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quarta-feira, dezembro 20, 2017

10 DISCOS DE 2017 [1]
— Arca

O venezuelano Alejandro Ghersi, que assina como Arca, já tinha colaborado na produção de álbuns de Kanye West, FKA Twigs ou Frank Ocean; em 2017, foi especialmente notado o seu envolvimento no magnífico Utopia, de Björk (com quem, aliás, trabalhara em Vulnicura, em 2015). Tudo isso contribuiu, e ainda bem, para que o seu terceiro álbum em nome próprio — intitulado apenas Arca, depois de Xen (2014) e Mutant (2015) — conquistasse a visibilidade que muito merece. Para além da singularidade das suas texturas electrónicas, Ghersi decidiu cantar na língua-mãe (por sugestão de Björk), de alguma maneira reforçando a carnalidade dos seus sons, sempre entre a confissão intimista e o artifício teatral. No limite, é a unidade utópica do corpo que está em jogo — como se prova pelo teledisco de Reverie, concebido por Ghersi e Jesse Kanda.

quinta-feira, abril 20, 2017

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Arca, de Arca


Poucos têm a sorte de, a meio de uma viagem de carro, e estando a cantarolar sem nenhum programa em vista, ter a islandesa Björk como passageira ao lado. Foi mais ou menos assim que surgiu um desafio para que, desta vez, Alejandro Ghersi usasse a sua voz. E, com ela, acabasse por criar um disco mais íntimo, talvez aparentemente mais frágil, mas absolutamente arrebatador. E, assim, aos 26 anos, o músico venezuelano que assina como Arca não só vinca (pela dimensão da ideia) o seu papel entre o panorama atual da música eletrónica como abre uma nova frente de trabalho que lhe poderá dar muitos e suculentos frutos pela frente.

Através de trabalhos ao lado não só de Björk, mas também de FKA Twigs ou Kanye West, Arca ganhou nos últimos tempos um estatuto de referência na vanguarda da criação eletrónica ao serviço da música popular, ao mesmo tempo alimentando a admiração por um culto em construção através dos seus dois primeiros álbuns, Xen (2014) e Mutant (2015). O terceiro disco, o primeiro que edita na XL Recordings e ao qual dá o seu nome, revela-o contudo mais dentro do que nunca das suas paisagens e canções. E a opção por usar a língua que aprendeu em primeiro lugar – mesmo tendo feito depois a sua formação nos EUA – confere a toda a construção uma verdade mais profunda e carnal.

Há aqui – como de resto se sentia já nas suas intervenções ao lado de Björk em Vulnicura – uma noção de corpo habitado mesmo sendo esta música essencialmente criada por máquinas. Os temas das canções, a envolvência que o canto tão magnificamente teatraliza, são como tecidos de um mesmo ser. Que vive quando o escutamos. Que reduz a intensidade dos ruídos e angulosidades de outrora sem contudo perder a noção de desafio e de exploração que a sua música até aqui desenhava sobretudo pelas formas e as sonoridades. A dimensão mais humana (que parece escutar ecos de memórias mais assombradas e traduzir desejos que a pele deixa exalar) acrescenta um outro patamar aos acontecimentos. E cria em Arca um contraste curioso com a ideia do homem-máquina de que os Kraftwerk já nos falavam em 1978. É que se o "mensch maschine" dos quatro de Dusseldorf era coisa robótica e firme, o homem que Arca mostra aqui, também musicalmente desenhado por máquinas, é vulnerável, melancólico, feito de carne e emoções. E absolutamente sedutor.