domingo, fevereiro 14, 2010

Um dragão a três dimensões

O futuro (aliás, o presente) do 3D vai jogar-se também, e muito, no terreno específico dos desenhos animados. Um dos próximos títulos da animação a três dimensões será Como Treinar o Teu Dragão (How to Train Your Dragon), com direcção de Chris Sanders e Dean DeBlois. Baseado no livro homónimo de Cressida Cowell, tem chancela da DreamWorks e lançamento global agendado para Março (dia 25 em Portugal) — eis o trailer.

José Sócrates, o presumível culpado

GIOVANNI BELLINI
Apresentação no Templo
1460-64

1. Por estes dias de escutas, denúncias e difamações, o pior jornalismo português está a vencer em toda a linha, degradando o espaço público, porventura de forma irreversível.

2. Através das suspeitas e insinuações lançadas contra o primeiro-ministro José Sócrates, esse jornalismo conseguiu anular a presunção de inocência, uma das conquistas históricas da lei e dos tribunais. Entrámos na época em que só há dois tipos de cidadãos: os anjos sem sexo, politicamente virginais, e os presumíveis culpados.

3. Quase ninguém quer discutir a gravidade desta conjuntura. Perante o vazio de pensamento gerado pelas demagogias mediáticas, por vezes o sarcasmo parece ser a única maneira de resistir aos ataques à inteligência de cada cidadão. Era o que fazia Ferreira Fernandes, em salutar crónica intitulada 'O "Sol", o polvo e a conversa de chacha'. Cito o final: "Ontem, comprei o Sol. Li as quatro páginas sobre as escutas que me prometiam relatar o polvo governamental sobre jornais e televisão. Mas não estava lá nada sobre o assunto. Não quero dizer que Sócrates não quis dominar a Imprensa. Não digo que o Governo não coma microfones ao pequeno-almoço. Digo é isto: naquela edição do Sol não estava lá nada sobre o assunto. Então, do que falamos?"

4. Bem sabemos que o ambiente favorece o puro arbítrio da indigência mental. Dito de outro modo: mesmo que o primeiro-ministro possa vir a ser condenado pelos crimes mais monstruosos, nada pode fazer esquecer o modo como os valores clássicos do jornalismo estão a ser metodicamente substituídos por uma fulanização histérica e pelo atropelo dos mais básicos princípios de respeito democrático pelo(s) outro(s).

5. O clima instalado, enraizado na sinistra lógica do Big Brother, é tão favorável à estupidez política que se conseguiu por a funcionar uma incrível insinuação: todo e qualquer cidadão que exprima alguma consideração positiva sobre a área política do Governo, ou as suas personalidades, corre o risco de ser acusado de perigoso elemento anti-democrático.

World Press Photo: os vencedores

FOTO Gihan Tubbeh / WPP

Esta é uma imagem de Adrian, 13 anos — trata-se de uma das onze fotografias de jovens autistas que valeram a Gihan Tubbeh (Perú) o prémio de "Histórias" na secção Vida Quotidiana da competição anual da World Press Photo.
Mesmo se é verdade que os temas bélicos continuam a marcar uma percentagem considerável das opções do júri, o certo é que o lote de premiados é notável, passando por invulgares visões de temas naturais, como um momento de caça de um pássaro registado pelo húngaro Joe Petersburger (1º prémio, Natureza), e desembocando nos gritos das mulheres de Teerão, protestando contra o regime na sequência da divulgação dos resultados das eleições presidenciais, em imagem assinada pelo italiano Pietro Masturzo (Foto do Ano) — ambas as fotografias estão reproduzidas aqui em baixo.
Para um conhecimento integral dos premiados, vale a pena visitar a galeria de vencedores no site da World Press Photo.

FOTO Joe Petersburger / WPP

FOTO Pietro Masturzo / WPP

A saga do 3D

O cinema a três dimensões envolve as salas e... a televisão — este texto foi publicado no Diário de Notícias (13 de Fevereiro), com o título 'Já mudou de televisor?'.

O reaparecimento do cinema a três dimensões é uma história mal contada. Ou que, em todo o caso, está longe de se esgotar numa “novidade” esfuziante. Só por distracção se pensará que tudo se resume a um utópico renascimento “artístico” (o que, como é óbvio, não invalida as grandes expectativas em relação a alguns filmes anunciados em 3D, nomeadamente a nova versão de Alice no País das Maravilhas, por Tim Burton). A promoção maciça do 3D, em grande parte apoiada no empolamento mais ou menos histérico dos números de bilheteira de Avatar, visa também novas matrizes de consumo caseiro. Não por acaso, ao longo de 2010, os maiores produtores de aparelhos de televisão (incluindo Panasonic, Samsung e Sony) começarão a lançar os seus primeiros televisores equipados também para 3D.
O que coloca uma questão bizarra, que ecoa uma dúvida ligada à produção cinematográfica: onde estará a quantidade suficiente de produtos (filmes, programas, etc.) para alimentar o novo mercado? Ou ainda: será que os consumidores vão investir numa máquina mais cara e... minoritária?

Vera Farmiga sob a direcção de Madonna

Vera Farmiga vai filmar sob a direcção da Material Girl. Depois de muitas especulações sobre o novo projecto de Madonna como realizadora (Sujidade e Sabedoria surgiu em 2008), as decisões estão tomadas. Quem o noticia é o Variety, dizendo que a Rainha da Pop tem na mira... um Rei. Mais exactamente: Madonna irá filmar W.E., história do romance de Eduardo VIII e Wallis Simpson cujo escândalo levou a que o monarca abdicasse, em 1936, do trono britânico (para se casarem em 1937 — foto em baixo). Falta ainda conhecer o par de Farmiga. Entretanto, Madonna está a escrever o argumento em colaboração com Alek Keshishian, realizador do documentário Na Cama com Madonna (1991).
Embora com experiência teatral e cinematográfica desde meados dos anos 90, Vera Farmiga apenas ganhou notoriedade depois da sua participação em The Departed/Entre Inimigos (2006), sob a direcção de Martin Scorsese. O seu papel em Nas Nuvens/Up in the Air, de Jason Reitman, valeu-lhe uma nomeação (na categoria de actriz secundária) para os Oscars a atribuir a 7 de Março.

sábado, fevereiro 13, 2010

Viva a comédia romântica!

Será que a comédia americana está condenada a ser dominada por personagens de adolescentes patetas a viver histórias grosseiras de patético "liberalismo" sexual?... Ou seja: será que em Hollywood, terra nobre de Cukor, Minnelli ou Tashlin, ainda há espaço para a comédia romântica?
A resposta pode ser afirmativa. Aí está Dia dos Namorados (Valentine's Day) para o confirmar. Garry Marshall, realizador de Pretty Woman (1990), propõe uma variação sobre o modelo clássico das histórias românticas cruzadas que, mesmo não estando à altura das grandes referências clássicas, ilustra algo de muito estimável: a de que é possível relançar o género com personagens realmente interessantes, sem perder a ligação com um contexto social (e afectivo) de permanente transfiguração das relações humanas. Com um trunfo essencial a este género de narrativas: uma magnífica galeria de actores que inclui Julia Roberts, Anne Hathaway, Jamie Foxx, Jessica Biel, Kathy Bates, Jessica Alba, Bradley Cooper e, last but not least, Shirley MacLaine.

TV: de Rui Patrício a "Nas Nuvens"

A televisão é uma máquina de banalização e reconversão dos dados do mundo à nossa volta, quer dizer, uma forma específica, e poderosíssima, de cultura — este texto foi publicado no Diário de Notícias (12 de Fevereiro), com o título 'A "culpa" de Rui Patrício'.

1. O populismo televisivo favorece uma grosseira distribuição de “culpas”. No futebol, por exemplo. Coitado do Rui Patrício: deixa entrar um golo infeliz e logo se instala um clima de “tribunal popular”. Como se ele fosse a excepção de uma equipa a jogar o mais radioso futebol do mundo... Como se, enfim, já não fosse possível aceitar que uma bola pode bater de forma imprevisível na relva. Quando as coisas chegam a este delírio purificador, corremos o risco de menosprezar, não apenas o gosto do futebol, mas a nossa própria inteligência.

2. Terminou, na RTP2, a segunda época de Mad Men (o que quer dizer que esperamos, com ansiedade, a estreia da terceira). No seu lugar reapareceu Irmãos e Irmãs (Brothers and Sisters), agora na quarta temporada. Com um excelente elenco (Sally Field, Rachel Griffiths, Rob Lowe, Calista Flockhart, Patricia Wettig, etc.), trata-se de um esclarecedor exemplo das virtudes e limites de uma série tradicional, explorando os labirintos afectivos de uma família. Por um lado, há aqui uma lógica psicológica enraizada na tradição melodramática de Hollywood, em particular no tratamento das personagens femininas; por outro lado, a “obrigação” de continuar a série leva à criação de relações e peripécias mais ou menos insólitas, nem sempre favorecendo a sua consistência dramática. Em qualquer caso, este é um produto televisivo que se demarca dos mais frequentes clichés moralistas.

3. A televisão criou formas específicas de voyeurismo da cena política. Subitamente, ganha foros de notícia o confronto verbal de dois deputados “cinéfilos”, em plena Assembleia da República: um evoca Avatar para denunciar as fantasias do seu opositor; o outro responde, sugerindo que o primeiro está como o protagonista de Nas Nuvens, viajando muito, mas não chegando a lado nenhum. Num país tão incapaz de defender o seu próprio cinema como produto popular (com acontece em Espanha ou França), faz sentido que os filmes sejam apenas isto: instrumento banal do chiste político.

Berlinale, 60 anos

Está a decorrer, até 21 de Fevereiro, a 60ª edição do Festival de Berlim — este texto evoca algumas memórias históricas e foi publicado no Diário de Notícias (11 de Fevereiro), com o título 'Do mercado ao peso da história'.

Para o Mercado Europeu de Cinema, integrado na edição de 2010 do Festival de Berlim, estão inscritas mais de 400 companhias produtoras e cerca de 1300 compradores (exibidores, televisões, etc.). Quer isto dizer que a Berlinale não se joga apenas no território do prestígio cinematográfico ou artístico, apostando forte em marcar presença num contexto global em que os outros grandes protagonistas são Cannes e a Califórnia (American Film Market, em Santa Monica).
Em todo o caso, o certame possui um património histórico cujo simbolismo está longe de ser banal, continuando a pesar de modo decisivo na sua dinâmica. Na verdade, em tempos de Guerra Fria, o Festival de Berlim funcionou também como uma zona “neutra”, não exactamente excluindo os diferendos políticos, mas abrindo-se às muitas diferenças da produção europeia (e internacional), de acordo com uma lógica ecuménica e humanista. Apoteose inesquecível dessa lógica foi a retrospectiva de cinema da Alemanha de Leste, realizada na edição de 1990 [cartaz], cerca de três meses depois da queda do Muro.
Escusado será dizer que nada disso é alheio a uma pulsão mais funda que se sente no corpo vivo da cidade, cruzando as memórias trágicas e o desejo de futuro. O Zoo Palast, por exemplo, sala emblemática na história do certame, está implantado na Breitscheidplatz [foto em baixo], espaço simbólico por excelência onde as ruínas de uma belíssima igreja (Gedächtniskirche), em parte destruída pelos bombardeamentos de 1943, foram preservadas como monumento. De uma maneira ou de outra, o Festival de Berlim é um acontecimento que faz sentir aos seus espectadores o peso da história e, em particular, a necessidade de lidar com todas as suas convulsões e contradições.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Memórias do renascimento da Disney

Um dos fenómenos cinematográficos da primeira década do século XXI é o alargamento temático (para lá do recrudescimento comercial) do género documental. Agora, deparamos com um filme sobre o "despertar" de... Branca de Neve — mais exactamente, Waking Sleeping Beauty revisita o período 1984/1994 em que os estúdios Disney estiveram à beira da decomposição artística para, a partir de A Pequena Sereia (1989), viverem um espectacular renascimento através de títulos como A Bela e o Monstro (1991) e O Rei Leão (1994), cujos efeitos acabaram por transcender o seu espaço específico.
Realizado por Don Hahn, nome ligado à produção de alguns desses títulos, Waking Sleeping Beauty evoca, em particular o papel desempenhado nesse processo por personalidades como Roy Disney, Michael Eisner, John Musker, Tim Burton e Jeffrey Katzenberg (que, em 1995, se associaria a Steven Spielberg e David Geffen para formar a DreamWorks) — tem estreia americana marcada para o mês de Abril.

Portugal, versão "Big Brother"

RENÉ MAGRITTE
A Condição Humana
1935

1. Vivemos — ou querem fazer-nos viver — em plena pornografia mediática. A avalancha de golpes contra o Governo repete, sem variações significativas, apenas com ainda maior histeria, o que aconteceu visando o desempenho de Pedro Santana Lopes como primeiro-ministro. Dizer isto não significa anular um qualquer facto com qualquer outro, muito menos supor que Santana Lopes, José Sócrates ou seja quem for estão ilibados de responder e corresponder ao enquadramento legal dos cargos que ocupam ou ocuparam. Significa, isso sim, constatar um assustador estado de coisas: o espaço da comunicação social foi transformado numa câmara de eco de sugestões, insinuações e julgamentos sumários, de tal modo que os órgãos de informação que queiram resistir a tais práticas correm o risco de ser rotulados como "anti-democráticos". Tivemos, aliás, o triste episódio de Manuela Moura Guedes [video em baixo] a denunciar o estado de "censura" em que vivemos, promovendo uma pedagogia tão rudimentar que nem sequer se dá conta que, automaticamente, reduz a pó o seu próprio discurso.

2. Há uma outra maneira de descrever a actual conjuntura social (e que não se alteraria uma vírgula se Manuela Moura Guedes praticasse outro tipo de jornalismo, como não se alterará se José Sócrates for condenado a prisão perpétua): o país passou a ser gerido por uma lógica de Big Brother. Significa isso que o espaço público passou a ser comandado pela noção segundo a qual a exposição de qualquer detalhe de qualquer acontecimento envolve uma transcendência de significados que remetem sempre para alguma dicotomia purificadora ("bem/mal", "justo/injusto", "ino-cente/culpado"). Resistir, ou tentar resistir, a isso tornou-se um risco filosófico e político: os discursos dominantes — nomeadamente por efeito global das televisões e da sua ideologia populista de produção de verdade — conseguiram instalar a ideia sinistra segundo a qual essa resistência é, automaticamente, um crime de lesa democracia (é, aliás, sintomático que o mais transparente dos crimes, devidamente identificado pela Lei — a publicação das escutas —, esteja quase ausente das notícias dos últimos dias).

3. Fica uma primeira lição, também ela pedagógica, cuja evidência importa lembrar: para a "big-brotherização" do país, dos media e da política, contribuiu de forma decisiva a opção de José Eduardo Moniz em lançar o Big Brother, na TVI, como alavanca central de programação. Importa lembrá-lo, não para desencadear qualquer processo persecutório, muito menos para defender a prática da difamação: apenas porque, pelo menos por uma vez, podemos compreender onde estão as raízes ideológicas do nosso viver e, sobretudo, do nosso mal viver.

A morte da política em Portugal

GOTTFRIED HELNWEIN
Os Últimos Dias de Pompeia II [fotografia reenquadrada]
1987

Numa reportagem televisiva das sessões na Assembleia da República (referente ao dia de ontem), vejo um deputado dirigir-se à bancada do Governo, tomando como pretexto uma manchete de um jornal [sobre o congelamento dos salários da função pública]. Indignado, exige que o Governo desminta a manchete porque, se não o fizer, quer dizer que é verdadeira...
Podemos admitir que o Governo está a mentir. Podemos até superar todas as formas de histerismo mediático e supor que o Governo é um bando de malfeitores e as oposições uma colecção de anjos inocentes. Somos livres de o fazer e, para mais, se for caso disso, sermos felizes. Em todo o caso, a intervenção do deputado (não contestada pela maioria dos outros deputados), resume uma tragédia muito portuguesa: a de reduzir o labor da verdade ao conhecimento das manchetes dos jornais e a de fazer política a partir dessas manchetes.
Podemos, por isso, registar o óbito: em Portugal, a política morreu no dia 11 de Fevereiro de 2010 — por suicídio.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Precious, Nova Iorque

Precious conta a história dramática de uma rapariga do Harlem que tem dois filhos do próprio pai e é maltratada no dia a dia pela mãe — este texto foi publicado no Diário de Notícias (10 de Fevereiro), com o título 'Nova Iorque, realismo e Cassavetes'.

Com seis nomeações para os Oscars (incluindo melhor filme), Precious é um dos grandes fenómenos do ano. E só por manifesto simplismo jornalístico se poderá favorecer a ideia segundo a qual os prémios da Academia vão funcionar como um teste ao impacto comercial das três dimensões (seja o que for que se pense de Avatar). De facto, se continua a existir um espírito genuinamente independente na produção americana, ele está representado em Precious. A visibilidade que o filme adquire nos Oscars, depois de muitas distinções (de festivais, associações de críticos, etc.), significa também que há uma dimensão realista que, embora tendo as suas raízes na tradição independente, permanece viva e viável no imaginário de Hollywood.
Reencontramos, assim, a referência tutelar de John Cassavetes (1929-1989) [foto], uma das personalidades “fundadoras” de uma atitude criativa indissociável da grande metrópole novaiorquina. Mas não se julgue que essa inspiração é apenas estilística e pode ser reduzida a alguns efeitos formalistas. Aquilo que reemerge na realização de Lee Daniels é a função dominante dos actores. As prodigiosas Gabourey Sidibe e Mo’Nique, intérpretes de Precious e Mary (a mãe), são apenas as marcas mais óbvias de uma estética que revaloriza a contemplação das mais discretas ou mais violentas nuances do comportamento humano.
A história de Precious, dos abusos a que é sujeita e da sua resistência à “normalização”, sendo uma contundente crónica social, traduz um relançamento dos modelos clássicos de retrato psicológico. Se nos lembrarmos de filmes como O Estranho Caso de Benjamin Button (2008), poderemos perceber que esse é um factor importante também na produção dos grandes estúdios.

60ª Berlinale começa hoje

O mundo do cinema concentra-se, ao longo dos próximos dias, em Berlim. A 60ª edição da Berlinale arranca já hoje, com a apresentação do filme chinês Tuan Yuan (na imagem), de Wang Quan’an.

Até dia 21 salas espalhadas por toda a cidade de Berlim acolherão inúmeros filmes, nas mais diversas secções. Nomes como Martin Scorsese, Noel Baumbach, Michael Winterbottom ou Ferzan Ozpetek são alguns entre os muitos realizadores representados nesta edição do festival. Werner Herzog é este ano o presidente do júri internacional, que decidirá os prémios na secção competitiva. Além das muitas novidades (e serão inúmeros os títulos ora em estreia mundial ora em estreia europeia), há espaço para a memória, numa programação complementar que passa pelo cinema de figuras como, entre outros, Nagisa Oshima, Satyajit Ray, Rainer Werner Fassbinder, Vittorio de Sicca ou Pedro Almodóvar.
Traduzindo esta semana de cinema em números, a Berlinale vai apresentar cerca de 400 filmes, a um público que deverá rondar os 270 mil espectadores, quatro mil jornalistas e 19 mil profissionais da indústria do cinema, representando 136 países.

No site oficial da Berlinale está a programação completa desta edição.

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Na intimidade da Fórmula 1

Deambulando através de um mundo em que aquilo que acontece agora... já passou — este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 de Fevereiro), com o título 'Vertigem e intimidade'.

O som da Fórmula 1 mete-me medo. Dito de outro modo: fascina-me aquela teia de coisas que demoram mais tempo a descrever do que a acontecer. Quando dizemos “aquele carro ali”, em boa verdade o “ali” já não existe... É por isso também que me interessam sempre as imagens que conseguem mostrar-nos o universo da Fórmula 1, não apenas como velocidade e vertigem, mas também como fenómeno íntimo, quase secreto.
Ao descobrir esta fotografia de Fernando Alonso [Pedro Armestre/AFP], nos testes da Ferrari em Valência, não pude deixar de pensar em Grande Prémio (1966) [cartaz], filme que não sendo exactamente uma obra-prima nos transmitia esse sentimento de uma intimidade protegida pelos seus próprios rituais. Realizado por John Frankenheimer, com James Garner, Eva Marie Saint e Yves Montand (e Françoise Hardy!), embora correspondendo a uma idade bem diferente da Fórmula 1, Grande Prémio era especialmente acutilante no retrato da solidão do condutor no espaço ultra-condicionado do seu bólide (mea culpa: a palavra “bólide” caiu em desuso).
Há um lugar-comum do jornalismo televisivo que consiste em perguntar aos entrevistados, a propósito das coisas mais diversas, “o que é que sente quando...?”. De facto, o que se sente é um pouco como o carro a alta velocidade: já passou. Nos olhos de Alonso, aquilo que se pressente é bem diverso: “Tenho que ser completamente racional e não sentir nada”.

Um regresso promissor

Os Field Music partem de um núcleo constituído pelos manos David e Peter Brewis. Três anos depois de Tones Of Town preparam-se para regressar com um novo álbum a que vão chamar Field Music (Measure). E fica aqui um aperitivo, na forma do teledisco do single de avanço, Them That Do Nothing, realizado por Gavin Wood.

A vida além dos Depeche Mode

O projecto Recoil (do ex-Depeche Mode Alan Wilder) vai editar em Abril uma antologia no formato de duplo CD, o primeiro disco no clássico registo “o melhor de”, o segundo agrupando algumas remisturas e versões alternativas. O alinhamento deste Recoil Selected ignora contudo a música que Wilder criou em 1+2 e Hydrology, os dois primeiros, mais experimentais, e decididamente mais interessantes discos da sua obra como Recoil.

Nos 40 anos de 'Madcap Laughs'

O afastamento de Syd Barrett dos Pink Floyd não representou um imediato ponto final na sua carreira na música. Ainda em 1968, Barrett registou uma série de sessões, que todavia deixou incompletas. Retomado mais tarde, o trabalho do qual nasceria o primeiro álbum a solo de Syd Barrett envolveu músicos dos Soft Machine e Humble Pie, trabalhando estes sobre esboços e maquetes para voz e guitarra gravados pelo ex-Pink Floyd. Roger Waters e David Gilmour chegaram também a colaborar na etapa final da produção de um álbum que acabaria editado em Janeiro de 1970. É um disco assombrado, belo, frágil. E em tudo herdeiro das mesmas visões que, três anos antes, haviam gerado os melhores momentos de toda a obra dos Pink Floyd, mas caminhando agora por caminhos mais sombrios. 40 anos depois, a evocação de The Madcap Laughs (e da figura e obra de Syd Barrett) são justificado tema de capa da mais recente edição da Mojo.

Os 40 anos da edição de The Madcap Laughs geraram não apenas um dossier alargado na mais recente edição da revista Mojo (capa ao lado), como foi ponto de partida para a criação de mais um disco de tributo, na mesma linha dos que, nos tempos mais recentes, esta publicação britânica dedicou a álbuns como Abbey Road, dos Beatles, ou The Wall, dos Pink Floyd. Com o título The Madcap Laughs Again, o disco de tributo revisita na íntegra o álbum de Syd Barrett, entregando cada um dos temas a um nome diferente. Assim, entre outras, aqui contamos com versões de Terrapin pelo colectivo Field Music, No Good Trying por J Mascis, Dark Globe pelos R.E.M., Octopus por Captain Sensible, Golden Hair por Hope Sandoval com os The Warm Intentions, Feel por Cate Le Bom, Late Night por Marc Almond ou ainda Gark Globe (em segunda leitura, esta gravada ao vivo), por Robyn Hitchcock.

Em conversa: Charlotte Gainsbourg (3/3)

Concluímos hoje a publicação integral de uma entrevista com Charlotte Gainsbourg que serviu de base ao texto publicado dia 6 no DN Gente com o título ‘Uma Voz entre a música e o cinema’

O filme Anticristo, de Lars von Trier está a gerar opiniões radicalmente diferentes e mesmo extremadas. Surpreende-a este tipo de reacções?
Entendo. O que vivemos frente à câmara foi tão extremo, que não vejo porque não aconteça o mesmo nas opiniões sobre o filme. O que me metia medo em relação a ir a Cannes foi quando me disseram para estar preparada para algo escandaloso e violento... Estava preparada para isso. O que seria horrível era se as pessoas tivessem, uma reacção tépida em relação ao filme. E nem fossem pró ou contra. Gosto da ideia das pessoas terem uma reacção forte ao filme.

Ficou surpreendida com a vitória em Cannes como Melhor Actriz?
Sim, muito... Porque hoje, com a Internet, vamos sabemos o que de diz, as previsões. E não via o meu nome em nenhuma... pelo que pensei que seria outra actriz a ganhar.

Foi um papel difícil?
Foi. Mas adorei a experiência. Foi maravilhosa. É um papel fortíssimo, extremo.

E foi difícil, depois, sair do filme? E caminhar para o seguinte?
Foi logo a seguir... E antes mesmo de Cannes… Sair deste filme para outro foi difícil. Porque fiquei habituada ao lars e á sua maneira de filmar. Foi tudo tão extremo na minha mente e foi difícil de esquecer. E tinha de esquecer para poder seguir em frente e viver outras experiências. Agora está tudo bem, já fiz outros filmes. Fiz o [Patrice] Chéreau e outro filme francês na Austrália... Gosto que me aconteçam coisas diferentes...

Gosta de ser surpreendida?
Sim, acho que é por isso que faço estas coisas. Não acho que isto seja uma atitude egoísta, mas sempre que falo em públicos, quando penso em quem escuta um disco ou vai ver um filme penso em mim...

Imagem do filme Anticristo, de Lars von Trier

Como é, para si, sair do plateau ao fim de um dia de rodagem e reentrar na vida normal. E depois ter de retomar o papel no dia seguinte?
Depende do filme... Há sempre um momento em que nos sentimos em baixo depois filme. Mas não transportamos a personagem durante toda a rodagem. Em Anticristo levei algum tempo a esquecer as cenas. A esquecer a personagem e focar-me no futuro... Há uma tendência para repelir... E podemos ficar ali presos

Faria um filme onde pudesse cantar?
Sim, adoraria, mas não pensei nunca nisso. Mas hoje é difícil que um filme musical tenha impacto em França. Isso nunca acontece... Não é parte da nossa cultura. Mas nunca pensei nisso...Gosto de musicais. Cresci a ver musicais como o Oliver, o My Fair Lady, o West Side Story...

Tem um filme preferido?
Gosto do Some Like It Hot. Sempre adorei esse filme e não consigo sair dele para um outro...

Quando o viu pela primeira vez?
O meu pai tinha um grande sistema em casa... Era o começo do vídeo e tínhamos um grande ecrã. E vi o filme nesse grande ecrã. Hoje gosto de ver de tudo. Não tenha um estilo específico de que goste mais... Recentemente vi o Laço Branco de que gostei muito.

A aventura dos KLF (3/4)

A ideia, na origem, era a de criar uma banda sonora para um filme… O orçamento não se compôs e acabaram nas mãos com uma série de temas já compostos que, durante algum tempo, ficaram à espera de oportunidade para conhecer novo destino. Alguns dos inéditos criados para o filme nunca realizado acabaram depois, juntamente com alguns dos singles da série “pure trance” entretanto editados, reunidos num álbum a que chamaram The White Room. O disco, embora sem seguir a matriz conceptual de Chill Out, não deixa de revelar uma certa ordem narrativa entre os temas, tendo então gerado um dos raros acontecimentos nascidos da geração acid house na forma de álbum. Um marco na discografia que emergiu após a revolução que a club culture conheceu em finais de 80, The White Room é não apenas o momento maior da obra dos KLF, como um título fundamental na história da dance music.

Como numa viagem no tempo

N.G.: Foi como uma viagem no tempo, cada obra servindo de veículo a uma passagem á época seguinte. Aconteceu há dias em actuação da Orquestra Gulbenkian, dirigida pelo maestro titular Lawrence Foster, com as presenças de Zandra McMaster (meio-soprano) e Christopherr Malfman (barítono).
Começámos em 1999, com as três espantosas Whitman Songs de Michael Tilson Thomas, em cuja medula circulam ecos de uma evidente admiração por Leonard Bernstein. Deste segundo compositor, um dos mais interessantes autores da música americana do século XX, seguiu-se a Sinfonia Nº 1 - Jeremiah, de 1942. Uma obra intensa que, se por um lado traduzia uma atenção do músico ao contexto de tempo, lugar e vivência cultural que o envolvia (captando na tradição do teatro musical uma marca de identidade da mesma forma como Gerswhin havia assimilado o jazz alguns anos antes), por outro vincava a assombração de alguém que, de ascendência judaica, não deixava de reflectir sobre um tempo de perseguição e morte que se vivia, então já em plena II Guerra Mundial. A segunda parte do concerto foi toda ela preenchida pelo ciclo Des Knaben Wunderhorn, de Mahler, figura marcante na formação e obra (como compositor e também como maestro) de Bernstein. Se na sinfonia de Bernstein, brilhantemente executada, tinha ficado evidente a “mão” segura de Foster sobre uma orquestra que revela profunda relação com o maestro, no Mahler compreendeu-se a verve sinfonista de uma escrita que com as vozes partilha o protagonismo. E, precisamente, foi com Mahler que ambos os cantores tiveram os seus melhores momentos de todo o concerto.