jean-Jacques...

IN BETWEEN – São apenas 14 minutos, mas possuem o fôlego de uma história de muitas gerações: num tom de austero documentarismo, Samir Karahoda regista as histórias de várias gerações da população rural do Kosovo e, em particular, o modo como os pais se assumem como construtores de habitações para os filhos. Através desse mecanismo de herança assistimos, afinal, à renovação de um espírito comunitário alicerçado num sistema ancestral de valores.

DEMONIC – Com assinatura da australiana Pia Borg, eis um objecto tão estranho quanto fascinante. Em primeiro lugar, trata-se de recordar alguns casos de alegações de abuso através de rituais satânicos surgidos nos EUA ao longo da década de 80, recordando também o enorme aparato informativo que suscitaram, quase sempre de carácter especulativo e sensacionalista. Ao mesmo tempo, o filme aborda esses casos através de “reconstruções” com actores, e também recorrendo a cenas de animação a três dimensões, num jogo dialético sobre o modo como um sociedade vive (por vezes delirando) as manifestações do mal no seu interior. É um caso exemplar de um cinema que discute a nossa relação com a verdade e, em particular, o modo como essa relação surge marcado pelo trabalho específico dos media.

segunda-feira, julho 15, 2019

CURTAS 2019
— memórias coloniais

Memórias coloniais portuguesas... Sem antecipações ideológicas, longe de qualquer desvio nostálgico ou verniz pitoresco... Dito de outro modo: trabalhando sobre factos que são, antes de tudo o mais, fotografias. O americano Billy Woodberry debruçou-se sobre uma colecção de imagens (arquivadas na Fundação Mário Soares) que testemunham uma ocorrência capaz de questionar, em primeira ou última instância, a noção segundo a qual só a partir da década de 1960 o exército português manteve uma forte presença em África: A Story from Africa inventaria, organiza e expõe os testemunhos visuais de uma operação, na altura classificada como “campanha de pacificação”, levada a cabo pelo exército Português no território do povo Cuamato, no sul de Angola. O resultado possui a crueza de um genuíno relato jornalístico que se vai transfigurando em admirável viagem cinematográfica — da singularidade dos lugares à especificidade dos olhares, este é um filme sobre o carácter visceralmente presente de qualquer desejo de fazer história.

segunda-feira, julho 18, 2016

Filme israelita vence em Vila do Conde

O filme israelita From the Diary of a Wedding Photographer [video: extracto], realizado por Nadav Lapid, venceu o Grande Prémio da competição internacional da 24ª edição do Curtas Vila do Conde. No sector nacional, o prémio de melhor filme foi para António, Lindo António, de Ana Maria Gomes — palmarés integral no site do festival.

sexta-feira, julho 15, 2016

"Penúmbria" — amor de perdição

I. Algum cinema português alimenta a ilusão de que possui uma relação com a memória do próprio cinema (português, para começar). De facto, em muitos casos, não há relação — apenas uma sugestão de marketing que se esgota na ilusão pueril de que há um classicismo que todos partilhamos.

II. E se a memória não fosse esse continente parado e disponível que todas as visões historicistas imaginam controlar? E se a memória existisse como uma entidade, não de exposição, mas de resistência? Resistindo ao nosso desejo de apropriação e, desse modo, obrigando à sua invenção.

III. É essa a aposta de Eduardo Brito no breve, mas intenso, Penúmbria [9 minutos, Curtas Vila do Conde]: a invenção de um olhar documental a partir da pura ficção. Ou ainda: a história de um lugar impossível de colocar no mapa, mas persistindo, algures, como um apelo metódico e intenso, numa palavra, sensual.

IV. Que apelo é esse? Pois bem, o de contar histórias, não como um gesto de "reprodução" do mundo, antes como uma aventura em que, ponto por ponto, prédio a prédio, rua a rua, se discute a sua transparência televisiva — à sua maneira, Penúmbria é também um objecto que nos impele a pensar a pobreza de muitas linguagens televisivas.

V. É uma história de amor. De perdição, como devem ser todas as histórias de amor. Mas importa não escrever nada de muito claro sobre isso, quanto mais não seja porque este é também um filme sobre o espectador, confrontado com a sua ânsia de atribuir alguma coerência à profusão de sinais com que o real nos assalta.

VI. Ah, o real... Esse impossível, como dizia o outro. Na verdade, olhamos (isto é, pousamos uma câmara de filmar), escutamos (isto é, apontamos um microfone) e o real que registamos existe também através do que nele se escapa, organizando o filme como pensamento único, todas as vezes refeito pela singularidade de cada espectador.

VII. É sempre gratificante encontrar um filme que resiste a ser resumido, levando-nos a compreender que estamos apenas a começar a contá-lo — e a contar-nos através dele.

sexta-feira, julho 17, 2015

A cinefilia e os seus fantasmas

No desenlace do festival Curtas Vila do Conde, um filme de Mark Rappaport emerge como símbolo de alguns dos mais fascinantes caminhos do cinema contemporâneo — este texto foi publicado no Diário de Notícias (12 Julho), com o título 'Os fantasmas cinéfilos de Vila do Conde'.

Faz parte da tradição do Curtas Vila do Conde (4-12 Julho) fazer coexistir as propostas clássicas com filmes que apostam em derivações mais ou menos experimentais. Mérito do festival, sem dúvida, que continua a ser um evento singular e estimulante no panorama português. Em todo o caso, um conjunto significativo de títulos desta 23ª edição deixa uma dúvida que vale a pena tentar compreender em todas as suas implicações.
É uma dúvida eminentemente cinéfila, sobretudo se formos capazes de entender a noção de cinefilia na sua dimensão mais depurada e exigente. Não se trata, portanto, de favorecer o simplismo de muitos discursos de natureza televisiva que tendem a reduzir a história do cinema a uma lengalenga de fait divers pitorescos (nos últimos anos contaminada pela mitologia pueril dos “efeitos especiais”). Trata-se, isso sim, de revalorizar a cinefilia como uma atitude que não abdica de manter uma relação ágil com as memórias do próprio cinema — o cinema tem uma história; não é uma colecção de curiosidades sobre os milhões que se gastaram na mais recente saga de super-heróis.
Mark Rappaport
Uma das produções do próprio festival (gerada no contexto de uma residência artística), lida de forma peculiar com tal questão. Assinada por Miguel Clara Vasconcelos, chama-se Vila do Conde Espraiada e integra diversas memórias registadas em matéria fílmica (em particular filmes de família em película Super 8). As imagens antigas, porventura nostálgicas, de Vila do Conde servem, assim, para lembrar que nenhum tempo é linear, definindo-se sempre a partir de infinitos cruzamentos entre passado e presente, subjectivo e objectivo.
Nesta perspectiva, um dos acontecimentos centrais desta edição de Vila do Conde foi, sem dúvida, o filme (auto-denominado “vídeo-ensaio”) Becoming Anita Ekberg, de Mark Rappaport. Vale a pena lembrar — e tal memória envolve também componentes cinéfilas — que Rappaport é um dos nome grandes das margens mais marginais da produção independente americana, tendo sido, entre nós, uma das revelações dos tempos heróicos do Festival da Figueira da Foz (onde esteve presente, em finais da década de 70).
À semelhança de trabalhos anteriores, como Rock Hudson’s Home Movies (1992) ou From the Journals of Jean Seberg (1995), Rappaport evoca Anita Ekberg (1931-2015) como uma figura cujo poder mitológico a coloca, de alguma maneira, no país acolhedor dos fantasmas cinéfilos. A partir de uma espantosa montagem de fragmentos dos seus filmes — com inevitável destaque para A Doce Vida (1960), de Federico Fellini —, participamos, assim, numa viagem reveladora: por um lado, para além do mito, redescobrimos a presença da mulher; por outro lado, compreendemos que a mitologia é também aquilo que resiste a todos os realismos, de alguma maneira promovendo a coabitação entre os simulacros do espectáculo e as marcas cruéis do tempo que passa.

Curtas 2015 [montra]

JL

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Uma derradeira imagem de Vila do Conde durante o período do Curtas 2015: a imagem de Miguel Gomes, no seu filme As Mil e Uma Noites, ocupa por inteiro o espaço de uma montra. Dir-se-ia uma boa metáfora de um desejo que, creio, todos partilhamos — o de que o cinema português, por certo com filmes diferentes entre si, seja uma paisagem em que possamos descobrir algo do que somos, do que imaginamos ser, do que desejaríamos ser... Tal como no filme, também as nossas vidas se tecem através de histórias que, melhor ou pior, partilhamos, num jogo interminável entre a transparência e o logro, o concreto e o imaginado.

segunda-feira, julho 13, 2015

Curtas 2015 [sangue]

Jennifer Reeder
(FOTO: Berlinale)

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E se a adolescência não fosse essa zona de transição mais ou menos agitada entre a "infância" e a "idade adulta"? E se, em vez de representar a dramática saída de uma vivência, acedendo a outra, a adolescência fosse um buraco negro que nada nem ninguém conseguirá expor numa transparência definitiva? Blood Below the Skin, da americana Jennifer Reeder, é uma pequena e admirável proeza centrada num núcleo de três alunas de um liceu, revelando, precisamente, a enigmática intensidade das pulsões que se movimentam para além das aparências — como diz o título, este é um filme sobre o sangue sob a pele, todo ele envolvido num misto de realismo e simbolismo (que, aliás, contamina logo os espantosos grandes planos de abertura). Em última instância, estamos perante uma história de sexo & poder, capaz de relativizar os papéis herdados por cada um através da família, da escola ou, em termos gerais, da sociedade. Estranhamente, ou talvez não, Blood Below the Skin faz lembrar a vibração muito física de alguns dos primeiros filmes de Jerzy Skolimowski, a começar por Deep End (1970) — foi um dos momentos altos do Curtas Vila do Conde.

Curtas 2015 [realismo]


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Decididamente, o realismo austero de um filme como A Bébé, do iraniano Ali Asgari, não está na moda — hoje em dia, a arbitrariedade das "experimentações" mais ou menos trapalhonas e auto-indulgentes tende a produzir um efeito social muito mais forte (como se a agitação audiovisual, tele-dependente, fosse sinal de um genuíno trabalho com as imagens e os sons). A Bébé parte do drama de uma jovem — onde deixar a sua filha, de modo a esconder a sua existência aos próprios pais? —, para construir uma visão que se cola às singularidades dos corpos e dos olhares. O realismo, entenda-se, não é a "espontaneidade" televisiva, antes se liga com uma exigência narrativa que desafia os próprios limites figurativos e conceptuais do facto cinematográfico. Além do mais, compreendemos que o filme de Asgari é cúmplice do labor de cineastas como Abbas Kiarostami, Jafar Panahi ou Ashgar Farhadi, correspondente a uma fascinante escola do olhar.

domingo, julho 12, 2015

Curtas 2015 [Anita]


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Entre os momentos admiráveis de Vila do Conde/2015, Becoming Anita Ekberg, de Mark Rappaport, ficará, por certo, como um dos mais fascinantes. Fiel ao didactismo romântico dos seus video-ensaios — recordemos, por exemplo, Rock Hudson's Home Movies (1992) ou From the Journals of Jean Seberg (1995) —, Rappaport volta a investir as alianças entre mitologia e desencanto, desta vez evocando a condição de estrela de Anita Ekberg, o seu endeusamento — em A Doce Vida (1960), de Federico Fellini — e, por fim, o seu confronto com as marcas inexoráveis do tempo. É mesmo isso: um filme sobre o tempo, a sua irredutibilidade e também a estranha ambivalência dos seus efeitos cognitivos e simbólicos. Dura apenas 18 minutos, mas possui o fôlego de um épico romanesco.

Curtas 2015 [histeria]


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Paródia? Digamos antes: falência de qualquer gosto cinematográfico. Com a sua histeria de referências — desde os dinossauros à Segunda Guerra Mundial, passando, claro, pelas artes marciais —, Kung Fury, de David Sandberg, ilustra de forma patética a miséria conceptual a que chegou toda uma cultura audiovisual enraizada nas formas mais grosseiras de apropriação estética (?) favorecidas pelas colagens da Internet. Em nome da irrisão de qualquer género, esta aventura de um guerreiro que viaja no tempo para purificar a história corresponde ao grau zero de um cinema que, em última instância, menospreza todas as referências que convoca. Dir-se-á que Quentin Tarantino pertence à mesma cultura de permanente transfiguração dos mais populares dispositivos narrativos. Pois... Reveja-se Kill Bill e anotem-se as diferenças.

Curtas 2015 [Caeiro]


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Um homem guarda as suas ovelhas durante o dia; à noite, é vigilante num museu. A partir deste ziguezague entre a luz e a obscuridade, com O Guardador, Rodrigo Areias constrói o retrato austero de uma solidão em que, ironicamente, a palavra escrita (O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro) se instala como uma espécie de ponto de fuga de um quotidiano descarnado, estranhamente desprovido de significações dramáticas — rodado na Covilhã, com o apoio a Universidade da Beira Interior, este é um belo exercício de geometria cinematográfica, magnificamente fotografado por Jorge Quintela.

Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...
Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!

sábado, julho 11, 2015

Curtas 2015 [memória]


[ rosto ]  [ baleia ]  [ cão ]  [ Technicolor ]  [ urso ]  [ corpo ]  [ insectos ]

Não é, em sentido convencional, um filme "sobre" um lugar, antes uma teia de aproximações (visuais e sonoras) através da qual vamos pressentindo a proximidade desse lugar. Não é fácil definir o belíssimo filme de Sergei Loznitsa, The Old Jewish Cemetery, mesmo se é verdade que se trata de um objecto de desarmante linearidade. Que faz, então, Loznitsa? Documenta os lugares da cidade de Riga, capital da Letónia, que nos vão aproximando do cemitério judeu que abriu em 1752 (inevitavelmente vindo a ser marcado pelas convulsões da história até aos nossos dias). O resultado é uma arquitectura de imagens e sons, isto é, especificamente cinematográfica que nos vai permitindo sentir o lugar como um mapa gigantesco de memórias — ou como o cinema consegue tocar na dimensão mais radical do tempo. 

Curtas 2015 [insectos]


[ rosto ]  [ baleia ]  [ cão ]  [ Technicolor ]  [ urso ]  [ corpo ]

A sinopse de um filme com Vita Brevis, de Thierry Knauff, é relativamente fácil de estabelecer: ao longo de um pouco mais de meia hora, assistimos à existência, realmente breve, de insectos (do tamanho de um dedo humano) que têm a designação reveladora de efémeras. Documentário? Sim, sem dúvida, dir-se-ia filtrado pelo olhar da sua única personagem, uma menina que, na margem do rio, contempla um singularíssimo ritual de vida e morte. Ao mesmo tempo, exercício admirável de revelorização do tempo no interior do cinema. Ao contrário do que dizem os lugares-comuns, os filmes não correspondem a padrões pré-estabelecidos de "lentidão" ou "velocidade" (algumas produções de super-heróis, na histeria dos seus curtíssimos fragmentos, ilusoriamente velozes, são mesmo objectos de exasperante lentidão...) — o que conta é o trabalho sobre a duração. Como se prova em Vita Brevis, essa pode ser a mais bela das vertigens.

sexta-feira, julho 10, 2015

Curtas 2015 [corpo]


[ rosto ]  [ baleia ]  [ cão ]  [ Technicolor ]  [ urso ]

Apresentado na secção Take One!, dedicada aos filmes produzidos no âmbito de cursos de cinema e audiovisual, Bétail, de Joana Neves de Sousa, é um exercício brilhante sobre os limites conceptuais do próprio acto cinematográfico. A partir do ritualizado quotidiano de uma quinta de gado (Les Avins, Bélgica), somos confrontados com os gestos metódicos que prenunciam o nascimento de um animal. Na proximidade muito física do corpo, pressentimos o modo como o cinema pode manter-se fiel à verdade mais radical das coisas vivas. Na verdade, somos levados a descobrir, não o "significado" dos factos, mas a sua tocante duração — é um filme sobre o cinema como acontecimento paradoxal, colado ao concreto das matérias, gloriosamente abstracto.

quinta-feira, julho 09, 2015

Curtas 2015 [urso]


[ rosto ]  [ baleia ]  [ cão ]  [ Technicolor ]

Decididamente, desde a emblemática abertura com As Mil e uma Noites, de Miguel Gomes, este é o festival do real posto à prova de fogo — entenda-se: através de imagens e sons. O exemplo de Bär, de Pascal Flörks, é tanto mais fascinante quanto estamos perante uma tradicional evocação documental de um antepassado (o avô do narrador), ficando a conhecer tanto os seus hábitos caseiros como a sua participação nos combates da Primeira Guerra Mundial... Acontece que ele é figurado como um urso! E o que conta não é tanto o efeito de colagem no interior de imagens de outro modo realistas, mas mais o facto de o declarado artificio não repelir um fortíssimo efeito de real. Afinal de contas, a história talvez seja apenas a ficção com que a apropriamos — grande questão do mais estimulante cinema contemporâneo.

Curtas 2015 [Technicolor]


[ rosto ]  [ baleia ]  [ cão ]

Perante os equívocos históricos dos experimentalismos fáceis — esquecendo que experimentar é apenas inventar outra narrativa —, é bom encontrar algo tão directo, e tão bem humorado, como Amélia & Duarte. Nos seus sucintos 9 minutos, o filme de Alice Eça Guimarães e Mónica Santos aplica as técnicas de stop-motion para encenar um casal de humanos a contas com uma história de amor particularmente atribulada. É um caso exemplar de rigor de execução e também de capacidade de surpreender o espectador no labirinto da nostalgia — em Technicolor, et pour cause.

quarta-feira, julho 08, 2015

Curtas 2015 [cão]


[ rosto ]  [ baleia ]

Alguns filmes para crianças, vistos na secção Curtinhas, parecem ficar bloqueados na sua missão "pedagógica" — em última análise, na sua preocupação didáctica, correm o risco de deitar fora os sabores da narrativa... Nesta perspectiva, a produção alemã O Presente, assinada por Jacob Frey, constitui uma bela lição fílmica e ética. Sem revelar o seu "segredo", digamos apenas que a criança que passa o tempo agarrado aos jogos de computador não fica especialmente contente com a prenda, um irresistível cãozinho, que a mãe lhe traz... E porque o cão parece não corresponder à sua noção de "pureza", a relação entre ambos vai servir, em última instância, de prova de realidade — eis a proeza invulgar de um desenho animado de 4 minutos.

domingo, julho 05, 2015

Curtas 2015 [baleia]

[ rosto ]

Numa cena de O Desprezo (1963), de Jean-Luc Godard, Michel Piccoli diz que gosta muito do CinemaScope, ao que Fritz Lang lhe responde: "Oh, não foi concebido para seres humanos. Só para cobras — e funerais". Face ao realismo mágico de As Mil e uma Noites, apetece discutir a asserção do mestre de Metropolis, acrescentando: baleias. Numa primeira aproximação [vol. 1 + vol. 2], talvez possamos dizer que o filme de Miguel Gomes existe a partir dessa contradição viva, misto de matéria e abstracção: por um lado, trata-se de fazer o retrato largo (em scope, justamente) das infinitas tristezas deste reino de Portugal; por outro lado, há nele um realismo do tempo que não exclui, antes sabe atrair, os elaborados artifícios de uma narrativa seduzida por todas as transfigurações. Daí a proeza invulgar, cativante e comovente: dizemos que "isto é Portugal", ao mesmo tempo que reconhecemos estar a vogar "dentro de um filme" — somos convocados para discutir a própria condição de espectador. Mais do que nunca, isso envolve uma beleza que a cultura televisiva dominante nos tem andado a roubar, cobrando um imposto a que deu o nome de "naturalismo", afastando-nos do prazer e da angústia de olhar à nossa volta.

sábado, julho 04, 2015

Curtas 2015 [rosto]

Um rosto que se desenrola, literalmente (ou simbolicamente, tanto faz), vencendo a condição bidimensional do papel.
Dir-se-ia a imagem a revoltar-se contra o seu próprio suporte, expondo dentro de si a possibilidade de outros desenrolamentos narrativos. Mais do que isso: desafiando a métrica que os nossos olhos querem impor à representação dos objectos, criando novas escalas para os pássaros apocalípticos que disputam o protagonismo no interior da imagem — a ponto de parecerem querer libertar-se dos seus contornos.
Assim se faz o magnífico cartaz, assinado por João Faria, da 23ª edição do Curtas Vila do Conde — de hoje até ao dia 12, curtas e longas discutem as significações dos rostos, esses espelhos da alma, desse modo discutindo também aquilo a que, obstinadamente, continuamos a admirar com o nome de cinema.