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quinta-feira, dezembro 12, 2019

Greta Thunberg — a pessoa ou a imagem?

* Greta Thunberg, a activista sueca que tem protagonizado uma campanha global de sensibilização para as convulsões climatéricas e a defesa do ambiente, é a "Pessoa do ano" para a revista Time. Não será necessário sublinhar a importância das chamadas de atenção proferidas nas suas intervenções públicas, sobretudo tendo em conta que poderosas forças (leia-se: Donald Trump) continuam a propalar um discurso demagógico sobre as tragédias, consumadas ou anunciadas, do aquecimento global do planeta Terra.

* Ao mesmo tempo, como não perguntar o que significa esse "poder da juventude" que, na sua capa, a Time associa a Thunberg. Que é como quem diz: de que falamos quando falamos de juventude? Em boa verdade, a designação de juventude serve para recobrir, hoje em dia, com inusitada frequência, uma pluralidade de fenómenos — entenda-se também: um sistema de mercados — que quase ninguém questiona no seu funcionamento e implicações.

* Desse ponto de vista, Thunberg  — ou, pelo menos, a sua imagem de marca — repete a lógica mediática da celebração inerente a universos como "Harry Potter". Porque a eles se cola uma caução juvenil, ninguém ou quase ninguém formula dúvidas. No caso do império narrativo de J. K. Rowling, quase nunca se pergunta, por exemplo, se o feiticeiro adolescente não estará a criar uma geração focada numa escrita banalmente instrumental, cega à vastidão da história da literatura. Mais ainda: quais os efeitos da promoção de uma visão "mágica" da educação em que o confronto com a realidade se confunde com o aparato dos feitiços que cada personagem pode ou sabe aplicar?


* Inútil discutir a sinceridade (ou a falta dela) do discurso de Thunberg. Porquê? Porque, precisamente, a fulanização de quase todos os fenómenos mediáticos — aliás, os media como sistema de fulanização de todos os fenómenos — funciona para além do grau de compromisso de cada indivíduo, por vezes contra os princípios ou valores desse compromisso. A sinceridade de Thunberg não está em causa — é o efeito Thunberg que importa pensar.

* Num tempo de óbvia decomposição prática e simbólica de muitas formas de poder — a começar pelo poder das estruturas familiares junto dos jovens —, enunciar a juventude como fonte de poder corre o risco de deixar incólumes os efectivos sistemas de poder em que vivemos, propagando apenas uma ruidosa utopia mediática, tanto mais vazia quanto mais ruidosa. A esse propósito, somos mesmo levados a reconhecer que a multiplicação de "photo-ops" se tornou a linguagem dominante da presença de Thunberg no nosso dia a dia saturado de (des)informação. Involuntariamente ou não, o trabalho (interessantíssimo, não é isso que está em causa) da Time em torno de Thunberg contém os sintomas de uma hipotética irrisão. Como nesta foto [da autoria de Evgenia Arbugaeva], mostrando Thunberg a chegar a Madrid para marcar presença na Cimeira sobre o Clima — que vemos aqui: uma pessoa cercada pelos olhares das câmaras, ou tão só uma personagem a cumprir um ritual pré-formatado?

quinta-feira, dezembro 05, 2019

Uma lição jornalística de Nancy Pelosi

Nancy Pelosi
1. A degradação dos padrões jornalísticos não fez desaparecer o próprio jornalismo. O certo é que tal degradação, transversal e multinacional, raras vezes é enfrentada pela própria comunidade jornalística. Como se reafirmar a deontologia e os valores jornalísticos fosse um sinal de enfraquecimento.

2. Felizmente (ou infelizmente), ainda há quem, na classe política, não se deixe submeter à desvergonha do jornalismo fulanizado e provocador, apenas à procura da agitação pela agitação. Aconteceu hoje, quando a presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, anunciou a passagem à fase seguinte do processo de destituição de Donald Trump [notícia: DN]. Quando um jornalista lhe perguntou se ela "odeia Trump", Pelosi teve a reacção firme e pedagógica de quem não se submete à obscenidade mediática [video].

3. Nada disto, entenda-se, envolve qualquer desvalorização do papel de informação, investigação e escrutínio que a classe jornalística pode e deve desempenhar (e que, obviamente, em muitos casos, continua a desempenhar). O que está em causa é a resistência a esse comportamento que combina a irresponsabilidade profissional e a vulgaridade humana.

terça-feira, dezembro 03, 2019

Ross + (Bowie) + Reznor

Atticus Ross e Trent Reznor disponibilizaram mais uma preciosidade do seu trabalho para a série Watchmen: nada mais nada menos que uma versão instrumental de Life on Mars, de David Bowie — breve lição de metodologia e criatividade.

quinta-feira, novembro 21, 2019

Fiona Apple na banda sonora de "The Affair"

Já sabíamos que Fiona Apple tinha gravado o clássico The Whole of the Moon, de The Waterboys, para o episódio final da série televisiva do canal Showtime, The Affair. Embora correndo o risco de envolver alguns spoilers, a nova versão já circula pela Net através das imagens da própria série — grande canção, admirável Fiona Apple.

domingo, novembro 17, 2019

Redes sociais, ódios sociais

Na CNN, palavras de um sobrevivente do Holocausto:
"As redes sociais são um instrumento poderoso na disseminação do ódio."
Muitas formas publicitárias de representação dos telemóveis tratam-nos como objectos inocentes e transparentes, a ponto de nos fazerem desistir de perguntar o que significa estar “em rede”: será preciso ir para lá das explicações de Mark Zuckerberg — este texto foi publicado no Diário de Notícias (9 Novembro), com o título 'Os ódios sociais'.

Entre as imagens que vi esta semana, registei esta com especial atenção. Pertence a um video da CNN que acompanha uma notícia (colocada online na quinta-feira) sobre a italiana Liliana Segre, senadora vitalícia de 89 anos responsável pela criação de uma comissão parlamentar contra o ódio, o racismo e o anti-semitismo. Segundo dados do centro de documentação da Fundação Judaica sediada em Milão, Segri tem sido alvo de mensagens “particularmente agressivas”, publicadas nas chamadas redes sociais à média de duas centenas por dia.
A imagem surge num registo audiovisual muito breve (pouco mais de dois minutos) que complementa a notícia. As legendas não são opcionais: por certo reconhecendo a importância do que é dito pelas duas pessoas entrevistadas — o alemão Manfred Goldberg e a francesa Freda Wineman, ambos sobreviventes do Holocausto —, a CNN inscreveu-as nas próprias imagens.
Campo de concentração de Auschwitz
As palavras de Goldberg são especialmente incisivas e pedagógicas: “O que me traz uma tremenda preocupação é que, em nome da liberdade de expressão, parecemos ignorar a lição da história.” Que lição? O video vai mostrando imagens do campo de concentração de Auschwitz, evitando a convencional voz off para “comentar” o que está a ser visto, optando antes por introduzir esta legenda: “Manfred diz que as redes sociais são um instrumento poderoso na disseminação do ódio.”
Por uma coincidência que está longe de ser irrelevante, esta foi também a semana em que Hillary Clinton teceu algumas considerações sobre a decisão anunciada pelo Facebook de não verificar a veracidade (“fact-check”) das informações incluídas na publicidade política que integra nas suas páginas. O seu testemunho teve como cenário a apresentação, em Nova Iorque, do documentário The Great Hack, produção da Netflix sobre o escândalo de manipulação de dados de milhões de pessoas, envolvendo a empresa Cambridge Analytica e o Facebook. Recordando o facto de, em 2016, o Facebook ter espalhado uma notícia (falsa) segundo a qual o Papa Francisco manifestara apoio a Donald Trump, seu adversário na eleição presidencial, Clinton considerou que Mark Zuckerberg “deveria pagar um preço” pelo que está a fazer à democracia.
Não se trata de demonizar os muitos e fascinantes recursos que a tecnologia nos proporciona. A questão é outra. No video da CNN, há também algumas imagens de uso de computadores associadas a mais algumas palavras de Goldberg: “Agora, a comunicação instantânea significa que qualquer pessoa individual que queira propagar pontos de vista contaminados por ódios raciais, pode fazê-lo de modo muito mais efectivo do que os nazis alguma vez conseguiram.”
A Rede Social
Claro que o video está longe de esgotar os dados de toda uma conjuntura que é política, económica e simbólica, numa palavra, cultural (o mesmo se poderá dizer, aliás, deste texto). Em qualquer caso, creio que importa reconhecer o valor de imagens como esta, capazes de resistir às mais agressivas representações publicitárias que endeusam os telemóveis como objectos dotados de uma vocação virginal de transparência e ecumenismo.
Nestas pequenas clivagens figurativas trava-se muito da guerra contemporânea das imagens. E em especial nos domínios globais — a começar pela Internet, suas informações e práticas publicitárias — em que o triunfo de um “naturalismo” supostamente imanente tende a esmagar as possibilidades de ver e pensar de maneiras diversas.
“Os utilizadores estão interligados, é esse o único objectivo” — quem o diz é Zuckerberg, ou melhor, a sua personagem tal como surge encenada num filme genial e premonitório sobre os malefícios do Facebook chamado A Rede Social (David Fincher, 2010). Resta saber se nós, adultos, estamos a usar os poderes de educação dos mais novos para lhes fornecer alguma consciência sobre o que significa estar “em rede”. Será que quando um adolescente pergunta o que foi Auschwitz, nos limitamos a dizer para procurar no telemóvel?...

quinta-feira, novembro 14, 2019

Histórias, imagens e sons [RTP Play]

"O Fascínio das Histórias", um dia de conversas, debates, imagens e sons vivido na Fundação Calouste Gulbenkian [26 Outubro], integrou um objecto específico, audiovisual, a meio caminho entre a deambulação documental e a especulação filosófica. Da autoria de Nuno Artur Silva, com realização de António Pinhão Botelho, o filme foi produzido pela RTP e a Fundação, organizando-se a partir de uma série de depoimentos de pessoas de áreas muito diversas, do ensino ao jornalismo (incluindo o autor deste post) — já foi apresentado na RTP2, podendo ser visto ou revisto no espaço da RTP Play.

quarta-feira, novembro 13, 2019

Impeachment segundo a Rua Sésamo

No debate sobre a possível destituição [impeachment] de Donald Trump, a Rua Sésamo dá o seu contributo, em colaboração com The Late Show, de Stephen Colbert — eis um alfabeto para lidarmos com o processo político em curso.

domingo, novembro 10, 2019

Prémios Europeus de Cinema
— as nomeações

Que factos podem explicar a fraqueza comercial de muitos filmes europeus no interior da própria Europa? Muitos e muito complexos. De tal modo que será sempre gratuito reduzir o problema a uma mais ou menos vingativa atribuição de "culpas".
Registe-se, em qualquer caso, um fenómeno recorrente. A saber: o tratamento ultra-discreto (para não dizer a omissão) a que, pela Europa fora, são sujeitos os anuais Prémios de Cinema Europeu, promovidos pela Academia de Cinema Europeu. Assim voltou a acontecer com a divulgação dos respectivos nomeados, este sábado, no Festival de Cinema Europeu de Sevilha. Eis os seis títulos que concorrem ao prémio de melhor filme de 2019 (os títulos sublinhados já foram lançados no mercado português):

J'ACCUSE, de Roman Polanski (França/Itália)

OS MISERÁVEIS, de Ladj Ly (França)

DOR E GLÓRIA, de Pedro Almodóvar (Espanha)

SYSTEMSPRENGER, de Nora Fingscheidt (Alemanha)

A FAVORITA, de Yorgos Lanthimos (Irlanda/Reino Unido)

O TRAIDOR, de Marco Bellocchio (Itália/Alemanha/França/Brasil)

A produção portuguesa está representada por duas nomeações na categoria de melhor curta-metragem: Cães que Ladram aos Pássaros, de Leonor Teles, e Les Extraordinaires Mésaventures de la Jeune Fille de Pierre (coprodução com a França), de Gabriel Abrantes.
No site da Academia está disponível a lista completa de nomeações.

sexta-feira, novembro 08, 2019

Dia Mundial do Cinema
— e depois?...

[ Todd Phillips ]
Na data de 5 de Novembro, o Dia Mundial do Cinema celebrou-se numa conjuntura recheada de dúvidas sobre as actuais condições de produção e difusão dos filmes: O Irlandês, de Martin Scorsese, pode simbolizar os desafios que afectam todos os mercados, em particular os mais pequenos. No seu Instagram, Todd Phillips achou por bem (e muito bem!) dar a conhecer algumas magníficas fotografias de rodagem do seu Joker, muitas delas dando conta de diversos aspectos da genial transfiguração de Joaquin Phoenix [foto], afinal celebrando também o facto de um filme realmente ousado e inventivo poder surgir no coração de uma indústria cujos tecnocratas tendem a confundir efeitos especiais com trabalho narrativo — este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 Novembro).

Há qualquer coisa de insólito, misto de sedução e absurdo, no facto de, um pouco por toda a parte, estarmos a assinalar o Dia Mundial do Cinema [5 Novembro]. Uma coisa é certa: quase 124 depois da primeira projecção pública dos irmãos Lumière (a 28 de Dezembro de 1895, no Grand Café de Paris), não faltam sinais contraditórios, entre a euforia e o desespero, motivados pelo apelo simbólico da data.
Na Internet, os sites mais diversos, mesmo os que habitualmente não dedicam especial atenção ao cinema, propõem listas dos 10, 50 ou 100 filmes que importa conhecer antes de morrermos... De passagem, ficamos a saber que quase todos se esqueceram de figuras fundadoras da própria história do cinema, como o americano David W. Griffith (1875-1948) ou o russo Sergei M. Eisenstein (1898-1948)… Ao mesmo tempo, as lojas (materiais ou virtuais) promovem a venda de “clássicos” para celebrar o dia, por vezes deixando-nos a sensação de que estão sobretudo a tentar rentabilizar as sobras de armazém...
Sopram ventos agrestes sobre a paisagem cinematográfica. E há uma palavra anglo-saxónica que já todos adoptámos para condensar o imbróglio industrial, comercial e simbólico em que todos os filmes, directa ou indirectamente, passaram a estar envolvidos. Essa palavra — “streaming” — pode resumir, afinal, uma tragédia suspensa que começou há pouco mais de meio século.
Assim, a partir de finais dos anos 50 do século passado, e sobretudo ao longo da década de 60, a grande indústria “inventou” filmes ainda maiores (nos meios utilizados e visando o gigantismo dos ecrãs) a que deu o nome pomposo, mas adequado, de superproduções. Títulos como Ben-Hur, Lawrence da Arábia ou A Queda do Império Romano protagonizaram essa verdadeira frente de combate que tinha como principal motivação a dramática concorrência dos ecrãs mais pequenos. Leia-se: a televisão.
Dir-se-ia que, nos dias que correm, quase nada mudou. Se os espectadores fazem “greve” às salas escuras, isso resulta, precisamente, do facto de muitos ficarem em casa a consumir o que têm para ver no seu televisor ou no seu computador, ou ainda, e para sermos mais exactos, através das plataformas de “streaming”. Mesmo os que se mantêm fora dessa esfera de consumo, sabem que entidades como Netflix, Amazon ou Disney+ se tornaram o padrão de novas e frondosas formas de aceder à pluralidade dos filmes, dos mais recentes aos clássicos mais remotos.
Escusado será sublinhar que a conjuntura é mesmo global. Assim, se é verdade que aqueles nomes têm as suas raízes nos EUA (que ainda albergam a mais poderosa indústria cinematográfica do planeta), não é menos verdade que a consolidação dos circuitos de “streaming” afecta todos os mercados, incluindo os mais pequenos. Em Portugal, por exemplo, não estaremos a revelar nada de transcendente se dissermos que a proliferação do “streaming” (cujas potencialidades e virtudes não estão em causa) exige ideias ágeis e urgentes para todas as frentes do mercado. Justifica mesmo que os agentes desse mercado, a par dos responsáveis pelas chamadas políticas culturais, reflictam seriamente sobre questões tão delicadas como o futuro do parque das salas escuras — e sobre a trágica perda cultural e económica que seria favorecer a sua metódica desagregação.
Seja como for, todos sabemos também que aquilo que está a acontecer não corresponde a uma repetição do que se passou nas décadas de 50/60. Porquê? Porque não estamos a ser protagonistas/consumidores de uma mera reconversão tecnológica. Aliás, mesmo se assim fosse, a história do cinema é também uma sucessão de transformações mais ou menos dramáticas (lembremos apenas a passagem do mudo para o sonoro, nos anos 20/30) através das quais podemos perceber que qualquer novidade técnica transporta consigo, para o melhor ou para o pior, as mais variadas componentes culturais. Em causa, e para além do consumo propriamente dito, estão sempre a percepção do próprio fenómeno cinematográfico, as suas linguagens e, no limite, a sua inscrição no tecido vivo das trocas sociais.
A mudança é sensível. Agora, as tais plataformas de “streaming” não se limitam a funcionar como uma rede gigantesca (planetária, de facto) de distribuição de filmes ou, como se diz na gíria muito pouco cinéfila dos tecnocratas, de difusão de “conteúdos": as mesmas plataformas são também poderosíssimos produtores de filmes.
Convém acrescentar que tudo isto envolve tensões e conflitos que estão longe de estar resolvidos. Este ano (agora mesmo!) um filme que, creio, todos aguardamos com enorme expectativa serve de sintoma radical de tal situação. Chama-se O Irlandês, tem assinatura de um dos mais amados cineastas em actividade, Martin Scorsese, e exibe um elenco de luxo, liderado por Robert De Niro e Al Pacino.
Que se passa, então? As notícias são conhecidas de todos os espectadores que mantêm uma atenção regular à actualidade cinematográfica. Em termos esquemáticos: a Netflix (gigante do “streaming”, hélas!) produziu o filme e, apesar de ter prometido exibi-lo nas salas, não abdica de o tratar como um objecto especial na sua oferta (de “streaming”, precisamente).
Na prática, O Irlandês foi lançado a 1 de Novembro em apenas oito cinemas de Nova Iorque e Los Angeles (o novo Terminator/Exterminador Implacável estreou-se em 4.086 salas americanas). Entretanto, nas próximas semans, irá surgir em mais algumas salas... mas a 27 deste mês estará disponível em “streaming”. Ao mesmo tempo, em muitos países, incluindo Portugal, nem sequer passará pelas salas.
Que há para celebrar quando o trabalho de alguém como Scorsese já não é mostrado nas nossas salas? É neste estado das coisas que, com contido optimismo, algum empenho e muita hesitação, estamos a comemorar o Dia Mundial do Cinema. Atravessamos uma época em que, mais do que nunca, os próprios números das bilheteiras podem (e devem) ser lidos para além das evidências que transportam... ou parecem transportar.
Veja-se, por exemplo, o top das bilheteiras americanas do último fim de semana. Numa aproximação imediatista, podemos supor que a liderança de Exterminador Implacável - Destino Sombrio, envolvendo o regresso de Arnold Schwarzenegger à saga dos “cyborgs”, confirma a boa estrela comercial do antigo governador da Califórnia.


1 – EXTERMINADOR IMPLACÁVEL - DESTINO SOMBRIO
2 – JOKER
3 - MALÉFICA - MESTRE DO MAL
4 – HARRIET
5 – A FAMÍLIA ADDAMS

Ora, basta ler os metódicos analistas da indústria dos EUA para ficarmos a perceber que os 29 milhões de dólares de receita da superprodução com Schwarzenegger correspondem a um desastre anunciado: o filme custou 185 milhões de dólares a produzir (sem contar com os muitos milhões que, em casos como este, são também investidos na promoção), tornando-se praticamente impossível recuperar tão fantástico investimento.
Ao mesmo tempo, Joker, um filme enraizado no universo dos super-heróis, mas claramente alheio às suas regras correntes, chegou aos 300 milhões no mercado dos EUA, estando à beira dos mil milhões de receita global (custou 55 milhões). A sua performance é invulgar em todos os mercados, mesmo os mais secundários na dinâmica global da indústria cinematográfica, como é o caso de Portugal (recorde-se que Joker já vai na quinta semana de exibição, sendo Exterminador Implacável um lançamento da última semana).


1 - JOKER
2 - ETERMINADOR IMPLACÁVEL - DESTINO SOMBRIO
3 - MALÉFICA: MESTRE DO MAL
4 - A FAMÍLIA ADDAMS
5 - UM DIA DE CHUVA EM NOVA IORQUE

Eis um dado complementar que este Dia Mundial do Cinema também justifica que seja sublinhado. A saber: a noção de que “apenas” os filmes de super-heróis são um género rentável é todas as semanas posta em causa pelas convulsões da indústria e a imprevisibilidade dos mercados. A possibilidade de Hollywood poder favorecer a sua própria “implosão” — privilegiando orçamentos descomunais que, no limite, podem ameaçar a estabilidade de um grande estúdio — é um assunto regularmente discutido, e não porque tenha sido colocado na agenda industrial por jornalistas ou críticos de cinema. Recorde-se que, há cerca de cinco anos, entre os primeiros a chamar a atenção para essa ameaça estavam Steven Spielberg e George Lucas.
Nada disto é linear, quer do ponto de vista financeiro, quer em termos artísticos. Será preciso repetir que nenhum filme será “melhor” ou “pior” por causa da grandeza (ou da pequenez) do seu orçamento? No domínio financeiro, o exemplo de O Irlandês é, mais uma vez, perturbante e esclarecedor, até porque não será arriscado supor que o próprio Scorsese desejaria que o seu filme tivesse outro nível de distribuição no imenso parque de salas dos EUA.
O certo é que o realizador de clássicos como Taxi Driver (1976) ou Touro Enraivecido (1980) tentou durante uma década que algum dos grandes estúdios de Hollywood financiasse o projecto, além do mais, desde a primeira hora, contando com o apoio de De Niro. Não o conseguiu, já que todos temeram arriscar dar luz verde a um empreendimento tão dispendioso, em especial por causa dos efeitos especiais que, nas cenas do passado, permitem “rejuvenescer” De Niro e Pacino. Até que a Netflix aceitou investir a módica quantia de 159 milhões de dólares, para mais garantindo total liberdade criativa a Scorsese... Enfim, seja como for, e se outras razões não houvesse, eis o que justifica que continuemos a celebrar o cinema.

sexta-feira, novembro 01, 2019

Piano solo [7/10]


[ Herbie Hancock ] [ Miksuko Uchida ] [ Patrick Leonard ] [ Grigory Sokolov ] [ Keith Jarrett ] [ Pedro Burmester ]

A ideia de que foi apanhado em flagrante [caught in the act] é inerente à sofisticada arte do dinamarquês Victor Borge, nascido Børge Rosenbaum (1909-2000): como qualquer grande actor burlesco, ele transforma o carácter fortuito dos acidentes em genuínos acontecimentos, gerando um humor que transfigura a nossa percepção da música e, em última instância, do próprio acto de interpretação.
Nada do que ele faz em palco é estranho à sua modelar formação clássica. Em boa verdade, foi um talento invulgarmente precoce, tendo dado o seu primeiro concerto em 1926, em poucos anos integrando a palavra nas suas performances, transformando-se num extraordinário entertainer. O seu gosto pelas piadas anti-nazis levou-o a partir para a América, em 1940, pouco depois da ocupação da Dinamarca pelas tropas alemãs.
Esta breve performance televisiva, retirada de uma edição de The Dean Martin Show (temporada de 1968-69), reflecte a espantosa agilidade — musical & dramática — de Borge. Poderíamos atribuir-lhe um subtítulo esclarecedor: 'Do bom uso das pautas musicais'.

quarta-feira, outubro 30, 2019

IMPEACHMENT
—Trump, as palavras & etc.

Sinal dos tempos: nesta sociedade de imagens em que vivemos, a instrumentalização quotidiana das palavras não anulou os seus poderes primitivos. A saber: fazer política é também uma arte de administração de palavras, discursos e significações.
Sintomaticamente, o processo de destituição [impeachment] do Presidente Donald Trump está a ser dirimido em muitos e complexos cenários que, para além, ou melhor, através das suas componentes audiovisuais, envolvem os mais diversos gestos de consciência e análise das palavras.
Este video da CNN pode servir de exemplo modelar: em diálogo com John Berman, Elie Honig, analista do sistema legal, faz o ponto de situação do que já foi dito, das mensagens claras às hipóteses mais ou menos obscuras. Correspondendo à dinâmica dos acontecimentos, a CNN criou mesmo uma newsletter a que deu o nome de Impeachment Watch.

terça-feira, outubro 22, 2019

A morte da privacidade

Se continua a existir algo a que podemos chamar “cinema político”, o filme O Candidato Principal constitui um exemplo modelar das suas virtudes. Infelizmente, chegou aos ecrãs televisivos sem ter passado pelas salas — este texto foi publicado no Diário de Notícias (19 Outubro).

De John Ford a Clint Eastwood, passando por Elia Kazan, Otto Preminger ou Sam Peckinpah, o cinema de Hollywood sempre foi visceralmente político. Entenda-se: não porque reflicta “um” ponto de vista político, antes porque a sua riqueza narrativa espelha uma pluralidade que, de uma maneira ou de outra, nos remete para importantes clivagens políticas e sociais.
A evolução dos mercados cinematográficos, marcada pelo domínio dos chamados “blockbusters”, tem favorecido uma crescente indiferença a essa pluralidade. Não se trata, entenda-se, de demonizar os “blockbusters” (nem, como é óbvio, de os santificar). Trata-se tão só de reconhecer que, por vezes, as regras dominantes no mercado tendem a marginalizar alguns dos melhores e mais sofisticados produtos gerados pelo cinema dos EUA.
Um exemplo recente será o magnífico The Front Runner (2018): ausente das salas escuras, surgiu directamente nos circuitos do cabo com o título O Candidato Principal (TVCine). Ainda bem, claro... O que se discute não são critérios de programação televisiva, antes formas de esvaziamento do espaço social do cinema. Até porque convenhamos que é, no mínimo, desconcertante que não haja uma aposta convicta num filme que tem como intérprete principal um actor tão popular como Hugh Jackman.
Estamos perante um objecto que reflecte a persistente energia de um modelo de abordagem das convulsões da cena política cujas raízes se podem encontrar no “cinema político” da década de 70, em particular no trabalho de realizadores como Alan J. Pakula (1928-1998) ou Sydney Pollack (1934-2008). Esse cinema tem como um dos seus pilares fundamentais o estudo de uma interacção clássica, de alguma maneira gerada nas décadas finais do século XIX e consolidada ao longo do século XX. A saber: os muitos cruzamentos da actividade política com os meios de informação. O filme mais conhecido de Pakula, Os Homens do Presidente (1976), sobre a investigação jornalística do caso Watergate, e a subsequente resignação do Presidente Richard Nixon, pode servir de símbolo modelar.
O Candidato Principal é, justamente, um filme sobre um momento emblemático na história de tais cruzamentos, evocando as atribulações que marcaram o processo de nomeação do candidato do Partido Democrata às eleições presidenciais dos EUA de 1988: líder de todas as sondagens (era o “front runner”, como diz o título original), Gary Hart, senador do estado do Colorado (com Jackman numa das mais subtis composições da sua carreira), acabou por desistir na sequência da revelação pública de uma relação extra-conjugal.
Jason Reitman, realizador de O Candidato Principal, tem-se revelado capaz de abordar situações delicadas, sabendo libertá-las de clichés dramáticos ou moralistas — recordemos o seu Juno (2007), centrado na personagem de uma adolescente que fica grávida. Neste caso, sem recalcar os drásticos efeitos emocionais do drama conjugal de Hart, Reitman sabe colocar em cena um outro drama cuja actualidade não será necessário sublinhar. Assim, depois do rigor deontológico do jornalismo de Os Homens do Presidente, estamos perante o “novo” mediatismo que passou a tratar a vida privada como terreno bélico de (des)informação, a ponto de aniquilar o fundamento democrático e o valor existencial da própria noção de privacidade.
Vem a propósito referir que Reitman é também autor de um dos mais notáveis filmes que já se fizeram sobre a degradação dos mais básicos princípios humanistas através de algumas formas de relação “social” promovidas pela Internet: chama-se Homens, Mulheres e Crianças (2014) e, tal como O Candidato Principal, chegou aos circuitos digitais sem ter sido mostrado nas salas do nosso país. É caso para perguntar se se trata de uma coincidência ou um padrão de tratamento do cinema mais ousado e inventivo.

quarta-feira, outubro 09, 2019

Robbie Robertson: filmes & canções

E reencontramos Robbie Robertson, membro do lendário The Band, esse grupo que sempre foi olhado como um fenómeno algo marginal, mesmo se a sua música pertence ao núcleo mais visceral do rock made in USA — ironia suplementar: Robertson, 76 anos, nasceu no Canadá.
Sinematic, o seu sexto álbum a solo, nasce de uma dupla motivação: por um lado, a renovada colaboração com Martin Scorsese, agora em The Irishman, de tal modo que o tema de abertura, I Hear You Paint Houses, retoma o título do livro de Charles Brandt (em rigor: I Heard You Paint Houses) que serve de base ao filme de Scorsese; por outro lado, a conclusão do documentário auto-biográfico Once Were Brothers: Robbie Robertson and The Band (a segunda faixa do álbum chama-se mesmo Once Were Brothers). O resultado, cruzando folk e country, preserva o saber e o sabor das raízes da mais pura Americana. Exemplo: Let Love Reign, performance registada em The Tonight Show, de Jimmy Fallon.

sábado, outubro 05, 2019

Angel Olsen, opus 4

Simplificando: All Mirrors, quarto álbum de estúdio da americana Angel Olsen é um dos discos do ano. A cantora e compositora esteve no programa de Jimmy Fallon, The Tonight Show, para interpretar o tema-título — grande canção, violinos a condizer, impecável realização televisiva.

quinta-feira, outubro 03, 2019

Trump contra Trump

"Um dia dramático para a América" — foi a expressão usada por Jim Baker, antigo conselheiro do FBI, comentando na CNN as novas declarações de Donald Trump perante as câmaras de televisão.
Como é sabido, o Presidente dos EUA enfrenta um processo de destituição, motivado pelo facto de, num telefonema, ter "solicitado" ao Presidente da Ucrânia que investigasse Joe Biden e o seu filho. Ora, que novo e perturbante "dramatismo" Trump introduziu em toda esta situação? Pois bem, repetiu, agora em público [video: NYT], o mesmo apelo, chegando ao ponto de sugerir que não deveria ser apenas a Ucrânia a investigar os Biden... mas também a China!
Escusado será dizer que este novo episódio, tragicamente caricatural, fragiliza ainda mais a posição institucional de Trump, ao mesmo tempo que reforça (?) a sua existência como entidade que vive apenas pela televisão, para a televisão. De uma maneira ou de outra, o desenlace da sua saga política não poderá deixar de envolver alguma reflexão, metódica e exigente, sobre o perverso funcionamento da galáxia mediática que habitamos.

Billie Eilish & Fred Astaire

Billie Eilish esteve no Saturday Night Live (NBC) para cantar Bad Guy. Apresentada por Woody Harrelson, protagonizou um belo momento de homenagem a um número clássico de Fred Astaire... dançando no tecto. No final, o espírito verista da televisão levou a mostrar o dispositivo técnico na base do efeito (para quê?). De qualquer modo, celebremos a lógica do entertainment; por respeito pelos antepassados, evoquemos o original, You're All The World To Me, do filme Royal Wedding (Casamento Real, 1951), realizado por Stanley Donen.



terça-feira, outubro 01, 2019

The Kills em "The Late Show"

Esta escapou-me... Foi há cerca de um ano e meio: em Maio de 2018, quando lançaram o single List of Demands, The Kills passaram pelo The Late Show, de Stephen Colbert. A performance de Alison Mosshart (voz) e Jamie Hince (guitarra) consegue a proeza rara de combinar a mais elaborada sofisticação com a sensação de uma avassaladora espontaneidade — como se a canção estivesse a nascer naquele momento (o que, em parte, envolve uma desconcertante verdade).

quarta-feira, setembro 25, 2019

Trump, por escrito

[FOTO: Le Monde]
Depois da abertura de um processo de impeachment, que poderá conduzir (ou não) à destituição de Donald Trump, a Casa Branca divulgou o registo da conversa do Presidente dos EUA com Vladimir Zelenski, presidente da Ucrânia [The Guardian]. Há, desde já, uma óbvia confirmação: Trump tentou "mobilizar" Zelenski para investigar Joe Biden e o seu filho...
Em qualquer caso, o que importa referir é a fundamental mudança de paradigma: seja qual for o desenlace deste processo, a linguagem dominante do audiovisual (televisão & Net) passou a coexistir na dinâmica social com a matéria primitiva da escrita, da palavra escrita — eis um assinalável acontecimento político.

Ringo Starr recria "Yellow Submarine"

Depois de ter entrevistado Paul McCartney, Jimmy Fallon recebeu Ringo Starr, tendo como mote o lançamento do seu novo álbum, What’s My Name (25 Outubro). Na companhia do próprio Fallon, e com a ajuda dos elementos de The Roots, Starr protagonizou uma deliciosa recriação de Yellow Submarine, utilizando brinquedos musicais — tema-título da longa-metragem de animação lançada em 1968, a canção, recorde-se, estreou-se no alinhamento do álbum Revolver (1966).

sábado, setembro 21, 2019

Daney/Godard, 1987

Serge Daney filmado por Jean-Luc Godard
HISTOIRE(S) DU CINÉMA (1989-1999)
Um reencontro/redescoberta: em 1987, no seu programa radiofónico Microfilms, Serge Daney recebia Jean-Luc Godard, pouco depois do lançamento de Soigne ta Droite/Atenção à Direita. Diálogo fascinante, de perturbante actualidade, em que a tensão, a dialéctica e a tragédia se condensa na máxima godardiana: "o cinema é o pensamento, a televisão é o discurso político ou mercantil.
São dois actos sonoros disponibilizados pela France Culture; em baixo, o trailer de Soigne ta Droite.