quinta-feira, maio 31, 2018

O Japão segundo David Fonseca

Para já, apenas o (re)conhecimento de uma canção. Que é como quem diz: eis o belo cartão de visita para Radio Gemini, o novo álbum de David Fonseca: o teledisco de Oh My Heart projecta-nos em cenários japoneses, num labirinto de cores e ritmos, gestos e olhares, celebrando a energia sensual de uma genuína sensibilidade pop — nenhum miserabilismo estético, nenhum saudosismo ressentido, apenas a alegria contagiante de ligar (e saber ligar) imagens e sons.


>>> Site oficial de David Fonseca.
>>> Entrevista a Miguel Judas no Diário de Notícias.

Eduardo Lourenço — do livro ao filme (2/2)

Como divulgar/encenar um pensamento? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 Maio), com o título 'O professor na televisão'.

[ 1 ]

A estreia de O Labirinto da Saudade, de Miguel Gonçalves Mendes, envolve factores que excedem, e muito, as suas singularidades temáticas e narrativas. Isto porque o respectivo lançamento nas salas escuras foi precedido da sua exibição na RTP1, em horário nobre, a 23 de Maio (dia do 95º aniversário de Eduardo Lourenço). Na televisão antes das salas? O mais rudimentar senso comum leva a perguntar se não se estará, assim, a favorecer mais uma forma de enfraquecimento, absurda e masoquista, do próprio mercado cinematográfico. Talvez (mesmo se ninguém defende que este modo de difusão passe a ser uma regra universal).
Acontece que ver O Labirinto da Saudade no pequeno ecrã, às nove da noite, corresponde ao lançamento de um pequeno grão de ternura num território em que, todos os dias, todos os canais de televisão, nos convocam para ler o presente português como um espectáculo deprimente, afogado na interminável repetição de dois temas: os golpes da chicana política e a gritaria da miséria futebolística.
O senso comum, ainda ele, levará a sugerir que estamos, assim, a responsabilizar os jornalistas de todos os nossos males sociais. Pobre senso comum, preso da noção pueril segundo a qual se trata sempre de encontrar “culpados”. O que importa perguntar — não contra o jornalismo, mas em nome da sua nobreza — é se, para além das palavras e olhares ansiosos de jovens repórteres aos empurrões em frente de algum protagonista da política ou do futebol, não temos alguma ideia um pouco menos grosseira para nos relacionarmos com o mundo à nossa volta.
O que está em jogo não é a televisão dos “intelectuais” contra a televisão do “povo”. É, isso sim, saber como vivemos — e queremos viver — através das imagens e dos sons. Por isso, foi comovente ver e ouvir Eduardo Lourenço, ao princípio da noite, a convocar-nos para o rudimentar prazer de pensarmos o que somos ou podemos ser. Parabéns, professor.

quarta-feira, maio 30, 2018

Ballet de Hong Kong — movimento e cor

Notável campanha de promoção da temporada 2018/2019 do Ballet de Hong Kong — com fotografias de Dean Alexander, a agência americana Design Army concebeu um conjunto de imagens e cartazes em que a sofisticação do movimento se combina com a exuberância das cores. Ou como o "regional", uma vez mais, sustenta o "universal".

Angélique Kidjo recria Talking Heads

O novo álbum de Angélique Kidjo chama-se Remain in Light (8 Junho). Repetindo o título da obra-prima dos Talking Heads lançada em 1980? Sim, mas não só: recriando os temas do original. A primeira amostra tem tanto de sofisticado como de exuberante — eis as cores e os ritmos de Once in a Lifetime.

terça-feira, maio 29, 2018

António Loja Neves (1953 - 2018)

Personalidade multifacetada nas artes e no jornalismo, sempre com forte ligação ao cinema, António Loja Neves faleceu no dia 27 de Maio, em Lisboa, na sequência de um enfarte — contava 65 anos.
Nascido na Madeira, licenciado em realização pela Escola Superior de Teatro e Cinema, foi jornalista do semanário Expresso durante mais de três décadas [memória de Manuela Goucha Soares]. Co-fundador da Federação Portuguesa de Cineclubes, manteve sempre grande actividade na difusão cinematográfica, tendo estado também ligado a muitas iniciativas de programação nesse domínio, incluindo os Encontros Internacionais de Cinema Documental da Malaposta, comissariando festivais e mostras de filmes lusófonos em diversos países. Realizou os documentários Ínsula (1993) e O Silêncio (1999), este em parceria com José Alves Pereira. O livro Barcos, Íntimas Marcas valeu-lhe, em 2001, o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores. Muito recentemente, tinha publicado Arménia - Povo e Identidade (ed. Tinta da China), em co-autoria com Margarida Neves Pereira. Foi um dos fundadores do SOS Racismo — este é um extracto de um documentário que assinalou os 20 anos dessa organização.


>>> Obituário no Diário de Notícias.

Nuri Bilge Ceylan em tom digital

Mundo digital? Imagens digitais? Para além dos chavões tecnológicos, que está a acontecer? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (27 Maio), com o título 'A natureza já não é natural'.

Para onde vão as imagens digitais? Ou talvez, melhor: para onde vão as imagens através do universo digital? Vivemos num mundo desconcertante, capaz de gerar celebrações mais ou menos agitadas em torno das novidades tecnológicas, mas pouco disponível para observar — e, já agora, pensar — o que realmente está a acontecer através dessas novidades.
Assim, por exemplo, o extraordinário filme do turco Nuri Bilge Ceylan, Le Poirier Sauvage/The Wild Pear Tree (à letra: “A Pereira Selvagem”), apresentado no recente Festival de Cannes. Ceylan é detentor de uma Palma de Ouro, ganha em 2014 com Sonho de Inverno. O certo é que o seu filme, último a ser exibido na secção competitiva, já não mereceu especial atenção da maioria dos órgãos de informação franceses, ocupados a especular sobre os candidatos à Palma deste ano (e não está em causa, como é óbvio, a alta qualidade de vários títulos a concurso, incluindo o vencedor, Shoplifters, do japonês Hiorokazu Kore-eda).
Acontece que Le Poirier Sauvage ilustra uma evolução tecnológica que está a transformar a vida das imagens, incluindo a percepção dos elementos naturais — a “pereira” do título é apenas um dos objectos de um filme em que as componentes paisagísticas, muito para além de qualquer decorativismo, funcionam como fundamentais factores dramáticos [trailer].


Para filmar a história de um jovem da Anatólia que, depois de concluído o seu curso, regressa às origens e traumas da sua família, Ceylan usou uma câmara digital que já não apresenta a definição mítica de 4K, mas vai mais além: trata-se da RED Weapon 6K, por certo um dos instrumentos de vanguarda da actual produção cinematográfica.
Evitemos favorecer a admiração beata da tecnologia que, como bem sabemos, se traduz muitas vezes na celebração inócua dos chamados “filmes de efeitos especiais” (leia-se: aventuras com super-heróis). Na verdade, as convulsões tecnológicas que marcam o cinema do presente — e, por certo, vão ajudar a configurar muito do seu futuro — são mesmo transversais, envolvendo tanto as mais recentes superproduções de Hollywood como os projectos mais singulares de pequenas cinematografias.
No caso de Ceylan, sendo ele também um notável paisagista (recorde-se a sua obra como fotógrafo), somos levados a questionar a tradicional naturalidade da... natureza. E compreendemos que a visão do mundo exterior pode mobilizar os mais intensos enigmas interiores. Aliás, a história da pintura não nos ensina outra coisa. Ou será que o grande J. M. W. Turner (1775-1851) era uma naturalista?
J. M. W. Turner
Snow Storm: Steam-Boat off a Harbour's Mouth
1842

segunda-feira, maio 28, 2018

Eduardo Lourenço — do livro ao filme (1/2)

Como divulgar/encenar um pensamento? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 Maio), com o título 'Eduardo Lourenço filmado entre palavras e fantasmas'.

Se é verdade que algum do mais interessante cinema dos nossos dias oscila entre a crueza do documentário e o artifício da ficção, então o mínimo que se pode dizer de O Labirinto da Saudade é que se trata de um filme que arrisca na ambiguidade dessa oscilação. Estamos perante uma derivação de uma nobre tradição cinematográfica que, no contexto português, envolve o pioneirismo de Leitão de Barros (Maria do Mar, 1930), o experimentalismo de Fernando Lopes (Belarmino, 1964) ou a contundência poética de António Reis e Margarida Cordeiro (Ana, 1982).
Para o realizador Miguel Gonçalves Mendes, tratou-se de celebrar os 95 anos de Eduardo Lourenço como uma ficção protagonizada pelo próprio, deambulando por corredores reais e imaginários, dialogando com várias personalidades das artes, letras e espectáculo (Álvaro Siza Vieira, Gonçalo M. Tavares, Lídia Jorge, Pilar del Rio, Ricardo Araújo Pereira, etc.); ao mesmo tempo, essa ficção funciona como um documento sobre o livro cujo título é retomado pelo próprio filme.
Convém lembrar, por isso, que a primeira edição de O Labirinto da Saudade surgiu em 1978, com chancela das Publicações Dom Quixote. Quarenta anos passados, compreendemos outro tipo de ambiguidade: por um lado, o livro reflecte as euforias, perplexidades e impasses de um país ainda muito marcado pelas heranças (ou pelos traumas, como se diz no filme) de uma ditadura de mais de quatro décadas; por outro lado, a sua acuidade crítica surge reforçada, de modo infinitamente perturbante, face a este nosso tempo em que a aceleração mediática parece esgotar-se num programa de vida encerrado no quotidiano endeusamento do futebol. Por alguma razão, Eduardo Lourenço lhe deu o subtítulo: “Psicanálise Mítica do Destino Português”.
Dir-se-ia que estamos perante uma psicanálise cinematográfica de um pensador que, através do seu fundamental instrumento (o pensamento, hélas!), tem sabido escrever e descrever este nosso desejo obsessivo, porventura insensato, de sermos outra coisa para além daquilo que a história nos fez: “Chegou o tempo de nos vermos tais quais somos, o tempo de uma nacional redescoberta das nossas verdadeiras riquezas, potencialidades, carências, condição indispensável para que algum dia possamos conviver connosco mesmos com um mínimo de naturalidade” — palavras de 1978, fantasmas de 2018.

Onde está o povo?

Podemos, talvez, perguntar se o confronto do protagonista com figuras mais ou menos consagradas não favorece a ideia de um espaço fechado de reflexão, sobretudo tendo em conta que a palavra “povo” não é um acontecimento banal na escrita de Eduardo Lourenço. Podemos também duvidar da pertinência narrativa de algumas derivações “simbólicas” que parecem subtrair o próprio retratado ao mundo concreto que, afinal, atravessa a sua obra como uma magnífica obsessão.
Dir-se-ia que falta ao filme essa dimensão visceral do pensamento de Eduardo Lourenço que nos leva a reconhecer (e a pensar com ele) que o mundo não se esgota nos discursos dos “especialistas”. Porquê? Porque a nossa “desordem” a isso nos obriga. É ele que, em O Esplendor do Caos (Gradiva, 1998), nos recorda o sedutor radicalismo dos nossos dramas interiores: “Pode discutir-se se a desordem em que estamos mergulhados — desde a económica até à da legalidade e da ética — releva ou não, em sentido próprio, do conceito de caos. Do que não há dúvidas é de que o habitamos como se fosse o próprio esplendor.”
“O Eduardo vive como se fosse eterno” — eis a bela descrição de Eduardo Lourenço por sua mulher, Annie, recordada no filme por José Carlos Vasconcelos. Para além de desequilíbrios ou impasses, O Labirinto da Saudade é um objecto apostado em celebrar o cinema como cúmplice desse desejo de eternidade, da sua intratável inocência. Sem esquecer a resposta do próprio Eduardo Lourenço: “Eternas são as pessoas que ficam na nossa memória, no nosso coração, depois de termos sofrido a prova suprema da sua falta, da sua ausência — e essa é incurável.”

A IMAGEM: Geof Kern, 2014

GEOF KERN
Postmodern
2014

domingo, maio 27, 2018

Punk real e surreal

[DN, 24-05-18]

Tendo como ponto de partida uma ficção do inglês Neil Gaiman, este é o retrato da ambiência punk, em Londres, na década de 70, feito com tempero paradoxal: uma colecção de sinais (da música ao guarda-roupa) que simbolizam as vibrações da época e um gosto perverso pela exploração de uma dimensão fantástica e surreal.
Mais ou menos à deriva, sem nunca encontrar verdadeira consistência narrativa, o resultado vale pela energia visual e pelo talento de alguns elementos do elenco, com inevitável destaque para Elle Fanning e Nicole Kidman (esta numa espécie de rainha maléfica do punk). Em qualquer caso, lembremos que o melhor da obra do americano John Cameron Mitchell está em títulos como Hedwig (2001) Shortbus (2006) ou O Outro Lado do Coração (2010), este nunca lançado nas salas portuguesas.

Voi você que disse Godard?

[DN, 24-05-18]

Ao realizar La Chinoise, poucos meses antes das convulsões laborais e sociais de Maio de 68, Jean-Luc Godard conseguia, de facto, um prodigioso objecto premonitório (aliás, a par de Fim de Semana, outro filme admirável, atento às clivagens da sociedade francesa da época). Ao realizar Godard, o Temível, evocando tal contexto, Michel Hazanavicius parece achar-se com autoridade (em nome de quê?) para transformar tudo e todos em caricatura superficial e chocarreira.
O resultado é um filme que, além de simplificar de forma irresponsável os tempos da Nova Vaga francesa, trata Godard em função dos clichés do “intelectual” e do “arrogante”. Poderia ser um ensaio (legítimo, sem dúvida) sobre um autor em que Hazanavicius não se reconhece — o certo é que nunca ultrapassa a condição de provocação superficial e gratuita.

* Eurovisão + Cannes
— SOUND + VISION Magazine, FNAC [hoje]

Dois festivais: Eurovisão e Cannes, música e cinema. A actualidade global do espectáculo passou por Lisboa e pela Côte d'Azur — propomos o nosso balanço, com imagens e sons.

* FNAC: Chiado, hoje, 27 Maio (18h30)

sábado, maio 26, 2018

A IMAGEM: Martin Parr, 1997

MARTIN PARR
Florida, USA
1997

Até ao fim do mundo (parte 2)

Contra a facilidade das modas, Wim Wenders conta uma história de amor — este texto foi publicado no Diário de Notícias (24 Maio), com o título 'Romantismo em tempo de globalização'.

O que é, afinal, a globalização? No filme Submersos, do alemão Wim Wenders, encontramos Danielle, uma biomatemática a investigar o fundo do mar na região da Gronelândia, ansiando por saber notícias de James, um engenheiro hidráulico a trabalhar em projectos humanitários, na verdade ao serviço dos serviços secretos britânicos, preso por jihadistas, algures na costa leste de África — a sua ligação amorosa começou num encontro acidental, em cenários paradisíacos, num hotel em França. Ela é interpretada pela sueca Alicia Vikander, ele pelo escocês James McAvoy.
A globalização não é exactamente a noção pueril segundo a qual tudo comunica com tudo. Será antes a sensação de que tudo acontece em simultâneo, desafiando os limites de qualquer identidade individual. É essa perturbação que Wenders encena em Submersos, de alguma maneira recuperando a vibração emocional e a inquietação política do seu Até ao Fim do Mundo (1991), curiosamente um filme com uma cena rodada em Portugal, num espaço que já não existe (o Teatro-Cine Eden, na Praça dos Restauradores, em Lisboa).
Vikander e McAvoy, brilhantes como raras vezes têm sido, surgem, assim, como um par amoroso a viver uma relação ameaçada pelas convulsões da história colectiva. Não por acaso, Wenders filma-os no seu encontro, em França, como incautos figurantes de deslumbrantes paisagens naturais — eles são, afinal, mensageiros de um cinema que, contra todas as modas, não desistiu do romantismo.

sexta-feira, maio 25, 2018

A nova imagem de Han Solo

Alden Ehrenreich é o novo herói de Star Wars — este texto foi publicado no Diário de Notícias (24 Maio), com o título 'Alden Ehrenreich à procura da herança de Harrison Ford'.

Alden Ehrenreich, americano, nascido em Los Angeles há 28 anos, vai poder entrar na galeria dos rostos universais de Hollywood graças ao seu protagonismo no filme Han Solo: Uma História de Star Wars. Compreende-se porquê: afinal, ele surge como herdeiro directo de Harrison Ford, o actor que começou por interpretar o aventureiro galáctico Han Solo, a partir de 1977, quando George Lucas lançou, com impressionante sucesso, o universo de A Guerra das Estrelas.
Eis uma prova muito real do triunfo mediático das grandes produções sobre os filmes que, realmente, nascem de uma visão original do mundo e, em particular, do trabalho cinematográfico. De facto, Ehrenreich tem já uma filmografia de respeito: estreou-se sob a direcção de Francis Ford Coppola, em Tetro (2009), tendo também participado no admirável Rules Don’t Apply (2016), de e com Warren Beatty, sobre os anos finais do milionário Howard Hughes (1905-1976); neste caso, o filme nem sequer chegou às salas portuguesas, tendo apenas passado, de modo ultra-discreto, no cabo, com o título Excepção à Regra.
Em boa verdade, há muito que o universo Star Wars deixou de ser administrado como um conceito de aventura, dando lugar a uma máquina bem oleada de marketing. Ehrenreich não deixa de ser um talentoso actor, assumindo com serena contenção a herança de Harrison Ford. O certo é que estamos perante mais um capítulo da lógica de gestão dos estúdios Disney, desde que assumiram o controle do património da Lucasfilms — na prática, trata-se de garantir o lançamento de um título por ano. Em 2015, surgiu O Despertar da Força, episódio VII da saga original; no ano seguinte, foi a vez de Rogue One, a primeira “derivação”; no final do ano passado, estreou-se Os Últimos Jedi, episódio VIII. Agora, Han Solo: Uma História de Star Wars propõe mais uma variação, centrando-se na juventude do herói, estando agendado para Dezembro de 2019 o lançamento do episódio XIX, ainda sem título.
Convenhamos que não há muito a esperar de um empreendimento deste teor. As suas motivações principais já pouco envolvem de genuíno gosto cinematográfico, contrariando, aliás, a lógica inicial de Lucas (goste-se mais ou goste-se menos, ele foi um genuíno inovador na concepção da aventura e na aplicação das potencialidades da tecnologia). Daí que, apesar de tudo, não possamos deixar de saudar a competência tradicional que encontramos em Han Solo: Uma História de Star Wars.
Mérito de Ron Howard, sem dúvida, realizador veterano (oscarizado em 2002, por Uma Mente Brilhante) que consegue resistir à facilidade de entregar a gestão da narrativa às arbitrariedades das equipas de efeitos especiais. Há, pelo menos, algumas cenas em que as personagens não estão perdidas nos cenários digitais, dando hipótese aos actores de trabalharem um pouco, criando algumas linhas dramáticas de tensão. Perante a mediocridade de tantos filmes “juvenis”, saudemos alguém que não se esqueceu do que é o cinema.

Philip Roth (1933 - 2018)

[ NewStatesman ]

>>> You fight your superficiality, your shallowness, so as to try to come at people without unreal expectations, without an overload of bias or hope or arrogance, as untanklike as you can be, sans cannon and machine guns and steel plating half a foot thick; you come at them unmenacingly on your own ten toes instead of tearing up the turf with your caterpillar treads, take them on with an open mind, as equals, man to man, as we used to say, and yet you never fail to get them wrong. You might as well have the brain of a tank. You get them wrong before you meet them, while you're anticipating meeting them; you get them wrong while you're with them; and then you go home to tell somebody else about the meeting and you get them all wrong again. Since the same generally goes for them with you, the whole thing is really a dazzling illusion. ... The fact remains that getting people right is not what living is all about anyway. It's getting them wrong that is living, getting them wrong and wrong and wrong and then, on careful reconsideration, getting them wrong again. That's how we know we're alive: we're wrong. Maybe the best thing would be to forget being right or wrong about people and just go along for the ride. But if you can do that — well, lucky you.

AMERICAN PASTORAL (1997)

>>> The only obsession everyone wants: 'love.' People think that in falling in love they make themselves whole? The Platonic union of souls? I think otherwise. I think you're whole before you begin. And the love fractures you. You're whole, and then you're cracked open.

THE DYING ANIMAL (2001)

>>> Other people's weakness can destroy you just as much as their strength can. Weak people are not harmless. Their weakness can be their strength.

INDIGNATION (2008)

É um dos nomes fulcrais da escrita norte-americana dos últimos 60 anos, retratista metódico e implacável da imperfeição humana: Philip Roth faleceu a 22 de Maio, num hospital de Manhattan, na sequência de problemas cardíacos — contava 85 anos.
De Goodbye, Columbus (1959) a Todo o Mundo (2006) ou A Humilhação (2009), Roth segue um método de maturação do seu próprio objecto de escrita, como se escrever fosse a arte de expor o real através dos impossíveis que o atravessam. Tal atitude chega ao ponto de, nesse romance prodigioso que é A Conspiração Contra a América (2004), formular a hipótese de Charles Lindbergh, movido pela suas ideias anti-semitas, ganhar as eleições americanas de 1940 contra Franklin D. Roosevelt, gerando um universo surreal, afinal, carregado de realismo. Isto sem esquecer essa desencantada obra-prima que é Pastoral Americana (1997), aliás refeita num belo filme de e com Ewan McGregor cuja contenção não suscitou especial entusiasmo na maior parte dos espectadores. Eis o filme da BBC Philip Roth Unleashed (2014), em duas partes, apresentado por Alan Yentob.




>>> Obituário no New York Times.
>>> Entrevista aos 80 anos na NPR.
>>> Artigos de Philip Roth em The New Yorker.
>>> Philip Roth em The New York Review of Books.

quinta-feira, maio 24, 2018

Godard em Cannes (aliás, na Suíça)

Cannes, 12 Maio 2018
Memória incontornável de Cannes/2018: a conferência de imprensa de Jean-Luc Godard — este texto foi publicado no Diário de Notícias (21 Maio), com o título 'Reaprender a olhar com Godard'.

O melhor “filme” de Cannes/2018 dura 45 minutos e pode ser visto em diversos espaços da Net, incluindo o site do festival, o YouTube ou o DailyMotion: é o registo da conferência de imprensa de Jean-Luc Godard sobre Le Livre d’Image (adquirido para o mercado português pela Midas Filmes). Num ritual revelador das maravilhas e ambiguidades do nosso mundo de imagens (e sons), Godard respondeu aos jornalistas a partir de sua casa, na Suíça, via telemóvel [video].
Que aconteceu? Nada a ver com uma celebração beata do fascínio tecnológico. Afinal, o dispositivo virtual (FaceTime, lançado pela Apple em 2010) é uma ferramenta que passou a fazer parte do dia a dia de muitos cidadãos. Para Godard, ainda e sempre um aplicado artesão, trata-se de saber se, através dos instrumentos de que dispomos, alguma comunicação passa ou pode passar. À maneira do ténis, como ele gosta de dizer: quando lançamos a bola, aguardamos a sua viagem de regresso…
Em boa verdade, Godard limitou-se a chamar a atenção para um facto corrente que, por distracção ou cinismo, tentamos esquecer: falamos cada vez menos uns com os outros, iludindo-nos com o facto de falarmos para as imagens dos outros (facultando-lhes também as nossas imagens). O filme Le Livre d’Image constitui uma magistral lição sobre a percepção da história através de tal aparato audiovisual. Lição de olhar, sem dúvida, lição preciosa para pensarmos este planeta triste que transformou o Facebook na forma dominante de “comunicação”.
Claro que a demagogia de cineastas como Nadine Labaki, explorando a “fotogenia” da miséria em Capharnaüm, se vende melhor nas plataformas noticiosas de todo o mundo (o que deixa em aberto a possibilidade de alguma reflexão jornalística sobre esse perverso poder de difusão). Ainda assim, alguns grandes filmes de Cannes partilharam a exigência “godardiana” de perguntar como são as imagens da nossa vida, como vivemos com elas e através delas – melhor ou pior, conhecendo ou ignorando o nosso semelhante.
Tal dinâmica marca, por exemplo, o prodigioso BlacKkKlansman, do americano Spike Lee, centrado na experiência real de Ron Stallworth, um polícia que, em 1979, conseguiu infiltrar-se na organização racista Ku Klux Klan. Pormenor irónico, infinitamente cruel: sendo Stallworth um homem de pele negra (os seus contactos foram sempre feitos por telefone), a moral da história diz-nos que não será possível pensar o racismo sem ter em conta a sua existência enquanto política das imagens. Olhamos, logo fazemos política.

Bill Gold (1921 - 2018)

[ AFI ]
A sua assinatura está em alguns dos posters mais emblemáticos da história do cinema americano: o artista gráfico Bill Gold faleceu no dia 20 de Maio, na sua casa de Old Greenwich, Connecticut — contava 97 anos.
A herança de Gold é tanto mais espantosa quanto a sua carreira se desenvolve ao longo de sete décadas, começando com Yankee Doodle Dandy (1942), de Michael Curtiz, para terminar com J. Edgar (2011), de Clint Eastwood. Entre os títulos da idade clássica de Hollywood que beneficiaram das imagens promocionais por ele criadas incluem-se Casablanca (1942), de Michael Curtiz, The Big Sleep (1946), de Howard Hawks, Baby Doll (1955), de Elia Kazan, The Searchers (1956), de John Ford, e My Fair Lady (1964), de George Cukor. Na lista de muitas dezenas de trabalhos de Gold, podemos encontrar ainda, por exemplo, Bonnie e Clyde (1967), de Arthur Penn, Deliverance (1972), de John Boorman,  Barry Lyndon (1975), de Stanley Kubrick, Platoon (1986), de Oliver Stone, e Unforgiven (1992), de Clint Eastwood. Privilegiando a figura humana, Gold foi um símbolo de uma evolução iconográfica que, em boa verdade, nunca menosprezou as suas raízes clássicas. Em 1994, The Hollywood Reporter homenageou-o com um prémio de carreira.


>>> Obituário no New York Times.

quarta-feira, maio 23, 2018

Robert Indiana (1928 - 2018)

[ Time ]
Símbolo exemplar da sensibilidade pop, o artista americano Robert Indiana faleceu no dia 19 de Maio, em sua casa, em Vinalhaven, Maine — contava 89 anos.
Dir-se-ia que a sua obra se pode resumir numa ideia paradoxal de condensação & ampliação, partindo de números, palavras ou símbolos para criar entidades vocacionadas para uma existência de infinita reprodução. O seu "Love" constitui, por certo, o objecto mais universal do seu trabalho, existindo como pintura, escultura ou ilustração de selo de correio. No limite, talvez se possa considerar que Indiana era capaz de virar o mundo do avesso, promovendo o fragmento a monumento, nessa medida ajudando-nos a compreender o artifício que existe na suposta naturalidade da linguagem. A retrospectiva que o Whitney Museum of American Art lhe dedicou em 2013 apresentava um eloquente título: "Robert Indiana: Beyond LOVE".

GOD IS A LILY OF THE VALLEY (1961)
LOVE (1966)
NEW GLORY BANNER (1999)

>>> Obituário no New York Times.
>>> Site oficial de Robert Indiana.

terça-feira, maio 22, 2018

Júlio Pomar (1926 - 2018)

[FOTO: Miguel A. Lopes]
Pintor do visível e do pressentimento do invisível, é uma figura nuclear na história da modernidade portuguesa: Júlio Pomar faleceu no dia 22 de Maio, no Hospital da Luz, em Lisboa — contava 92 anos.
A afirmação criativa de Pomar é indissociável, no plano político, da resistência ao Estado Novo e, em termos artísticos, da sensibilidade neo-realista — O Almoço do Trolha (1949) será a obra mais emblemática desse período. Ao longo das décadas de 60/70, o progressivo distanciamento das lutas políticas e o tempo vivido em Paris terão como consequência uma certa "libertação" das linhas e das cores, aceitando influências abstractas ou surreais, mas sem perder o contacto com um obstinado desejo de figuração — observem-se exemplos tão contrastados e, afinal, tão cúmplices nessa evolução como Entrada de Touros (1963), O Banho Turco (1971) ou Le Luxe (1979).
Significativo é o facto deste processo evolutivo conduzir Pomar a uma abordagem, tão sistemática quanto obsessiva, das figuras de alguns animais, com obrigatório destaque para a sua impressionante série de tigres. Os seus azulejos para a estação de Metro de Alto dos Moinhos, em Lisboa — integrando, em particular, as figuras de Luís de Camões e Fernando Pessoa —, decorrem de uma visão de dessacralização do próprio objecto artístico, expondo-se no lugar comum dos cidadãos, mas não rasurando os traços míticos da própria comunidade. Dir-se-ia que o Portugal pintado por Pomar é órfão da sua própria energia utópica. O Atelier-Museu Júlio Pomar, inaugurado em 2013, nasceu também como corolário institucional daquela visão, "procurando semear a liberdade do olhar, a postura crítica e a abertura que caracteriza o autor que lhe dá nome."

O ALMOÇO DO TROLHA (1949)
O BANHO TURCO (1971)
L' ÉTONNEMENT (1979)

>>> Obituário no Observador.
>>> Site do Atelier-Museu Júlio Pomar.
>>> Júlio Pomar no blog de Alexandre Pomar.
>>> Júlio Pomar no Museu Calouste Gulbenkian.

>>> Entrevista a Júlio Pomar, por Aurélio Gomes ['Baseado numa História Verídica', Canal Q, 2011]

domingo, maio 20, 2018

Na intimidade do Facebook

[TIME]
De que falamos quando falamos do Facebook? Ou ainda: porque é quando especulamos sobre aquilo que o Facebook devia ser, quase ninguém se confronta com aquilo que o Facebook é? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (13 Maio).

Vejo e revejo as imagens de Mark Zuckerberg, sentado, em postura oficial, a responder a uma comissão do Congresso dos EUA. São imagens reproduzidas vezes sem conta, ligadas às mais contrastadas considerações sobre o passado, presente e futuro dessa entidade a que ele deu o nome emblemático, entretanto mitológico, de Facebook.
Num tempo em que proliferam as “análises” sobre os elementos mais irrisórios do nosso mundo, não encontro qualquer empenho em pensar a própria designação de “rede social”. Perguntando, por exemplo, o que é que aconteceu para que, em poucos anos, a noção de “social” tivesse passado a existir como equivalente único dos links que podemos estabelecer com o vizinho do lado ou o anónimo do outro lado do planeta.
São cada vez menos os que se lembram que o “social” começa na soleira da nossa porta, não na ligação virtual que, eventualmente, nos permite perceber que um cidadão de uma remota aldeia dos confins de um continente de outro hemisfério consome a mesma marca de bolachas… Deprimente social.
A Rede Social
Não terei a ousadia de demonizar a felicidade dos que, todos os dias, vivem tais rituais de conhecimento virtual. Ainda assim, cinéfilo impenitente, não posso deixar de reparar como as recentes peripécias da vida de Zuckerberg têm servido para denegrir o filme que David Fincher realizou, em 2010, sobre o nascimento do Facebook – e que se chama, justamente, A Rede Social.
Admirável filme, digo eu. Mas não é um mero juízo de valor que está em causa. O que me parece desconcertante é o facto de tal reavaliação fazer parte de um processo mais geral de que Zuckerberg, sintomaticamente, tem sido o principal porta voz. A saber: importa superar todo este drama – 87 milhões de pessoas cujos dados pessoais foram tratados como mercadoria –, criando melhores condições técnicas de gestão dos elementos privados…
Evitemos as generalizações fáceis. Não rasuremos o facto de, melhor ou pior, o Facebook existir como factor incontornável do sistema contemporâneo de organização do espaço vivo dos humanos. O certo é que estamos a falar do triunfo de uma cultura (entenda-se: um sistema de relações e valores de vida) que considera “normal” que os dados mais pessoais – incluindo as imagens – sejam expostos e, de alguma maneira, doados como elementos de partilha global. Desde quando esta brutal reconversão da própria noção de intimidade (e dessa coisa outrora respeitada que e o pudor) se tornou um banal problema técnico? Onde esta um político para colocar essa pergunta?

sábado, maio 19, 2018

Hirokazu Kore-eda vence Cannes

Cannes 2018 teve um balanço tão interessante quanto perturbante. Três momentos da cerimónia de encerramento podem condensar os seus contrastes:
— Palma de Ouro para Une Affaire de Famille, de Hirokazu Kore-eda, filme deste tempo, subtil e crítico, sem ceder à vaga "política" que até podia ter transformado o festival num "comício" artístico: o júri não o permitiu e, em boa verdade, os filmes também não favoreceram tal esquematismo.
— uma Palma de Ouro Especial para Jean-Luc Godard, presente na competição com o luminoso Le Livre d'Image; como disse Cate Blanchett, presidente do júri, tratou-se de homenagear um artista que tem contribuído de modo exemplar para “definir e redefinir o que é o cinema”.
— o discurso de Aria Argento que, ao apresentar um dos prémios, utilizou a breve tribuna para lembrar o que lhe aconteceu em Cannes, em 1997, tinha 21 anos: “Fui violada aqui por Harvey Weinstein"; apontado para a assistência, acrescentou que há ainda cúmplices “sentados entre vocês”, concluindo: “Sabemos quem são, não vamos permitir que vivam na impunidade”.
Isto sem esquecer, para além de Le Livre d'Image, mais dois títulos de 5 estrelas: BlacKkKlansman, de Spike Lee, e Le Poirier Sauvage, de Nuri Bilge Ceylan.

>>> Palmaré no site oficial do Festival de Cannes.

CANNES: Ceylan

Admirável cineasta: já vencedor de uma Palma de Ouro (Sono de Inverno, 2014), o turco Nuri Bilge Ceylan volta a estar presente em Cannes com um espantoso filme — Le Poirier Sauvage/The Wild Pear Tree —, regressando às paisagens da Anatólia para fazer o retrato de um jovem que, depois de concluídos os estudos, volta à sua aldeia. Ao mesmo tempo crónica de um desencanto interior e panorama de uma comunidade alimentada por muitos silêncios e segredos, este é um filme cujo obsessivo realismo da vida social não exlui, antes parece reforçar, uma integração paradoxal, também realista, do mundo privado dos fantasmas. Tudo filmado com uma câmara RED (definição: 6K), verdadeiro prodígio capaz de elevar o detalhe da matéria viva à condição de pintura virtual.

quarta-feira, maio 16, 2018

CANNES: Lars von Trier

Porque é que Lars von Trier atrai, de imediato, o rótulo de "provocador"? E porque é que o horror do Big Brother televisivo nunca é classificado de tal modo? Eis algumas das perguntas que vale a pena (re)lançar a propósito de The House that Jack Built, o novo título de von Trier apresentado em Cannes (extra-competição). Digamos, para simplificar, que ao fazer o retrato de Jack (um regressado Matt Dillon) o cineasta dinamarquês retoma os temas obsessivos da omnipresença do mal e da impossibilidade de redenção. Em permanente diálogo com Verge (Bruno Ganz), Jack partilha connosco as agruras de uma reflexão em que já não há nenhuma natureza purificadora capaz de lavar os nossos pecados. O resultado, fascinante, consegue ser brutal e poético como uma pintura de Hieronymus Bosch — ou também já arrumaram Bosch no armários dos "provocadores"?

terça-feira, maio 15, 2018

CANNES: Spike Lee

[NYT]
Em 1978, o detective Ron Stallworth, oficial de polícia no estado do Colorado, conseguiu infiltrar-se na rede racista do Ku Klux Klan... O simples facto de Stallworth ser um indivíduo de pele negra torna a sua história um caso extraordinário no interior da história mais geral dos afro-americanos. Agora, Spike Lee revisita essas memórias em BlacKkKlansman, prodigiosa abordagem nas tensões raciais, com evidentes e assumidas ressonâncias no nosso presente — é, para simplificar, um dos filmes maiores de Cannes/2018, desses que são capazes de discutir, politicamente, a percepção do próprio real.

segunda-feira, maio 14, 2018

CANNES: Panahi

Behnaz Jafari e Jafar Panahi
O plano de abertura de 3 Visages, de Jafar Panahi, ficará, por certo, como um dos mais viscerais acontecimentos cinematográficos de Cannes/2018: uma jovem filma-se no seu telemóvel, dirigindo-se à actriz Behnaz Jafari e anunciando um fim trágico para a sua própria existência... Subitamente, o cinema reencontra esse esplendor material de, mais do que "reprodução" de vida, ser facto vital, implicando corpos e desejos. Depois, Jafari e o próprio Jafar Panahi (mais uma vez assumindo o seu próprio papel) empreendem uma viagem de prospecção que os leva — e nós com eles — a um Irão esquecido entre montanhas, marcado por muitas peculiaridades, incluindo o uso corrente da língua turca. Panahi filma o seu povo e, através dele, a dificuldade, por certo eufórica, de ser cineasta. As autoridades do Irão não permitiram que Panahi viajasse até à Côte d'Azur, mas o seu filme não deixa de ser um belíssimo périplo através da utopia de liberdade que as imagens e os sons transportam.

domingo, maio 13, 2018

CANNES: Godard

Godard contra o resto do mundo?... Não exactamente — há mesmo nele um desejo de comunicação tecido através da contemplação de uma infinitude de diferenças. O certo é que temos sempre a sensação de que há o cinema de Jean-Luc Godard e, do outro lado, o resto do mundo. Aliás, corrijo: o cinema godardiano habita o mundo, transfigurando-o, levando-nos a repensar certezas e ideias feitas. Le Livre d'Image, objecto sublime, é mais um capítulo dessa viagem arfante por memórias históricas e cinéfilas, desembocando nas convulsões contemporâneas do mundo árabe — um filme para ler como um livro, reavaliando, não apenas a arte de olhar, mas a capacidade de ver.

sexta-feira, maio 11, 2018

CANNES: actores

Pierre Deladonchamps e Vincent Lacoste: dois actores verdadeiramente em estado de graça num filme que, não por acaso, os trata como matéria prima essencial — Plaire, Aimer et Courir Vite revisita os anos 90, assombrados pela sida, através de um sistema de relações em que, em última instância, é o próprio valor (social ou individual) do amor que se encontra em transe — ou em trânsito, se quisermos encarar a história como uma permanente deslocação das próprias condições materiais que (nos) levam a estabelecer valores. Assinado por Christophe Honoré, eis um filme de contida beleza que nos recorda, afinal, que a herança narrativa e simbólica de François Truffaut (1932-1984) continua bem viva.

quinta-feira, maio 10, 2018

CANNES: Welles

Não a formatada evocação biográfica, mas a consciência de que qualquer biografia do outro envolve também um auto-retrato do biógrafo: assim é The Eyes of Orson Welles, o trabalho de Mark Cousins sobre o cineasta de O Mundo a Seus Pés, O Processo e As Badaladas da Meia-Noite. Apresentado na secção Cannes Classics, este filme-em-forma-de-carta (dirigida ao próprio Welles) é também uma derivação feliz das experiências desenvolvidas por Cousins na monumental A História do Cinema: Uma Odisseia — ou como revisitar as memórias dos filmes é também uma via de interrogação do que significa... fazer um filme [fragmento].

quarta-feira, maio 09, 2018

CANNES: Paul Dano

Lembram-se dele, com esta pose de anjo demasiado inocente, a invadir a consciência de Daniel Day-Lewis em Haverá Sangue (2007), de Paul Thomas Anderson? Pois bem, Paul Dano (nascido em Nova Iorque, 1984) estreou-se na realização com Wildlife, adaptação do romance homónimo de Richard Ford sobre a metódica decomposição dos laços afectivos entre um pai (Jake Gyllenhaal), uma mãe (Carey Mulligan) e o seu filho (Ed Oxenbould), na América do começo da década de 1960. Escrito em colaboração com a sua companheira, Zoe Kazan (neta de Elia Kazan), este é um filme de textura austera e clássica, expondo os desencontros de todas as formas de amor e, desse modo, revitalizando uma matriz narrativa que, de facto, se interessa pela complexidade afectiva das personagens — foi o título escolhido para abertura da Semana da Crítica.

>>> Paul Dano e vários elementos da equipa de Wildlife no Festival de Sundance.

terça-feira, maio 08, 2018

CANNES: Scorsese

Foi Martin Scorsese a última personalidade a aparecer no palco do Palácio dos Festivais, assumindo a tarefa simbólica de declarar oficialmente aberta a 71ª edição do certame (com a ajuda de Cate Blanchett, em coro, em francês). E lembrando o mais simples, que é também o essencial: todos os que estavam ali "partilham a mesma paixão pelo cinema". Além do mais, Scorsese está em Cannes para receber o prémio Carrosse d'Or, atribuído pela Sociedade de Realizadores de Filmes, e também para apresentar, na Quinzena dos Realizadores, o filme que o revelou em Cannes — chama-se Mean Streets e foi há 44 anos.