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segunda-feira, março 30, 2026

A solidão vivida perante um microfone

Will Arnett: o microfone liga-me a quem?

Para quem gosta de associar os Oscars a uma qualquer diatribe mais ou menos escandalosa, eis uma boa oportunidade: Ainda Funciona?, de Bradley Cooper, é uma verdadeira preciodidade, uma pérola da produção americana de 2025 e... ficou fora das nomeações (em boa verdade, entre todas as entidades que participam na temporada dos prémios, ninguém lhe deu a devida atenção).
Aqui encontramos o retrato inesperado e subtil de um homem que descobre o mundo do “stand-up”, com uma magnífica interpretação de Will Arnett — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 fevereiro).

Quando alguém chama a atenção para erros que se vão cometendo na escolha de títulos portugueses para alguns filmes, não se trata de pôr em causa a dedicação profissional seja de quem for, mas de perguntar se um determinado título serve, realmente, o respectivo filme. Daí o reparo para o título dado a Is This Thing On?, a nova realização de Bradley Cooper. Ou seja: Ainda Funciona?. Como se algo estivesse à beira de uma avaria... Será que ninguém se deu conta de que, actuando a personagem central em sessões de “stand-up”, esta é uma frase comum nos bastidores de muitos espectáculos? Perante o microfone, alguém pergunta, não se “ainda” está a “funcionar”, mas sim (aplicando a dicotomia (“on/off”): “Isto está ligado?”
Na sua aparente ligeireza, estamos perante um dos filmes mais perfeitos que Hollywood produziu ao longo de 2025, ainda que secundarizado pelos profissionais da indústria (ficou a zero nas nomeações para os Oscars). Para lá das suas qualidades como actor, aqui numa personagem secundária, Bradley Cooper confirma-se como um dos realizadores mais subtis da recente produção dos EUA: depois do drama musical (Assim Nasce uma Estrela, 2018) e de um retrato de Leonardo Bernstein (Maestro, 2023), com este Is This Thing On? consegue relançar a vitalidade de um registo devedor da tradição da “comédia de costumes”, mas de facto embrenhado no valor específico dos actores (observe-se o tratamento dos grandes planos) como elemento nuclear de qualquer narrativa cinematográfica — para lá das diferenças, a herança de John Cassavetes está bem viva.
O “stand-up” entra de forma acidental na vida de Alex Novak, personagem que Will Arnett (também co-argumentista) compõe com uma vulnerabilidade emocional rara no cinema dos nossos dias. Divorciou-se de Tess (Laura Dern, por certo numa das melhores composições de toda a sua carreira), mas não sabe como viver as novas formas de solidão que está a descobrir... Até que, de modo imprevisto, entra no Comedy Cellar, um clube de Manhattan, e acaba por se inscrever na lista dos que tentam ali a sua sorte no mundo do “stand-up”.
O fluxo das palavras transforma Alex de forma inesperada, no limite levando-o a duvidar da existência de uma fronteira estanque entre “felicidade” e “infelicidade”. A sua saga, com a mulher e os filhos, envolve o enigma primordial da fala como aquilo que tanto nos liga como nos separa. Este é, por isso, um filme sobre a fragilidade de qualquer laço humano, como se Alex perguntasse: “Estou ou não estou ligado a alguém?”

sexta-feira, março 20, 2026

A vida em grande plano
[Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te um Pontapé]

Rose Byrne: a intimidade começa na relação com a câmara de filmar

Será possível reinventar o modelo clássico do drama centrado numa personagem em aguda crise psicológica? Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te um Pontapé é um filme que responde afirmativamente, para mais com uma brilhante interpretação de Rose Byrne (nomeada para o Oscar de melhor actriz) — extractos de um texto publicado no Diário de Notícias (19 fevereiro).

Lembremos uma descrição impressionista, nada científica, do mundo dos espectadores de cinema. Esse mundo estaria dividido em dois grupos com evidentes, porventura insuperáveis, dificuldades de comunicação: de um lado, os que admiram os intérpretes e a sua capacidade de, frente a uma câmara, inventarem as mais variadas personagens; do outro, os que são alheios a tais acontecimentos, privilegiando, talvez, aquilo a que chamam os “temas” ou as “técnicas” dos filmes. Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te um Pontapé, escrito e dirigido por Mary Bronstein, é um filme feito para os primeiros — com dedicação e paciência.
Escusado será dizer que este não é um texto alheio a tal clivagem de sensibilidades, optando, sem qualquer hesitação, pelos valores daquele primeiro grupo. Até porque uma memória, também impressionista, que o filme nos deixa tem que ver com a presença, aliás, a omnipresença da actriz principal, a brilhante Rose Byrne. Dir-se-ia que nos recordamos do filme como uma série de situações dramáticas em que ela está sempre presente (e está mesmo). Mais do que isso: sentimos que a vemos sempre em grande plano (descrição exagerada, mas nem por isso menos sugestiva).
O ponto de partida do argumento justifica, de alguma maneira, esse efeito intimista. Ela interpreta Linda, uma psicoterapeuta que vive num turbilhão de tarefas, acidentes emocionais e incidentes físicos, tudo pontuado por ansiedades de todas as formas e feitios. No centro do seu mundo está a filha (Delaney Quinn), uma criança que requer cuidados regulares e complexos, já que, devido a um distúrbio alimentar, necessita de ser alimentada por um tubo...
Digamos que o motor de tudo isto é o facto de, na ausência do marido (Christian Slater), capitão de um navio, Linda ter de enfrentar um aparatoso desastre: abre-se um buraco assustador no tecto do seu apartamento que fica inundado e inabitável, obrigando-a a recolher-se, com a filha, num motel de duvidosa qualidade...
A mera “descrição” de tais acontecimentos é escassa, para não dizer imperfeita, face às atribulações em que Linda se vê envolvida. O que Rose Byrne representa não é a banal agitação do quotidiano, à maneira das narrativas “novelescas” que transformam as vidas humanas em panfletos maniqueístas e moralistas. Nada disso: este é o retrato de alguém que se sente perdida na sua própria identidade, procurando um equilíbrio que é difícil de dizer.
Porquê dizer? Porque este é também um filme sobre o poder ambíguo das palavras: para Linda, enquanto psicoterapeuta, não é simples lidar com os problemas dos seus pacientes — por vezes, as palavras são escassas, hesitantes ou, pura e simplesmente, estão ausentes. Mas também porque Linda sente necessidade de consultar o seu colega terapeuta que trabalha no gabinete ao lado do seu. A representação desse terapeuta envolve a escolha de um actor inesperado, desencadeando subtis efeitos na economia dramática do filme: ele é nada mais nada menos que Conan O’Brien, nome e figura que associamos, não a este registo dramático, mas ao mundo da comédia e dos talk shows.
Com um título eivado de ironia, Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te um Pontapé decorre, afinal, de uma vontade de preservação de modelos dramáticos do cinema clássico que não desistem da complexidade das relações humanas — logo, também não desistem do talento de actores e actrizes.

>>> Trailer de Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te um Pontapé + Mary Bronstein no programa de Conan O'Brien.



segunda-feira, março 16, 2026

6 Oscars para Batalha Atrás de Batalha

Dois filmes gerados no coração do imaginário americano — Batalha Atrás de Batalha, de Paul Thomas Anderson, e Pecadores, de Ryan Coogler — destacam-se no balanço da 98ª edição dos Oscars, com o primeiro a arrebatar o título de melhor do ano.
 
Eis as contas dos que tiveram mais do que uma estaueta dourada:

BATALHA ATRÁS DE BATALHA (6):
filme, realização, actor secundário, argumento adaptado, montagem e casting.

PECADORES (4):
actor, argumento original, fotografia e música.

FRANKENSTEIN (3):
cenografia, guarda-roupa e caracterização.

GUERREIRAS DO K-POP (2):
longa-metragem de animação e canção.

Pecadores tinha quebrado o recorde de nomeações (16), mas nenhum filme se aproximou dos mais premiados de sempre. São eles três títulos que conseguiram onze Oscars: Ben-Hur (1959), Titanic (1997) e O Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei (2013).

Três factos peculiares justificam um sublinhado:
— o Oscar de melhor casting, atribuído pela primeira vez, foi para Cassandra Kulukundis (Batalha Atrás de Batalha).
— Autumn Durald Arkapaw (Pecadores) tornou-se a primeira mulher a receber o Oscar de melhor fotografia.
— na categoria de melhor curta-metragem de acção real houve uma vitória ex-aequo para The Singers e Two People Exchanging Saliva, situação que só acontecera seis vezes; a última verificou-se em 2013, com o triunfo de 00:30 A Hora Negra e 007: Skyfall na categoria de melhor montagem sonora.

>>> Conan O'Brien: monólogo de abertura dos Oscars.

sábado, julho 19, 2025

Alan Bergman (1925 - 2025)

Marilyn e Alan Bergman com os Oscars ganhos por Yentl (9 abril 1984)

Com uma carreira pontuada por algumas canções lendárias do cinema americano, Alan Bergman faleceu na sua casa de Los Angeles, poucas semanas antes daquele que seria o seu 100º aniversário — texto publicado no Diário de Notícias (18 junho).

Ao longo da história de mais de seis décadas de canções nos filmes de Hollywood, Alan Bergman simbolizou um estilo feliz que nunca abandonou os valores clássicos próximos de um genuíno romantismo. Nascido a 11 de setembro de 1925, em Nova Iorque, morreu na quinta-feira, dia 17, na sua casa de Los Angeles — faltavam, portanto, menos de dois meses para completar 100 anos.
O seu legado é indissociável da colaboração com Marilyn Bergman, sua mulher, falecida em 2022. No Calor da Noite (1967), de Norman Jewison, um policial protagonizado por Sidney Poitier, foi o filme que lhes abriu as portas dos grandes estúdios. Entre os títulos a que a sua parceria está ligada incluem-se O Juiz Roy Bean (1972), um “western” de John Huston, com Paul Newman, Tootsie (1982), comédia de costumes de Sydney Pollack centrada numa das melhores interpretações de Dustin Hoffman, e Nunca Mais Digas Nunca (1983), uma aventura (não oficial) de James Bond, com Sean Connery sob a direcção de Irvin Kershner.
Em qualquer caso, os trabalhos mais célebres do casal Bergman são aqueles que lhes valeram Oscars. Ou seja:

— THE WINDMILLS OF YOUR MIND: interpretada por Noel Harrison, a canção tornou-se numa referência de culto de The Thomas Crown Affair / O Grande Mestre do Crime (1968), policial romântico com o par Steve McQueen/Fay Dunaway sob a direcção de Norman Jewison.


— THE WAY WE WERE: tema-título de um grande sucesso de Robert Redford/Barbra Streisand com realização de Sydney Pollack, entre nós lançado como O Nosso Amor de Ontem — transformou-se num dos “standards” mais populares da própria Barbra Streisand.
 

— THE WAY HE MAKES ME FEEL: de novo por Barbra Streisand, aqui como actriz, cantora e realizadora, este é um dos temas que integra a banda sonora de Yentl, filme baseado num conto de Isaac Bashevis Singer sob uma jovem polaca de origem judaica no começo do século XX — este Oscar, partilhado com Michel Legrand, não foi de melhor canção, mas de melhor arranjo musical das canções (categoria mais tarde abandonada).
 

>>> Obituário em The Hollywood Reporter.

domingo, março 09, 2025

No Other Land
— ou o que podemos fazer?

Yuval Abraham e Basel Adra: notícias da Cisjordânia

Foi distinguido no Festival de Berlim, nos Prémios do Cinema Europeu e nos Oscars (em todos os casos, com o prémio de documentário): No Other Land é uma invulgar experiência de cinema documental, assinada por um colectivo israelo-palestiniano — este texto foi publicado no Diário de Notícias (21 fevereiro, antes da cerimónia dos Oscars).

Que dizer de um filme como No Other Land (disponível na plataforma Filmin)? Como dar conta da saga de dois amigos, Basel Adra e Yuval Abraham, observando as tragédias vividas na Cisjordânia, na região de Masafer Yatta, com as tropas israelitas a destruir as aldeias palestinianas porque aquela passou a ser uma “zona” de operações militares?
Na sua energia humanista, o filme tornou-se um genuíno acontecimento global, acumulando distinções nos mais diversos contextos — por exemplo, no Festival de Berlim e nos Prémios do Cinema Europeu, estando nomeado para o Oscar de Melhor Documentário. Que dizer e, sobretudo, como dizê-lo? Talvez começando por reconhecer a dialéctica, aprendida com Jean-Luc Godard, que nos leva a pensar as relações entre o nosso “aqui” [ici] e o “algures” [ailleurspara que as imagens nos convocam.
Com maior ou menor consciência do facto, somos diariamente expostos a imagens do conflito israelo-palestiniano, em particular dos cenários devastados de Gaza. São imagens quase sempre organizadas em função dos códigos dominantes no espaço televisivo: breves, aceleradas, conduzidas por uma voz off que funciona como um texto autónomo que afirma o seu poder determinista, no limite menosprezando qualquer relação cognitiva com o que está a ser mostrado.
A versão mais obscena de tudo isto acontece, também diariamente, quando as televisões colocam três ou quatro comentadores em pequenos ecrãs dentro do ecrã geral, ao mesmo tempo que, ao lado, surge um clip muito breve que passa em loop, como um gif da Internet. Basta alimentar a ilusão de que se está a mostrar alguma “coisa” — aliás, a repetição sonâmbula das imagens só pode favorecer a indiferença dos olhares. Para lá da seriedade de quem as enuncia, as “análises” criam um ziguezague, também ele em loop, até que o relógio imponha a entrada do próximo intervalo para publicidade.
Há uma maneira simples, certamente política, de definir o poder cultural deste tipo de (des)informação. A saber: somos convocados para aceitar um sistema narrativo, acelerado, tendencialmente sensacionalista, que menospreza todos os valores herdados do classicismo cinematográfico. São eles: a exigência de escolher imagens pertinentes; o cuidado com a ligação de uma imagem com outra imagem (montagem), de modo a favorecer algum modo de sistematização cognitiva; enfim, a preservação de uma duração de percepção (e escuta) que não favoreça os esquematismos panfletários e as chantagens militantes.
 

Basel e Yuval cruzam-se nas convulsões de uma história que conhecem de modos inevitavelmente diferentes. O primeiro é palestiniano e, enquanto jornalista, tem vivido uma existência de activista que se exprime através de dramáticas memórias familiares, tanto quanto da observação, por vezes em sério risco de vida, da destruição de casas e escolas (até mesmo de uma casa de banho...). O segundo, também jornalista, é israelita e tem-se empenhado em documentar e divulgar as formas de violência usadas pelas entidades israelitas naquelas paragens. Sem esquecer que No Other Land nasce de uma realização assinada por um colectivo israelo-palestiniano, envolvendo, além de Basel e Yuval, Hamdan Ballat e Rachel Szor.
Que podemos fazer?
A pergunta, formulada à distância, pode ser minha ou do leitor. Em boa verdade, é a pergunta que Basel e Yuval partilham numa desencantada conversa próximo do final do filme, reconhecendo que não têm uma resposta concisa — por alguma razão, o seu filme não se apresenta como uma “tese” sobre o conflito israelo-palestiniano, mas sim um documento sobre as pessoas e as casas de Masafer Yatta.
A certa altura, num diálogo recheado de humor durante uma viagem de automóvel, Basel diz a Yuval que ele está, talvez, demasiado “entusiasmado”. Porquê? Porque Yuval, algo desiludido com as poucas visualizações do seu mais recente artigo, julga que pode chegar a Masafer Yatta e “resolver tudo em dez dias”... Em tom obviamente mais sério, encontramos um eco disso mesmo nas palavras que Yuval profere num debate num canal televisivo israelita: “Como israelita, é para mim muito importante sublinhar que não creio que possamos ter segurança enquanto os palestinianos não tiverem liberdade.”
No Other Land envolve uma chamada de atenção implícita para dois esquematismos que, desgraçadamente, têm vida fácil em alguns aparatos televisivos: o primeiro desses esquematismos transforma o horror da destruição em Gaza numa forma de apagamento da infâmia criminosa do Hamas e outros grupos terroristas; o segundo confunde a crítica metódica do actual governo de Israel com o esvaziamento factual e simbólico da história da própria nação israelita. Resumindo: No Other Land é um filme que, mesmo no seu cristalino cepticismo, nos ajuda a resistir à formatação simplista das imagens que nos rodeiam.

>>> 2 março 2025: o Oscar para No Other Land.


>>> Basel Adra e Yuval Abraham no New York Film Festival (2024), em conversa com o programador Justin Chang.
 

segunda-feira, março 03, 2025

OSCARS — a noite em que A Complete Unknown
não ganhou qualquer prémio

Dylan, aliás, Chalamet: A Complete Unknown, zero Oscars

1. Assim vai o mundo: uma crónica anedótica, parte comédia burlesca, parte "filme-de-mensagem" (feminista, hélas!), emerge como modelo ideal dos quase 10 mil votantes da Academia de Hollywood. A saber: Anora recebeu 5-Oscars-5, incluindo o de melhor filme do ano. Isto numa noite em que Chalamet & Cª chegaram com oito nomeações e partiram sem qualquer estatueta dourada.

2. Assim se reaviva o estranho paradoxo que faz com que a Academia, depois de ter alargado o número possível (até um máximo de dez) de títulos concorrentes ao Oscar principal, ao que parece para dar lugar a super-heróis e afins, continue a não dar grande atenção às produções Marvel e seus semelhantes, preferindo tudo o que exiba o rótulo de independente. Não há, por isso, qualquer ironia no discurso de agradecimento de Sean Baker, realizador de Anora: ele tem mesmo boas e consistentes razões para agradecer aos membros da Academia por terem distinguido "um filme verdadeiramente independente".

3. O mesmo se poderá dizer de O Brutalista, menos prendado — três Oscars, incluindo um segundo de melhor actor para o prodigioso Adrien Brody —, mas igualmente gerado nas margens dos estúdios clássicos de Hollywood.

4. O que, ironias à parte, não deixa de ser realmente sintomático — e muito motivador de reflexão, em particular para alguns distribuidores/exibidores de alguns pequenos países deste lado do Atlântico. Até porque, por vezes, parecem continuar a acreditar que haverá sempre uma sequela com chancela da Marvel que irá aparecer numa manhã de nevoeiro cinéfilo, consumando o milagre de corrigir a cegueira comercial de estratégias seguidas ao longo de décadas sem tentar compreender minimamente as convulsões dos mercados, das sociedades... e do próprio cinema!

5. Sean Baker tem, por isso, ainda mais razão quando, ao agradecer o seu Oscar de melhor realização, celebrou, com exemplar pedagogia, a importância de não deixar morrer as salas e a riqueza cultural que elas continuam a representar — vale a pena ouvir as suas palavras, num dos melhores discursos do fim de tarde vivido no Dolby Theatre, significativamente escutado pelo muito atento (e concordante) Quentin Tarantino.

domingo, março 02, 2025

OSCARS — os velhos e os novos

Com Fernanda Torres nomeada para melhor actriz, Ainda Estou Aqui
é o primeiro filme em língua portuguesa nomeado para o Oscar de melhor filme internacional

Como sempre, o panorama das nomeações para os Oscars inclui filmes ou personalidades que conseguem o que nunca ninguém conseguiu ou, pelo menos, raramente acontece — este texto foi publicado no Diário de Notícias (28 fevereiro).

Para além da novidade absoluta que é a transmissão da cerimónia do Dolby Theatre em streaming (Disney+), a edição deste ano dos Oscars entra na história através de várias outras proezas protagonizadas por jovens e veteranos. Eis um top 10:

1 — presente em 13 categorias, o filme francês Emilia Pérez bateu o recorde de nomeações para uma produção em língua não inglesa; o anterior recorde, com 10 nomeações, pertencia a O Tigre e o Dragão (2000), em representação de Taiwan.

2 — pela primeira vez, há dois filmes — Emilia Pérez e Ainda Estou Aqui (Brasil) — nomeados nas categorias de melhor filme e melhor filme internacional.

3 — Ainda Estou Aqui é o primeiro título em língua portuguesa a ser nomeado para melhor filme.

4 —
Flow - À Deriva, produção da Letónia, é o segundo título a ser nomeado para melhor filme de animação e melhor filme internacional; o primeiro foi Flee – A Fuga (2021), em representação da Dinamarca.

5 — a produção australiana Memórias de um Caracol é o segundo título com classificação etária “R”, nos EUA (maiores de 17 anos), a obter uma nomeação para melhor filme de animação; o primeiro foi Anomalisa (2015).

6 — os cinco nomeados para melhor realização — Sean Baker, Brady Corbet, James Mangold, Jacques Audiard e Coralie Fargeat — são estreantes nessa categoria; não acontecia desde 1998.

7 — nomeado aos 29 anos, Timothée Chalamet (A Complete Unknown) é o mais jovem intérprete depois de James Dean, em 1957, a obter duas nomeações para melhor actor; Chalamet tinha sido nomeado por Chama-me pelo teu Nome (2017); as nomeações de Dean, por A Leste do Paraíso e Gigante, foram ambas póstumas.

8 — Karla Sofia Gascón (Emilia Pérez) é a primeira pessoa transgénero a ser nomeada numa categoria de interpretação (melhor actriz).

9 — todos os títulos com intérpretes nomeadas para melhor actriz estão também nomeados na categoria de melhor filme; não acontecia desde 1978.

10 — Andy Nelson, nomeado, por Wicked, na categoria de melhor som, obtém assim a sua 25ª nomeação; entre as pessoas vivas, só o compositor John Williams supera esse número (com 54 nomeações).

Resta dizer que nenhum título tem nomeações que lhe permitam arrebatar o chamado “quinteto mágico”, ou seja, vencer nas categorias de melhor filme, melhor realizador, melhor actor, melhor actriz e melhor argumento (original ou adaptado). Na história das 97 edições dos Oscars, só três filmes conseguiram tal proeza: Uma Noite Aconteceu (1934), Voando sobre um Ninho de Cucos (1975) e O Silêncio dos Inocentes (1991) — vale a pena recordar algumas das suas imagens.





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OSCARS — o que é (ou pode ser)
o Melhor Filme Internacional?

Nos Oscars, não há dúvida que a categoria de Melhor Filme Internacional é uma das mais ricas, e também mais sedutoras. Isto apesar de continuar a haver algum debate — até mesmo no interior da Academia — sobre os critérios de seleção, a cargo dos respectivos países, envolvendo a questão (muitas vezes ambígua) da língua falada em cada um dos possíveis candidatos.
Porque não formar no interior da Academia uma comissão que, em função da diversidade das obras de cada ano, sem esquecer a sua exposição internacional, tenha também uma palavra a dizer na selecção dos títulos que podem chegar a uma nomeação? Essa é uma das hipóteses formulada por Alissa Wilkinson, do grupo de críticos do New York Times — vale a pena escutar.
 

OSCARS
— à procura da juventude perdida

A 97ª edição dos Oscars (na madrugada de domingo para segunda-feira) vai eleger os melhores da produção cinematográfica de 2024 num clima de algum suspense: na maior parte das categorias, está tudo em aberto e não se vislumbram vencedores “antecipados”. Novidade absoluta será Conan O’Brien na condição de apresentador da cerimónia — este texto foi publicado no Diário de Notícias (28 fevereiro).

Desta vez, as expectativas em relação aos Oscars estão baralhadas. Não há vencedores “antecipados” na 97ª edição dos prémios mais lendários do mundo do cinema. As tradicionais especulações em torno das distinções já atribuídas, em particular pelas associações profissionais (“guilds”) de Hollywood, não definem tendências claras. As dúvidas serão esclarecidas na cerimónia do Dolby Theatre, ao fim da tarde de domingo em Los Angeles — entre nós, na madrugada de domingo para segunda-feira, com transmissão na RTP1 (a partir da meia-noite) e na plataforma Disney+.<br>
Podemos resumir as expectativas através das surpresas dos prémios mais recentes. Depois de produtores e realizadores terem consagrado Anora, o filme de Sean Baker que ganhou notoriedade com a Palma de Ouro de Cannes/2024, o Screen Actors Guild (sindicato dos actores) escolheu Timothée Chalamet como melhor actor em A Complete Unknown, atribuindo o prémio de melhor elenco a Conclave, o drama vivido no interior do Vaticano — muitas vezes, o vencedor deste prémio tem arrebatado o Óscar de melhor filme...
Uma coisa é certa: a cerimónia não estará assombrada pela sensação de uma “confirmação” de prémios já atribuídos por outras entidades. Há mesmo duas componentes que podem favorecer alguma revitalização mediática, ajudando a recuperar pelo menos uma parte das audiências perdidas nos últimos anos: a primeira é a estreia de Conan O’Brien como apresentador, por certo rentabilizando o seu “know how” de muitos anos de televisão; a segunda é a novidade dos Oscars como conteúdo de “streaming”.

Chalamet e os outros


No papel de Bob Dylan, recriando as convulsões artísticas e políticas da década de 1960, Timothée Chalamet, nomeado para melhor actor, emerge como marca de uma ideia de juventude que circula por vários filmes nomeados — sem esquecer que, também em A Complete Unknown, encontramos Monica Barbaro, interpretando Joan Baez, nomeada para melhor actriz secundária.
Sem ceder aos lugares-comuns “juvenis” que circulam pelo espaço mediático, sobretudo televisivo, importa reconhecer que estes Oscars são sensíveis à necessidade de renovação de rostos e símbolos. Assim, por exemplo, em A Substância a veterana Demi Moore é, segundo muitos analistas americanos, favorita como melhor actriz, mas na mesma categoria encontramos a jovem Mikey Madison, nomeada por Anora. A par, por exemplo, de uma vedeta do mundo da música como Ariana Grande, em Wicked, nomeada para melhor actriz secundária. Nesta lista faz ainda sentido colocar Brady Corbet, não só porque era encarado como um independente quase marginal, mas também porque, com O Brutalista, o seu nome está em três nomeações (argumento original, realização e, na qualidade de coprodutor, melhor filme do ano).
Aliás, pelo menos na primeira fase da temporada dos prémios, O Brutalista pareceu emergir como sério candidato ao Oscar máximo, tendo em conta que o retrato do arquitecto que sobreviveu ao Holocausto (Adrien Brody, nomeado para melhor actor) relança a possibilidade de reencontrar o fulgor das sagas históricas da década de 1960. Tal expectativa envolve também esse desejo, que continua a circular em Hollywood, de reconstruir alguns dos géneros mais populares dos seus tempos clássicos.
Nesta perspectiva, Wicked ocupa também um lugar especial, já que refaz a ideia mais ou menos nostálgica segundo a qual continua a ser possível recuperar a energia (industrial e comercial) que distinguiu o género musical nas décadas douradas de 1940/50. De todos os nomeados na categoria de melhor filme, Wicked ostenta mesmo o rótulo de recordista nas bilheteiras, logo seguido de Dune – Parte Dois; mais ainda: ambos integram o top 10 de sucessos de 2024, liderado por Divertida Mente 2, um dos candidatos ao Oscar de melhor filme de animação.

Lugar aos estrangeiros

Nos últimos anos, na sequência de múltiplas polémicas, a Academia de Hollywood — cuja designação oficial é, de facto, Academia das Artes e Ciências Cinematográficas — tem vivido um importante processo de reconversão interna. Desde logo, aumentando significativamente o número dos seus membros (mais 928, só no ano de 2018) e, nessa medida, favorecendo uma maior diversificação de género, idade e origem. Segundo números oficiais de finais de 2024, a Academia passou a ter 10.894 membros, dos quais 9.905 votam nos Oscars.
Na prática, pode dizer-se que, para lá da entrada de muitos novos membros dos EUA (sim, é verdade: incluindo Billie Eilish!), a Academia abriu as portas aos estrangeiros, gerando uma nova dinâmica de internacionalização das estruturas cinematográficas americanas. Pormenor sintomático: a partir dos Oscars atribuídos em 2020, a categoria de melhor filme estrangeiro passou a designar-se melhor filme internacional — acabou por ser o ano em que, pela primeira vez, um título não em língua inglesa, o sul-coreano Parasistas, arrebatou a estatueta dourada de melhor filme (vencendo também na categoria de melhor filme internacional).
Este ano, uma vez mais, o panorama é revelador de tal conjuntura, com grande evidência para títulos como o brasileiro Ainda Estou Aqui ou o francês Emilia Pérez. Aliás, essa internacionalização inclui um inevitável simbolismo político quando A Semente do Figo Sagrado, do iraniano Mohammad Rasoulof, autor várias vezes condenado pelas autoridades do seu país, surge nas nomeações para melhor filme internacional com a chancela de outro país ligado à sua produção, isto é, a Alemanha (onde Rasoulof se exilou). Tudo isto não pode ser desligado do facto de, depois de muitas polémicas conceptuais e orçamentais, o Museu da Academia (Academy Museum of Motion Pictures) ser, desde 2021, um símbolo imponente de uma entidade que quer manter e reforçar o seu lugar na história do cinema, quer como defensora do património fílmico, quer através de um papel activo na discussão do futuro dos filmes. No domingo à noite, em Los Angeles, é também disso que se fará o espectáculo.

10 nomeados para o Oscar de Melhor Filme

Será hoje, 2 de março, a partir da meia-noite (RTP 1 e Disney+). São estes os 10 títulos que podem ganhar o Oscar de Melhor Filme de 2024 — indica-se o número total de nomeações e as categorias em que estão presentes (além da categoria principal).
 
* EMILIA PEREZ (13):
realização, actriz, actriz secundária, argumento adaptado, filme internacional, música,
canção (2 nomeações), som, fotografia, caracterização, montagem.

* O BRUTALISTA (10):
realização, actor, actor secundário, actriz secundária, argumento original,
música, cenografia, fotografia, montagem.

* WICKED (10):
actriz, actriz secundária, música, som, cenografia, caracterização,
guarda-roupa, montagem, efeitos visuais.

* A COMPLETE UNKNOWN (8):
realização, actor, actor secundário, actriz secundária, argumento adaptado, som, guarda-roupa.

* CONCLAVE (8):
actor, actriz secundária, argumento adaptado, música, cenografia, guarda-roupa, montagem.

* ANORA (6):
realização, actriz, actor secundário, argumento original, montagem.

* DUNE – PARTE DOIS (5):
som, cenografia, fotografia, efeitos visuais.

* A SUBSTÂNCIA (5):
realização, actriz, argumento original, caracterização.

* AINDA ESTOU AQUI (3):
actriz, filme internacional.

* NICKLE BOYS (2):
argumento adaptado.
__________________________________________________

>>> Video da apresentação ofcial das nomeações (23 janeiro).
 

terça-feira, fevereiro 06, 2024

Jon Batiste — na intimidade da música

Jon Batiste em American Symphony: a música nasceu da alegria e do drama

Popularizado na televisão pelo programa de Stephen Colbert, The Late Show, Jon Batiste é um pianista e criador musical com uma notável trajectória artística. Graças ao filme American Symphony (Netflix), podemos descobrir o processo fascinante, eufórico e dramático, de gestação da sua composição mais ambiciosa.

Para muitos de nós, espectadores interessados nos “talk shows” que chegam dos EUA (pela televisão, plataformas de streaming ou YouTube), Jon Batiste começou por ser o pianista, seguro, versátil e comunicativo, do programa de Stephen Colbert, The Late Show (CBS). Agora, de acordo com as previsões da imprensa especializada americana, com destaque para a “bíblia” de Hollywood que é a revista Variety, o filme American Symphony, sobre a sua monumental composição com o mesmo título, perfila-se como o candidato mais forte ao Oscar de melhor documentário — as nomeações [foram] conhecidas no dia 23 deste mês, estando a cerimónia marcada para 10 de março.
Em boa verdade, estes dados estão longe de abarcar a espectacular variedade de uma trajectória criativa capaz de acolher, homenagear e reinventar as mais diversas matrizes da música popular “made in USA”. Sem esquecer, claro, que na sua galeria de prémios já existe um Oscar (partilhado com Trent Reznor e Atticus Ross), ganho com a música original de Soul: Uma Aventura com Alma, produção dos estúdios Pixar com assinatura da dupla Pete Docter/Kemp Powers — o filme arrebatou também a estatueta dourada de melhor longa-metragem de animação de 2020.
Na verdade, 2024 poderá ser um ano de muitas consagrações para Batiste, já que nos Grammys [realizados a 5 de fevereiro] está nomeado para nada mais nada menos que seis prémios, incluindo o de melhor álbum do ano, com World Music Radio [não obteve qualquer prémio]. Outra das suas nomeações envolve Did You Know That There's a Tunnel Under Ocean Blvd, de Lana Del Rey, também um álbum candidato a melhor do ano; no seu alinhamento encontramos Candy Necklace, canção que conta com a participação de Batiste, por sua vez nomeada para o Grammy de melhor interpretação de um duo ou grupo pop.

Um desafio dramático

American Symphony está disponível na Netflix. Sejam quais forem as distinções que o documentário possa vir a obter, uma coisa é certa: estamos perante uma invulgar experiência cinematográfica. E escusado será sublinhar o modo como tal experiência se apresenta marcada pela contagiante energia da música, cruzando sinais da formação jazzística de Batiste (sempre presente em The Late Show, com a sua banda Stay Human) com muitas contaminações de elementos provenientes da soul, rhythm and blues ou hip hop. Matthew Heineman, realizador de American Symphony, quis corresponder a um convite do próprio Batiste no sentido de filmar a gestação da sua sinfonia, desembocando na estreia, a 22 de setembro de 2022, em Nova Iorque, no palco do lendário Carnegie Hall. Seria o prolongamento de uma colaboração concretizada um ano antes, já que o músico tinha composto a banda sonora de The First Wave (2021), documentário de Heineman sobre o impacto do covid no dia a dia de um hospital de Nova Iorque.
Com o apoio de Barack e Michelle Obama, na condição de produtores executivos, American Symphony rapidamente se pôs em marcha, mas a sua lógica narrativa viria a ser dramaticamente desafiada. Em finais de 2021, num contexto ainda fortemente marcado pela pandemia, Suleika Jaouad, companheira de Batiste, anunciou que tinha sido sujeita a um transplante de medula óssea — era a segunda vez que tal lhe acontecia, já que, desde 2011, Jaouad sofre de uma forma rara de leucemia, tendo dedicado grande parte do seu trabalho jornalístico a temas relacionados com a doença, nomeadamente numa coluna do New York Times, intitulada “Life, Interrupted”.
O documentário de Heineman é o resultado desse angustiante contraste: por um lado, a intimidade, a urgência e as incertezas de um delicado tratamento clínico; por outro lado, o verdadeiro carrossel de acontecimentos, incidentes, euforias e imprevistos que é a preparação de uma complexa composição musical e da sua performance.

O valor da música

Talvez possamos definir Jon Batiste como um paradoxo artístico: aos 37 anos de idade (nasceu a 11 de novembro de 1986, na zona de Metairie, na área metropolitana de Nova Orleães), a sua carreira multifacetada faz dele um verdadeiro veterano. E não apenas porque se estreou em palco aos 8 anos, integrando a banda da família (Batiste Brothers Band); afinal de contas, lançou um primeiro álbum, Times in New Orleans, no verão de 2005, ainda antes de completar 19 anos [e usando o nome próprio Jonathan].
A sua carreira inclui uma longa lista de colaborações com nomes como Prince, Stevie Wonder, Mavis Staples, Willie Nelson, Lenny Kravitz ou a já citada Lana Del Rey. Além do Oscar, o seu trabalho no filme Soul: Uma Aventura com Alma foi distinguido com um Globo de Ouro, um Grammy e um BAFTA. E antes de World Music Radio, We Are (2021) valeu-lhe quatro Grammys, incluindo melhor álbum do ano e melhor teledisco (com a canção Freedom).
Numa entrevista publicada na Variety, a 31 de agosto de 2023, por altura da estreia absoluta de American Symphony no Festival de Cinema de Telluride, no estado do Colorado, Suleika Jaouad resumiu de forma exemplar a aventura emocional do filme: “Hoje em dia, na cultura popular, o facto de encontrarmos tantas narrativas sobre doenças fez-me sentir que o realmente importante não era apenas contar uma história do ponto de vista de alguém que sobreviveu e acabou por encontrar um final feliz. Tratava-se de mostrar em detalhe o que significa, não só estar doente, mas viver como um ser humano que está também a tentar criar coisas novas e viver em comunidade.”
Jon Batiste reflecte sobre isso mesmo, logo numa das primeiras cenas de American Symphony. Assim, depois de o revermos no programa de Stephen Colbert, descobrimo-lo ao piano, em sua casa, ao mesmo tempo que, em off, a sua voz desmente uma ideia tradicional: “O que adoramos na música não é o facto de soar bem.” Como explicar, então, o nosso fascínio? “O que adoramos na música é o facto de parecer inevitável.”

quarta-feira, janeiro 17, 2024

OSCARS, o trailer

A 96ª cerimónia dos Oscars da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood está marcada para o dia 10 de março, com apresentação de Jimmy Kimmel — e já tem um trailer.

quarta-feira, novembro 29, 2023

Memória de John Bailey

John Bailey: um grande talento da direcção fotográfica
no cinema de Hollywood

Falecido a 10 de novembro, John Bailey foi o primeiro director de fotografia do cinema americano a assumir a presidência da Academia de Hollywood, mas convém não esquecer os filmes em que assinou as respectivas imagens — este texto foi publicado no site da SIC Notícias (20 novembro).

Quase todas as notícias sobre a morte de John Bailey — falecido no dia 10 de novembro, em Los Angeles, contava 81 anos —, ainda que citando a sua carreira como director de fotografia, destacaram o período em que ele assumiu a presidência da Academia das Artes e Ciências Cinematográficas [AMPAS]. É, sem dúvida, um destaque que se justifica, já que esse período (2017-2019) foi particularmente rico, em decisões e movimentações, no sentido de aumentar o número de membros da Academia, diversificando também a sua representatividade. Além do mais, historicamente, Bailey foi o primeiro director de fotografia [cinematographer] a assumir tão importante cargo na estrutura do cinema made in USA — ironicamente, nos Oscars, nunca foi nomeado.
Seja como for, vale a pena alargar o âmbito da sua memória. Eis três simples razões: American Gigolo (1980), a parábola moral de Paul Schrader que transformou Richard Gere numa estrela; Os Amigos de Alex (1983), de Lawrence Kasdan, retrato íntimo das ilusões e desilusões de toda uma geração [video: genérico de abertura]; e Na Linha de Fogo (1993), o “thriller” de Wolfgang Petersen em que Clint Eastwood interpreta um dos elementos da segurança do presidente John Kennedy.


A direcção fotográfica destes três filmes seria suficiente para reconhecermos as invulgares qualidades do trabalho de Bailey — ele tinha essa capacidade de lidar com formas de iluminação especialmente complexas, sem nunca menosprezar a possível combinação com elementos da luz natural (e das respectivas cores).
A filmografia de dois dos cineastas citados — Schrader e Kasdan — está marcada por mais algumas notáveis colaborações com Bailey. Acrescentemos, por isso, os exemplos de A Felina (1982) e Mishima (1985), de Schrader, ou Silverado (1985) e O Turista Acidental (1988), de Kasdan. Isto sem esquecer os títulos em que esteve ao lado de cineastas como Robert Benton (Vidas Simples, 1994, com Paul Newman) ou James L. Brooks (Melhor É Impossível, 1997, com Jack Nichsolson).
Aqui fica um video com um exemplo modelar da sofisticação da visão, e da riqueza técnica, de Bailey — é a cena de A Felina em que, pela primeira vez, a personagem de Nastassja Kinski pressente a sua ligação com o mundo selvagem dos felinos (avisando os mais sensíveis de que se trata de uma cena de grande violência gráfica).
 

domingo, fevereiro 26, 2023

Ice Merchants distinguido
nos prémios Annie

Ice Merchants obteve mais um prémio internacional, desta vez nos Annie, atribuídos pela ASIFA-Hollywood, entidade não lucrativa de promoção do cinema de animação. O filme de João Gonzalez foi consagrado como melhor curta-metragem, numa noite em que o principal vencedor foi Pinóquio, de Guillermo del Toro [trailer], com cinco prémios, incluindo melhor longa-metragem e melhor realização.
Recorde-se que Ice Merchants está nomeado para o Oscar de melhor curta de animação — os prémios da Academia de Hollywood serão entregues no dia 12 de março.

segunda-feira, fevereiro 13, 2023

Hugh Hudson (1936 - 2023)

Realizador de Momentos de Glória, um título lendário na história dos Oscars, o inglês Hugh Hudson faleceu no dia 10 de fevereiro, no Charing Cross Hospital, de Londres, a sua cidade natal — contava 86 anos.
Seria incorrecto reduzir a trajectória criativa de Hudson à apoteose de Momentos de Glória, o célebre Chariots of Fire (1981), evocando a experiência dos atletas ingleses nos Jogos Olímpicos de 1924, quanto mais não seja porque ele começou por ser um competenete director de publicidade e documentários televisivos; além do mais, dirigiu também Greystoke (1984), uma curiosa variação sobre o mito de Tarzan, e Revolução (1985), evocação trágica dos movimentos revolucionários que geraram os EUA (a meu ver, o seu filme mais consistente).
O certo é que Momentos de Glória se destaca, desde logo por causa da sua retumbante vitória nos Oscars, com quatro estatuetas, incluindo melhor filme de 1981. Acontece que foi uma vitória, no mínimo, discutível (e muito discutida...), já que entre os nomeados se encontravam, por exemplo, Os Salteadores da Arca Perdida, de Steven Spielberg, e Reds, de Warren Beatty. Em termos simbólicos, tal vitória envolveu o reconhecimento da importância da produção britânica para aquele momento específico de Hollywood e, em particular, do produtor David Puttnam — sem esquecer, claro, que uma parte significativa do impacto do filme passou pela banda sonora de Vangelis [video], precisamente uma das contribuições "oscarizadas" (as outras foram o argumento original e o guarda-roupa, respectivamente de Collin Welland e Milena Canonero).


>>> Obituário no jornal The Guardian.
>>> Chariots of Fire na Wikipedia.

sexta-feira, julho 01, 2022

Academia de Hollywood
convida 397 novos membros

Confirmando uma tradição que, em anos recentes, adquiriu novos e importantes sinais de renovação, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas [AMPAS] de Hollywood divulgou a sua lista anual de convites para novos membros.
Na prática, 397 personalidades de todos os domínios artísticos e industriais do cinema — e também de origens geográficas muito variadas — poderão integrar a entidade que atribuiu os Oscars.
Eis alguns dos convidados:
* ACTORES: Caitríona Balfe, Jessie Buckley, Ariana DeBose, Vincent Lindon, Kodi Smit-McPhee, Anya Taylor-Joy...
* REALIZADORES: Bruno Villela Barreto, Ryusuke Hamaguchi, Mary Lambert...
* MÚSICA: Billie Eilish, Lily Haydn, Finneas O'Connell...
A lista completa pode ser encontrada num dos sites da Academia [A.frame].
Entretanto, a 95ª cerimónia dos Oscars está marcada para 12 março 2023.

segunda-feira, março 28, 2022

OSCARS 2022
— que aconteceu no Dolby Theatre?

> Debater os Oscars? Digamos que um tema eventualmente interessante, envolvendo sugestivas questões artísticas, a par de opções industriais e comerciais, seria perguntar como — e porquê? — um simpático, competente e banalmente rotineiro telefilme como CODA acaba por ser celebrado (como melhor filme do ano) por uma Academia do cinema e, assim o supomos, cinéfila?

> O certo é que a agressão de Will Smith a Chris Rock afunilou tudo o resto e, em boa verdade, ficou como o momento central da 94ª cerimónia dos Oscars — lamentável, grosseiro, ofensivo, mas central.

> A agressão aconteceu num contexto simbólico (a reorganização da Academia visando uma cada vez maior abertura à pluralidade dos filmes e do cinema) e até cenográfico (o emblemático Dolby Theatre) que está longe de ser banal. A importância e a dignidade de tal contexto suscitam, desde logo, uma interrogação deontológica: que atitude vai a Academia tomar face ao comportamento de Will Smith?

> A interrogação arrasta, aliás, uma dúvida metódica que, compreensivelmente, já começou a ser colocada por alguma imprensa dos EUA: que efeitos tão triste episódio pode ter na própria relação da indústria com Will Smith, em particular com os seus projectos mais imediatos?

> No limite mais poético, mais brutalmente poético, se assim nos podemos exprimir, Will Smith lembrou (quando agradecia o Oscar que lhe foi atribuído poucos minutos depois de ter agredido Chris Rock) que "o amor faz-nos fazer coisas loucas". Exactamente. Seria útil que alguém, ou alguma entidade, confrontasse Will Smith com a pergunta clássica a que, no mínimo, está obrigado a responder: de que falamos quando falamos de amor?

sexta-feira, março 04, 2022

A caminho dos Oscars

Adriana De Bose em West Side Story:
a caminho do Oscar de melhor actriz secundária

Os prémios da Academia de Hollywood serão entregues a 27 de março. Com 12 nomeações, O Poder do Cão lidera a corrida aos Oscars referentes à produção de 2021, num ano em que, curiosamente, vários filmes, a começar por West Side Story, são testemunho de uma invulgar riqueza musical — este texto foi publicado no Diário de Notícias (9 fevereiro), com o título 'Os Oscars têm uma música própria'.

Música, eis a questão. Nas nomeações dos Oscars referentes à produção de 2021 encontramos, por exemplo: Billie Eilish, candidata na categoria de melhor canção, com No Time to Die, tema-título do último filme de James Bond (composto com o irmão, Finneas O’Connell). Ou ainda o baterista da banda The Roots, Questlove: o seu Summer of Soul, dando nova vida aos registos do Harlem Cultural Festival de 1969, surge entre os que podem ganhar a categoria de melhor documentário. Isto sem esquecer que Jonny Greenwood, membro dos Radiohead, volta a integrar os nomeados a melhor banda sonora graças à sua partitura para O Poder do Cão, de Jane Campion.
É caso para dizer que ecoa, aqui, uma música muito própria, de tal modo os prémios da Academia de Hollywood conseguem congregar aquela que é a maior estrela pop da actualidade, Billie Eilish, claro, com memórias do património musical afro-americano e o experimentalismo de Greenwood. Foi ele que compôs também a música de Spencer, de Pablo Larraín, porventura o mais “esquecido” dos grandes filmes de 2021, embora esteja representado por uma nomeação, na categoria de melhor actriz, para a admirável Kristen Stewart.
Enfim, não esqueçamos a renovada presença de Steven Spielberg. O seu West Side Story, com sete nomeações, possui o fulgor de um verdadeiro panfleto — musical, justamente. A recriação da obra de Leonard Bernstein e Stephen Sondheim — que deu origem ao primeiro West Side Story (1961), assinado por Robert Wise e Jerome Robbins — repõe na linha da frente um género nem sempre muito reconhecido na história moderna dos Oscars. E se é verdade que todas as apostas são sempre um exercício superficial, por vezes fútil, não é menos verdade que podemos supor que na comunidade de Hollywood todos ou quase todos acreditam que Ariana DeBose, a “Anita” escolhida por Spielberg, tem garantida a estatueta de melhor actriz secundária.
Enfim, a musicalidade de tudo isto não esgota a sedutora pluralidade das nomeações, este ano com um luso-canadiano também em destaque: graças ao seu excelente trabalho em Nightmare Alley, de Guillermo Del Todo, Luís Sequeira é um dos candidatos ao Oscar de melhor guarda-roupa. E também não diminui, de modo algum, a proeza de O Poder do Cão, líder na estatística das nomeações: encontramo-lo em nada mais nada menos que 12 categorias, incluindo, além de melhor filme, as de realização, actor (Benedict Cumberbatch), actor secundário (duas vezes: Jesse Plemons e Kodi Smit-McPhee) e actriz secundária (Kirsten Dunst). Uma coisa é certa: nenhum filme tem nomeações que lhe permitam obter o “quinteto dourado” dos Oscars — filme+realização+actor+actriz+ argumento —, essa conjugação mágica que só aconteceu três vezes (a última data de 1992, com a consagração de O Silêncio dos Inocentes).
Aliás, O Poder do Cão pode simbolizar também as evidências e ambivalências do confronto que, de uma maneira ou de outra, passou a marcar todo o território cinematográfico. A saber: a tensão entre o circuito tradicional das salas e as plataformas de “streaming”. Assim, O Poder do Cão é o emblema perfeito da produção multifacetada da Netflix e da sua ambição (muito legítima, entenda-se) de conseguir, finalmente, arrebatar o Oscar de melhor filme.
Até ao dia da cerimónia destes 94ºs prémios das Academia (27 de março), iremos, por certo, compreendendo melhor o modo como estas nomeações reflectem o estado convulsivo, afinal eminentemente criativo, em que vive a produção cinematográfica. Inclusive nas suas curiosas “contradições”. Exemplo? Repare-se no quinteto de nomeadas para o Oscar de melhor actriz: Jessica Chastain (The Eyes of Tammy Faye), Olivia Colman (A Filha Perdida), Penélope Cruz (Mães Paralelas), Nicole Kidman (Being the Ricardos) e a já citada Kristen Stewart. Que têm em comum? Pois bem, nenhuma delas está nos dez títulos que concorrem para melhor filme — não é inédito, mas não acontecia há 16 anos.