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sexta-feira, julho 28, 2006

Soderbergh (só) com legendas

O filme chama-se Bubble e nele se conta uma história, ao mesmo tempo banal e cruel, de um assassinato numa pequena cidade dos EUA, envolvendo uma galeria de personagens que trabalham num fábrica de bonecas — objecto de um espantoso e inquietante minimalismo realista, alicerçado numa inovadora utilização dos meios digitais (esteticamente remetendo para a produção de Hollywood, em plenos anos 50, marcada pela emergência do formato CinemaScope) Bubble é, muito simplesmente, no contexto português, um dos momentos marcantes de 2006.
Com Bubble, Steven Soderbergh arriscou uma estratégia cujos efeitos práticos e simbólicos ainda não podemos medir: o lançamento simultâneo, nos EUA, em sala, DVD e na televisão por cabo. Em Portugal, o filme sai apenas em DVD, o que, não deixando de ser positivo (antes isso que o completo esquecimento comercial), impede que o descubramos num grande ecrã para o qual, obviamente, também foi concebido.
Ponto muito negativo da edição em DVD é o facto de a opção de legendas... não existir. Isto porque só é possível ver o filme... com legendas. Não é caso único no panorama recente do mercado, o que faz temer que se esteja a desenhar mais uma "tendência" típica do novo-riquismo que invade todos os campos da vida cultural. Sendo o DVD, por princípio, um sistema que favorece a multiplicação das opções do consumidor, obrigar esse mesmo consumidor a ter sempre legendas num filme é um absurdo que, em última instância, o poderá repelir — até porque no mundo global em que vivemos, a maior parte dos interessados tem acesso automático a compras noutros mercados, capazes de satisfazer as suas opções de consumo.

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quarta-feira, dezembro 28, 2005

Soderbergh: salas + DVD + Net

Promete ser um dos grandes acontecimentos do começo de 2006 (a estreia americana está marcada para 27 de Janeiro): rodado em alta definição, Bubble, o novo filme de Steven Soderbergh, volta a ser um exercício minimalista de produção, com actores completamente desconhecidos e o próprio realizador a assumir as funções de director de fotografia e montador — recorde-se que Soderbergh já tentara algo semelhante em Full Frontal/Vidas a Nu (2002), embora nesse caso com grandes vedetas.
A história centra-se numa fábrica de bonecas de uma pequena cidade do Ohio onde ocorre um misterioso assassinato... A novidade absoluta está no método de lançamento. Decidido a combater a pirataria no seu próprio terreno — ao mesmo tempo levantando questões muito pertinentes, e também muito polémicas, a toda a indústria —, Soderbergh vai lançar Bubble, em simultâneo, em três frentes: nas salas, em DVD e no site da HDNet (uma das entidades produtoras). E este é apenas o primeiro de um conjunto de seis filmes que o realizador de Ocean's Eleven e Ocean's Twelve planeia rodar e difundir do mesmo modo. O cartaz de Bubble diz de forma simples e certeira: "Uma outra experiência de Steven Soderbergh" (entretanto, ainda não existe site, mas o trailer já está disponível).

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sexta-feira, dezembro 29, 2006

2006: Os Filmes

Segundo balanço detalhado, hoje a destacar as grandes estreias do ano nas salas de cinema e as melhores edições em DVD.

JL:

Cinema
Cada vez se vai menos ao cinema pelo... cinema. Há todo um público novo que se relaciona de forma acidental com os filmes (respondendo sobretudo às especificidades de determinadas campanhas) e que, no limite, perdeu toda a crença cinéfila. Os filmes maioritariamente consumidos poderão ser "bons" ou "maus" (não é isso que está em causa), mas é um facto — simultaneamente cultural e económico — que vivemos a desagregação da base tradicional de consumo e fruição do cinema. Dito isto, saúde-se o melhor, isto é: a capacidade do mercado, apesar de tudo, continuar a manter uma oferta relativamente diversificada, com um peso crescente de produtos não especificamente americanos. Seja como for, a colheita made in USA (incluindo o sempre inclassificável Ferrara) foi muito boa.

1º 'Juventude em Marcha', de Pedro Costa
2º 'Gabrielle', de Patrice Chéreau
3º 'Entre Inimigos', de Martins Scorsese
4º 'A Senhora da Água', de M. Night Shyamalan
5º 'Uma História de Violência', de David Cronenberg
6º 'A Criança', de Luc e Jean-Pierre Dardenne
7º 'Maria Madalena', de Abel Ferrara
8º 'Nada a Esconder', de Michael Haneke
9º 'Infiltrado', de Spike Lee
10º 'Boa Noite, e Boa Sorte.', de George Clooney

DVD
Talvez a marca mais importante do ano seja também a mais preocupante: o número crescente de títulos lançados directamente em DVD (sem terem passado pelas salas) significa uma boa abertura do mercado, mas pode também querer dizer que alguns distribuidores/exibidores tendem a apostar cada vez menos na tão importante diversificação da oferta nas salas. Além do mais, embora haja casas editoras com estratégias precisas (a Costa do Castelo foi a que deu o maior salto qualitativo e quantitativo do ano), outras existem que não têm nenhum programa coerente de marketing e, mais do que isso, olham com olímpica indiferença o trabalho jornalístico de informação e opinião. Entre os grandes filmes "esquecidos", recuperados pelo DVD, incluem-se F de Fraude (Welles, 1974) e Noite e Nevoeiro (Resnais, 1955), este incluído na edição de Hiroshima Meu Amor.

1º 'Sympathy for the Devil', de Jean-Luc Godard
2º 'Bubble', de Steven Soderbergh
3º 'F de Fraude', de Orson Welles
4º 'L'Atalante', de Jean Vigo
5º 'Hiroshima Meu Amor', de Alain Resnais
6º 'Aurora', de F. W. Murnau
7º 'O Sacrifício', de Andrei Tarkovski
8º 'A Quadrilha Selvagem', de Sam Peckinpah
9º 'Um Eléctrico Chamado Desejo', de Elia Kazan
10º 'O Rio Sagrado', de Jean Renoir

NG:

Cinema
Houve filmes que nem sequer passaram pelas nossas salas (Bubble, de Steven Soderbergh; Glastonbury, de Julien Temple ou Segredos Urbanos de Chris Terrio). E outros pelos quais esperámos mais de um ano (Uma História de Violência, de David Cronenberg; Amor Suspeito de Emmanuel Carrère ou Eu, Tu e Todos os Que Conhecemos, de Miranda July). Mesmo assim somaram-se alguns feitos. Arrepiante, Ninguém Sabe mergulha numa espiral de caos em microcosmos familiar de pais ausentes. Deslumbrante, Marie Antoinette é retrato impressionista do vazio das vidas na Versailles no ocaso do antigo regime. Prémio para pior filme do ano (onde havia muitos candidatos) para Modigliani.

1º 'Ninguém Sabe', de Hirokazu Kore-eda
2º ‘Marie Antoinette’, de Sofia Coppola
3º ‘Amor Suspeito’, de Emmanuel Carrère
4º ‘O Segredo de Brokeback Mountain’, de Ang Lee
5º ‘A Lula e a Baleia’, de Noel Baumbach
6º ‘Match Point’, de Woody Allen
7º ‘Nada a Esconder’, de Michel Haneke
8º ‘Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos’, de Jonathan Dayton e Sylvia Faris
9º ‘Uma História de Violência’, de David Cronenberg
10º 'Sonhar Com Xangai’, de Xiaoshuai Wang

DVD
As edições directas para o DVD (ou seja, as que não passaram por sala), fazem parte da ementa dos melhores títulos do ano (o que dá que pensar sobre as políticas de exibição em sala). Mas houve outros episódios notáveis. Em primeiro as séries de televisão, cada vez mais um espaço de destaque no panorama editorial do DVD. Destaque inevitável para a pouco mediatizada, mas sublime, A Feira da Magia (Carnivale no original), verdadeiro monumento de cinema para ver no pequeno ecrã. Igualmente em alta, excelente Roma e a primeira época de Lost (que parece estar a perder-se na terceira). E não nos esqueçamos dos clássicos, que este ano chegaram em farta e boa oferta, sobretudo via Costa do Castelo, assinalando-se ainda a boa série de títulos (sem extras, contudo) da Fox, que entretanto começaram a ser regularmente editados entre nós. Nesta lista optei por apontar apenas edições no mercado português.

1º ‘A Feira da Magia’, criada por Daniel Knauf
2º ‘Roma’, criada por J. Millus e B. Heller
3º ‘Bubble’, de Steven Soderbergh
4º ‘Tarnation’, de Jonathan Caoette
5º ‘L’Atalante’, de Jean Vigo
6º ‘Segredos Urbanos’, de Chris Terrio
7º ‘Glastonbury’, de Julien Temple
8º ‘Zombie’, de Jacques Tourneur
9º ‘Loud Quiet Loud’, de Stevemn Cantor
10º ‘Metropolis’, de Fritz Lang

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segunda-feira, outubro 07, 2013

Novas edições:
Vários Artistas / Peter Gabriel,
And I'll Scratch Yours

Vários Artistas / Peter Gabriel
“And I’ll Scratch Yours”
Real World / Universal
3 / 5

Esta é a segunda parte de um díptico que começou a ganhar forma há uns três anos e que, originalmente, deveria ter sido discograficamente concluído pouco depois do lançamento do primeiro deste par de álbuns. Com Peter Gabriel como protagonista, o par de edições centrava-se numa ideia simples: a partilha de versões. Ou seja, numa etapa Peter Gabriel gravaria canções de outros nomes. E, nesta segunda, caberia a uma série de convidados o desafio de registar versões de canções originais de Peter Gabriel. Editado em 2010, Scratch My Back, de Peter Gabriel, apresentava leituras, personalizadas, de temas como Heroes de David Bowie, The Boy In The Bubble de Paul Simon, My Body is A Cage dos Arcade Fire, Listening Wind dos Talking Heads ou Street Spirit (Fade Out) dos Radiohead, juntando ainda temas de Neil Young, Lou Reed, Regina Spektor, Elbow, Bon Iver ou Randy Newman. Agora, depois de tão bem ter coçado as costas de uma notável multidão de canções (e autores) chega a resposta, que começa logo pela forma direta como o título sugere que agora é a vez dos outros o coçarem... And I’ll Scratch Yours é de certa forma um disco-tributo à obra de Peter Gabriel. Porém, ao contrário de muitos projetos coordenados por editoras, revistas (como o foi o I’m Your Fan, dedicado a Cohen, conduzido pela Les Inrockuptibles) ou comissariadas por admiradores, esta foi coordenada pelo próprio “homenageado”. Coube de resto a Peter Gabriel a decisão de avançar pela edição deste segundo disco nesta altura do campeonato, cansado que estava de esperar pelas eventuais contribuições planeadas que não se chegaram a materializar. A ideia original era a criação de um par em que os nomes por si abordados num dos álbuns fossem os mesmos que depois avançariam sobre as suas próprias canções. Apesar de algumas diferenças pontuais, And I’ll Scratch Yours apresenta mesmo assim um corpo comum de nomes com o álbum de 2010. O alinhamento final fala todavia por si, e revela um dos mais agradáveis entre os muitos discos de versões / tributos que por aí andam. David Byrne e Arcade Fire assinam leituras espantosas, respetivamente de I Don’t Remember e Games Without Frontiers. Lou Reed faz de Solsbury Hill uma canção “sua”, o mesmo se podendo dizer da abordagem de Stephin Merritt (dos Magnetic Fields) a Not One Of Us ou a Biko, segundo Paul Simon (numa curiosa ligação, via The Boy In The Bubble que Gabriel reinterpretou, à relação com a África do Sul que o músico talhou nos dias de Graceland). O alinhamento apresenta ainda leituras pessoais de Big Time segundo Randy Newman, Blood of Eden por Regina Spektor ou de Feist, com Timber Timbre, em Don’t Give Up. Brian Eno revisita um espaço da música elétrica onde há muito não caminhava em Mother of Violence. Joseph Arthur não impressiona lá muito em Shock The Monkey. E Bon Iver e os Elbow não parecem conseguir vencer a deferência perante os originais em Come Talk To Me e Mercy Street. Mas no fim, ao cabo de 12 versões, a colheita satisfaz. Poucas vezes vemos reunido um tão nutritivo volume de versões num disco só.

sábado, setembro 15, 2007

Dancemos no Mundo

Há sete anos, Sérgio Godinho apresentava no álbum Lupa uma canção que, na essência, traduz o que podemos ver o filme The Bubble, de Eytan Fox, que hoje é exibido pelas 22.00 na Sala 1 do Cinema São Jorge, na secção competitiva do festival Queer Lisboa. Dizia a canção (de título Dancemos no Mundo): Seperam-nos cordas / separam-nos creedos / e creio que medos / e creio que leis. Mais à frente: Separam-nos facas / separam-nos fatwas / pai-nossos e datas / e excomunhões / acondicionando paíxões. The Bubble fala precisamente disto. De um amor dividido e talvez "proíbido" aos olhares de alguns dos que envolvem os dois protagonistas. São eles um israelita e um palestiniano. Cada um vivendo do "seu" lado de um conflito que faz as notícas todos os dias. Um conflito que, à partida, habita apenas fora das vidas interiores de Noam e Ashraf, mas que não deixa de conhecer barreiras, das sugeridas pela colisão de ideais e crenças à própria não aceitação da realidade desta paixão por familiares e por uma cultura que rejeita o que une estes dois homens. Um filme poderoso que, como o recente Paradise Now, de Hany Abu-Assad, mostra um olhar de perto, e na dimensão pessoal, do conflito que arormenta aquela região do globo.

terça-feira, março 18, 2014

Novas edições:
CEO, Wonderland

CEO
“Wonderland” 
Modular / Popstock 
3 / 4 

Há sempre um tremendo grau de imprecisão quando de aplicam generalizações sem a cautela que o método científico sugere. Uma das generalizações muitas vezes levantadas quando se fala da oferta pop/rock made in Suécia foca atenções numa fluente e viçosa produção. O país é de facto um dos maiores produtores mundiais de discos pop/rock (e a vitória eurovisiva dos Abba em 1974 abriu definitivamente rotas de comunicação com as atenções à escala global), o que não nos deve contudo fazer crer que só de pop vive a música sueca. CEO, ou seja, o projeto a solo de Eric Berglund (dos The Tough Alliance) é contudo mais um nome a vincar a alma pop que domina a balança de exportações da música sueca do nosso tempo. Três anos depois de se ter estreado em White Magic, CEO reforça em Wonderland o gosto pelo talhar de uma pop garrida (o que a capa desde logo sugere), procurando encontrar possíveis pontes entre referências indie do nosso tempo, um trabalho prioritário com eletrónicas e uma produção polida e arrumada (e, lá voltamos à generalização, essa é mesmo uma das imagens de marca de muita da pop sueca que aqui nos chega). Entre as canções e os instrumentais, entre momentos mais inspirados e outros nem tanto assim, entre uma curiosidade por uma ideia de pop dançavel e ritmicamente empolgante e a construção de cenografias ambientais mais tranquilas e elaboradas, Wonderland é um disco desigual, mas do qual emergem alguns momentos que vale a pena reter. Worehouse, lançado como aperitivo, explora caminhos que podemos entender como uma expressão da canção pop numa idade em que a cultura popular assimilou já os ensinamentos da música feita de uma certa animação circular dos Animal Collective. Wonderland, o tema-título, é mesmo a peça central do alinhamento e mostra como as ideias que o grupo de Baltimore podem ser matéria prima para novas reflexões pop. Já temas como Juju ou In a Bubble on a Stream dão conta de uma personalidade mais cinematográfica que oferece bons episódios de contraste. Com 38 minutos de duração Wonderland é um disco saboroso. Podia ser melhor. Mas dá-nos bons momentos de luz pop, bela banda sonora para uma Primavera que está aí a chegar...

sábado, março 10, 2007

Soderbergh na Alemanha (1/2)

O Bom Alemão, de Steven Soderbergh, com Cate Blanchett [na foto] e George Clooney, tem sido, aqui, objecto de algumas referências. O filme, finalmente, estreou e vale a pena sublinhar que raras vezes um objecto se coloca, assim, no centro irradiante da modernidade — estamos perante um exercício de memória histórica que, em última instância, desmonta os próprios mecanismos de representação dessa mesma história. Esta é a primeira parte de um texto publicado na revista "6ª" (Diário de Notícias), de 9 de Março, com o título 'Labirinto de solidões':
>>> Assim que começa o genérico de abertura de O Bom Alemão, o espectador não poderá deixar de sentir um duplo e paradoxal impulso: por um lado, as imagens de arquivo, a preto e branco, lançam a acção num contexto histórico muito preciso, ou seja, a cidade de Berlim, em grande parte destruída, nos meses finais da Segunda Guerra Mundial (pouco tempo antes do lançamento de uma bomba atómica sobre Hiroshima, a 6 de Agosto de 1945); por outro lado, o tipo de letras do próprio genérico e, depois, a ficção (que continua a preto e branco) projectam o filme numa memória mais ou menos nostálgica do melodrama de guerra, tal como foi praticado em Hollywood, especialmente durante a década de 40. Daí o segundo paradoxo: O Bom Alemão corre o risco de ser recebido como um mero exercício de revivalismo decorativo quando, em boa verdade, estamos perante uma subtil reavaliação de leis e códigos daquele tipo de melodrama.
Grande parte das resistências que O Bom Alemão encontrou nos EUA explicam-se, provavelmente, por esse equívoco: Steven Soderbergh não quis fazer uma “cópia” das aventuras românticas de Hollywood — a começar, como é óbvio, por Casablanca (1942) —, mesmo se é verdade que todo o seu trabalho aposta numa espécie de sobreposição perversa com o look dessas mesmas aventuras. Nesse aspecto, a démarche de Soderbergh é tanto mais intencional e controlada quanto, à semelhança do que já aconteceu em outros dos seus filmes (Bubble, por exemplo, entre nós apenas lançado em DVD), ele próprio acumula as funções de director de fotografia, assinando com o pseudónimo de Peter Andrews. Trata-se, aliás, de um trabalho altamente sofisticado, não só pela iluminação que implica, mas também porque as imagens resultam de uma filmagem a cores (veja-se, no genérico final, a referência ao laboratório da Technicolor) e de uma complexa pós-produção digital para passagem a preto e branco.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Soderbergh: Ocean's 11 + 12 + 13

Eis um caso singular de sequela sobre sequela. E com um somatório de ironia. Depois de Ocean's Eleven (2001) e Ocean's Twelve (2004), anuncia-se para este Verão Ocean's Thirteen (8 de Maio nos EUA, 7 de Junho em Portugal). Enquanto o leque base de actores persiste — George Clooney, Brad Pitt, Matt Damon, etc. —, a lista de convidados vai-se diversificando, desta vez incluindo Al Pacino. O primeiro teaser pode ser visto no site da Apple, em formato HD.
O realizador Steven Soderbergh segue, assim, uma lógica plural de trabalho, alternando com agilidade as pequenas (pequeníssimas) produções como Bubble e os grandes empreendimentos como este Ocean's Thirteen ou o anterior The Good German/O Bom Alemão (estreia portuguesa: 8 de Março). Nessa perspectiva, ele é um dos autores contemporâneos que mais, e melhor, tem sabido contrariar qualquer oposição maniqueísta entre os grandes orçamentos e as produções independentes.

sábado, dezembro 12, 2009

Os discos da década (16)

TWELVE
Patti Smith, 2007


Afinal de contas, esta foi a década em que Patti Smith completou 60 anos (nasceu a 30 de Dezembro de 1946). Que é como quem diz: são muitas memórias e, acima de tudo, são memórias que integram todas as convulsões da história do rock, do punk e dessa energia visceral que faz da música popular uma matéria viva das transformações de usos e costumes. Twelve são doze canções de outros, essenciais na formação artística e humana de Patti Smith. E encontramos aqui a herança mais primitiva de Jimi Hendrix (Are You Experienced?) e dos Doors (Soul Kitchen: em baixo, num registo de 2007, no programa de Jools Holland), a par das derivações de Paul Simon (The Boy in the Bubble) ou dos Nirvana (Smells Like Teen Spirit). Um clássico feito de clássicos.

domingo, dezembro 28, 2008

Nuri Bilge Ceylan: realismo digital

Melodrama tecido de negrume e desencanto, à maneira clássica expondo a lenta desagregação de uma família e, também seguindo a lógica de muitos clássicos dos anos 50/60 (vale a pena revisitar Vincente Minnelli), explorando o formato largo (scope) das imagens, criando paisagens de cru, por vezes cruel, intimismo — chama-se Os Três Macacos, tem direcção do turco Nuri Bilge Ceylan, foi um grande momento de Cannes 2008 (prémio de realização) e é um dos últimos grandes títulos a estrear este ano entre nós.
Num certo sentido, não andamos longe da experiência de Bubble (2005), de Steven Soderbergh, entre nós infelizmente apenas lançado em DVD — mesma atenção maníaca aos fantasmas que assombram os cenários familiares e, em particular, mesma aplicação metódica de uma câmara digital para (re)trabalhar o formato largo. Trata-se, afinal, de "forçar" as novas potencialidades do video de alta definição, paradoxalmente estabelecendo as regras de um novo realismo — na Turquia como nos EUA.

quinta-feira, maio 22, 2008

Cannes, 22 de Maio de 2008 (1)

Steven Soderbergh foi a descoberta absoluta da edição de 1989 de Cannes, onde arrebatou a Palma de Ouro — para a sua primeira longa-metragem: Sexo, Mentiras e Video —, atribuída por um juri presidido por Wim Wenders. Depois, a sua filmografia evoluiu da produção rigorosamente independente aos grandes estúdios, do classicismo mais depurado a experimentação mais arriscada. Que é como quem diz: de Kafka (1991) a Ocean's Thirteen (2007), passando por Erin Brokovich (2000), Solaris (2002) ou Bubble (2005). Por vezes, esquecemo-nos de uma verdade rudimentar: ele é, afinal, a par de David Fincher, um dos grandes experimentadores do moderno cinema americano.
Digamos, para simplificar, que o seu novo filme em competição em Cannes — Che, com Benicio Del Toro no papel de Ernesto Che Guevara — é um caso raro de riqueza e complexidade criativa. A saber: uma biografia histórica de Guevara que evolui como um imenso fresco histórico, sem nunca deixar de ser uma espécie de viagem interior por uma personagem na corda bamba entre os gestos concretos e a abstraccao mitológica.
Inicialmente anunciado como um duplo filme ("The Argentine" + "Guerrilla"), Che é, de facto, um filme em dois capítulos, separados por um pequeno intervalo e com uma duração total de 4 horas e 28 minutos. Na prática, tudo indica que sera comercializado como dois objectos distintos ("Che - Parte I" + "Che - Parte II"), a estrear com um intervalo de cerca de um mês (e, pelo menos, assim que se anuncia para Outubro/Novembro, no mercado francês). Em qualquer caso, estamos perante uma prodigiosa aventura cinematográfica, dessas que se revelam capazes de relativizar todas as nossas certezas, abrindo novos territórios de expressão e percepção — eis as imagens da televisão oficial do festival, mostrando Soderbergh e a sua equipa a entrar para a projecção oficial de Che.

segunda-feira, outubro 17, 2011

Realismo, realismos

O realismo continua a manifestar-se na sua magnífica pluralidade: neste caso vindo de terras americanas e britânicas – este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 Outubro), com o título 'O realismo de Soderbergh e Loach'.

Pensar o realismo das imagens (e dos sons) é coisa que não está na moda. Todos os dias massacrados pela informação televisiva “em tempo real”, somos impelidos a não pensar, a não olhar, a não questionar o simples facto de qualquer imagem (ou som) pressupor um ponto de vista, quer dizer, uma forma específica de apropriação do mundo à nossa volta.
Aliás, o que é isso de “tempo real”? Como supor que há uma espécie de verdade intrínseca que se reproduz ad infinitum apenas porque estamos a assistir a um directo televisivo? Porque é que, todos os dias, se mascara o facto de uma imagem envolver algum tipo de responsabilidade? E por que se quer fazer crer que um ser humano de microfone na mão, a olhar para uma câmara, existe como um indiscutível dispositivo de verdade?
Felizmente, ainda temos cinema para nos ajudar a lidar com tais questões. Sobretudo para nos permitir alguma distanciação face ao alarmismo militante que tomou conta da informação televisiva. Esta semana estrearam-se mesmo dois filmes que, para além de todas as suas diferenças temáticas e estruturais, reflectem uma mesma exigência realista. São eles o americano Contágio, de Steven Soderbergh, e o britânico Route Irish/A Outra Verdade, de Ken Loach. O primeiro, retomando um modelo de thriller enraizado na tradição da ficção científica da década de 50, encena uma situação de pânico planetário provocado pela proliferação de um vírus desconhecido e letal; o segundo segue a trajectória de dois homens de Liverpool, combatentes contratados na guerra do Iraque.
De que falamos, então, quando falamos de realismo? Exactamente do contrário do pueril naturalismo televisivo. O efeito de real nasce, não de qualquer “transcrição” neutra, mas de um elaborado trabalho narrativo que começa no visível (da vibração dos corpos à especificidade dramática dos objectos mais secundários) e passa por todas as nuances dramáticas (as relações entre personagens recusam qualquer espartilho moralista típico de telenovela). Soderbergh consegue, assim, filmar os circuitos tecnológicos do nosso presente como algo que não pode ser separado dos valores sociais e do nosso entendimento da politica, enquanto Loach nos confronta com os sintomas da geopolítica muito para alem de qualquer visão maniqueísta.
Não deixa de ser curioso referir que, no caso de Soderbergh, o impulso realista se tornou inseparável de um continuado interesse pela utilização das mais modernas câmaras digitais: lembremos Bubble (2005), insólito retrato de uma cidadezinha esquecida da América profunda, ou ainda o espantoso Che (2008), uma saga intimista sobre Che Guevara. Loach, por sua vez, limita-se a manter uma obstinada fidelidade aos pressupostos do realismo britânico que, desde finais da década de 60 (Poor Cow, Kes), o mantém como um dos autores emblemáticos de uma das mais sólidas tradições da produção cinematográfica europeia.

domingo, março 11, 2007

Soderbergh na Alemanha (2/2)

Depois de uma inglória passagem pelos Oscars (sem prémios, apenas uma nomeação para Thomas Newman na categoria de melhor banda sonora), O Bom Alemão, de Steven Soderbergh, com Cate Blanchett e George Clooney [na foto], chegou finalmente às salas portuguesas. Esta é a segunda parte de um texto publicado na revista "6ª" (Diário de Notícias), de 9 de Março, com o título 'Labirinto de solidões':
>>> À partida, estamos perante um dispositivo mais ou menos policial sobre os bastidores político-diplomáticos do pós-guerra. Assim, através de Jacob Geismer (George Clooney), correspondente de guerra americano, compreendemos que o interesse de americanos e russos pela figura de Emil Brandt (Christian Oliver), o “bom alemão” do título, é tudo menos inocente: o seu eventual envolvimento em experiências científicas durante a guerra transformou-o numa peça valiosa para as estratégias de qualquer uma das partes que, na mesma altura, discutiam o futuro da Europa e do mundo na Conferência de Potsdam. Mais do que isso: a descoberta da mulher de Emil, a judia Lena Brandt (Cate Blanchett), com quem Jacob tivera uma relação antes da guerra, baralha todos os dados, fragilizando ainda mais o destino de cada personagem.
Seja como for, a estranheza e o fascínio de O Bom Alemão resultam menos do seu look mais ou menos romântico e mais, muitíssimo mais, de todo um labor de metódica decomposição das convenções do cinema (clássico) que o inspira. Soderbergh lança-nos num labirinto em que, afinal, nos sentimos espectadores em estado de orfandade dramática. De facto, de um modo ou de outro, os clássicos melodramas de guerra garantiam-nos a possibilidade de nos identificarmos com alguma personagem em que víssemos o “bem” ou, pelo menos, o “sentido” da história colectiva. Agora, todas as certezas nos vão falhando, pouco mais restando que a evidência da solidão — política e afectiva, carnal e espiritual — em que se move cada uma das personagens. E não é das coisas menos maravilhosas de O Bom Alemão que, tanto Clooney como Blanchett, saibam representar esse desespero brando de quem, apesar de tudo, sobreviveu ao terror dos tempos. Nesse aspecto, Lena (que “fez o que tinha de fazer” para sobreviver ao Holocausto) é uma personagem de comovente convulsão emocional, e tanto mais quanto Blanchett a representa num tom de decomposição adiada, misto de pragmatismo e silenciosa angústia.
Soderbergh confirma, aqui, a sua espantosa agilidade criativa (lembremos que o filme anterior, Bubble, era um extremado exercício de produção independente, seguindo-se, este Verão, Ocean’s Thirteen, mais uma sequela de um blockbuster). Ele é, afinal, um cineasta que não ficou paralisado na retórica de algum cinema pós-moderno: sabe recuperar as formas do cinema clássico, mas não é um formalista. O Bom Alemão é um fabuloso filme sobre as ambiguidades e os silêncios da história colectiva.

sábado, junho 06, 2009

Um filme pelo nosso planeta

Home - O Mundo É a Nossa Casa é um filme que nasce de uma experiência balizada pelos valores da fotografia e da ecologia — este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 de Junho), com o título 'Defender aquilo que existe'.

No curriculum de Yann Arthus-Bertrand, encontramos diversos álbuns fotográficos sobre as paisagens ameaçadas do planeta Terra (incluindo o muito popular A Terra Vista do Céu) e também outros dedicados a cães, gatos e cavalos. Através de um olhar cândido e contemplativo, aliado a uma técnica cada vez mais sofisticada, a sua obra impôs-se como um testemunho e um requiem: trata-se de celebrar todas as formas de vida e o seu valor mais básico de património da humanidade.
O filme Home – O Mundo É a Nossa Casa surge como uma consequência directa desse trabalho fotográfico. Poderemos considerá-lo politicamente naïf, quanto mais não seja porque, aqui, apenas pressentimos a quantidade imensa de problemas políticos e geo-estratégicos indissociáveis das questões ambientais. O certo é que há nele uma coerência primordial a que, por ironia e complementaridade, apetece chamar fotográfica. Como quem diz: isto existe. Acrescentando, num misto de alegria e angústia: e é preciso defender aquilo que existe.
Além do mais, para lá da especificidade dos seus temas, o lançamento de Home possui componentes que ficam para a história, uma vez que podemos ter acesso ao filme, em simultâneo, nas salas, em DVD e num canal de televisão [dia 5, às 20h28, na RTP2]. Em 2005, nos EUA, Steven Soderbergh tivera o gesto pioneiro de fazer o mesmo tipo de lançamento tripartido com esse filme fabuloso que é Bubble. Ninguém acredita que este passe a ser o padrão universal dos mercados. O certo é que a sua simples experimentação permite-nos perceber que muito do cinema do futuro (ou do futuro do cinema) poderá passar por cruzamentos estratégicos deste género.

quarta-feira, abril 15, 2009

Sasha Grey por Steven Soderbergh

É este o cartaz do novo filme de Steven Soderbergh — The Girlfriend Experience —, protagonizado por Sasha Grey, vedeta de muitos filmes pornográficos. Tendo em conta os meios digitais com que foi filmado (a câmara Red One) e a pequenez do seu orçamento (menos de 2 milhões de dólares), parece ser mais uma das suas experiências minimalistas, porventura a colocar a par dos magníficos Full Frontal (2002) e Bubble (2005). Especulação inevitável: deverá ser um dos títulos na competição do Festival de Cannes (13/24 Maio) — recorde-se que Soderbergh ganhou a Palma de Ouro, em 1989, com Sexo, Mentiras e Video.

terça-feira, maio 20, 2014

Ver + ouvir:
M.I.A. & The Partysquad, Double Bubble Trouble



Novo teledisco para uma das canções do magnífico álbum que M.I.A. editou em 2013. A realização é assinada pela própria.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

2006: Top 5

1 disco IN THE MAYBE WORLD
>Lisa Germano<
NG: Há poucos anos, Lisa retirara-se. Encontrou trabalho numa magnífica livraria de Los Angeles (a Book Soup) e chegou a dizer que... "música, nunca mais"... Enganou-se. Em 2003 despiu a música à essência das suas linhas fundamentais em Lullaby For Liquid Pig. E em 2006 apurou esta nova linguagem mais austera na forma, mas plena na emoção, num álbum que fala de morte, não como o fim de tudo, mas um momento que nos obriga a recordar a vida quem partiu. Arrebatador!
JL: Em tempos de excessos perpretados em nome do "espectáculo" e da "tecnologia", este é um exercício que se vira para o interior, percorrendo o mapa da solidão, não temendo aproximar-se das fronteiras do país da morte. Afinal de contas, a música popular não teme as vertigens de todos os intimismos.

1 filme
BUBBLE
JL: Expandir as potencialidades das novas câmaras digitais, não para ostentar qualquer "modernismo", antes para regressar aos domínios remotos do melodrama (em formato scope) — um filme que, com a serenidade dos clássicos, nos mostra que o gesto mais vanguardista é também aquele que nos aproxima da verdade dos clássicos.
NG: Os melhores filmes do ano não têm necessariamente de ser os que os distribuidores locais levaram a sala. E muitos foram os títulos de primeira água (alguns com potencial comercial) que tiveram ordem de passagem directa ao DVD. Um deles é este espantoso exercício de cinema que, com orçamento mínimo nos dá mais que muitos dos blockbusters do ano. A descobrir, em DVD.

1 livro
PARAÍSO PERDIDO
NG: Houve magníficos novos livros este ano. De Murakami a Houellebecq, de Banville a Sebald, muitos foram os livros obrigatórios. Mas 2006 foi também um ano de redescobertas. Da obra quase inédita (entre nós) de Reinaldo Arenas. Do soberbo exercício de "literatura geométrica" de Flatland de Ewin A. Abott... E, mais atrás ainda, um ano pleno de importantes traduções de clássicos remotos, de textos gregos ao incontornável épico de John Milton.
JL: Projecto: traduzir os clássicos. Efeito desejado: retirar esses mesmos clássicos da prisão das coisas adquiridas, relançando-os na vertigem do mundo e das palavras de hoje (sim, porque nem só de imagens vivemos). Ou como — através da tradução de Daniel Jonas — pode ser possível regressar ao século XVII par redescobrirmos as certezas e enigmas do nosso presente.

1 revista
JL: Das utopias dos novos suportes digitais (através de uma entrevista histórica com Beck) até aos novos movimentos religiosos (ou à emergência de um novo conceito de sagrado), falaram um pouco de tudo, mostrando e demonstrando que os gadgets que vamos inventando são inseparáveis das relações humanas que, mal ou bem, com eles construímos.
NG: Cada vez mais uma leitura fundamental. Não apenas porque a cibercultura faz já parte dos nossos hábitos, mas porque é cada vez mais uma fonte ou veículo de ideias fundamentais para as mais diversas formas de expressão cultural. Um ano onde não só lemos sobre novos gadgets e espaços online mas, também, e antes de outros o descobrirem, o potencial do MySpace e YouTube, as novas economias de especialidade nas indústrias culturais ou o encarar da Internet como uma nova fé em tempo de outros ateísmos.

1 site
NG: Descobri Miranda July há mais de um ano quando vi Eu, Tu e Todos os que Conhecemos, um ano antes de por cá estrear. Um cinema do nosso tempo, figuras e histórias dos nossos dias, mas cruzadas com um olhar "artístico" claramente formado por horas de observação e reflexão. Video artist antes de realizadora de cinema, Miranda July revela-se a si, a nós e a todos os que conhecemos num site que vale a pena descobrir.
JL: Revelação no mercado português dos filmes (com Eu, Tu e Todos os que Conhecemos), Miranda July é um magnífico exemplo da démarche polimorfa de muitos artistas contemporâneos. O seu site é, de uma só vez, uma exposição transversal da sua obra (cinematográfica e plástica) e uma via plural de entrada em alguns universos paralelos.
P.S. A partir de manhã apresentaremos aqui as nossas listas individuais Top 10.

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sábado, julho 29, 2017

Luc Besson: Europa & América

Dane DeHaan, Luc Besson e Cara Delevingne
O francês Luc Besson volta a apostar na possibilidade de desafiar os americanos no seu próprio terreno — este texto foi publicado no Diário de Notícias (24 Junho) com o título 'Blockbuster à moda de Hollywood assinado por um francês'.

Será que a adaptação das aventuras de Valérian e Laureline é uma boa aposta para competir com os “blockbusters” americanos? A pergunta justifica-se, uma vez que estamos perante um projecto com o mesmo tipo de recursos técnicos e ambição espectacular das grandes “máquinas” de Hollywood, mas de raiz europeia, mais especificamente, francesa. Dito de outro modo: inspirado na banda desenhada de Pierre Christin e Jean-Claude Mézières, Valérian e a Cidade dos Mil Planetas é a mais recente proeza do produtor/realizador Luc Besson, neste caso acumulando as tarefas de argumentista.
Nas contas do mercado americano, decisivas para um objecto desta dimensão, os primeiros números indicam que Besson dificilmente conseguirá o sucesso de alguns dos seus títulos anteriores, nomeadamente O Quinto Elemento (1997), também uma aventura de ficção científica, com Bruce Willis no papel central. Estreado no dia 21, nos EUA, o filme ficou-se por um modesto quinto lugar no top de receitas, com um total de 17 milhões de dólares — é um valor muito fraco para um investimento de 200 milhões (cerca de 170 milhões de euros), segundo a revista Forbes a “maior produção de sempre do cinema europeu”. A comparação com a performance de Dunkirk, lançado no mesmo dia, é elucidativa: o épico de guerra de Christopher Nolan (já em exibição entre nós) custou 150 milhões de dólares, tendo rendido uns sólidos 50 milhões no fim de semana de abertura.

Sob o signo de Hollywood

Estamos, de facto, perante o tipo de aventura que, muito por acção do marketing de Hollywood, se transformou em componente “obrigatória” do Verão dos mercados internacionais. Aqui encontramos, algures no século XXVIII, um par mais ou menos romântico — interpretado por Dane DeHaan e Cara Delevingne, respectivamente Valérian e Laureline — numa missão inter-galáctica que os conduz ao planeta Alpha, um exemplo modelar de convivência de espécies provenientes de “mil planetas”.
A missão dos heróis não se esgota nos problemas de Alpha: face aos dramas que se deparam, está em jogo... “o futuro do universo” — assim mesmo, tal como está escrito na sinopse oficial, disponível no site do filme (valerianmovie.com). Dir-se-ia que os “blockbusters”, americanos ou europeus, gastam todas as energias, e também os seus monumentais orçamentos, na gestão dos complexos efeitos especiais, menosprezando o tratamento narrativo — o universo vai ser destruído e... chega.
Paradoxalmente ou não, o principal trunfo de Valérian e a Cidade dos Mil Planetas é a sua concepção visual. As imagens geradas por computador (CGI), permitem a criação de mundos alternativos, habitados por personagens caracterizadas pelas mais inesperadas variações sobre os parâmetros e formas do corpo humano.

A dança de Rihanna

As sequências iniciais são, sem dúvida, as mais sugestivas. As paisagens paradisíacas do planeta ameaçado pelos exércitos do Mal nascem de derivações “poéticas” sobre elementos da nossa natureza (areia, oceano, plantas, etc.), num jogo de formas e cores que, certamente não por acaso, faz lembrar os cenários, igualmente virtuais, utilizados por Besson em Love Profusion (2003), o belíssimo teledisco que dirigiu para a canção de Madonna. Os habitantes desse mundo ameaçado, pele cor de mármore e olhos muito brilhantes, surgem como uma sugestiva variação sobre os seres azuis, longilíneos, do filme Avatar (2009), de James Cameron.
Dir-se-ia que este obsessivo investimento no “look”, aliás sustentado por um sofisticado trabalho de direcção fotográfica do veterano Thierry Arbogast, colaborador habitual de Besson, vai secundarizado o labor específico dos actores. Dane DeHaan nunca consegue, nem mesmo através da ironia, emprestar algum fulgor ao seu Valérian, sendo sempre superado pela mais competente Cara Delevingne.
Em qualquer caso, Besson parece ter acreditado que a escolha de alguns nomes de prestígio para papéis secundários poderia ser um trunfo comercial. Clive Owen e Ethan Hawke fazem o que podem, o primeiro na figura de um militar, o segundo numa composição mais ou menos burlesca como patrão de um bizarro cabaret. A presença mais insólita é Herbie Hancock, lenda viva do jazz, interpretando o Ministro da Defesa como quem está a ler o teleponto de um noticiário televisivo...
Sobra a convidada mais especial: Rihanna. A super-estrela pop surge, não para cantar, antes para interpretar uma bailarina de nome Bubble, principal atracção dos espectáculos apresentados pela personagem de Hawke. O seu número de dança e transfiguração, dir-se-ia um teledisco puramente onírico, distingue-se por uma energia contagiante, a energia que, infelizmente, falta a quase todas as outras cenas do filme.